A Paciente Silenciosa

Alex Michaelides · Capítulo 48 de 74

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A Paciente Silenciosa

O Diário de Alicia Berenson

 

8 DE AGOSTO

 

Hoje aconteceu uma coisa estranha.

 

Eu estava na cozinha fazendo café enquanto olhava pela janela — olhando sem ver, sonhando acordada —, e aí notei algo lá fora, ou melhor, alguém. Um homem. Notei porque ele estava imóvel, parecia uma estátua, de frente para nossa casa. Estava do outro lado da rua, na entrada do parque. De pé à sombra de uma árvore. Alto, forte. Não dava para ver suas feições, porque ele estava de óculos escuros e boné.

 

Também não dava para saber se estava me vendo ou não pela janela, mas a sensação era de que olhava fixamente para mim. Achei isso muito estranho; estou acostumada a ver pessoas esperando no ponto de ônibus do outro lado da rua, mas ele não estava esperando o ônibus. Estava olhando para nossa casa.

 

Até que me dei conta de que ele estava ali fazia vários minutos, e tratei de sair da janela. Fui para o ateliê. Tentei pintar, mas não conseguia me concentrar. Minha mente voltava o tempo todo para aquele sujeito. Decidi esperar mais uns vinte minutos e voltar à cozinha para espiar de novo. E se ele ainda estivesse lá? Ele não estava fazendo nada de errado. Podia ser um ladrão, estudando a casa — acho que foi a primeira coisa que pensei —, mas por que ficaria ali parado daquele jeito, chamando a atenção? Talvez estivesse pensando em se mudar para o bairro. Talvez fosse comprar a casa à venda no fim da rua. Isso explicaria.

 

Mas, quando voltei à cozinha e espiei pela janela, ele não estava mais lá. A rua estava vazia.

 

Provavelmente eu nunca vou saber o que ele estava fazendo. Muito estranho.

 

10 DE AGOSTO

 

Fui ao teatro com Jean-Felix ontem à noite. Gabriel não queria que eu fosse, mas fui mesmo assim. Estava com medo, mas achei que, se concordasse com o que Jean-Felix queria e fosse com ele ao teatro, talvez desse um fim a essa história toda. Pelo menos era o que eu esperava.

 

Combinamos de nos encontrar cedo para tomar um drinque — ideia dele — e, quando cheguei, ainda estava claro. O sol estava baixo no horizonte, deixando o rio vermelho-sangue. Jean-Felix me esperava em frente ao National Theatre. Eu o vi antes que ele me visse. Ele olhava para os transeuntes de cara feia. Se eu tinha alguma dúvida quanto ao que estava fazendo, ela desapareceu quando vi aquela expressão de raiva. Fui tomada por um medo horrível, e quase me virei para dar o fora dali. Mas ele se virou e me viu antes que eu fizesse isso. Acenou, e fui em sua direção. Eu fingia sorrir, e ele fazia o mesmo. Jean-Felix me cumprimentou:

 

“Que bom que você veio. Eu já estava achando que você não ia aparecer. Vamos tomar alguma coisa?”

 

Tomamos um drinque no saguão. Uma situação desconfortável, para dizer o mínimo. Nenhum de nós falou do outro dia. Conversávamos sobre nada, ou melhor, Jean-Felix falava e eu ouvia. Acabamos tomando dois drinques. Como não tinha comido, fiquei meio bêbada; o que provavelmente fazia parte dos planos dele. Jean-Felix fazia de tudo para me engajar na conversa, mas tudo que ele falava parecia forçado — como se fosse encenado, artificial. Tudo que ele falava começava com “Lembra como foi divertido...?” ou “Lembra aquela vez...?”, como se tivesse ensaiado pequenas lembranças na esperança de vencer minha determinação e lembrar que tínhamos muita história juntos, que éramos muito próximos. O que ele parece não se dar conta é de que eu já tomei minha decisão. E nada que ele possa dizer vai mudá-la.

