A Paciente Silenciosa

Alex Michaelides · Capítulo 54 de 74

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A Paciente Silenciosa

Capítulo 6

 

— Jean-Felix?

Não havia ninguém na recepção, e não apareceu ninguém quando eu chamei. Hesitei um momento e acabei entrando na galeria.

Percorri o corredor até o local onde Alceste ficava pendurado. Admirei o quadro mais uma vez. Mais uma vez tentei entendê-lo, de novo sem êxito. Alguma coisa naquela pintura desafiava qualquer interpretação — ou então havia ali um significado que eu ainda não compreendia. Mas o quê?

Então... Respirei fundo quando notei uma coisa. Atrás de Alicia, no escuro, se eu semicerrasse os olhos para focar bem no quadro, dava para ver que as partes mais escuras da sombra se integravam, como um holograma que passa de duas dimensões para três quando observado de determinado ângulo, e uma forma saltou da escuridão... A figura de um homem. Um homem — escondido lá atrás. Observando. Espionando Alicia.

— O que você quer?

Tomei um susto quando ouvi a voz. Me virei.

Jean-Felix não parecia particularmente contente de me ver.

— O que você está fazendo aqui?

Eu já ia apontar para a figura do homem no quadro e perguntar a respeito, mas algo me disse que talvez não fosse uma boa ideia.

Preferi abrir um sorriso.

— Eu queria fazer mais algumas perguntas. Agora é uma boa hora?

— Na verdade, não. Eu já disse tudo que sei. O que mais poderia falar?

— É que surgiram algumas novas informações.

— O quê?

— Bom, em primeiro lugar, eu não sabia que Alicia pretendia se desligar da sua galeria.

Houve uma pausa de um segundo antes da resposta de Jean-Felix. A voz dele saiu tensa, como um elástico a ponto de arrebentar.

— Que história é essa?

— É verdade?

— Por acaso é da sua conta?

— Alicia é minha paciente. Pretendo fazer com que ela volte a falar... mas agora vejo que talvez seja do seu interesse que ela continue em silêncio.

— O que você está querendo dizer?!

— Bom, enquanto ninguém souber da vontade de Alicia de abandonar a sua galeria, você pode ficar com as obras dela para sempre.

— Do que você está me acusando exatamente?

— Não estou acusando você de nada. Só estou apontando um fato.

Jean-Felix riu.

— É o que vamos ver. Vou consultar o meu advogado e apresentar uma queixa formal ao hospital.

— Não acho que você vá fazer isso.

— Como assim?

— Eu ainda não contei como soube que Alicia pretendia sair da galeria.

— Quem disse isso estava mentindo.

— Foi Alicia.

— O quê? — Jean-Felix pareceu perplexo. — Você está dizendo que... ela falou?

— De certa maneira. Alicia me entregou o diário dela.

— Diário...? — Ele piscou algumas vezes, como se estivesse processando a informação. — Eu não sabia que Alicia tinha um diário.

— Bem, tinha. Ela descreve com alguns detalhes os últimos encontros de vocês dois.

Eu não disse mais nada. Nem precisava. Houve um momento de silêncio. Jean-Felix se manteve calado.

— Volto a entrar em contato — avisei. Sorri e fui embora.

Ao chegar à rua, me senti um pouco culpado por ter provocado Jean-Felix daquela maneira. Mas foi proposital — eu queria saber que efeito causaria, como ele reagiria, o que faria.

Agora teria que esperar para ver.

Enquanto caminhava pelo Soho, liguei para o primo de Alicia, Paul Rose, para avisar que ia até lá. Não queria aparecer sem aviso e correr o risco de ter uma recepção semelhante à da última vez. Ainda não tinha me curado por completo da contusão na minha cabeça.

Com o celular pressionado entre a orelha e o ombro, acendi um cigarro. Mal tive tempo de tragar quando a ligação foi atendida, logo no primeiro toque. Eu esperava que fosse Paul, e não Lydia. Tive sorte.

— Alô?

— Paul. É Theo Faber.

— Ah. E aí, parceiro. Tenho que falar baixo. Mamãe está tirando uma soneca, não quero acordar ela. Como vai a cabeça?

— Bem melhor, obrigado.

— Ótimo, que bom. Em que posso ser útil?

— É que eu recebi algumas informações novas sobre Alicia. Queria conversar a respeito.

— Que tipo de informações?

Contei que Alicia tinha me dado o diário dela para ler.

— Diário? Eu não sabia que ela tinha um diário. E o que diz?

— Seria melhor conversar pessoalmente. Você tem algum tempo livre hoje?

Paul hesitou.

— É melhor você não aparecer aqui. Mamãe não está... Bem, ela não ficou muito feliz com a sua última visita.

— É, deu para perceber.

— Tem um pub no fim da rua, perto da rotatória. O White Bear...

— Sim, eu lembro. Parece ótimo. A que horas?

— Por volta das cinco? A essa hora eu consigo dar uma escapulida.

Ouvi Lydia gritando ao fundo. Ela havia acordado.

— Agora dá licença. A gente se vê mais tarde.

Paul desligou.

 

Algumas horas depois, eu estava de novo a caminho de Cambridge. No trem, fiz outra ligação — para Max Berenson. Hesitei um pouco antes de ligar. Ele já havia se queixado uma vez a Diomedes, e não ficaria feliz em voltar a ouvir

minha voz. Mas eu sabia que não tinha escolha.

Quem atendeu foi Tanya. Ela parecia melhor do resfriado, mas dava para perceber a tensão na sua voz quando se deu conta de quem estava falando.

— Acho que ele... Max está ocupado no momento. Ele vai passar o dia inteiro em reuniões.

— Eu ligo de volta.

— Não sei se é uma boa ideia... Eu...

Ouvi a voz de Max ao fundo, e Tanya respondeu:

— Eu não vou dizer isso, Max.

Max pegou o telefone para falar diretamente comigo.

— Eu pedi para ela mandar você se foder.

— Ah.

— É muita cara de pau sua ligar de novo. Já me queixei uma vez com o professor Diomedes.

— Sim, eu sei. Mas surgiram novas informações que dizem respeito diretamente a você. E achei que não tinha escolha senão entrar em contato.

— Que informações?

— Um diário que Alicia escreveu nas semanas que antecederam o crime.

Houve silêncio do outro lado da linha. Esperei um pouco.

— Alicia descreve certos detalhes a seu respeito, Max. Ela comenta que você tinha sentimentos românticos por ela. E fiquei me perguntando...

Max desligou. Até então tudo certo. Ele havia mordido a isca, e agora eu teria que esperar para ver como seria sua reação.

Percebi que tinha certo medo de Max Berenson, exatamente como Tanya. Me lembrei da recomendação que ela havia me feito aos sussurros, que falasse com Paul, lhe perguntasse algo... Mas o quê? Alguma coisa sobre a noite depois do acidente que matou a mãe de Alicia. Me lembrei do olhar de Tanya quando Max apareceu, de como ela parou de falar e sorriu para ele. Não, pensei, eu não podia subestimar Max Berenson.

Seria um erro grave.