A Paciente Silenciosa

Alex Michaelides · Capítulo 24 de 74

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A Paciente Silenciosa

Capítulo 12

 

 

A recepcionista de Max Berenson estava bastante resfriada. Pegou um lenço de papel, assoou o nariz e fez um gesto para que eu esperasse.

— Ele está ao telefone. Só um minutinho.

Assenti e me sentei na sala de espera. Algumas cadeiras desconfortáveis, uma mesa de centro com uma pilha de revistas velhas. Toda sala de espera é igual, pensei; eu poderia muito bem estar esperando um médico ou um agente funerário.

A porta do outro lado da sala se abriu. Max Berenson apareceu e me chamou. E desapareceu de novo no escritório. Eu me levantei e o segui.

Estava esperando o pior, considerando seu jeito grosseiro ao telefone. Para minha surpresa, contudo, ele começou pedindo desculpas.

— Lamento se fui meio rude quando nos falamos. Tem sido uma semana daquelas, e eu não ando lá muito bem. Não quer se sentar?

Eu me sentei na cadeira em frente à mesa dele.

— Obrigado. E obrigado por me receber.

— Bem, no início fiquei meio reticente. Achei que você fosse um jornalista querendo me fazer falar de Alicia. Mas liguei para o Grove e confirmei que você trabalha lá.

— Entendo. Acontece muito? De jornalistas ligarem, digo.

— Recentemente não. Mas era comum. Aprendi a não baixar a guarda... — Ele ia dizer alguma coisa, mas espirrou. Pegou uma caixa de lenços. — Desculpe, estou com um resfriado que acabou pegando todo mundo lá em casa.

Assoou o nariz. Eu o examinei melhor. Ao contrário do irmão mais novo,

Max Berenson não era atraente. Grandalhão, calvo, o rosto cheio de cicatrizes de acne. Usava uma colônia masculina forte e antiquada, do tipo que meu pai usava. O escritório também era bem tradicional, com aquele cheiro reconfortante de móveis de couro, madeira, livros. Não podia ser mais diferente do mundo em que Gabriel vivia — um mundo de cores e de beleza.

Ele e Max claramente não tinham nada a ver um com o outro.

Em cima da mesa havia um porta-retratos com uma foto de Gabriel. Uma foto não posada, possivelmente tirada por Max. Gabriel sentado numa cerca no campo, cabelos ao vento, uma câmera pendurada no pescoço. Mais parecia um ator que um fotógrafo. Ou um ator fazendo o papel de fotógrafo.

Max me surpreendeu olhando para a foto e assentiu, como se lesse meus pensamentos.

— Meu irmão ficou com a beleza. E eu fiquei com o cérebro. — E deu uma risada. — Estou brincando. Na verdade, eu fui adotado. A gente não era irmão de sangue.

— Não sabia. Vocês dois foram adotados?

— Não, só eu. Nossos pais achavam que não podiam ter filhos. Mas logo depois de me adotarem tiveram Gabriel. Parece que é muito comum. Tem algo a ver com o fim do estresse.

— Você era próximo de Gabriel?

— Mais que a maioria dos irmãos. Embora ele fosse o centro das atenções, claro. Eu tendia a ficar à sombra dele.

— Por quê?

— Bom, era difícil não ficar. Gabriel era especial, mesmo na infância. — Max ficava brincando com a aliança, girando-a no dedo enquanto falava. — Gabriel levava a câmera para todo lado, tirando fotos. Meu pai achava que ele era maluco. Mas, no fim das contas, meu irmão era mesmo meio gênio. Você conhece o trabalho dele?

Sorri diplomaticamente. Não estava com a menor vontade de entrar num papo sobre os méritos de Gabriel como fotógrafo. E tratei de conduzir a conversa de volta para Alicia.

— Você deve tê-la conhecido muito bem.

— Alicia? Devo? — Algo nele mudou à menção do nome dela. A cordialidade foi para o espaço. O tom agora era frio. — Não sei se vou poder ajudar. Eu não representei Alicia no julgamento. Posso colocar você em

contato com meu colega Patrick Doherty se quiser detalhes do processo.

— Não é o tipo de informação que estou buscando.

— Não? — Max me olhou com curiosidade. — Terapeutas não costumam conversar com o advogado dos pacientes, certo?

— Não se o paciente é capaz de falar por si mesmo.

Max parecia digerir a informação.

— Entendi. Muito bem, como eu disse, não sei como posso ajudar, então...

— Queria apenas fazer algumas perguntas.

— Muito bem. Pode mandar.

— Eu me lembro de ter lido nos jornais na época que você esteve com Gabriel e Alicia na noite anterior ao crime.

— Sim, jantamos juntos.

— E como eles estavam?

Os olhos de Max ficaram vazios. Provavelmente deviam ter feito a mesma pergunta centenas de vezes, e sua resposta era automática, sem pensar.

— Normais, perfeitamente normais.

— E Alicia?

— Normal. — Ele deu de ombros. — Talvez um pouco mais agitada que de costume, mas...

— Mas...?

— Nada.

Eu sentia que havia mais. Esperei.

Passado um instante, Max prosseguiu:

— Não sei o quanto você sabe do relacionamento deles.

— Só o que li nos jornais.

— E o que você leu?

— Que eram felizes.