 

No fim, foi bom ter ido. Não para ver Jean-Felix, mas porque vi a peça. Alceste não é uma tragédia, como diziam ser — acho que é uma obra obscura porque é uma história doméstica mais íntima, e justamente por isso gostei tanto. A montagem se passava nos dias atuais, numa casinha no subúrbio de Atenas. E gostei do escopo que deram à peça. Uma tragédia íntima e realista. O protagonista está condenado à morte, e sua mulher, Alceste, quer salvá-lo. A atriz que interpretava Alceste parecia uma estátua grega, com um rosto magnífico; eu ficava pensando em pintá-la. Pensei em pegar informações sobre ela e fazer contato com o agente. Quase comentei isso com Jean-Felix, mas me contive. Não quero mais envolvê-lo na minha vida, seja lá para o que for. No fim, eu estava com lágrimas nos olhos. Alceste morre e renasce. Literalmente volta do além. Tem alguma coisa nisso que me faz refletir. Mas ainda não sei exatamente o quê. Naturalmente, Jean-Felix teve as mais variadas reações com a peça, mas nenhuma delas ecoava em mim, então eu simplesmente parei de prestar atenção nele.

 

A morte e a ressurreição de Alceste não saíam da minha cabeça; continuei pensando nisso quando atravessávamos a ponte em direção ao metrô. Jean-Felix perguntou se eu queria tomar outro drinque, mas eu respondi que estava cansada. Outro silêncio constrangedor. Estávamos em frente à entrada da estação. Agradeci e disse que tinha sido muito divertido. Ele ainda insistiu:

 

“Só mais uma bebida. Uma só. Pelos velhos tempos.”

 

“Não, eu tenho que ir.”

 

Comecei a me afastar... E Jean-Felix agarrou a minha mão.

 

“Alicia. Me ouve. Eu preciso dizer uma coisa.”

 

“Não, por favor, não tem nada para ser dito, de verdade...”

 

“Me escuta. Não é o que você está pensando.”

 

E ele tinha razão, não era. Eu achava que Jean-Felix ia insistir na nossa amizade, ou tentar fazer com que eu me sentisse culpada por deixar a galeria. Mas o que ele disse me pegou totalmente de surpresa.

 

“Você precisa tomar cuidado. Você confia demais nas pessoas. Você confia demais... nas pessoas ao seu redor. Não confie. Não confie nelas.”

 

Encarei Jean-Felix sem saber o que pensar. Levei um segundo para conseguir falar.

 

“O que você está querendo dizer? Como assim?”

 

Jean-Felix se limitou a balançar a cabeça, sem dizer nada. Soltou minha mão e se afastou. Eu o chamei, mas ele não parou mais.

 

“Jean-Felix! Espera!”

 

Ele nem sequer olhou para trás. E o vi desaparecer na esquina. Fiquei lá plantada, sem saber o que pensar. O que ele pretendia fazendo aquela advertência misteriosa para em seguida ir embora? Acho que ele queria sair por cima e me deixar insegura e desconcertada. E conseguiu.

 

E também me deixou furiosa. Mas, sob certo aspecto, tornou a coisa mais fácil para mim. Agora estou mesmo decidida a afastá-lo por completo da minha vida. O que ele queria dizer com “as pessoas ao meu redor”? Provavelmente se referia a Gabriel. Mas por quê?

 

Não. Eu não vou fazer isso. É exatamente o que Jean-Felix queria: mexer com a minha cabeça. Me deixar obcecada por ele. Se interpor entre mim e Gabriel.

 

Não vou cair nessa. Não quero mais saber desse assunto.

 

Voltei para casa, e Gabriel estava na cama, dormindo. Tinha compromisso às cinco da manhã para uma sessão de fotos, mas eu o acordei e fizemos sexo. Eu precisava estar muito perto dele, senti-lo dentro de mim. Queria me fundir com ele. Queria entrar nele e desaparecer.

 

11 DE AGOSTO

 

Voltei a ver o tal sujeito. Dessa vez estava um pouco mais distante, sentado num banco no parque. Mas era ele, dava para ver — com esse tempo, a maioria das pessoas tem usado bermuda e camiseta de cores claras, e ele estava de camisa escura e calça, óculos escuros e boné. A cabeça inclinada na direção da casa, olhando para ela.

 

Me ocorreu uma ideia estranha: talvez não seja um ladrão, talvez seja um pintor. Talvez ele seja pintor como eu e esteja pensando em pintar a rua ou a casa. Mas ao mesmo tempo caiu a ficha de que isso não era verdade. Se fosse realmente pintar a casa, ele não estaria sentado lá parado; estaria fazendo esboços.

 

Comecei a ficar inquieta com aquilo e liguei para Gabriel. O que foi um erro. Deu para perceber que ele estava ocupado; a última coisa que queria era uma ligação minha, apavorada por achar que alguém estava observando a casa.

 

E, claro, sou eu que estou presumindo que o sujeito está observando a casa.

