A Paciente Silenciosa
Capítulo 8
Não é preciso ser terapeuta para desconfiar que Kathy tinha deixado o laptop aberto — no mínimo inconscientemente — porque queria que eu descobrisse sua infidelidade.
Bem, eu tinha descoberto. Agora eu sabia.
Eu não falava com Kathy desde a noite anterior — fingi que estava dormindo quando ela voltou e saí pela manhã antes que acordasse. Eu a estava evitando; evitando a mim mesmo. Estava em choque. Sabia que precisava fazer uma autoanálise; caso contrário corria o risco de me perder. Se controla, sussurrava para mim mesmo, enrolando um baseado. Fumei na janela, e, em seguida, devidamente chapado, me servi de uma taça de vinho na cozinha.
Quando fui pegar a taça, ela escorregou da minha mão. Tentei impedir que caísse, mas tudo que consegui foi acertar a mão num caco de vidro ao bater na mesa, cortando o meu dedo.
De repente, havia sangue por todo lado — escorrendo pelo meu braço, na taça quebrada, misturado ao vinho branco na mesa. Com dificuldade, arranquei algumas folhas de papel-toalha e envolvi o dedo com elas para conter o sangramento. Com a mão erguida acima da cabeça, fiquei observando o sangue escorrer pelo braço em minúsculos filetes divergentes, imitando o desenho das veias por baixo da pele.
Pensei em Kathy.
Era a ela que eu recorreria num momento de crise — quando precisava de solidariedade ou de consolo ou de alguém para amenizar a minha dor. Eu queria que ela cuidasse de mim. Pensei em ligar, mas na mesma hora imaginei
uma porta se fechando bruscamente, deixando-a trancada e longe de mim. Kathy se fora, eu a havia perdido. Queria chorar, mas não conseguia, estava
bloqueado por dentro, cheio de lama e merda.
— Caralho — repetia para mim mesmo —, caralho.
Minha atenção foi atraída pelo tique-taque do relógio. Por algum motivo, parecia mais alto agora. Tentei focar nele para que os pensamentos tivessem onde se fixar em meio àquele turbilhão: tique-taque, tique-taque, tique-taque — mas o coro de vozes na minha cabeça ficava mais alto, não se deixava calar. Ela só podia mesmo me trair, pensei, isso ia acontecer, era inevitável... Eu nunca estive à altura dela, um imprestável, feio, inútil, um nada... Ela só podia mesmo acabar se cansando de mim... Eu não merecia Kathy, eu não merecia nada... E por aí vai, uma sucessão sem fim de pensamentos terríveis.
Como eu a conhecia pouco. Aqueles e-mails mostravam que eu vivia com uma estranha. Agora estava vendo a verdade. Kathy não tinha me salvado — ela não era capaz de salvar ninguém. Não era nenhuma heroína digna de admiração, apenas uma garota despirocada e assustada, uma traidora mentirosa. Toda aquela mentira do nós que eu tinha inventado, os nossos sonhos e esperanças, as coisas de que gostávamos e que não gostávamos, nossos planos para o futuro; uma vida que parecia tão segura, tão firme, desmoronava em segundos, feito um castelo de cartas ao vento.
Minha mente foi até aquele quarto frio na faculdade, tantos anos antes, abrindo caixas de paracetamol desajeitadamente, os dedos dormentes. Fui tomado pela mesma sensação de entorpecimento, aquele mesmo desejo de ficar em posição fetal e morrer. Pensei na minha mãe. Eu poderia ligar para ela? Recorrer a ela no meu momento de desespero e necessidade? Imaginei-a atendendo o telefone, a voz trêmula; a intensidade do tremor da voz dependeria do humor do meu pai e de se ela havia bebido. Ela podia me ouvir com empatia, mas estaria com a cabeça em outro lugar, um olho atento ao meu pai e ao seu temperamento difícil. Como ela seria capaz de me ajudar? Como um rato se afogando vai salvar outro?
Eu precisava sair. Não conseguia respirar dentro daquele apartamento com aqueles lírios fedorentos. Eu precisava de ar. Eu precisava respirar.
