A Paciente Silenciosa
Capítulo 15
Aí está. Alicia Berenson não matou o marido. Um estranho invadiu o lar do casal e, num ato de crueldade aparentemente gratuito, matou Gabriel e desapareceu na noite. Alicia era totalmente inocente.
Isso se você acreditar na história dela.
Mas eu não acreditei. Nem um pouco.
Sem falar das evidentes incoerências e imprecisões — como o fato de Gabriel não ter levado seis tiros, mas cinco, pois uma das balas foi parar no teto; Alicia tampouco foi encontrada amarrada a uma cadeira, mas de pé no meio da sala, depois de cortar os pulsos. Na nossa conversa, Alicia não disse que o homem a havia desamarrado, nem explicou por que desde o início não contou à polícia essa versão dos fatos. Não, eu sabia que ela estava mentindo. Fiquei irritado por ela ter mentido assim tão descaradamente e sem motivo, na minha cara. Por um segundo fiquei me perguntando se não estaria me testando, para ver se eu engolia a história. Nesse caso, eu não deixaria transparecer nada.
Fiquei lá sentado em silêncio.
Contrariando seus hábitos, Alicia falou primeiro.
— Estou cansada. Quero parar.
Fiz que sim. Não podia objetar.
— A gente continua amanhã — disse ela.
— Ainda tem mais coisas para contar?
— Sim. Uma última coisa.
— Muito bem. Amanhã.
Yuri estava esperando no corredor. Acompanhou Alicia até o quarto e eu
fui para a minha sala.
Como já disse, há anos costumo transcrever as sessões assim que acabam. A capacidade de registrar com precisão o que foi dito nos cinquenta minutos anteriores é de fundamental importância para um terapeuta, caso contrário muitos detalhes são esquecidos e o imediatismo das emoções é perdido.
Me sentei à mesa e comecei a anotar o mais rápido possível tudo que havíamos dito. Quando acabei, percorri os corredores agarrado às minhas anotações.
Bati à porta de Diomedes. Como não houve resposta, bati de novo. Nada. Abri uma fresta na porta... e lá estava Diomedes, em sono profundo no seu sofá estreito.
— Professor? — E outra vez, mais alto: — Professor Diomedes?
Ele acordou num sobressalto e rapidamente se sentou. Piscava para mim.
— O que foi? O que houve?
— A gente precisa conversar. É melhor eu voltar depois?
Diomedes franziu a testa, fazendo que não com a cabeça.
— Eu estava fazendo a sesta. Eu sempre faço isso depois do almoço. Me ajuda a aguentar a tarde. E vai se tornando uma necessidade com a idade. — Bocejando, ele se levantou. — Entre, Theo. Sente-se. Pela sua cara, é importante.
— Acho que sim, é sim.
— Alicia?
Assenti. Me sentei em frente à mesa dele. Diomedes se sentou do outro lado. Seu cabelo estava levantado de um dos lados, e ele parecia não estar totalmente acordado.
— Tem certeza de que não é melhor eu voltar depois?
Diomedes acenou negativamente com a cabeça. Pegou uma jarra para se servir de um copo de água.
— Agora eu estou acordado. Prossiga. O que houve?
— Estive conversando com Alicia... Eu preciso de supervisão.
Diomedes fez que sim. Parecia mais acordado a cada segundo, e mais interessado.
— Continue.
Comecei a ler as minhas anotações. Mostrei para ele a sessão inteira. Repetia as palavras dela com o máximo de exatidão possível, reproduzindo a
história que tinha ouvido: o homem que a espionava entrando na casa, fazendo-a prisioneira, atirando e matando Gabriel.
Quando terminei, houve uma longa pausa. A expressão de Diomedes não deixava transparecer muita coisa. Ele pegou uma caixa de charutos na gaveta. Apanhou uma pequena guilhotina de prata. Enfiou nela a ponta de um charuto e a cortou.
— Vamos começar pela contratransferência. Me fale da sua experiência emocional. Comece do começo. Enquanto ela contava a história, que sentimentos surgiam?
Refleti por um instante.
— Eu estava empolgado, eu acho... E ansioso. Com medo.
— Medo? Medo seu ou dela?
— Acho que dos dois.
— E medo do quê?
— Não sei muito bem. Medo de fracassar, talvez. Estou arriscando muito nisso, como você sabe.
Diomedes fez que sim.
— E o que mais?
— Frustração também. Muitas vezes eu me sinto frustrado nas nossas sessões.
— E com raiva?
