A Paciente Silenciosa

Alex Michaelides · Capítulo 28 de 74

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A Paciente Silenciosa

Capítulo 16

 

Recobrei a consciência deitado no chão duro e frio. A primeira sensação foi de dor. A cabeça latejava, com pontadas, como se meu crânio estivesse rachado. Estendi a mão para tocar cuidadosamente a parte de trás da cabeça.

— Não tem sangue — disse uma voz. — Mas amanhã você vai estar com um baita galo. Sem falar de uma dor de cabeça daquelas.

Levantando os olhos, vi Paul Rose pela primeira vez. Estava de pé perto de mim, segurando um taco de beisebol. Tinha mais ou menos a minha idade, mas era mais alto e mais corpulento. Um rosto meio infantil e uma cabeleira ruiva, como Alicia. Fedia a uísque.

Tentei me sentar, mas não consegui.

— Melhor ficar aí mesmo. Fica um tempinho se recuperando.

— Acho que estou com uma concussão.

— Possível.

— Por que você fez isso?!

— O que você esperava, meu camarada? Achei que fosse um ladrão.

— Mas não sou.

— Agora eu sei disso. Já olhei na sua carteira. Você é terapeuta.

Ele levou a mão ao bolso de trás, pegou a minha carteira e a jogou para mim. Ela caiu no meu peito, e eu a peguei.

— Vi a sua identificação. Você trabalha naquele hospital... O Grove?

Fiz que sim com a cabeça, e o movimento a fez latejar.

— Trabalho.

— Então você sabe quem sou eu.

— O primo de Alicia?

— Paul Rose. — Ele estendeu a mão. — Vamos. Vou ajudar você.

E me botou de pé com incrível facilidade. Era um homem forte. Minhas pernas estavam meio bambas.

— Você podia ter me matado — murmurei.

Paul deu de ombros.

— Você podia estar armado. Invadiu a minha propriedade. O que esperava? Por que você está aqui?

— Vim procurar você. — E fiz uma careta de dor. — E já me arrependi.

— Entra, senta um pouco.

Era dor demais para não obedecer. Minha cabeça latejava a cada passo. Entramos pela porta dos fundos.

O interior da casa era tão decadente quanto o exterior. As paredes da cozinha eram cobertas por figuras geométricas laranja que estiveram na moda há uns quarenta anos. O papel de parede se desprendia em tiras que se enrolavam e se retorciam, enegrecidas como se tivessem pegado fogo. Insetos mumificados pendiam de teias de aranha nos cantos do teto. A poeira estava acumulada de tal maneira no piso que parecia um tapete sujo. E o cheiro de urina de gato já estava me deixando enjoado. Contei pelo menos cinco gatos andando pela cozinha, dormindo em cadeiras e outras superfícies. No chão, sacos plásticos cheios de latas de ração de gato fedendo.

— Senta. Vou fazer um chá.

Paul deixou o taco de beisebol encostado na parede, junto à porta. Fiquei de olho nele. Eu não me sentia seguro com aquele sujeito por perto.

Ele me entregou uma caneca rachada cheia de chá.

— Bebe isso.

— Você tem algum analgésico?

— Tenho aspirina por aí em algum lugar, vou dar uma olhada. Toma. — E me mostrou uma garrafa de uísque. — Vai ajudar.

Colocou uísque na caneca. Beberiquei. Quente, doce e forte. Houve uma pausa enquanto Paul bebia seu chá, olhando para mim — e me lembrei de Alicia com aquele seu olhar penetrante.

— Como ela está? — perguntou ele por fim. Mas continuou antes que eu pudesse responder. — Ainda não consegui visitar Alicia. Não é fácil sair daqui... Mamãe não está bem, não gosto de deixar ela sozinha.

— Entendo. Quando você esteve com Alicia pela última vez?

— Ah, tem anos já... Muito tempo. A gente perdeu contato. Eu fui ao casamento deles, e depois estive com ela uma ou duas vezes, mas... Gabriel era muito possessivo, eu acho. De qualquer maneira, ela parou de ligar depois que se casou. Parou de visitar a gente. Mamãe ficou bastante chateada, para falar a verdade.

Eu não falava. Mal conseguia pensar, com a cabeça latejando. Sentia que ele me observava.

— Então, por que você veio me procurar?

— Eu só queria fazer algumas perguntas... Queria perguntar sobre Alicia. Sobre... a infância dela.

Paul assentiu e pôs uísque na própria caneca. Agora ele parecia estar relaxando; o uísque também fazia efeito em mim, amenizando a dor, e eu já raciocinava melhor. Mantém o foco, dizia a mim mesmo. Tenta extrair alguns fatos dele. E dá o fora daí.

— Vocês cresceram juntos?

Paul fez que sim.

— Mamãe e eu nos mudamos para cá quando papai morreu. Eu devia ter 8 ou 9 anos. Era para ser temporário, eu acho... Mas aí a mãe da Alicia morreu no acidente. E mamãe ficou, para cuidar de Alicia e do tio Vernon.

— Vernon Rose... O pai de Alicia?

— Exato.

— E Vernon morreu aqui alguns anos atrás?

— Sim. Muitos anos atrás. — Paul franziu a testa. — Ele se matou. Ele se enforcou. Lá em cima, no sótão. Eu encontrei o corpo.

— Deve ter sido terrível.

— Sim, foi difícil, principalmente para Alicia. Pensando bem, foi a última vez que a vi. No enterro do tio Vernon. Ela estava péssima. — Paul se levantou. — Quer outra dose?

Tentei recusar, mas ele não parava de falar enquanto servia mais uísque.

— Eu nunca acreditei de verdade. Que ela matou Gabriel. Para mim não fazia sentido.

— Por quê?

— Ora, ela não era assim, de jeito nenhum. Alicia nunca foi uma pessoa violenta.

Mas agora é, pensei. Porém, não disse nada. Paul bebericava o uísque.

— Ela continua sem falar?

— Sim, continua.

— Isso não faz sentido. Nada disso. Sabe, eu acho que ela...

Fomos interrompidos por uma pancada no piso de cima. Uma voz abafada, a voz de uma mulher; as palavras eram ininteligíveis.

Paul se levantou de súbito.

— Um segundinho.

E saiu, apressando-se até o pé da escada. E em voz bem alta perguntou:

— Tudo bem, mamãe?

Uma resposta engrolada veio lá de cima, sem que eu conseguisse entender.

— O quê? Ah, sim, tudo bem. Espera... Espera só um minutinho.

Ele parecia constrangido. Olhou para mim de longe, franzindo a testa. E acenou a cabeça.

— Ela quer que você vá lá em cima.