 

Ele pode estar me observando.

 

13 DE AGOSTO

 

Ele estava lá de novo.

 

Logo depois de Gabriel sair hoje de manhã. Tomei banho e o vi pela janela do banheiro. Dessa vez estava mais perto. De pé perto do ponto de ônibus. Como se estivesse mesmo esperando o ônibus.

 

Não sei quem ele pensa que está enganando.

 

Me vesti depressa e fui até a cozinha para ver melhor. Mas ele não estava mais lá.

Então decidi contar a Gabriel quando ele voltasse. Não achei que ele fosse levar a sério, mas levou. Pareceu bastante preocupado. E logo perguntou:

 

“É o Jean-Felix?”

 

“Não, é claro que não. De onde você tirou essa ideia?”

 

Tentei demonstrar surpresa e indignação. Mas na verdade eu tinha pensado a mesma coisa. O cara tem o mesmo porte que Jean-Felix. Podia ser ele, mas mesmo assim eu simplesmente não quero acreditar nisso. Ele não ia tentar me assustar desse jeito. Ia?

 

Gabriel me perguntou:

 

“Qual é o número de Jean-Felix? Vou ligar para ele agora mesmo.”

 

“Querido, por favor, não. Eu tenho certeza de que não é ele.”

 

“Absoluta?”

 

“Absoluta. Não aconteceu nada. Não sei por que eu estou criando esse caso todo. Não é nada.”

 

“Quanto tempo ele ficou lá?”

 

“Não foi muito tempo, uma hora mais ou menos... E depois desapareceu.”

 

“Como assim ‘desapareceu’?”

 

“Ele simplesmente desapareceu.”

 

“Ã-hã. Alguma chance de você estar imaginando coisas?”

 

Algo no tom da pergunta dele me deixou chateada.

 

“Eu não estou imaginando nada. Você tem que acreditar em mim.”

 

“Mas eu acredito.”

 

Só que dava para perceber que ele não acreditava completamente. Só em parte. Em parte, estava concordando por concordar. O que me deixou furiosa, para ser sincera. Tão furiosa que vou ter que parar por aqui... Caso contrário, posso escrever algo de que me arrependa.

 

14 DE AGOSTO

Pulei da cama assim que acordei. Olhei pela janela, esperando que o cara estivesse lá de novo — assim Gabriel também poderia vê-lo —, mas nem sinal dele. E me senti ainda mais idiota.

 

Essa tarde, decidi fazer uma caminhada, apesar do calor. Queria andar pelo parque, longe dos prédios, das ruas, das pessoas... Ficar sozinha com meus pensamentos. Fui até Parliament Hill, passando pelos corpos daquele pessoal que fica tomando sol estirado ao lado da trilha. Encontrei um banco desocupado e me sentei. Fiquei contemplando Londres, que reluzia ao longe.

 

Enquanto estava lá, fiquei o tempo todo com a sensação de que havia alguém por perto. Volta e meia eu olhava para trás, mas não via ninguém. Entretanto, de fato havia alguém lá o tempo todo. Eu sentia. Estava sendo observada.

 

Ao voltar para casa, passei pelo lago. Em certo momento, levantei os olhos e lá estava o sujeito, o tal homem. De pé do outro lado do lago, longe demais para que eu pudesse vê-lo com clareza, mas era ele. Eu sabia que era ele. Estava parado, imóvel, olhando diretamente para mim.

 

Senti um calafrio de medo. E reagi por instinto.

 

“Jean-Felix? É você? Para com isso. Para de me seguir!”

 

Ele não se mexeu. E eu agi o mais rápido possível. Meti a mão no bolso, peguei o celular e tirei uma foto dele. De que vai adiantar, não tenho a menor ideia. Depois me virei e comecei a caminhar rápido para a outra extremidade do lago, sem me virar até chegar à trilha principal. Eu tinha medo de que ele aparecesse de repente atrás de mim.

 

Até que me virei... e ele havia desaparecido.

 

Espero que não seja Jean-Felix. Realmente espero.

 

Quando entrei em casa, estava uma pilha de nervos. Baixei as persianas e apaguei as luzes. Espiei pela janela, e lá estava ele:

 

O sujeito estava de pé na rua, olhando para mim. Congelei, sem saber o que fazer.

 

E quase dei um pulo quando alguém chamou o meu nome.

 

“Alicia? Alicia, você está aí?”

