A Tenda Vermelha

Anita Diamant · Capítulo 9 de 18

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A Tenda Vermelha

Capítulo 4

 

José e eu voltamos ao acampamento com medo de sermos questionados acerca da nossa ausência e fazendo por esconder dos olhos da curiosidade das nossas mães o acontecido. Mas ninguém nos viu chegar. Todos os olhos estavam fixos num estranho que se postara diante de Jacob. O homem falava com o sotaque entrecortado do Sul, e as primeiras palavras que ouvi da boca dele foram: “O meu pai.” Quando dei sorrateiramente a volta para ver a cara ao mensageiro, percebi que só podia ser um parente.

Era Elifaz, filho mais velho de Esaú, e meu primo, e tão parecido com Judá, que eu tapei a boca com a mão para não o dizer alto. Ele era tão coradinho e bonito como Judá, embora mais alto de fato, tão alto quanto Ruben. Ele falou com os gestos de Ruben: a cabeça a pender para um dos lados, o braço esquerdo a envolver-lhe a cintura, a mão direita a fechar e a abrir - à medida que nos trazia as notícias que temíamos há tanto tempo.

- O meu pai chega antes do anoitecer - disse Elifaz. - Vem com os meus irmãos e com servos e escravos, quarenta ao todo, incluindo as mulheres. A minha mãe está entre elas - acrescentou, fazendo um aceno de cabeça em direção às minhas mães, que sorriram, em resposta à cortesia, embora a contragosto.

Enquanto Elifaz falou, a cara do meu pai foi uma máscara imutável e impassível. No entanto, no seu coração, ele reprovava-se a si próprio e chorava. Os cuidadosos planos dele para nos dividir, para que Esaú não nos pudesse destruir com um só ataque, viam-se agora esmagados. Eram inúteis todas aquelas noites passadas a dizer aos meus irmãos quais os animais que deveriam ser dados como oferenda de paz, quais deveriam ser escondidos das garras de Esaú. As minhas mães ainda nem sequer tinham começado a separar e preparar os bens que o meu pai queria apresentar ao seu irmão mais velho, com a esperança de apaziguar a sua terrível ira.

Mas, agora, tinha caído numa armadilha, e amaldiçoava-se por ocupar os seus pensamentos durante demasiado tempo com demônios e anjos, e por nublar o seu objetivo, pois as nossas tendas estavam numa posição indefensável, com o rio a bloquear-nos a fuga. Jacob, no entanto, não traiu nada disto ao sobrinho. Recebeu Elifaz com igual cortesia e agradeceu-lhe a mensagem. Conduziu-o à sua própria tenda, convidou-o a descansar, pediu comida e bebida. Lea foi preparar a refeição. Raquel trouxe-lhe cerveja de cevada, mas as mulheres não se apressaram, para que Jacob tivesse tempo para pensar. Enquanto Elifaz descansava, Jacob encontrou a minha mãe e disse-lhe que vestisse as mulheres com os seus melhores vestidos e que preparasse oferendas. Disse a Ruben que juntasse os irmãos, também nos seus melhores trajes, mas disse-lhes que deviam pôr adagas escondidas à cintura, para que Esaú não os pudesse massacrar sem algum custo para ele próprio. Tudo isto foi feito rapidamente, de modo a que, quando Elifaz se levantasse da sua refeição, estivéssemos todos vestidos e prontos para partir.

- Não é necessário, tio - disse Elifaz. - O meu pai vem ter contigo. Porque não recebê-lo aqui com todo o conforto? Mas Jacob disse que não.

- Tenho de receber o meu irmão de maneira apropriada a um homem da posição dele. Vamos ter com ele para o acolher. Deixando apenas os servos e suas mulheres para trás, Jacob conduziu-nos. Elifaz caminhou ao lado dele, seguido da oferenda de animais (doze fortes cabras e dezoito saudáveis ovelhas) conduzidos pelos meus irmãos. Vi Lea a olhar para trás por sobre o ombro, e vi tristeza e medo passarem-lhe pelo rosto como nuvens que passam frente ao Sol, mas ela pôs a mágoa rapidamente de lado e refez a sua expressão numa imagem de serenidade.

Andamos durante pouco tempo (nem sequer o suficiente para que os nossos longos vestidos ficassem empoeirados) até o meu pai pousar o seu cajado. Esaú estava à vista do outro lado de um vale suavemente inclinado. Jacob caminhou sozinho para cumprimentar o irmão e Esaú fez o mesmo, seguidos a curta distância pelo séquito de filhos crescidos. Do monte, observei aterrorizada os dois homens a encontrarem-se cara a cara. Num instante, o meu pai estava no chão perante o irmão. Durante um horrível momento, pensei que ele tinha sido derrubado por uma seta ou uma lança invisíveis. Mas, depois, ele pôs-se de joelhos e curvou-se muito, prostrando-se no pó, uma e outra vez, sete vezes ao todo. Era o cumprimento de um escravo ao seu senhor. A minha mãe desviou o olhar, envergonhada.

Aparentemente, o meu tio também estava pouco à vontade com a exibição do irmão, pois baixou-se e pegou em Jacob pelo braço, abanando a cabeça de um lado para o outro. Eu estava demasiado longe para ouvir as palavras, mas percebemos que os dois homens falavam entre si, primeiro agachados perto do chão, depois em pé. E, então, o impensável aconteceu. Esaú lançou os braços em volta do meu pai. Os meus irmãos puseram imediatamente as mãos nas adagas que tinham escondidas à cintura. Mas Esaú tinha-se mexido, não para magoar o irmão, mas para o beijar. Estreitou o nosso pai ao peito num longo abraço e, quando finalmente se largaram um ao outro, Esaú deu um empurrão no ombro a Jacob, um gesto de rapazes a brincar. Depois passou a mão pelo cabelo do nosso pai, e, com isto, ambos os homens riram a mesma forte gargalhada que provava que tinham partilhado o ventre da mãe, muito embora um fosse escuro e o outro claro, um fosse elegante e o outro de constituição robusta.

