A Tenda Vermelha

Anita Diamant · Capítulo 2 de 18

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A Tenda Vermelha

Prólogo

 

Durante muito tempo andamos perdidas umas das outras. O meu nome nada significa para vós. A minha memória é pó. Nada disto é culpa vossa, nem minha. A cadeia entre mães e filhas quebrou-se e a palavra passou à guarda dos homens, que não tinham condição de saber. Por isso me tornei nota de rodapé, reduzindo-se a minha história a breve parte dentro da bem conhecida história do meu pai, Jacob, e da célebre crônica de José, meu irmão. Nas raras ocasiões em que fui recordada, de mim fizeram vítima. Pouco depois do início da Sagrada Escritura, há uma passagem que sugere a minha violação, seguindo-se a história sangrenta de como se vingou a minha honra. Até espanta que alguma mãe tenha voltado a chamar Dina a uma filha. Apesar de tudo, houve quem o fizesse. Talvez já tenham adivinhado: muito mais passei além da cifra muda do texto. Talvez a musicalidade do meu nome assim o sugira: a primeira vogal longa e aberta, como quando as mães chamam as crianças ao anoitecer, a segunda suave, como segredos sussurrados na almofada. Diii-nâ. Ninguém recorda a minha habilidade como parteira, nem as canções que entoei, nem os pães que cozi para os meus insaciáveis irmãos. Nada restou de mim, além de umas quantas alusões tibiamente atamancadas acerca daquelas semanas passadas em Siquém. Muito mais haveria a relatar. A ter de falar do assunto, começaria eu pela história da geração que me criou, única ponta por onde desatar. Quem quiser compreender qualquer mulher terá primeiro de perguntar como era a mãe e ouvir com atenção. A história da comida encerra ligações muito fortes. A melancolia dos silêncios denuncia assuntos inacabados. Quanto mais uma filha sabe acerca da vida da mãe (sem vacilações nem recriminações), mais forte se torna. Claro que tudo isto é bastante mais complicado no meu caso, porque tive quatro mães, todas elas a ralharem, ensinarem e incentivarem diferentes coisas a meu respeito, dando-me presentes diferentes, amaldiçoando diferentes medos. Lea deu-me a vida e a sua arrogância esplêndida. Raquel ensinou-me a ser parteira e a arranjar o cabelo. Zilpah fez-me pensar. Bilhah ouviu-me. Nenhuma das minhas mães cozinhava da mesma maneira. Nenhuma delas falava ao meu pai no mesmo tom de voz nem ele a cada uma delas. Fiquem sabendo que as minhas mães eram também irmãs entre si, filhas de Labão e de diferentes mulheres, embora o meu avô nunca tenha reconhecido Zilpah e Bilhah, reconhecê-las ter-lhe-ia custado mais dois dotes e ele era terrivelmente sovina. Como todas as irmãs que vivem juntas e partilham o mesmo marido, minha mãe e minhas tias urdiram uma teia apertada de lealdades e rancores. Traficavam segredos como quem troca braceletes, e tudo isso transmitiram a mim, única filha sobreviva. Disseram-me coisas ainda eu era demasiado nova para ouvi-las. Tomaram-me o rosto nas mãos e fizeram-me jurar que não esqueceria.

As minhas mães orgulhavam-se da quantidade de varões que deram a meu pai. Os filhos faziam o orgulho e a medida duma mulher. Mas o nascimento sucessivo de rapazes não era fonte de felicidade plena na tenda das mulheres. O meu pai vangloriava-se da sua tribo turbulenta e as mulheres amavam os meus irmãos, mas também suspiravam por filhas e queixavam-se entre si da masculinidade da semente de Jacob. As filhas aliviavam o fardo das mães - ajudavam a fiar, a pilar, colaboravam na tarefa infindável de cuidar dos rapazes, sempre a fazerem xixi por todos os cantos das tendas, por mais que ralhássemos. Mas outra razão ainda levava as mulheres a desejar o nascimento das filhas, e essa era a de perpetuarem a sua memória. Os rapazes, depois de desmamados, não prestavam atenção às histórias das mães. De modo que eu era a única. A minha mãe e as minhas tias-mães contaram-me infinitas histórias acerca de si mesmas. Qualquer que fosse a labuta das suas mãos (segurar nas crianças, cozinhar, fiar, tecer), enchiam-me os ouvidos.

Na sombra carmim da tenda vermelha, a tenda menstrual, passavam os dedos pelos caracóis do meu cabelo, recapitulavam as brincadeiras juvenis, as sagas da sua vinda ao mundo. Essas histórias eram como oferendas de esperança e arrimo derramadas diante da Rainha dos Céus, só que não se dirigiam a nenhum deus ou deusa - e sim a mim. Ainda hoje sinto o grande amor das minhas mães. Sempre acalentei o amor delas. Nele me sustentei. Foi ele que me manteve viva. Mesmo quando deixei de estar junto delas, e mesmo agora, tanto tempo depois de morrerem, encontro conforto na sua memória.

Transmiti à geração seguinte os contos das minhas mães, mas as histórias da minha própria vida foram-me proibidas, e esse silêncio quase sufocou meu coração. Eu não morri, antes vivi tempo suficiente para virem outras histórias encher meus dias e minhas noites. Vi crianças abrirem os olhos perante um mundo novo. Encontrei motivos de riso e gratidão. Fui amada.

E agora vêm vocês ter comigo - mulheres de mãos e pés macios como os das rainhas, com cópia de tachos e panelas acima das vossas necessidades, tão seguras na parição e tão soltas de língua. Vocês vêm esfomeadas da tresmalhada história. Anseiam por palavras capazes de colmatar o grande silêncio que me engoliu, a mim e a minhas mães, e a minhas avós antes delas.

Bem gostaria de saber contar mais acerca das minhas avós. É terrível a quantidade de coisas esquecidas, razão bastante, julgo eu, para que a lembrança semelhe tanto o sagrado.

Muito agradeço a vossa vinda. Aqui despejarei quanto trago dentro de mim, para que todas possam retirar-se desta mesa supridas e fortalecidas. Abençoadas sejam. Abençoados vossos filhos. Abençoado o chão que pisam. O meu coração é concha de água pura, assim a sirvo, transbordante.

Selah.