A Paciente Silenciosa

Alex Michaelides · Capítulo 32 de 74

Páginas do PDF

A Paciente Silenciosa

Capítulo 20

 

Segui Jean-Felix até um depósito. Ele se dirigiu a uma estante grande, puxou um painel retrátil e tirou dele três quadros envoltos em cobertores, desembrulhando-os cuidadosamente. Em seguida, recuou um passo e me apresentou o primeiro com um floreio.

— Voilà.

Observei-o. A pintura era fotorrealista, como as outras obras de Alicia. Representava o acidente de carro que matou a mãe dela. O corpo de uma mulher na carcaça, debruçado sobre o volante. Ensanguentada, ela estava evidentemente morta. Seu espírito, sua alma, se desprendia do cadáver como um enorme pássaro de asas amarelas, levantando voo para o céu.

— Não é glorioso? — Jean-Felix olhava para o quadro. — Todos esses amarelos e verdes e vermelhos... Eu seria capaz de me perder neles. É radiante!

“Radiante” não era exatamente a palavra que eu escolheria. “Perturbador”, talvez. Não sabia ao certo o que sentir.

Passei então à pintura seguinte. Uma imagem de Jesus na cruz. Quer dizer...

— É Gabriel — comentou Jean-Felix. — Bem semelhante.

Era Gabriel, mas retratado como Jesus, crucificado, o sangue pingando das feridas, uma coroa de espinhos na cabeça. Os olhos não estavam voltados para baixo, mas arregalados, torturados, decididamente acusativos. Pareciam me atravessar. Olhei mais de perto, examinando o objeto extravagante preso por uma bandoleira ao torso de Gabriel. Uma espingarda.

— É a arma que o matou?

Jean-Felix fez que sim.

— Sim. Era dele, eu acho.

— E o quadro foi pintado antes do crime?

— Mais ou menos um mês antes. Mostra o que ela já tinha em mente, certo?

Jean-Felix passou à terceira pintura. Uma tela maior que as outras.

— Esse é o melhor. Recue um pouco para ter uma boa visão.

Eu fiz o que ele sugeriu, recuando alguns passos. E me voltei para olhar. No momento em que vi o quadro, involuntariamente dei uma risada.

Ele retratava a tia de Alicia, Lydia Rose. E era evidente por que a havia irritado tanto. Lydia estava nua, reclinada numa cama minúscula. A cama vergava sob seu peso. Ela era monstruosamente gorda, uma explosão de carnes se derramando pela cama e chegando ao chão, espalhando-se pelo quarto, formando ondas e dobras como ondas de creme de ovos.

— Meu Deus! Isso foi cruel.

— Eu acho encantador. — Jean-Felix me olhava com interesse. — Você conhece Lydia?

— Sim, fui fazer uma visita.

— Entendo. — Ele sorriu. — Você está fazendo o seu dever de casa direitinho. Eu não conheci Lydia. Alicia odiava a tia, como você bem sabe.

— Pois é. — Eu olhava para o quadro. — É, dá para sentir.

Jean-Felix começou a embrulhar de novo os quadros.

— E Alceste? — perguntei. — Posso ver?

— Claro. Vem comigo.

Ele me conduziu por uma passagem estreita até o fim da galeria, onde Alceste ocupava sozinha uma parede. Bela e misteriosa como na minha lembrança. Alicia no ateliê, diante de uma tela em branco, pintando com um pincel vermelho-sangue. Analisei sua expressão. Que, como sempre, escapava a qualquer interpretação. Franzi a testa.

— É impossível de ler.

— É exatamente esse o ponto, a recusa de qualquer comentário. É uma pintura sobre o silêncio.

— Não sei se entendi o que o senhor está dizendo.

— No cerne de toda arte tem sempre um mistério. O segredo de Alicia é o seu segredo, seu mistério, no sentido religioso. Por isso ela deu o nome de

Alceste. Você já leu? Eurípides. — Ele me lançou um olhar curioso. — Leia. Você vai entender.

Fiz que sim, e notei na pintura algo que não havia observado antes. Me inclinei para ver melhor. No fundo do quadro havia uma fruteira em cima da mesa, com peras e maçãs. E nas cascas das maçãs e saindo de dentro delas pequenas massas brancas escorregadias.

Apontei para elas.

— Isso são...?