O meu pai disse alguma coisa ao irmão e, mais uma vez, Esaú o estreitou contra o peito, mas, desta feita, quando eles se separaram, não houve riso. Ruben disse mais tarde que tinham as faces úmidas de lágrimas, quando se voltaram na nossa direção, com os braços à volta dos ombros um do outro.

Eu estava espantada. Esaú, o vingador sedento de sangue com a cara vermelha, a chorar nos braços do meu pai? Como é que aquele homem podia ser o monstro que assombrara os meus sonhos e afugentara as canções dos lábios dos meus irmãos?

As minhas mães trocaram olhares de descrença, mas os ombros de Inna abanavam com riso silencioso.

- O teu pai foi tão tolo - disse ela semanas mais tarde, em Succoth, enquanto contávamos outra vez a história daquele dia. - Ter medo de um homem tão doce e com cara de bebê? Fazer-nos a todos ter pesadelos, por causa de um cordeiro como aquele?

O meu pai conduziu Esaú até onde nos encontrávamos e apresentou-lhe cada membro da família. O nosso tio cumpriu o dever de declinar os presentes três vezes e depois cumpriu o dever de aceitar as oferendas do irmão, elogiando cada uma delas nos termos mais lisonjeiros. A cerimônia dos presentes levou muito tempo, e eu queria ver mais de perto os primos que estavam atrás de Esaú, especialmente as mulheres, que usavam colares e dúzias de braceletes nos braços e nos tornozelos. Depois de ter aceito os animais, a lã, as comidas e o segundo melhor cão pastor de Jacob, Esaú virou-se para o irmão e perguntou-lhe, naquela que parecia a própria voz do meu pai:

- Quem são estes belos homens?

E Jacob apresentou, portanto, os seus filhos, que fizeram profundas vênias perante o tio, tal como Jacob os tinha instruído que fizessem.- Aqui está Ruben, o meu primogênito, filho de Lea, que está ali. - A minha mãe curvou a cabeça profundamente, menos para mostrar respeito, penso eu, do que para impedir que Esaú notasse os seus olhos diferentes antes de ter contado todos os filhos dela. - E aqui estão mais dois filhos de Lea: Simeão e Levi. Este é Judá - disse o meu pai, dando uma palmada no ombro ao seu quarto filho. - Bem vês que a tua imagem nunca esteve longe da minha mente. - Judá e Esaú sorriram um para o outro com o mesmo sorriso. - Zebulon também é filho de Lea, e ali estão os gêmeos dela, Naftali e Issacar.

Esaú fez uma vênia à minha mãe e disse:

- Lea é a mãe de miríades. - E Lea corou de orgulho. A seguir, o meu pai apresentou José.

- Este é o mais novo, o único filho da minha Raquel - disse ele, evidenciando o afeto que sentia pela minha tia. Esaú assentiu com a cabeça e olhou para o filho favorito e para a beleza de Raquel, que não diminuira. Ela olhou fixamente para ele, ainda surpreendida pelos acontecimentos do dia.

A seguir, Jacob disse o nome de Dan.

- Este é o filho da criada de Raquel, Bilhah. E aqui estão Gad e Aser, que me foram dados pela rapariga de Lea, Zilpa. Aquela era a primeira vez que eu ouvia fazerem-se distinções entre os meus irmãos ou as minhas tias de uma maneira tão clara ou pública. Vi os filhos das esposas menores, a que o mundo chamava “criadas”, e vi como as cabeças deles caíam, ao serem assim nomeados. Mas Esaú sabia o que era ser o segundo, e aproximou-se dos filhos menores tal como se tinha aproximado dos meus outros irmãos, indo ter com Dan, Gad e Aser, e pegando-lhes nas mãos para os cumprimentar. Os filhos de Bilhah e de Zilpa empertigaram-se, e eu tive orgulho de ter um tio como aquele.

Agora, era a vez de o meu pai perguntar a Esaú pelos filhos dele, que este nomeou um a um com orgulho:

- Já conheceste Elifaz, o meu primogênito de Ada, que ali está - disse ele, apontando para uma mulher pequena e roliça, que usava uma cobertura para a cabeça feita de discos de cobre martelados. - E este é Reuel - disse Esaú, pondo o braço em volta de um homem magro e escuro, com barba crescida. - Ele é filho de Basemath - fazendo um aceno de cabeça para uma mulher de cara doce, que segurava um bebê na anca. - Os meus rapazes pequenos são Jeús, Jaalam e Cora. Eles estão ali com Basemath, mas são os filhos de Aolibama, a minha esposa mais jovem - disse Esaú. - Ela morreu na última Primavera, ao dar à luz. Houve muitos esticares de pescoço, enquanto eram feitas as apresentações, mas rapidamente nos pudemos ver uns aos outros mais de perto, à medida que todos foram iniciando a curta caminhada de regresso ao acampamento ribeirinho de Jacob. Os meus irmãos mais velhos olhavam para os seus primos crescidos mas não falavam. As mulheres juntaram-se e começaram o lento processo do conhecimento mútuo. Encontramos as filhas de Esaú entre elas, incluindo as duas mais novas de Ada. De fato, Ada tinha dado à luz muitas meninas, algumas das quais eram crescidas e já eram elas próprias mães, mas Libbe e Amat ainda estavam com ela. Não eram muito mais velhas do que eu, mas ignoraram-me, porque eu ainda usava um vestido de criança e elas eram mulheres.

