A Paciente Silenciosa

Alex Michaelides · Capítulo 63 de 74

Páginas do PDF

A Paciente Silenciosa

Capítulo 15

 

Aí está. Alicia Berenson não matou o marido. Um estranho invadiu o lar do casal e, num ato de crueldade aparentemente gratuito, matou Gabriel e desapareceu na noite. Alicia era totalmente inocente.

Isso se você acreditar na história dela.

Mas eu não acreditei. Nem um pouco.

Sem falar das evidentes incoerências e imprecisões — como o fato de Gabriel não ter levado seis tiros, mas cinco, pois uma das balas foi parar no teto; Alicia tampouco foi encontrada amarrada a uma cadeira, mas de pé no meio da sala, depois de cortar os pulsos. Na nossa conversa, Alicia não disse que o homem a havia desamarrado, nem explicou por que desde o início não contou à polícia essa versão dos fatos. Não, eu sabia que ela estava mentindo. Fiquei irritado por ela ter mentido assim tão descaradamente e sem motivo, na minha cara. Por um segundo fiquei me perguntando se não estaria me testando, para ver se eu engolia a história. Nesse caso, eu não deixaria transparecer nada.

Fiquei lá sentado em silêncio.

Contrariando seus hábitos, Alicia falou primeiro.

— Estou cansada. Quero parar.

Fiz que sim. Não podia objetar.

— A gente continua amanhã — disse ela.

— Ainda tem mais coisas para contar?

— Sim. Uma última coisa.

— Muito bem. Amanhã.

Yuri estava esperando no corredor. Acompanhou Alicia até o quarto e eu

fui para a minha sala.

Como já disse, há anos costumo transcrever as sessões assim que acabam. A capacidade de registrar com precisão o que foi dito nos cinquenta minutos anteriores é de fundamental importância para um terapeuta, caso contrário muitos detalhes são esquecidos e o imediatismo das emoções é perdido.

Me sentei à mesa e comecei a anotar o mais rápido possível tudo que havíamos dito. Quando acabei, percorri os corredores agarrado às minhas anotações.

Bati à porta de Diomedes. Como não houve resposta, bati de novo. Nada. Abri uma fresta na porta... e lá estava Diomedes, em sono profundo no seu sofá estreito.

— Professor? — E outra vez, mais alto: — Professor Diomedes?

Ele acordou num sobressalto e rapidamente se sentou. Piscava para mim.

— O que foi? O que houve?

— A gente precisa conversar. É melhor eu voltar depois?

Diomedes franziu a testa, fazendo que não com a cabeça.

— Eu estava fazendo a sesta. Eu sempre faço isso depois do almoço. Me ajuda a aguentar a tarde. E vai se tornando uma necessidade com a idade. — Bocejando, ele se levantou. — Entre, Theo. Sente-se. Pela sua cara, é importante.

— Acho que sim, é sim.

— Alicia?

Assenti. Me sentei em frente à mesa dele. Diomedes se sentou do outro lado. Seu cabelo estava levantado de um dos lados, e ele parecia não estar totalmente acordado.

— Tem certeza de que não é melhor eu voltar depois?

Diomedes acenou negativamente com a cabeça. Pegou uma jarra para se servir de um copo de água.

— Agora eu estou acordado. Prossiga. O que houve?

— Estive conversando com Alicia... Eu preciso de supervisão.

Diomedes fez que sim. Parecia mais acordado a cada segundo, e mais interessado.

— Continue.

Comecei a ler as minhas anotações. Mostrei para ele a sessão inteira. Repetia as palavras dela com o máximo de exatidão possível, reproduzindo a

história que tinha ouvido: o homem que a espionava entrando na casa, fazendo-a prisioneira, atirando e matando Gabriel.

Quando terminei, houve uma longa pausa. A expressão de Diomedes não deixava transparecer muita coisa. Ele pegou uma caixa de charutos na gaveta. Apanhou uma pequena guilhotina de prata. Enfiou nela a ponta de um charuto e a cortou.

— Vamos começar pela contratransferência. Me fale da sua experiência emocional. Comece do começo. Enquanto ela contava a história, que sentimentos surgiam?

Refleti por um instante.

— Eu estava empolgado, eu acho... E ansioso. Com medo.

— Medo? Medo seu ou dela?

— Acho que dos dois.

— E medo do quê?

— Não sei muito bem. Medo de fracassar, talvez. Estou arriscando muito nisso, como você sabe.

Diomedes fez que sim.

— E o que mais?

— Frustração também. Muitas vezes eu me sinto frustrado nas nossas sessões.