— Sim, acho que sim.
— Você se sente como um pai frustrado lidando com uma filha problemática?
— Sim. Eu quero ajudar Alicia, mas não sei se ela quer ser ajudada.
Ele fez que sim.
— Vamos ficar com o sentimento de raiva. Fale mais disso. Como se manifesta?
Hesitei.
— Bom, muitas vezes eu acabo a sessão com uma dor de cabeça fortíssima.
Diomedes assentiu.
— Sim, exatamente. A coisa tem que sair de um jeito ou de outro. “Um estagiário que não fique ansioso vai acabar doente.” Quem foi que disse isso?
— Não sei. — Dei de ombros. — Eu estou doente e ansioso.
Diomedes sorriu.
— Mas você também não é mais um estagiário, embora esses sentimentos nunca desapareçam por completo. — Ele pegou o charuto. — Vamos lá fora fumar.
Fomos para a escada de incêndio. Diomedes deu algumas baforadas no charuto, refletindo. E acabou chegando a uma conclusão.
— Você sabe, ela está mentindo.
— Sobre o homem ter matado Gabriel? Também achei.
— Não só isso.
— O que então?
— A coisa toda. Essa baboseira toda. Eu não acredito numa só palavra.
Devo ter parecido bastante surpreso. Eu imaginei que ele não daria crédito mesmo a certos elementos da história de Alicia, mas não esperava que rejeitasse o pacote completo.
— Você não acredita na história sobre o homem?
— Não, não acredito. Eu não acredito nem que esse homem exista. É uma fantasia. Do começo ao fim.
— Como você tem tanta certeza disso?
Diomedes abriu um sorriso estranho.
— Podemos dizer que é a minha intuição. Anos de experiência profissional com fantasistas. — Tentei interrompê-lo, mas ele se antecipou com um gesto da mão. — Naturalmente, não espero que concorde, Theo. Você foi fundo com Alicia e seus sentimentos estão misturados aos dela feito um novelo de lã. É esse o objetivo de uma supervisão como essa, ajudá-lo a desembaraçar os fios, para ver o que é seu e o que é dela. E, quando conseguir distância e clareza, desconfio que vai se sentir bem diferente sobre sua experiência com Alicia Berenson.
— Não sei se estou entendendo.
— Bom, para ser franco, receio que ela esteja representando um papel para você. Manipulando você. E acho que é uma performance moldada especificamente para apelar para os seus instintos cavalheirescos... e, digamos, românticos. Desde o início ficou claro para mim que você pretendia salvá-la. E tenho certeza de que isso era óbvio para Alicia também. Daí a sedução.
— Você está parecendo Christian. Ela não me seduziu. Sou perfeitamente capaz de resistir às projeções sexuais de um paciente. Não me subestime,
professor.
— É ela que não deve ser subestimada. Alicia está executando uma excelente performance. — Diomedes fez que não com a cabeça, olhando para as nuvens cinzentas. — A mulher vulnerável que está sendo atacada, sozinha, precisando de proteção. Alicia se coloca numa posição de vítima e aponta esse homem misterioso como vilão. Mas na verdade Alicia e o homem são uma mesma e única pessoa. Ela matou Gabriel. É culpada... E ainda se recusa a aceitar essa culpa. E assim ela se divide, se distancia, fantasia: Alicia se torna a vítima inocente, e você é seu protetor. E, ao entrar na onda dessa fantasia, você está permitindo que ela fuja de toda responsabilidade.
— Discordo. Não acho que ela esteja mentindo, pelo menos não conscientemente. Na pior das hipóteses, Alicia acredita na própria história.
— Sim, acredita. Alicia está sendo atacada, mas pela própria psique, e não pelo mundo exterior.
Eu sabia que isso não era verdade, mas não fazia sentido continuar discutindo. Apaguei meu cigarro.
— Como você acha que eu devo proceder agora?
— Você precisa forçar Alicia a enfrentar a verdade. Só assim ela vai ter alguma esperança de recuperação. Você precisa recusar essa história veementemente. Desafie Alicia. Exija que ela conte a verdade.
— E você acha que ela vai contar?
Ele encolheu os ombros.
— Isso... — e deu uma longa tragada no charuto — ninguém tem como saber.
— Muito bem. Vou falar com ela amanhã. Vou confrontar Alicia.
Parecendo meio desconfortável, Diomedes abriu a boca como se fosse acrescentar algo. Mas mudou de ideia. Indicou que estava de acordo e apagou o charuto com ar determinado.
— Amanhã.