Asemath era uma madrasta bondosa para as crianças de Aolibama, especialmente para a bebê, Iti, que tinha custado a vida a Aolibama. Basemath tinha perdido tantos bebês - quer rapazes quer raparigas -, que quase não os conseguia enumerar. Só tinha aquele único filho, Reuel, e uma filha viva, Tabea, que era exatamente da minha altura. Tabea e eu começamos a andar lado a lado, mas ficamos caladas, não nos atrevendo a perturbar o solene silêncio que caiu sobre a procissão. Já era final de tarde quando chegamos às nossas tendas. Fora enviado um mensageiro, para dizer às servas que começassem a fazer a refeição da noite, e fomos acolhidos pelo cheiro do pão e da carne a cozerem. Mesmo assim, ainda faltava fazer muita coisa, antes de podermos ter o festim que uma ocasião tão grandiosa como a reconciliação dos filhos de Isaac reclamava.

As mulheres começaram a trabalhar e Tabea foi mandada ajudar-me a colher cebolas selvagens ao longo do rio. Assentimos com a cabeça, como filhas obedientes, mas logo que nos viramos de costas para as mulheres mais velhas quase dei uma gargalhada. Tinha-nos sido concedido um desejo. Podíamos estar sozinhas. Tabea e eu andamos com grande propósito até ao canteiro de cebolas que eu tinha esvaziado no primeiro dia em que tínhamos chegado ao Jabbok e encontramos rebentos suficientes para encher o cesto dela. Mas decidimos que as nossas mães não precisavam de saber o que rapidamente tínhamos acabado e tiramos vantagem da nossa liberdade, pondo os pés na água e despejando o punhado de histórias que compõem a memória da infância.

Quando manifestei a minha admiração pelas pulseiras de cobre que ela trazia no pulso, Tabea contou-me a história da vida da mãe dela. De como Esaú se tinha apaixonado pela bela e jovem Basemath, quando a vira no mercado perto de Mamre, onde a nossa avó Rebeca vivia. Como preço pela noiva, ele tinha oferecido ao pai de Basemath, para além do habitual número de ovelhas e cabras, nada menos do que quarenta pulseiras de cobre, “para que os pulsos e os tornozelos dela lhe anunciassem a beleza”, dissera ele. Esaú amava Basemath, mas ela sofria os tratos da primeira esposa dele, Ada, que tinha ciúmes.

Nem mesmo os nados mortos de Basemath tinham amaciado o coração de Ada. Quando perguntei como é que elas podiam celebrar a lua nova juntas com tanta raiva dentro de casa, Tabea disse-me que as mulheres da família dela não marcavam a morte e o renascimento da lua juntas.- Isso é outra coisa que a avó odeia nas mulheres de Esaú - disse Tabea.- Conheces a nossa avó? - perguntei. - Conheces Rebeca?- Sim - disse a minha prima. - Vi-a duas vezes, em ceifas de cevada. A avó sorri para mim, embora não fale à minha mãe, nem a Ada, nem desse importância a Aolibama, quando ela era viva. A avó diz coisas odiosas da minha mãe, e isso está errado. - A minha prima franziu o sobrolho e os olhos encheram-se de lágrimas. - Mas eu adoro a tenda da avó. É tudo tão bonito, lá, e, muito embora ela seja a mulher mais velha que eu jamais vi, a beleza dela não se apagou. - Tabea deu uma gargalhadazinha e disse: - A avó diz que eu me pareço com ela, embora seja claro que eu me pareço com a minha mãe em tudo. Tabea parecia mesmo uma cópia de Basemath, com o seu nariz fino e o cabelo brilhante e escuro, os pulsos e tornozelos delicados. Mas quando conheci Rebeca lembrei-me das palavras da minha prima e percebi o que a avó queria dizer com aquilo. Eram os olhos de Tabea que Rebeca podia reclamar como seus, pois os olhos da minha prima eram negros e diretos como setas, enquanto os de Basemath eram castanhos e se mantinham sempre baixos.

Contei a Tabea coisas sobre a tenda vermelha e sobre o modo como as minhas mães celebravam a lua nova com bolos e canções e histórias, deixando a má vontade lá fora, durante o período de escuridão. E de como eu, única filha, tinha sido admitida lá dentro com elas durante toda a minha infância, embora fosse contra os costumes que qualquer outra pessoa lá entrasse depois da idade de ser desmamada e antes de ser mulher. Com isto, ambas olhamos para baixo, para os nossos peitos, e puxamos as nossas túnicas contra o corpo, para compararmos o que estava a acontecer aos nossos corpos. Embora nenhuma de nós estivesse pronta para dar de mamar, parecia que eu iria alcançar a idade adulta primeiro. Tabea suspirou e eu encolhi os ombros, depois rimos até os nossos olhos se encherem de lágrimas, o que nos fez rir ainda mais, até rolarmos pelo chão.

Quando recuperámos o fôlego, falámos dos nossos irmãos. Tabea disse que não conhecia bem Elifaz, mas que Reuel era bondoso. Dos rapazes menores, odiava Jeús, que andava sempre a puxar-lhe o cabelo e lhe dava pontapés nas canelas de cada vez que o mandavam ajudá-la no horto. Eu contei-lhe como Simeão e Levi tinham feito José e os meus outros irmãos abandonar os nossos jogos e como eles me tratavam como a criada pessoal deles, como se o meu único dever fosse manter-lhes cheias as taças de vinho. Até lhe contei que cuspia nas taças deles, quando tinha oportunidade para o fazer. Falei da amabilidade de Ruben, da beleza de Judá, e de como José e eu tínhamos sido amamentados juntos.