 

Era aquela mulher horrorosa da casa ao lado. Barbie Hellmann. Me afastei da janela, fui até a porta dos fundos e abri. Barbie tinha entrado pelo portão lateral e estava no jardim, com uma garrafa de vinho.

 

“Oi, querida. Vi que você não estava no ateliê. Fiquei me perguntando onde estaria.”

 

“Eu tinha saído, acabei de chegar.”

 

“Que tal uma taça?”

 

Ela fez a proposta com aquela vozinha de bebê que usa às vezes e que me irrita profundamente.

 

“Eu vou ter que voltar ao trabalho, na verdade.”

 

“Só umazinha. E depois eu tenho que ir. Hoje tenho minha aula de italiano à noite. Tudo bem?”

 

Sem esperar pela resposta, ela foi entrando. Fez um comentário sobre o quanto a cozinha estava escura e começou a abrir as persianas sem me consultar. Eu estava prestes a impedi-la, mas quando olhei para fora não havia ninguém na rua. O sujeito tinha desaparecido.

 

Não sei por que comentei isso com Barbie. Não gosto dela nem confio nela, mas estava com medo, eu acho, e precisava falar com alguém, e ela estava ali. Tomamos o vinho, o que não era do meu feitio, e desatei a chorar. Barbie ficou me encarando de olhos arregalados, em silêncio pela primeira vez na vida. Quando parei de chorar, ela deixou de lado a garrafa de vinho e disse:

 

“Isso pede algo mais forte.”

 

E serviu dois copos de uísque.

 

“Toma.” E me entregou um deles. “Você está precisando.”

 

Tinha razão, eu precisava mesmo. Virei tudo de uma vez só e o uísque desceu queimando. Agora era minha vez de ouvir, enquanto Barbie falava. Ela não queria me assustar, começou, mas isso não parecia nada bom.

 

“Já vi essa história, tipo, um milhão de vezes na TV. Ele está estudando a casa de vocês, certo? Antes de dar o bote.”

 

“Você acha que é um ladrão?”

 

Barbie deu de ombros.

“Ou um estuprador. Mas não importa. Seja o que for, boa coisa não é.”

 

Eu ri. Estava aliviada e grata porque alguém me levava a sério, mesmo que fosse Barbie. Mostrei a foto do celular, mas ela não ficou impressionada.

 

“Me manda essa foto para eu ver direito de óculos. Só estou vendo um borrão. Mas me diz: você já falou disso com o seu marido?

 

Decidi mentir.

 

“Não. Ainda não.”

 

Barbie me olhou de um jeito estranho.

 

“Por que não?”

 

“Não sei, acho que Gabriel pode pensar que estou exagerando... Ou imaginando coisas.”

 

“E você está?”

 

“Não.”

 

Barbie ficou satisfeita.

 

“Se Gabriel não levar você a sério, vamos juntas à polícia. Você e eu. Eu sei ser bastante persuasiva, pode acreditar em mim.”

 

“Obrigada, mas isso não vai ser necessário.”

 

“Já é necessário! Você tem que levar essa coisa a sério, meu bem. Me promete que vai contar para Gabriel quando ele voltar?”

 

Fiz que sim. Mas já estava decidida a não dizer mais nada a Gabriel. Não havia nada a contar. Não tenho prova nenhuma de que o cara estava me seguindo ou me vigiando. Barbie tinha razão, a foto não prova nada.

 

Era tudo fruto da minha imaginação — é isso que Gabriel vai dizer. Melhor não falar nada para não chateá-lo de novo. Não quero incomodá-lo.

 

Vou esquecer essa história toda.

 

4 H

 

Foi uma noite péssima.

Gabriel chegou exausto por volta das dez. Tinha tido um dia puxado e queria ir para a cama cedo. Eu também tentei dormir, mas não consegui.

 

Até que umas duas horas atrás ouvi um barulho. Veio do jardim. Levantei e fui para a janela dos fundos. Olhei para fora e não vi ninguém, mas senti que estava sendo observada. Alguém estava no escuro me observando.

 

Me afastei da janela e corri até o quarto. Sacudi Gabriel para acordá-lo.

 

“O cara está ali fora, ali no jardim.”

 

Gabriel não entendeu do que eu estava falando. Ao se dar conta, começou a ficar irritado.

 

“Pelo amor de Deus! Esquece isso. Eu tenho que estar no trabalho daqui a três horas. Me deixa fora dessa brincadeira.”

 

“Não é brincadeira. Vem olhar. Por favor.”

 

Fomos até a janela...