— Larvas? — Jean-Felix assentiu. — Sim.

— Fascinante. Me pergunto o que significam.

— Essa obra é uma maravilha. Uma verdadeira obra-prima. — Jean-Felix suspirou e olhou para mim. Baixou a voz, como se Alicia pudesse nos ouvir. — É uma pena que você não tenha conhecido Alicia na época. Era a pessoa mais interessante que eu já havia conhecido. A maioria das pessoas não vive realmente, passando pela vida como sonâmbulas. Mas Alicia vivia com uma intensidade incrível... Era difícil tirar os olhos dela. — Jean-Felix se virou para o quadro outra vez e observou o corpo nu de Alicia. — Tão linda.

Olhei de novo para o corpo de Alicia. Entretanto, onde ele via beleza, eu só via sofrimento; feridas e escoriações de automutilação.

— Ela alguma vez falou com o senhor da tentativa de suicídio?

Eu estava apenas sondando, mas Jean-Felix mordeu a isca.

— Ah, você sabe disso? Sim, claro.

— Depois da morte do pai?

— Ela ficou devastada. — Jean-Felix fez que sim com a cabeça. — A verdade é que a cabeça de Alicia estava toda fodida. Não como artista, mas como pessoa; ela era extremamente vulnerável. E quando o pai se enforcou foi demais para ela. Não deu para aguentar.

— Ela devia amar muito o pai.

Jean-Felix conteve uma risada. Ele me olhou como se eu fosse louco.

— Do que você está falando?

— Como assim?

— Alicia não amava o pai. Ela o odiava. Ela o desprezava.

Fui pego de surpresa.

— Ela disse isso?

— Claro que disse. Ela odiava o pai desde pequena, desde a morte da mãe.

— Mas... Por que então tentar se matar depois da morte dele? Se não era de tristeza, por que então?

Jean-Felix deu de ombros.

— Culpa, talvez? Como é que podemos saber?

Ele estava escondendo algo de mim. Alguma coisa não encaixava. Alguma coisa estava errada.

O celular de Jean-Felix tocou.

— Com licença um instantinho.

Ele me deu as costas para atender. Do outro lado, uma voz feminina. Os dois marcaram uma hora para se encontrar.

— Depois eu ligo, querida.

Jean-Felix se virou para mim de novo.

— Me desculpe.

— Sem problema. Namorada?

Ele sorriu.

— Só uma amiga... Eu tenho muitos amigos.

Aposto que tem mesmo, pensei. E senti uma leve aversão, não sei por quê.

Depois que ele me levou até a saída, fiz uma última pergunta.

— Só mais uma coisa: Alicia alguma vez mencionou um médico?

— Um médico?

— Parece que ela recebeu um médico na época da tentativa de suicídio. Estou tentando localizá-lo.

— Humm... — Jean-Felix franziu a testa. — Possivelmente... havia mesmo...

— O senhor se lembra do nome dele?

Jean-Felix pensou por um segundo e acenou negativamente com a cabeça.

— Não, sinto muito. Sinceramente, não lembro.

— Bom, se lembrar em algum momento poderia me informar?

— Claro. Mas duvido. — Ele olhou de relance para mim e hesitou. — Quer um conselho?

— Seria muito bem-vindo.

— Se você realmente quer fazer Alicia falar... bote tintas e pincéis na mão dela. Deixe Alicia pintar. Só assim ela vai falar com você. Por meio da arte.

— É uma ideia interessante... Muito obrigado pela ajuda, sr. Martin.

— Ah, e pode me chamar de Jean-Felix. E, quando estiver com Alicia, diga

que a amo.

Ele sorriu, e mais uma vez senti uma leve repulsa; alguma coisa em Jean-Felix era difícil de engolir. Dava para perceber que ele de fato havia sido muito próximo de Alicia; os dois se conheciam há muito tempo, e era óbvio que ele se sentia atraído por ela. Estaria apaixonado? Não dava para saber. Eu me lembrei do rosto de Jean-Felix ao contemplar Alceste. Sim, havia amor em seus olhos, mas amor pela pintura, não necessariamente pela pintora. Jean-Felix cobiçava a arte. Caso contrário, teria visitado Alicia no Grove. Teria ficado ao seu lado, disso eu tinha certeza. Um homem jamais abandona uma mulher desse jeito.

Pelo menos não quando a ama.