Fiquei chocada quando Tabea disse que não queria ter filhos.- Vi a minha mãe a embalar demasiados bebês mortos - disse ela. - E ouvi Aolibama gritar durante três dias, antes de dar a vida por Iti. Não estou disposta a sofrer dessa maneira. - Tabea disse que não queria ter nada a ver com o casamento, que preferia servir em Mamre e mudar o seu nome para Débora. Ou então, disse ela, cantaria no altar de um grande templo, como o de Siquém. - Lá, tornar-me-ia numa das mulheres consagradas que tecem para os deuses e usam sempre vestidos limpos. Então, dormirei sozinha, a menos que escolha tomar um consorte no festival da cevada.

Eu não percebi os desejos dela. De fato, não percebi totalmente as palavras dela, uma vez que não sabia nada sobre templos e sobre as mulheres que lá servem. Pela minha parte, disse a Tabea que desejava ter dez fortes crianças, como aquelas que a minha mãe dera ao mundo, embora quisesse cinco raparigas, pelo menos. Era a primeira vez que eu dizia aquelas coisas alto e, talvez, a primeira vez que pensava nelas. Mas as palavras vinham-me do coração.

- Não tens medo nenhum do parto? - perguntou a minha prima. - E a dor? E se o bebê morre?

Abanei a cabeça.

As parteiras não temem a vida - disse eu, e percebi que tinha começado a pensar em mim mesma como aprendiza de Raquel e neta de Inna. Tabea e eu olhamos fixamente para a água e perguntamo-nos se as nossas esperanças seriam concretizadas. Se alguma vez saberíamos o que teria acontecido uma à outra, depois de os nossos pais se apartarem. Os meus pensamentos voaram para trás e para frente, como a lançadeira num grande tear, pelo que, quando finalmente ouvi o meu nome na boca da minha mãe, senti alguma raiva no modo como tinha sido dito. Tínhamo-nos atrasado demasiado. Tabea e eu andamos rapidamente, de mão dada, de volta às fogueiras da cozinha.

A partir desse momento a minha prima e eu fizemos o nosso melhor para permanecermos juntas, observando as nossas mães a cirandarem umas à roda das outras com curiosidade finamente velada. Estudavam mutuamente roupas e receitas, pedindo educadamente umas às outras que repetissem os seus nomes, só mais uma vez, se faz favor, para aprender bem a pronúncia. Reparei nas sobrancelhas da minha mãe a levantarem-se, face ao uso que as mulheres cananitas faziam do sal, e reparei que Ada se empertigou ao ver Bilhah adicionar um punhado de cebolas frescas ao estufado de cabra seca dela. Mas todos os juízos foram mascarados por baixo de finos sorrisos, no meio da pressa para preparar o festim.

Enquanto as mulheres aprontavam a refeição, Esaú e Jacob desapareceram para dentro da tenda do meu pai. Depois de os filhos de Esaú montarem as suas tendas para passarem a noite, juntaram-se perto da porta do meu pai, onde também estavam os meus irmãos. Ruben e Elifaz trocaram galanteios acerca dos rebanhos dos pais de cada um deles, sutilmente comparando o número e a saúde de cada rebanho, medindo a abordagem de cada um ao pastoreio e as capacidades de cada um com os cães. Elifaz pareceu surpreendido, ao saber que nem Ruben nem nenhum dos seus irmãos se tinha ainda casado ou feito filhos, mas aquele não era um tema que Ruben discutisse com o filho de Esaú. Houve longas pausas, na conversa entre os primos, que davam pontapés no pó e cerravam e abriam os punhos de aborrecimento.

Por fim, a aba da tenda abriu-se e o meu pai e Esaú saíram, esfregando os olhos face à remanescente luminosidade do dia, pedindo vinho e que a refeição começasse. Os dois irmãos sentaram-se num cobertor que Jacob, ele próprio, estendeu. Os filhos deles dispuseram-se por autoconsciente ordem de posto: Elifaz e Ruben em pé por trás dos pais, José e Cora sentados ao lado destes. Enquanto corria de cá para lá, mantendo as taças de vinho cheias, reparei como os meus irmãos eram mais do que os de Tabea, e que eram muito mais bonitos do que os filhos de Esaú. Tabea serviu pão, enquanto as nossas mães e as criadas delas enchiam os pratos dos homens até eles não poderem comer mais. Cada mulher reparou em quem é que tinha tirado mais do estufado, do pão, da cervej dela, e cada homem teve particular cuidado em elogiar a comida servida pelas esposas do irmão dele. Esaú bebeu muito da cerveja da minha mãe e mostrou preferência pelo acebolado prato de cabra de Bilhah. Jacob comeu pouco, mas fez o seu melhor para honrar a comida que lhe foi trazida por Basemath e Ada.