 

E, é claro, o sujeito não estava lá. Não havia ninguém.

 

Eu queria que Gabriel saísse para verificar, mas ele não foi lá fora. Subiu de novo, irritado. Tentei argumentar com ele, mas ele disse que não queria falar e foi dormir no outro quarto.

 

Não voltei para a cama. Estou sentada aqui desde aquela hora, esperando, ouvidos em alerta, prestando atenção ao menor som, verificando as janelas. Nenhum sinal até agora.

 

Faltam só umas duas horas. Logo vai amanhecer.

 

15 DE AGOSTO

 

Gabriel desceu pronto para sair para a sessão de fotos. Quando me viu perto da janela e percebeu que eu tinha passado a noite em claro, ele se acalmou e começou a agir de um jeito estranho.

 

“Alicia, senta aqui. A gente precisa conversar.”

 

“Sim. Precisa mesmo. Sobre o fato de você não acreditar em mim.”

 

“Eu acredito que você acredita nisso.”

“Não é a mesma coisa. Eu não sou burra.”

 

“Eu não disse isso.”

 

“Então o que você está dizendo?”

 

Achei que íamos começar uma briga, e fui pega de surpresa pelo que Gabriel disse. Ele falou sussurrando. Eu mal consegui ouvir. Ele disse:

 

“Você precisa conversar com alguém. Por favor.”

 

“Como assim? Com alguém da polícia?”

 

“Não”, Gabriel respondeu, irritado outra vez. “Isso não tem nada a ver com a polícia.”

 

Entendi o que Gabriel queria dizer. Mas queria que ele dissesse com todas as letras.

 

“Então quem?”

 

“Um médico.”

 

“Eu não vou ver médico nenhum, Gabriel...”

 

“Você tem que fazer isso por mim. Essa relação é uma via de mão dupla. Não adianta de nada se um só trilhar esse caminho.”

 

“Do que você está falando? Eu estou bem aqui.”

 

“Não, não está. Você não está aqui!”

 

Ele parecia exausto e contrariado. Tive vontade de protegê-lo. Confortá-lo.

 

“Está tudo bem, amor. Vai ficar tudo bem, você vai ver.”

 

Gabriel fez que não com a cabeça, como se não acreditasse em mim.

 

“Vou marcar uma consulta com o dr. West. Assim que ele tiver horário. Se possível, hoje.” Ele hesitou e olhou para mim. “Tudo bem?”

 

Gabriel estendeu a mão para segurar a minha... E eu queria bater nela ou arranhá-la. Queria mordê-lo, bater nele ou jogá-lo na mesa e gritar: “Você acha que eu fiquei louca, mas eu não estou louca não! Não estou, não estou, não estou!”

Mas não fiz nada disso. Tudo que fiz foi concordar e pegar a mão de Gabriel.

 

“Tudo bem, amor. Como você quiser.”

 

16 DE AGOSTO

 

Tive uma consulta com o dr. West hoje. Contrariada, mas fui.

 

Eu odeio esse cara, é isso. Eu odeio esse cara e sua casa apertada, ficar sentada naquela saleta esquisita lá em cima, ouvindo o cachorro latir na sala de estar. Ele não parou de latir o tempo todo, enquanto estive lá. Eu queria gritar para fazê-lo parar, achava que o dr. West ia tomar alguma providência, mas era como se ele não ouvisse. Talvez não estivesse ouvindo mesmo. Como não parecia ouvir o que eu dizia... Contei o que tinha acontecido. Falei do sujeito espionando a casa, que havia me seguido no parque. Contei tudo isso, mas ele não esboçou nenhuma reação. Ficava lá sentado com aquele sorrisinho. Me olhava como se eu fosse um inseto ou coisa parecida. Eu sei que ele é amigo de Gabriel, mas não entendo como os dois podem ser amigos. Gabriel é uma pessoa tão calorosa, e o dr. West é o exato oposto. É algo estranho a se dizer sobre um médico, mas ele parece não sentir compaixão.

 

Quando terminei de contar a história do tal sujeito, ele ficou um tempão sem falar. O silêncio parecia que não acabava nunca. O único som era aquele cachorro lá embaixo. Eu comecei a sintonizar mentalmente com os latidos e a entrar numa espécie de transe. E fui pega de surpresa quando o dr. West abriu a boca para falar.

 

“Já passamos por isso antes, Alicia, não é mesmo?”

 

Olhei para ele sem entender. Eu não estava captando direito o que ele queria dizer.

