A Paciente Silenciosa

Alex Michaelides · Capítulo 56 de 74

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A Paciente Silenciosa

Capítulo 8

 

A casa estava escura quando nos aproximamos.

— É aqui — avisou Paul. — Vem comigo.

Havia uma escada de ferro do lado de fora da casa. Fomos até ela. A lama estava congelada, dura, formando esculturas de sulcos e ondas. Sem me esperar, Paul começou a subir.

Ficava mais e mais frio. Eu me perguntava se tinha sido uma boa ideia. Fui atrás dele e agarrei o primeiro degrau — gelado e escorregadio. Estava coberto por uma espécie de trepadeira; hera, talvez.

Fui subindo, degrau por degrau. Quando cheguei ao topo, meus dedos estavam dormentes e o vento castigava o meu rosto. Passei para o telhado. Paul me esperava com um sorriso empolgado, parecendo um adolescente. Um fio de lua brilhava acima de nós; o resto era escuridão.

De repente, Paul se precipitou na minha direção com uma expressão estranha. Tive uma reação de pânico ao ver seu braço estendido para mim e desviei, mas ele me agarrou. Por um momento de absoluto terror, achei que Paul ia me jogar lá de cima.

Mas o que ele fez foi me puxar em sua direção.

— Você está muito na beirada. Fica aqui no meio. É mais seguro.

Concordei, recobrando o fôlego. Mas que ideia idiota! Eu não me sentia nem um pouco seguro perto de Paul. Estava quase sugerindo que descêssemos quando ele pegou seu maço de cigarros e me ofereceu um. Hesitei, mas acabei aceitando. Meus dedos tremiam quando peguei meu isqueiro e acendi os cigarros.

Ficamos ali de pé, fumando em silêncio por um instante.

— A gente costumava sentar aqui. Alicia e eu. Praticamente todo dia.

— Que idade vocês tinham?

— Eu tinha uns 7, talvez 8. Alicia não devia ter mais de 10.

— Vocês eram meio pequenos para ficar subindo escadas assim.

— Acho que sim. Para a gente parecia normal. Na adolescência, a gente subia para fumar e tomar cerveja.

Tentei imaginar Alicia na adolescência, escondendo-se do pai e dos maus-tratos da tia; e Paul, o priminho que a adorava, subindo atrás dela na escada, enchendo o saco dela quando ela preferia ficar em silêncio, sozinha com seus pensamentos.

— Esse é um bom esconderijo — comentei.

Paul concordou.

— Tio Vernon não conseguia subir a escada. Ele era muito corpulento, como mamãe.

— Até eu quase não consegui subir. Aquela hera é uma armadilha mortal.

— Não é hera, é jasmim. — Paul olhou para as trepadeiras que se enroscavam no alto da escada. — Nada de flores ainda... Só na primavera. Ficam com perfume na estação, quando tem muitas. — Por um segundo, ele mergulhou nas lembranças. — É engraçado isso.

— O quê?

— Nada. — Paul deu de ombros. — As coisas que a gente lembra... Eu estava pensando no jasmim... Estava todo florido naquele dia, no dia do acidente, quando Eva morreu.

Olhei ao redor.

— Você disse que veio aqui com Alicia.

Paul fez que sim.

— Mamãe e tio Vernon estavam procurando a gente lá embaixo. Dava para ouvir os dois chamando a gente. Mas ficamos quietos. Escondidos. E foi quando aconteceu.

Ele apagou o cigarro e me olhou com um sorriso estranho.

— Por isso eu trouxe você aqui. Para você ver... a cena do crime.

— Crime?

Paul não respondeu, só continuou com o sorriso enigmático.

— Que crime, Paul?

— O crime de Vernon. Tio Vernon não era um bom sujeito, sabe? Não era

mesmo.

— O que você quer dizer com isso?

— Foi quando ele fez.

— Fez o quê?

— Foi quando ele matou Alicia.

Fiquei encarando Paul, sem acreditar no que tinha ouvido.

— Matou Alicia? Como assim?

Paul apontou para o chão lá embaixo.

— Tio Vernon estava lá embaixo com mamãe. Bêbado. Mamãe tentava fazer com que ele entrasse de novo. Mas ele não saía de lá e ficava chamando Alicia. Estava furioso com ela. Ele estava morrendo de raiva.

— Porque ela estava se escondendo? Mas Alicia era uma criança, a mãe dela tinha acabado de morrer...

— Tio Vernon era um sujeito cruel e desgraçado. A única pessoa com quem ele se importava era tia Eva. Acho que foi por isso que ele disse o que disse.

— Disse o quê? — Eu estava perdendo a paciência. — Não estou entendendo aonde você quer chegar. O que aconteceu?

— Vernon não parava de dizer que amava Eva, que não podia viver sem ela. Ele ficava repetindo: “Minha garota, minha pobre menina, minha Eva... Por que ela foi morrer? Por que tinha que ser ela? Por que Alicia não morreu no lugar dela?”

Encarei Paul por um segundo, perplexo. Não tinha certeza se havia entendido direito.

— Por que Alicia não morreu no lugar dela?

— Foi o que ele disse.

— E ela ouviu?

— Sim. E sussurrou para mim... Eu jamais vou me esquecer disso: “Ele me matou. Papai... acabou de me matar.”

Eu continuava olhando para Paul, sem palavras. Sinos começaram a repicar na minha cabeça, retinindo, reverberando. Era isso que eu estava procurando. E tinha encontrado, a peça que faltava no quebra-cabeça, finalmente... Ali, num telhado em Cambridge.

 

No retorno para Londres, fiquei pensando em todas as implicações do que

tinha ouvido. Agora entendia por que Alicia havia ficado tão impressionada com Alceste. Assim como Admeto havia condenado Alceste a morrer, Vernon Rose tinha condenado psiquicamente sua filha à morte. Admeto devia amar Alceste em algum nível, mas não havia amor nenhum em Vernon Rose, apenas ódio. Ele havia cometido um infanticídio psíquico, e Alicia sabia disso.

“Ele me matou”, disse ela. “Papai acabou de me matar.”

Finalmente eu tinha algo com que trabalhar. Algo que conhecia — os efeitos emocionais das feridas psicológicas nas crianças e como se manifestam na vida adulta. Imaginem só: ouvir o próprio pai, a pessoa de quem se depende para sobreviver, desejando sua morte. O quanto isso deve ser aterrorizante para uma criança, quão traumatizante — quanto dano isso pode causar à autoestima, e a dor é grande, grande demais para ser sentida, então ela é engolida, reprimida, enterrada. Com o tempo, perde-se o contato com as origens do trauma, desassocia-se das raízes da causa, e ele é esquecido. Mas um dia toda a dor e a raiva vêm à tona numa explosão, como um dragão expelindo o fogo que se forma em sua barriga — e pega-se uma arma. A raiva não é direcionada ao pai, que já morreu e está esquecido, fora de alcance, mas ao marido, o homem que tomou o lugar dele, que amava e com quem se dividia a cama. Então são dados cinco tiros na cabeça dele, sem que sequer se saiba o motivo.

O trem atravessava a noite em direção a Londres. Finalmente, pensei... Finalmente eu sabia como chegar até ela.

Agora podíamos começar.