Quando os homens acabaram, as mulheres e as raparigas sentaram-se, mas, tal como acontece com grandes refeições, havia pouco apetite, após tantas horas a mexer e a provar. As mães foram servidas pelas escravas de Esaú - duas raparigas fortes que usavam pequenos brincos de prata em furos no alto das orelhas. Uma delas estava grávida, Tabea sussurrou que era a semente de Esaú e que, se desse à luz um filho, a rapariga tiraria o brinco superior e tornar-se-ia uma esposa menor. Olhei fixamente para a escrava robusta, com os tornozelos tão grossos quanto os de Judá e, depois, espiei de relance a elegante Basemath, e disse a Tabea que o gosto de Esaú em matéria de esposas era tão generoso quanto os outros apetites dele. Ela começou a dar pequenas gargalhadas, mas um arregalar de olhos de Ada sufocou-nos. A luz começava a esvair-se quando Jacob e Esaú começaram a contar histórias. As nossas servas trouxeram lâmpadas e as escravas de Esaú mantinham-nas cheias de azeite, pelo que a luz das chamas dançava nas caras da minha família, subitamente mais numerosa. Tabea e eu sentamo-nos de joelho com joelho, ouvindo as histórias do nosso bisavô Abraão, que tinha deixado o antiqüíssimo lar de Ur, onde a Lua era adorada sob o nome de Nanna e Ningal, e tinha ido para Haran, onde a voz de El lhe tinha vindo e o tinha dirigido para Canaã. No Sul, Abraão tinha feito grandes atos - matando mil homens com um só golpe, porque El-Abraão lhe tinha dado o poder de dez mil.

Jacob falou da beleza de Sarai, a esposa de Abraão, e uma serva de Innana, a filha de Nanna e Ningal. Innana amava tanto Sarai, que lhe aparecera no bosque de terebintos em Mamre e lhe dera um filho saudável no extremo da vida dela. Esse filho era o nosso avô Isaac, marido de Rebeca, que era a sobrinha de Sarai, a sacerdotisa. Era Rebeca, a minha avó, que adivinhava para o povo, agora, no bosque sagrado de Sarai, em Mamre.

Tendo recordado a história da família da forma apropriada, o meu pai e o meu tio passaram às histórias da infância, dando palmadas nas costas um do outro enquanto recordavam os tempos em que se tinham esgueirado do horto da mãe para brincarem com os cordeiros bebês, ajudando-se um ao outro a recordar os nomes dos cães favoritos - o Preto, o Malhado e, particularmente, a Maravilha de Três Pernas, uma cadela miraculosa que tinha sobrevivido ao ataque de um chacal e ainda pastoreava com os melhores cães.

Foi maravilhoso ver a cara do meu pai à medida que estas histórias iam brotando. Podia vê-lo como um rapaz, outra vez sem encargos, forte, voluntarioso. O seu caráter reservado derreteu quando Esaú lhe lembrou o dia em que tinham caído para dentro de um wadi, e tinham entrado na tenda da mãe cobertos de espessa lama cinzenta. Riu a propósito de uma vez em que os irmãos roubaram todo o pão feito para esse dia e se empanturraram até à náusea e tinham levado uma tareia, por causa disso. Depois de muitas histórias, caiu um silêncio satisfeito sobre a companhia. Ouvimos o sussurro dos rebanhos e o murmúrio do Jabbok. E, então, Esaú começou a cantar uma canção. O meu pai abriu um largo sorriso e juntou-se a ele, dando alta e forte voz às palavras de uma canção de pastoreio que eu não conhecia e que contava tudo sobre o poder de um certo carneiro. As mulheres foram apertando os lábios, à medida que as estrofes continuavam, cada uma mais explícita e audaz do que a anterior. Para meu espanto, os meus irmãos e os nossos primos conheciam cada uma das palavras da canção e juntaram-se a eles, fazendo um grande uníssono e acabando com um “woop” e, depois, com riso.

Quando os homens acabaram, Esaú fez um aceno de cabeça à primeira esposa dele, que fez um sinal, abriu as bocas das esposas e das filhas dele, das servas e das escravas. Era um hino a Anat, um nome que as mulheres cananitas usavam para Innana, e elogiava as façanhas da deusa na guerra e o poder dela no amor.

A canção delas não se parecia com nada que eu alguma vez tivesse ouvido, e os pêlos da minha nuca eriçaram-se, como se José me estivesse a fazer cócegas com uma folha de erva. Mas quando eu me virei para o censurar, vi que ele se sentava ao lado do meu pai, com os olhos a brilhar, fixos nas cantoras. Elas cantavam as palavras em uníssono, mas, não sei como, criavam uma teia de som com as vozes. Era como ouvir uma peça de tecido tecida com todas as cores do arco-íris. Não sabia que tal beleza podia ser formada pela boca humana. Nunca tinha ouvido harmonia antes.

Quando elas acabaram, descobri lágrimas nos meus olhos e vi que as faces de Zilpa também estavam molhadas. Os lábios de Bilhah estavam separados de admiração e os olhos de Raquel estavam fechados, para que ela pudesse ouvir com perfeita atenção.

Os homens aplaudiram e pediram mais, pelo que Basemath começou de novo, com uma canção acerca da colheita e da fecundidade da terra. Tabea juntou-se a elas, e eu fiquei deslumbrada, ao pensar que a minha amiga podia fazer um tal milagre com as mães dela. Fechei os olhos. As mulheres cantavam como pássaros, mas mais docemente. Soavam como o vento nas árvores, mas mais alto. As vozes delas eram como o correr da água do rio, mas com significado. Então, as palavras cessaram, e elas começaram a cantar com som que não queria dizer nada, e que, no entanto, dava nova voz à alegria, ao prazer, à saudade, à paz. “Lu, lu, lu,” cantavam elas.

Quando acabaram, Ruben aplaudiu a música das nossas parentes e curvou-se profundamente perante elas. José e Judá e Dan também se levantaram e fizeram uma vênia de agradecimento e eu pensei: “Estes quatro são os meus favoritos e os melhores dos meus irmãos.” Houve mais canções, e mais algumas histórias, e ficamos sentados à luz das lâmpadas. Só quando a Lua se começou a pôr é que as mulheres levantaram as últimas taças. Com crianças adormecidas nos seus braços, as mães jovens dirigiram-se às suas próprias camas, e os homens começaram a retirar-se, também. Por fim, só Jacob e Esaú permaneciam sentados, olhando fixa e silenciosamente para o pavio crepitante da última lâmpada.