 

“Já?”

 

Ele fez que sim.

 

“Sim. Já.”

 

“Eu sei que você acha que eu estou imaginando tudo isso. Mas não estou. É real.”

 

“Foi o que você disse da última vez, lembra? Lembra o que aconteceu?”

 

Não respondi. Não queria lhe dar essa satisfação. Fiquei apenas olhando para ele, feito uma criança desobediente.

 

O dr. West não esperou a resposta. Continuou falando, lembrando o que aconteceu após a morte do meu pai, o colapso nervoso que sofri, as acusações paranoicas que fazia — eu achava que estava sendo espionada, seguida, vigiada.

 

“Como você pode ver, já passamos por isso antes, certo?”

 

“Mas era diferente. Antes era só uma sensação. Eu não via ninguém. Dessa vez eu vi uma pessoa.”

 

“E quem foi que você viu?”

 

“Eu já disse. Um homem.”

 

“Descreva esse homem para mim.”

 

Hesitei.

 

“Não consigo.”

 

“Por quê?”

 

“Não deu para ver com clareza. Eu já expliquei, ele estava longe.”

 

“Entendo.”

 

“E também... estava disfarçado. De boné. Óculos escuros.”

 

“Muita gente usa óculos escuros nessa época do ano. E boné. Mas será que isso é um disfarce?”

 

Eu estava começando a perder a paciência.

 

“Já entendi aonde você quer chegar.”

 

“Aonde?”

 

“Você quer que eu admita que estou enlouquecendo de novo, como depois da morte de papai.”

 

“É o que você acha que está acontecendo?”

 

“Não. Daquela vez eu fiquei doente. Mas agora, não. Não tem nenhum problema comigo, além do fato de que tem alguém me espionando e você não acredita!”

 

O dr. West fez que sim, mas não disse nada. Anotou algumas coisas.

 

“Vou prescrever a medicação para você de novo. Por precaução. Para que a situação não saia do controle, certo?”

 

Balancei a cabeça.

 

“Eu não vou tomar nada.”

 

“Entendo. Bom, se você recusar a medicação, é importante estar ciente das consequências.”

 

“Que consequências? Você está me ameaçando?”

 

“Isso não tem nada a ver comigo. Eu estou falando do seu marido. Como você acha que Gabriel se sente em relação ao que ele passou da última vez que você não esteve bem?”

 

Imaginei Gabriel lá embaixo, esperando na sala com o cachorro que não parava de latir.

 

“Não sei. Por que você não pergunta a ele?”

 

“Você quer que ele passe por tudo aquilo de novo? Não acha que talvez haja um limite para o que ele é capaz de suportar?”

 

“Como assim? Eu vou perder Gabriel? É nisso que você está pensando?”

 

O simples fato de dizer isso já me deixava enjoada. A ideia de perdê-lo era insuportável. Eu faria qualquer coisa para não perder Gabriel, até me fingir de louca, mesmo sabendo que não estou. Então cedi. Concordei em ser “honesta” com o dr. West sobre o que estava pensando e sentindo e dizer se estava ouvindo vozes. Prometi tomar os comprimidos e voltar em duas semanas.

 

O dr. West ficou satisfeito. Ele disse que agora podíamos descer e encontrar Gabriel. Enquanto ele descia à minha frente, cheguei a pensar em empurrá-lo escada abaixo. Devia ter feito isso.

 

Gabriel parecia muito mais satisfeito quando voltamos para casa. Ele ficava olhando para mim enquanto dirigia, sorrindo.

 

“Muito bem. Estou orgulhoso de você. Nós vamos superar isso, você vai ver.” Concordei sem dizer nada. Porque esse comentário era uma tremenda bobagem. “Nós” não vamos superar isso.

 

Eu é que vou ter que enfrentar isso sozinha.

 

Foi um erro contar isso para outras pessoas. Amanhã vou pedir a Barbie que esqueça essa história — vou dizer que deixei isso pra lá e que não quero mais tocar no assunto. Ela vai achar que eu sou estranha e ficar chateada por se ver privada do drama, mas, se eu agir com naturalidade, logo vai esquecer. E, com Gabriel, vou esperar até que ele pare de se preocupar. Vou me comportar como se tudo tivesse voltado ao normal. Vai ser uma atuação brilhante. Não vou baixar a guarda um segundo sequer.

 

Na volta, passamos na farmácia e Gabriel comprou o remédio. Em casa, fomos para a cozinha. Ele me entregou os comprimidos amarelos com um copo de água.