Saí do apartamento. Enfiei as mãos nos bolsos, a cabeça baixa. Andava pelas ruas com passos pesados, indo a lugar nenhum. Ficava repassando mentalmente o nosso relacionamento, cena por cena, recordando,
examinando, revirando, em busca de pistas. Me lembrei de brigas não resolvidas, ausências não explicadas e atrasos frequentes. Mas também de pequenos gestos de bondade — bilhetes afetuosos que ela deixava para mim em lugares inesperados, momentos de doçura e amor aparentemente genuíno. Como era possível? Ela estava representando o tempo todo? Em algum momento ela havia me amado de verdade?
Então me lembrei da sombra de dúvida que me veio quando conheci os amigos dela. Todos atores; barulhentos, narcisistas, cheios de si, falando o tempo todo de si mesmos e de gente que eu não conhecia. De repente, fui transportado de volta à escola, andando sozinho pelos cantos do pátio, vendo as crianças brincando. Eu me convenci de que Kathy era totalmente diferente deles, mas é claro que não era. Se os tivesse conhecido naquela primeira noite no bar, quando a conheci, será que teriam me dissuadido de me aproximar dela? Duvido. Nada poderia ter impedido nossa união — desde a primeira vez que vi Kathy, meu destino estava selado.
O que fazer agora?
Confrontá-la, naturalmente. Contar tudo o que eu tinha visto. A reação dela seria negar, mas, vendo que não adiantava, admitiria a verdade e se prostraria, cheia de remorso. E imploraria meu perdão, certo?
Mas e se isso não acontecesse? Se zombasse de mim? Se começasse a rir, desse meia-volta e fosse embora? E aí?
De nós dois, era eu quem mais tinha a perder, isso era evidente. Kathy sobreviveria — ela gostava de dizer que era dura na queda. Ela iria se recompor, dar a volta por cima e me esquecer. Mas eu não a esqueceria. Como poderia? Sem Kathy, eu voltaria àquela vida vazia e solitária que até então apenas suportava. Nunca mais conheceria alguém como Kathy, nem teria a mesma ligação ou experimentaria aqueles sentimentos profundos por outro ser humano. Ela era o amor da minha vida — ela era a minha vida —, e eu não estava preparado para abrir mão de Kathy. Ainda não. Embora tivesse me traído, eu ainda a amava.
Talvez eu fosse louco, no fim das contas.
Um pássaro solitário piou acima de mim, me assustando. Parei e olhei ao redor. Eu tinha ido muito mais longe do que havia imaginado. Chocado, vi aonde meus pés me levaram — eu tinha caminhado até poucas ruas da casa de Ruth.
Inconscientemente, eu tinha me dirigido até minha antiga terapeuta num momento de crise, como tantas vezes no passado. O fato de ter contemplado a possibilidade de bater à sua porta e pedir ajuda era uma clara indicação do meu grau de perturbação.
E por que não?, pensei de repente. Sim, seria uma conduta nada profissional e extremamente imprópria, mas eu estava desesperado e precisava de ajuda. Quando me dei conta, estava diante da porta verde da casa de Ruth, vendo minha mão se aproximar da campainha e tocá-la.
Ela levou algum tempo para atender. Uma luz se acendeu no hall de entrada, e Ruth abriu a porta, sem tirar a corrente.
Ruth espiou pelo vão. Parecia mais velha. Devia estar na casa dos 80 anos; menor, mais frágil que na minha lembrança, ligeiramente corcunda. Usava um casaco de lã cinza sobre uma camisola de um cor-de-rosa pálido.
— Olá? — disse, nervosa. — Quem é?
— Oi, Ruth. — Eu me adiantei para ficar na luz.
Ela me reconheceu e pareceu surpresa.
— Theo? Mas o que... — Seus olhos passaram do meu rosto à bandagem improvisada no dedo, suja de sangue. — Você está bem?
— Não muito. Posso entrar? Eu preciso... Eu gostaria de conversar com você.
Ruth não hesitou, parecendo apenas preocupada. Fez que sim com a cabeça.
— Claro. Entre.
Ela retirou a corrente e abriu a porta.
Eu entrei.