Tabea e eu esgueiramo-nos dali para fora e fomos até ao rio, com os nossos braços em volta da cintura uma da outra. Eu estava perfeitamente feliz. Poderia ter ficado ali, de pé, até ao amanhecer, mas a minha mãe veio buscar-me e, embora sorrisse a Tabea, pegou na minha mão e puxou-me para longe da minha amiga.

Acordei na manhã seguinte com os sons da tribo de Esaú a preparar-se para partir. Durante a conversa pela noite dentro que teve com o irmão, o meu pai disse-lhe que não o seguiria de volta a Seir. Por muito amigavelmente que os irmãos se tivessem encontrado, os destinos deles não se podiam casar. As terras do meu tio eram vastas e a posição dele segura. Se nos tivéssemos juntado a ele, o valor de Jacob seria tomado como fraco, em comparação. Também os meus irmãos estariam em desvantagem. uma vez que os filhos de Esaú já tinham rebanhos e terras deles próprios. E, apesar de toda a camaradagem da noite anterior, os filhos de Isaac não estavam completamente reconciliados, nem alguma vez o poderiam estar. As cicatrizes que tinham carregado durante vinte anos não podiam ser apagadas com um só encontro e os hábitos daqueles anos, vividos em mundos tão diferentes, acabariam por separá-los. No entanto, os irmãos abraçaram-se com declarações de amor e promessas de se visitarem um ao outro. Ruben e Elifaz agarraram-se um ao outro pelo ombro, as mulheres acenaram adeus com a cabeça. Tabea mostrou audácia ao fugir de ao pé da mãe para me abraçar, e nós provamos as lágrimas uma da outra. Enquanto nos abraçávamos, ela murmurou: “Tem coragem. Em breve estaremos juntas outra vez, na tenda da avó. Ouvi a minha mãe dizer que certamente vos encontraremos lá, no festival da cevada. Lembra-te de tudo o que acontecer de agora até lá, para mo poderes contar.” Com isto, beijou-me e correu de volta para ao pé da mãe dela. Acenou com a mão até estar fora da minha vista. Assim que eles partiram, o meu pai instruiu Ruben e a minha mãe para que preparassem a nossa própria retirada. Fiz a minha parte com o coração feliz, alegre por retomar a nossa viagem livre do medo de Esaú, ansiosa por ver a minha amiga outra vez e conhecer a minha avó, que já começara a viver na minha imaginação. Tinha a certeza de que Rebeca adoraria as minhas mães, afinal, elas eram sobrinhas dela, assim como eram noras dela. E imaginei-me como a neta de estimação, a favorita. Por que é que não haveria de ser, pensei eu. Afinal, eu era a herdeira feminina do filho preferido dela.

Na manhã seguinte partimos, mas não viajamos para muito longe. No segundo dia, o meu pai enterrou o cajado dele na terra, perto de um pequeno riacho que corria debaixo de um carvalho jovem, e anunciou a sua intenção de ficar ali. Estávamos perto de uma aldeia chamada Succoth, disse ele, um lugar que tinha sido bom para ele na viagem que ele fizera para norte. Os meus irmãos tinham explorado a terra antes e tinham assegurado um lugar para nós, passados poucos dias já havia currais e estábulos para os animais e um bom forno de barro, suficientemente grande para cozer pão e bolos. Vivemos ali durante dois anos.

A viagem desde a casa de Labão fizera-me adquirir um gosto pela mudança, pelo que as rotinas diárias da vida sedentária em Succoth aborreceram-me, a princípio. Mas os meus dias eram preenchidos do amanhecer até ao anoitecer, depressa aprendi a gostar da alquimia de transformar farinha em pão, carne em guisado, água em cerveja. Também passei da fiação para a tecelagem, que era muito mais difícil do que eu imaginava, e que nunca consegui dominar com a perícia de Zilpa e Bilhah a quem a teia nunca quebrava.

Sendo a rapariga mais velha, tomava muitas vezes conta das crianças das servas, e aprendi tanto a amar como a ficar ressentida com aqueles monstros ranhosos. Eu era tão necessária dentro do mundo das mulheres, que mal me dei conta de quão pouco eu tinha a ver com os meus irmãos, ou de como as coisas tinham mudado entre eles. Pois nesses dias Levi e Simeão substituíram Ruben à mão direita do meu pai e tornaram-se os conselheiros mais chegados dele.

Succoth foi lugar fértil para a minha família. Zibatu teve um novo bebê, assim como Uzna - ambos rapazes, a quem o meu pai levou ao altar dele, debaixo do carvalho. Ele circuncidou-os e declarou-os livres das irregularidades dos pais deles e membros de pleno direito da tribo de El-Abraão, e a tribo de Jacob cresceu.

Bilhah concebeu, em Succoth, mas abortou, antes que o bebê se mexesse no ventre dela. Raquel também foi afligida por aquele mal e, durante quase um mês depois disso, não perdeu José de vista. Também a minha mãe perdeu uma criança, que saiu do ventre meses antes do tempo. As mulheres desviaram o olhar da pequeníssima menina condenada, mas eu reparei na perfeita beleza dela. As pálpebras tinham veias como asa de borboleta: os dedos dos pés encaracolavam-se como pétalas de flor. Peguei na minha irmã, a quem nunca foi dado nome, e que nunca abriu os olhos, e que morreu nos meus braços.