 

“Toma.”

 

“Eu não sou uma criança. Você não precisa me entregar assim.”

 

“Eu sei que você não é uma criança. Só quero ter certeza de que você tomou e não jogou fora.”

 

“Eu vou tomar.”

 

“Então toma.”

 

Gabriel ficou olhando enquanto eu levava os comprimidos à boca e tomava um gole de água.

 

“É assim que se faz”, ele disse, me dando um beijo no rosto. E se retirou.

 

Assim que Gabriel deu as costas, cuspi os comprimidos. Cuspi na pia e abri a torneira. Não vou tomar remédio nenhum. As drogas que o dr. West me deu da última vez quase me deixaram louca. E não vou correr esse risco de novo.

 

Eu preciso da minha sanidade no momento.

 

Eu preciso estar preparada.

 

17 DE AGOSTO

 

Comecei a esconder esse diário. Tem uma tábua frouxa no assoalho do quarto desocupado. É onde o tenho mantido, oculto debaixo das tábuas. Por quê? Bem, eu tenho sido sincera demais nessas páginas. Não é seguro deixá-lo por aí. Fico imaginando Gabriel encontrando o caderninho, tentando resistir à curiosidade, mas por fim abrindo-o e começando a lê-lo. Se descobrisse que não estou tomando os remédios, ele ia se sentir traído e magoado, e eu não aguentaria.

 

Graças a Deus tenho esse diário no qual escrever. É ele que me mantém com a cabeça no lugar. Não tem mais ninguém com quem eu possa falar.

 

Ninguém em quem possa confiar.

 

21 DE AGOSTO

 

Não saio de casa há três dias. Digo a Gabriel que vou caminhar à tarde quando ele não está, mas não é verdade.

 

A simples ideia de sair me deixa amedrontada. Eu fico muito exposta. Pelo menos aqui, dentro de casa, estou em segurança. Posso ficar sentada perto da janela vendo quem passa. Controlo cada rosto que passa em busca do tal sujeito, mas não sei como ele é; e esse é o problema. Ele pode muito bem ter tirado o disfarce e estar andando na minha frente sem ser notado.

 

Esse é um pensamento alarmante!

 

22 DE AGOSTO

 

Nenhum sinal dele ainda. Mas não posso perder o foco. É só uma questão de tempo. Mais cedo ou mais tarde ele vai voltar. Eu tenho que estar preparada. Tenho que tomar as medidas necessárias.

 

Acordei hoje de manhã e me lembrei da arma de Gabriel. Vou tirá-la do quarto desocupado. Deixá-la lá embaixo, ao alcance. Dentro do armário da cozinha, perto da janela. Assim vai ser fácil pegá-la se for preciso.

 

Sei que tudo isso parece loucura. Espero que não dê em nada. Espero nunca mais voltar a ver esse sujeito.

 

Mas tenho um pressentimento terrível de que vou voltar a vê-lo.

 

Onde ele está? Por que não está aqui? Está esperando que eu baixe a guarda? Não posso, de jeito nenhum. Tenho que continuar montando guarda aqui na janela.

Continuar esperando.

 

Continuar alerta.

 

23 DE AGOSTO

 

Estou começando a achar que imaginei essa história toda. Pode ser.

 

Gabriel sempre pergunta como eu estou, se estou bem. Dá para perceber que ele está preocupado, por mais que eu insista que estou bem. Parece que minha interpretação já não é mais convincente. Preciso me esforçar mais. Finjo estar focada no trabalho o dia inteiro, mas a verdade é que minha cabeça não podia estar mais distante da pintura. Perdi o interesse por completo, não sinto o menor impulso de concluir os quadros. Nesse exato momento, nem sequer posso dizer com sinceridade que ache que um dia vou voltar a pintar. Não sem antes conseguir deixar toda essa história para trás.

 

Tenho inventado desculpas para não sair de casa, mas Gabriel disse que hoje eu não tinha opção. Max nos convidou para jantar fora.

 

Não posso imaginar nada pior que encontrar Max. Insisti com Gabriel para cancelar, dizendo que eu precisava trabalhar, mas ele argumentou que me faria bem sair. Gabriel insistiu, e dava para ver que não ia ceder, portanto não tive escolha. Cedi e concordei.

 

Passei o dia inteiro preocupada com como seria a noite. Porque, assim que minha cabeça se focou no assunto, tudo se encaixou. Tudo fazia sentido. Nem sei por que não pensei nisso antes, é tão óbvio.