— E com raiva?

— Sim, acho que sim.

— Você se sente como um pai frustrado lidando com uma filha problemática?

— Sim. Eu quero ajudar Alicia, mas não sei se ela quer ser ajudada.

Ele fez que sim.

— Vamos ficar com o sentimento de raiva. Fale mais disso. Como se manifesta?

Hesitei.

— Bom, muitas vezes eu acabo a sessão com uma dor de cabeça fortíssima.

Diomedes assentiu.

— Sim, exatamente. A coisa tem que sair de um jeito ou de outro. “Um estagiário que não fique ansioso vai acabar doente.” Quem foi que disse isso?

— Não sei. — Dei de ombros. — Eu estou doente e ansioso.

Diomedes sorriu.

— Mas você também não é mais um estagiário, embora esses sentimentos nunca desapareçam por completo. — Ele pegou o charuto. — Vamos lá fora fumar.

 

Fomos para a escada de incêndio. Diomedes deu algumas baforadas no charuto, refletindo. E acabou chegando a uma conclusão.

— Você sabe, ela está mentindo.

— Sobre o homem ter matado Gabriel? Também achei.

— Não só isso.

— O que então?

— A coisa toda. Essa baboseira toda. Eu não acredito numa só palavra.

Devo ter parecido bastante surpreso. Eu imaginei que ele não daria crédito mesmo a certos elementos da história de Alicia, mas não esperava que rejeitasse o pacote completo.

— Você não acredita na história sobre o homem?

— Não, não acredito. Eu não acredito nem que esse homem exista. É uma fantasia. Do começo ao fim.

— Como você tem tanta certeza disso?

Diomedes abriu um sorriso estranho.

— Podemos dizer que é a minha intuição. Anos de experiência profissional com fantasistas. — Tentei interrompê-lo, mas ele se antecipou com um gesto da mão. — Naturalmente, não espero que concorde, Theo. Você foi fundo com Alicia e seus sentimentos estão misturados aos dela feito um novelo de lã. É esse o objetivo de uma supervisão como essa, ajudá-lo a desembaraçar os fios, para ver o que é seu e o que é dela. E, quando conseguir distância e clareza, desconfio que vai se sentir bem diferente sobre sua experiência com Alicia Berenson.

— Não sei se estou entendendo.

— Bom, para ser franco, receio que ela esteja representando um papel para você. Manipulando você. E acho que é uma performance moldada especificamente para apelar para os seus instintos cavalheirescos... e, digamos, românticos. Desde o início ficou claro para mim que você pretendia salvá-la. E tenho certeza de que isso era óbvio para Alicia também. Daí a sedução.

— Você está parecendo Christian. Ela não me seduziu. Sou perfeitamente capaz de resistir às projeções sexuais de um paciente. Não me subestime,

professor.

— É ela que não deve ser subestimada. Alicia está executando uma excelente performance. — Diomedes fez que não com a cabeça, olhando para as nuvens cinzentas. — A mulher vulnerável que está sendo atacada, sozinha, precisando de proteção. Alicia se coloca numa posição de vítima e aponta esse homem misterioso como vilão. Mas na verdade Alicia e o homem são uma mesma e única pessoa. Ela matou Gabriel. É culpada... E ainda se recusa a aceitar essa culpa. E assim ela se divide, se distancia, fantasia: Alicia se torna a vítima inocente, e você é seu protetor. E, ao entrar na onda dessa fantasia, você está permitindo que ela fuja de toda responsabilidade.

— Discordo. Não acho que ela esteja mentindo, pelo menos não conscientemente. Na pior das hipóteses, Alicia acredita na própria história.

— Sim, acredita. Alicia está sendo atacada, mas pela própria psique, e não pelo mundo exterior.

Eu sabia que isso não era verdade, mas não fazia sentido continuar discutindo. Apaguei meu cigarro.

— Como você acha que eu devo proceder agora?

— Você precisa forçar Alicia a enfrentar a verdade. Só assim ela vai ter alguma esperança de recuperação. Você precisa recusar essa história veementemente. Desafie Alicia. Exija que ela conte a verdade.

— E você acha que ela vai contar?

Ele encolheu os ombros.

— Isso... — e deu uma longa tragada no charuto — ninguém tem como saber.

— Muito bem. Vou falar com ela amanhã. Vou confrontar Alicia.

Parecendo meio desconfortável, Diomedes abriu a boca como se fosse acrescentar algo. Mas mudou de ideia. Indicou que estava de acordo e apagou o charuto com ar determinado.

— Amanhã.