Não tive medo de pegar naquela pequena morte. A cara dela estava em paz, as mãos estavam perfeitamente limpas. Parecia prestes a acordar. As lágrimas dos meus olhos caíram na face de alabastro dela, que parecia chorar a passagem da sua própria vida. A minha mãe veio tirar-me a minha irmã, mas, ao ver a minha mágoa, permitiu-me que a levasse para o enterro. Ela foi amortalhada num pedaço de bom pano e posta debaixo da mais forte e mais velha árvore que se via da tenda da minha mãe. Não foram feitas oferendas, mas quando a trouxa foi coberta de terra, os suspiros que brotavam das bocas das minhas mães eram tão eloquentes quanto qualquer salmo.

Quando nos afastamos da morte da bebê, Zilpa murmurou que os deuses daquele lugar estavam alinhados contra a vida, mas, como era costume, a minha tia estava a treler os sinais, pois as servas ficaram grandes com crianças, assim que desmamaram os bebês. Cada ovelha e cada cabra teve gêmeos, e todos eles sobreviveram. Os rebanhos cresceram rapidamente, tornando o meu pai num homem próspero, o que significava que os meus irmãos podiam casar.

Três deles casaram-se em Succoth. Judá casou-se com Shua, filha de um mercador. Ela concebeu durante a semana nupcial e deu-lhe Er, primeiro filho dele e primeiro neto do meu pai. Eu gostava de Shua, que era roliça, bondosa e amigável. Ela trouxe o dom cananita das canções para as nossas tendas e ensinou-nos harmonias. Simeão e Levi tomaram duas irmãs como esposas Ialutu e Inbu, filhas de um oleiro. Calhou-me a mim ficar com os bebês e tomar conta das fogueiras, enquanto as esposas de Jacob assistiam às festividades. Fiquei furiosa por ter sido deixada para trás, mas nas semanas que se seguiram às núpcias ouvi as minhas mães falarem tanto de cada pormenor dos casamentos, que senti que eu própria lá tinha estado.- Hás-de admitir que o canto foi maravilhoso - disse Zilpa, que voltou de cada um dos casamentos a trautear uma nova melodia, batendo o ritmo com a mão contra uma coxa ossuda.

- É claro que sim - disse imediatamente a minha mãe. - Elas aprendem aquilo com as mães e com as avós.

Raquel sorriu, inclinando-se para Lea:

- É pena que as avós delas não soubessem cozinhar, hein? Lea fez um sorriso tonto, concordando com ela.- Quando for a vez da Dina de entrar na tenda nupcial, vou mostrar-lhes a todas como é que uma festa de casamento deve ser feita - disse ela, passando-me a mão pela cabeça.

Só Bilhah é que parecia ter gostado dos casamentos dos sobrinhos.- Oh, irmã - disse ela a Lea -, não achaste que o véu era bonito, perpassado de fios dourados e com as moedas do dote penduradas nele? Eu achei que ela estava vestida como uma deusa. Lea não queria saber de nada daquilo.

- Vais-me dizer que tinhas a barriga cheia, depois da refeição? - disse ela.

Mas Lea não ficou infeliz com as noivas que os filhos dela lhe trouxeram. Eram todas saudáveis e respeitosas, embora Shua rapidamente se tenha tornado a favorita. As duas irmãs nunca entraram completamente no círculo da minha mãe, vivendo com os maridos a pouca distância de nós, mais perto dos rebanhos, diziam os meus irmãos. Eu acho que Simeão e Levi se mudaram porque Ialutu e Inbu queriam manter uma certa distância. Não senti falta nenhuma da companhia delas. Tratavam-me com desdém igual ao que os maridos delas usavam comigo e, para além disso, a minha mãe tinha razão: nenhuma delas sabia cozinhar.

Dos filhos mais velhos de Jacob, só Ruben continuava por casar. O meu irmão mais velho parecia contentar-se em servir a mãe e ser bondoso para Bilhah, cujo único filho ainda era demasiado jovem para caçar.

Uma manhã, cedo, ainda toda a gente dormia, uma voz de mulher chamou:

- Onde estão as filhas de Sarai? Onde estão as esposas de Jacob?

Era uma voz suave e, no entanto, acordou-me de um sono profundo, de onde eu estava deitada, aos pés da minha mãe. Tal como eu, Lea sentou-se, ao ouvir aquele som, e foi rapidamente lá para fora, chegando ao mesmo tempo que Raquel. Num piscar de olhos, Bilhah e Zilpa também lá estavam, e nós as cinco ficamos a olhar fixamente para a mensageira de Mamre, cujo vestido tremeluzia em prata, na difusa luz azul que anuncia o nascer do Sol.

O discurso dela foi formal, tal como o de todos os mensageiros.- Rebeca, o oráculo de Mamre, a mãe de Jacob e Esaú, a avó de centenas de miríades, chama-vos ao pálio de terebintos para o festival da cevada. Que isto seja dito a Jacob, e que ele o saiba.

O silêncio acolheu a declaração daquela visitante, que falou com estranhos sotaques que dobravam cada palavra em três Lugares. Era como se estivéssemos todas a partilhar um sonho, pois nenhuma de nós alguma vez tinha visto cabelo vermelho, nem tínhamos visto uma mulher carregar o saco listado do mensageiro. E, no entanto, não era nenhum sonho, uma vez que o frio da manhã nos fazia tremer. Por fim, Lea recuperou o fôlego e deu as boas-vindas, oferecendo à desconhecida um lugar para se sentar e pão para comer. Mas assim que nos juntamos em volta da nossa hóspede, as minhas tias e eu ficamos em silêncio, mais uma vez, e olhamos fixamente para ela, em puro espanto. A mensageira olhou em volta dela e abriu um sorriso que mostrou uma fila de dentes pequenos e amarelos entre um par de lábios estranhamente sarapintados. Falando então numa voz normal e com uma leveza que pôs toda a gente à vontade, ela disse:

- Vejo que tendes poucas ruivas entre vós. De onde eu venho, diz-se que as mulheres de cabelo ruivo são concebidas durante os períodos das mães delas. Tal é a ignorância das terras do Norte. Bilhah riu-se alto, ao ouvir coisa tão audaciosa de uma desconhecida. Isso pareceu agradar à nossa hóspede, que se virou para a minha tia e se apresentou.