 

Agora eu entendo. O homem — o homem que fica espionando — não é Jean-Felix. Jean-Felix não é sorrateiro e perverso o bastante para fazer esse tipo de coisa. Quem mais desejaria me atormentar, me amedrontar, me punir?

 

Max.

 

É claro que é Max. Só pode ser Max. Ele está tentando me levar à loucura.

 

Estou com medo, mas preciso dar um jeito de reunir coragem. Vai ser essa noite.

 

Vou confrontá-lo.

 

24 DE AGOSTO

Foi estranho e meio assustador sair ontem à noite, depois de tanto tempo dentro de casa.

 

O mundo lá fora parecia gigantesco, um espaço vazio ao meu redor, com o céu enorme lá em cima. Me senti minúscula e precisei me apoiar no braço de Gabriel.

 

Embora tivéssemos marcado no nosso restaurante favorito, o Augusto’s, eu não me sentia segura. Não parecia aconchegante nem familiar como costumava ser. Tinha alguma coisa diferente no restaurante. E o cheiro também estava diferente, como se algo estivesse queimando. Perguntei a Gabriel se tinha alguma coisa queimando na cozinha, mas ele disse que não estava sentindo nada, que eu estava imaginando coisas.

 

“Está tudo bem. Fica calma.”

 

“Eu estou calma. Por quê? Não estou parecendo calma?”

 

Gabriel não respondeu. Só trincou os dentes, como sempre faz quando está chateado. Ficamos ali em silêncio esperando Max.

 

Max levou a recepcionista para jantar. Ela se chama Tanya. Parece que começaram a sair há pouco tempo. Max se comportava feito um homem apaixonado, colocando as mãos em cima dela, tocando, beijando o tempo todo — e tudo sem parar de olhar para mim. Será que estava achando que ia me causar ciúme? Ele é horrível. Me dá nojo.

 

Tanya percebeu que havia alguma coisa rolando — ela pegou Max olhando para mim umas vezes. Eu devia mesmo dar um jeito de alertá-la sobre ele. Contar onde estava se metendo. Talvez eu conte, mas não por enquanto. No momento tenho outras prioridades.

 

Max disse que ia ao banheiro. Esperei um segundo e aproveitei a oportunidade. Disse que também precisava ir. Levantei da mesa e fui atrás dele.

 

Consegui alcançá-lo ao virar no corredor e agarrei seu braço. Com força.

 

Eu falei:

 

“Para com isso. Para com isso.”

 

Ele pareceu confuso.

 

“Parar o quê?”

“Você tem me espionado, Max. Me vigiado. Você sabe disso.”

 

“O quê? Eu não faço a menor ideia do que você está falando, Alicia.”

 

“Deixa de ser mentiroso.” Eu já estava com dificuldade para controlar a voz. Queria gritar. “Eu consegui ver muito bem, sabia? Eu tirei uma foto. Eu tirei uma foto sua!”

 

Max riu.

 

“Que história é essa? Me larga, sua piranha maluca!”

 

Eu dei um tapa na cara dele. Forte.

 

Então me virei e vi Tanya parada. Parecia que era ela quem tinha levado o tapa.

 

O olhar de Tanya ia de mim para Max e vice-versa, mas ela não disse nada. Tanya simplesmente foi embora do restaurante.

 

Max me encarou com fúria no olhar, e, antes de ir atrás dela, sibilou:

 

“Eu não faço a menor ideia do que você está falando. Eu não estou espionando ninguém, caralho. Sai da minha frente.”

 

Do jeito como ele falou, com tanta raiva e desprezo, dava para ver que Max estava dizendo a verdade. Eu acreditei nele. Não queria, mas acreditei.

 

Mas, se não é Max... quem então?

 

25 DE AGOSTO

 

Acabei de ouvir alguma coisa. Um barulho lá fora. Fui verificar na janela. Vi uma pessoa se mexendo no escuro...

 

É o homem. Ele está lá fora.

 

Liguei para Gabriel, mas ele não atendeu. Será que eu chamo a polícia? Não sei o que fazer. Minha mão treme tanto que nem consigo...

 

Estou ouvindo... Lá embaixo... Ele está tentando abrir as janelas e as portas. Ele quer entrar.

 

Preciso sair daqui. Tenho que fugir.

Meu Deus do céu... Dá para ouvir...

 

Ele entrou.

 

Ele está aqui dentro de casa.