A Paciente Silenciosa

Alex Michaelides · Capítulo 57 de 74

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A Paciente Silenciosa

Capítulo 9

 

Eu estava sentado com Alicia em silêncio.

Estava melhorando minha relação com esses momentos de silêncio, já conseguia suportá-los melhor, me sentia familiarizado com eles; ficar sentado naquela saleta com ela, em silêncio, já era quase confortável.

Alicia repousava as mãos no colo, fechando-as e abrindo-as ritmadamente, como um batimento cardíaco. Estava de frente para mim sem me olhar, olhando pela janela e através da grade. A chuva tinha dado uma trégua e as nuvens se afastaram momentaneamente, revelando um pálido céu azul; até que apareceu outra nuvem, deixando-o cinzento. Então falei:

— Fiquei sabendo de uma coisa. Uma coisa que o seu primo me disse.

Falava da maneira mais suave possível. Ela não reagiu, então continuei:

— Paul contou que quando você era criança você ouviu o seu pai dizer uma coisa terrível. Depois do acidente que matou a sua mãe... Você ouviu o seu pai dizer que preferia que você tivesse morrido no lugar dela.

Eu tinha certeza de que haveria alguma reação física automática, algo que acusasse o golpe. Esperei, mas nada aconteceu.

— Fico me perguntando como você se sente sobre o fato de Paul ter me contado isso... Pode parecer que ele traiu a sua confiança. Mas acho que, na verdade, ele estava preocupado com você. Afinal de contas, você está sob os meus cuidados.

Nenhuma reação. Hesitei.

— Talvez ajude se eu contar uma coisa. Não... Acho que não estou sendo sincero... Na verdade, iria me ajudar. A verdade é que eu entendo você mais do que imagina. Sem querer ser indiscreto, você e eu tivemos uma infância

semelhante, com pais bem parecidos. Nós saímos de casa assim que pudemos. Mas logo descobrimos que a distância física não importa muito no mundo da psique. Certas coisas não são deixadas para trás com tanta facilidade assim. Eu sei que a sua infância deixou muitas marcas. É importante que você entenda que isso é muito sério. O que o seu pai disse é equivalente a um

assassinato psíquico. Ele matou você.

Dessa vez ela reagiu.

Alicia lançou um olhar severo diretamente para mim, fulminante. Se um olhar pudesse matar, eu teria caído morto ali mesmo. Mas encarei seu olhar assassino sem me esquivar.

— Alicia. Essa é a nossa última chance. Eu estou aqui sem o conhecimento nem a autorização do professor Diomedes. Se eu continuar quebrando as regras assim por sua causa, vou acabar sendo demitido. Por isso é a última vez que você vai me ver. Está entendendo?

Eu falava sem nenhuma expectativa ou emoção, isento de esperança ou sentimentos. Estava farto de dar murro em ponta de faca. Eu não esperava nenhuma reação. E então...

De início, achei que tinha imaginado, que estava ouvindo coisas. Olhei fixamente para Alicia, sem fôlego. Meu coração palpitava. Minha boca estava seca quando voltei a falar.

— Você... Você disse... alguma coisa?

Outro momento de silêncio. Eu devia ter me enganado. Devia ter imaginado. Mas então... Aconteceu de novo.

Os lábios de Alicia se moveram lentamente, com dificuldade; a voz arranhou um pouco ao ser emitida, como uma porta rangendo e precisando ser lubrificada.

— O que... — sussurrou ela. E se deteve. E outra vez: — O que... O que...

Por um momento, ficamos apenas nos olhando. Meus olhos aos poucos se encheram de lágrimas, lágrimas de descrença, empolgação e gratidão.

— O que eu quero? Eu quero que você continue falando... Fala... Fala comigo, Alicia...

Ela me encarava. Estava pensando em algo. E tomou uma decisão.

Lentamente, fez que sim com a cabeça.

— Ok.