- O meu nome é Werenro, e eu sirvo a avó. - Com isso, ela puxou o cabelo para trás, para mostrar a orelha, furada no alto por singela tacha de bronze, e acrescentou: - Sou a escrava mais feliz do mundo. - Mais uma vez, Bilhah riu alto, face a tal franqueza. Eu dei uma gargalhadinha, também.

Assim que os homens foram alimentados, Lea mandou chamar Jacob e apresentou-lhe a mensageira, que, por essa altura, tinha coberto o fogo do cabelo e baixado os olhos.

- Ela vem da parte da tua mãe - disse Lea. - Rebeca pede-nos que vamos assistir ao seu festival da cevada. A mensageira aguarda a tua resposta. Jacob pareceu assustado com a presença da recém-chegada, mas rapidamente se compôs e disse a Lea que obedeceriam a Rebeca em tudo e que ele iria ter com ela no tempo da ceifa, ele e as esposas, com os filhos e as filhas.

Werenro retirou-se, então, para a tenda da minha mãe e dormiu. Eu trabalhei ali por perto o dia inteiro, esperando vê-la de relance. Tentei inventar qualquer razão para entrar na tenda. Queria ver outra vez aquele cabelo, e os meus dedos desejavam tocar as vestes que se moviam como ervas em água a correr. Inna disse-me que as roupas de Werenro eram feitas de seda, uma espécie de pano que era tecido por minhocas nos seus próprios minúsculos teares. Eu ergui a sobrancelha - fazendo o meu melhor para copiar o gesto mais desdenhoso da minha mãe para mostrar que era demasiado crescida para ser enganada com um tal disparate. Inna riu-se de mim e não desperdiçou mais fôlego com a minha descrença.

Werenro descansou sem ser perturbada até tarde, pela noite dentro, até depois de os homens terem comido e as tigelas da refeição noturna das mulheres terem sido levantadas. As minhas mães tinham-se juntado perto da fogueira delas, na esperança de que a desconhecida aparecesse a tempo de nos dar uma história.

A mensageira saiu da tenda e, ao ver-nos alinhadas em volta dela, curvou-se profundamente, com os dedos bem abertos, num gesto de obediência que nos era pouco familiar. Depois, endireitou as costas, olhou para as nossas caras, uma por uma, e sorriu muito, como uma criança pequena que tivesse roubado um figo. Werenro não se parecia com nada nem ninguém neste mundo. Eu estava encantada. Ela curvou a cabeça às minhas mães, em agradecimento pela tigela de azeitonas, queijo e pão fresco que lhe tinham reservado. Antes de comer, recitou uma oração numa língua que soava como o grito de um abutre. Eu ri-me, por causa do barulho, pensando que ela estava a fazer outra graça, mas a ruiva desconhecida dardejou-me com um olhar de raiva que foi enfraquecendo. Senti-me como se a minha cara tivesse sido esbofeteada, as minhas faces escaldaram, vermelhas como o cabelo dela, que estava mais uma vez visível e era de um vermelho nunca visto. Mas logo a seguir ela fez-me um sorriso de perdão e, dando palmadinhas no chão ao lado dela, indicou-me um lugar de honra. Depois de ter posto de lado o resto da refeição, com elogios ao pão e extravagantes encômios à cerveja, Werenro começou a cantar. Havia muitos nomes estranhos na história dela, e uma melodia triste como eu nunca ouvira. Ela manteve-nos arrebatadas, como a um bebê ao colo. A história falava sobre o início do mundo, a Árvore e o Falcão, que deram à luz o Lobo Vermelho, que povoou o mundo com um ventre que deu à luz toda a vida de sangue vermelho, exceto homem e mulher. Era uma história muito longa, misteriosa e cheia de nomes de árvores e animais que não me eram familiares. Passava-se num lugar de um frio terrível, onde o vento gritava de dor. Era assustadora, e excitante, e solitária.

Quando Werenro parou, a fogueira tinha-se apagado, só uma lâmpada dava uma luz fraca. Os mais pequenos estavam a dormir no colo das mães e mesmo algumas das mulheres dormitavam com as cabeças a caírem-lhes no peito.

Olhei para a cara da mensageira, mas ela não me viu. Os olhos dela estavam fechados, por cima de lábios sorridentes. Ela estava longe, na terra da história dela, uma terra fria de mitos estranhos, onde a própria mãe dela estava enterrada. Senti a solidão da mensageira, tão longe de casa. Percebi o coração de Werenro da mesma maneira que percebia o sol, quando este me aquecia a cara. Estendi a minha mão, e pu-la no ombro dela, e Werenro virou-se para mim, abriu uns olhos que cintilavam com lágrimas e beijou-me nos lábios.- Obrigada - disse ela, e levantou-se.

Ela entrou na tenda da minha mãe e foi-se embora antes do nascer do Sol, sem me contar como é que o lobo vermelho da história dela dera lugar ao homem e à mulher. Mas isso não me preocupou, pois sabia que iria ouvir o resto em Mamre, quando fôssemos, finalmente, ver a avó.