— Felizes? — Max abriu um sorriso frio. — Ah, sim, felizes. Gabriel fazia tudo o que podia para deixar Alicia feliz.

— Entendo. — Mas eu não entendia. Não sabia aonde ele queria chegar.

Devo ter parecido intrigado, porque Max deu de ombros.

— Não vou me estender. Se está em busca de fofocas, converse com Jean-Felix, não comigo.

— Jean-Felix?

— Jean-Felix Martin. O galerista de Alicia. Eles se conheciam havia muitos

anos. Feito unha e carne. Nunca gostei muito dele, para ser sincero.

— Não estou interessado em fofocas. — Registrei na agenda mental ter uma conversa com Jean-Felix o mais rápido possível. — Estou mais interessado na sua opinião pessoal. Posso fazer uma pergunta direta?

— Achei que já tivesse feito.

— Você gostava de Alicia?

Max me lançou um olhar inexpressivo ao responder:

— Claro que gostava.

Eu não acreditei nele.

— Tenho a impressão de que você está atuando em duas frentes. A do advogado, compreensivelmente discreto. E a do irmão. Foi o irmão que eu vim ver.

Houve uma pausa. Eu me perguntava se Max ia me convidar a me retirar. Ele parecia prestes a dizer algo, mas mudou de ideia. Até que de repente se levantou da mesa e foi até a janela. Abriu-a. Entrou uma lufada de ar frio. Max respirou fundo, como se ele se sentisse sufocado no ambiente.

Por fim, disse em voz baixa:

— A verdade... A verdade é que eu odiava Alicia... Eu realmente detestava aquela mulher.

Eu não disse nada. Esperei que prosseguisse.

Ele continuava olhando pela janela, e acrescentou lentamente:

— Gabriel não era só meu irmão, era meu melhor amigo. Era o sujeito mais bondoso do mundo. Bondoso demais. E todo aquele talento, toda aquela bondade, toda aquela paixão pela vida, tudo acabou por causa daquela piranha. Ela não destruiu só a vida dele, mas a minha também. Graças a Deus meus pais já tinham morrido para não terem que ver uma coisa daquelas. — Max ficou com a voz embargada, subitamente emotivo.

Era difícil não perceber sua dor, e fiquei com pena dele.

— Deve ter sido bastante difícil para você organizar a defesa de Alicia.

Max fechou a janela e retornou à mesa. Tinha conseguido se controlar. Voltara a ser o advogado. Neutro, equilibrado, sem emoções.

Deu de ombros.

— Era o que Gabriel teria desejado. Ele queria sempre o melhor para Alicia. Gabriel era louco por ela. E ela, apenas louca.

— Você acha que ela era desequilibrada?

— Você é que tem que saber, você é o terapeuta.

— E o que você acha?

— Eu sei o que vi.

— E o que foi?

— Oscilações de humor. Acessos de raiva. Explosões violentas. Ela quebrava as coisas. Gabriel me contou que várias vezes ela ameaçou matá-lo. Eu devia ter dado atenção, feito alguma coisa... Depois que ela tentou se matar, eu devia ter interferido, insistido em que buscasse ajuda. Mas não fiz nada. Gabriel estava decidido a protegê-la, e eu, burro, deixei.

Max suspirou e consultou o relógio, um sinal para que eu encerrasse a conversa.

Mas me limitei a ficar olhando fixamente para ele.

— Alicia tentou se matar? Como assim? Quando? Depois do crime?

Max acenou negativamente com a cabeça.

— Não, muitos anos antes. Você não sabia disso? Achei que soubesse.

— Quando foi isso?

— Depois da morte do pai dela. Tomou uma overdose... Pílulas, alguma coisa assim. Não lembro exatamente. Teve uma espécie de colapso.

Eu ia pressioná-lo mais quando a porta foi aberta. Apareceu a recepcionista, falando em voz fanhosa.

— Querido, temos que ir. A gente vai se atrasar.

— Certo. Já vou, meu bem.

A porta se fechou. Max levantou, me olhando como quem pede desculpas.

— Nós vamos ao teatro. — Devo ter parecido surpreso, porque ele achou graça. — Nós, Tanya e eu, nos casamos ano passado.

— Ah, sim.

— A morte de Gabriel nos aproximou. Eu não teria conseguido sem ela.

O telefone de Max tocou, distraindo-o.

Indiquei que atendesse.

— Obrigado, foi de grande ajuda.

E me retirei. Olhei melhor para Tanya na recepção — loira, bonita, pequena e delicada. Ela assoou o nariz, e reparei no grande diamante da aliança.

Para minha surpresa, ela se levantou e me acompanhou até a saída, franzindo a testa. Falava em voz baixa e rápido.

— Se quiser saber mais sobre Alicia, você tem que conversar com o primo dela, Paul. Ele conhece Alicia melhor que ninguém.

— Eu liguei para a tia, Lydia Rose. Ela não se mostrou muito receptiva.

— Esquece Lydia. Vai até Cambridge. Conversa com Paul. Pergunta sobre Alicia e a noite depois do acidente, e...

A porta do escritório se abriu. Tanya ficou em silêncio imediatamente. Max apareceu e ela correu até ele com um sorriso largo.

— Pronto, querido?

Tanya sorria, mas parecia nervosa. Ela tem medo dele, pensei. E me perguntei por quê.