A Tenda Vermelha

Anita Diamant · Capítulo 4 de 18

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A Tenda Vermelha

Capítulo 2

 

Aqueles meses não foram fáceis. Raquel era arrogante, Lea suspirava como uma vaca em trabalho de parto, Zilpah amuou. Só Bilhah parecia imune ao rebuliço, fiando e tecendo, arrancando ervas daninhas do horto e tomando conta da fogueira de Ada, que, agora, estava sempre acesa para conforto dos seus ossos gelados.

Raquel passava tanto tempo com Jacob quanto lhe permitia a audácia, esgueirando-se do horto e do tear para se encontrar com o seu amado sozinho nos montes. Ada estava demasiado doente para a impedir de se comportar de forma tão desregrada e Raquel recusava-se a obedecer a Lea, que perdera parte do seu estatuto desde que a irmã mais nova se candidatara a ser noiva e mãe antes dela.

Aqueles dias com Jacob, nos campos, faziam as delícias de Raquel. Ele brincava com os meus cabelos e olhava para mim maravilhado disse a minha bela tia. Fazia-me ficar em pé à sombra e, depois, ao sol, para ver os diferentes jogos de luz na minha face. Ele chorava perante a minha beleza. E cantava as canções da família dele e falava-me da beleza da mãe. Fantasiou sobre quão belos seriam também os nossos filhos. Rapazes de ouro, como eu, dizia ele. Rapazes perfeitos, futuros príncipes e reis. Eu sei o que todos pensavam (as minhas irmãs e os pastores), mas nós nunca nos tocamos. Bom, só uma vez. Ele abraçou-me contra o peito, mas de repente começou a tremer e afastou-me. A partir desse instante manteve sempre uma distância correta. O que, para mim, era ótimo. Ele cheirava mal, sabes. Cheirava muito melhor do que a maioria dos homens, mas mesmo assim o cheiro à cabra e a homem era avassalador. Eu corria para casa e enterrava o nariz em coentros. Raquel gabava-se de ter sido a primeira a ouvir a história da família de Jacob. Ele era o mais novo dos rapazes gêmeos, o que o tornava herdeiro da mãe. Era o mais bonito e o mais esperto. Rebeca dissera a Isaac, seu marido, que o rapaz era fraco e doente, para poder amamentá-lo durante um ano depois de ter desmamado o irmão dele. O parto dos gêmeos quase matou Rebeca, com sangria tamanha que lhe esvaiu a possibilidade de gerar nova vida dentro dela. Quando se apercebeu de que não teria filhas, Rebeca começou a sussurrar as suas histórias a Jacob.

Rebeca disse a Jacob que a bênção de Esaú era por direito, de Jacob pois por que outro motivo teria Innana feito dele o melhor dos dois? Além disso, na família de Rebeca, pertencia à mãe o direito de escolher o herdeiro. O próprio Isaac era o segundo filho da sua família. Se fosse por Abraão, Ismael teria sido o patriarca, mas Sarai tinha reclamado os seus direitos e nomeara Isaac em vez do irmão. Fora ela mesma que tinha mandado Isaac procurar noiva entre a família de sua mãe, como era costume desde os mais velhos tempos.

Mesmo assim, Jacob amava Esaú e detestaria fazer-lhe qualquer espécie de mal. Ele temia que o deus de Isaac seu pai e de Abraão seu avô o castigasse por seguir as palavras da mãe. Era perseguido por um sonho que o fazia acordar aterrorizado, um sonho em que era completamente destruído.

Raquel acariciava-lhe a face e dizia-lhe que os medos dele eram infundados.

- Eu disse-lhe que, se não tivesse obedecido aos pedidos da mãe, nunca me teria encontrado, e certamente que o deus de Isaac, que amava Rebeca, sorriria ao amor de Jacob por Raquel. Isto alegrava-o. Disse-me que eu alegrava o seu coração como um nascer de sol. Ele dizia coisas tão bonitas…

Enquanto Jacob dizia palavras doces a Raquel, Lea sofria - perdeu peso e negligenciou o cabelo, embora nunca tivesse descurado os seus deveres. O acampamento foi sempre bem dirigido, estava sempre limpo, aprovisionado e ativo. A fiação nunca parava, o horto florescia e as ervas eram mais do que suficientes para serem trocadas na aldeia por novas lâmpadas.

Jacob reparou nestas coisas, viu o que Lea fazia e soube que tinha sido ela a manter a ordem durante os anos magros em que Labão esmorecera. O velho era completamente inútil quando Jacob perguntava se o mercador de barba preta que vinha de Alepo era de confiança ou não, ou quando se tratava de saber qual dos rapazes devia contratar na altura da tosquia. Era a Lea que se deviam fazer perguntas acerca do rebanho: que ovelhas tinham parido no ano anterior, ou quais as cabras que descendiam do macho preto ou do malhado. Raquel, que trabalhara entre os animais, não conseguia distinguir um do outro, mas Lea lembrava-se do que via e de tudo o que Bilhah lhe dizia.

Jacob dirigia-se a Lea com a mesma deferência que demonstrava para com Ada, uma vez que, afinal, elas eram parentes, mas ele dirigia-se àquela muito mais vezes do que o necessário, ou pelo menos assim parecia a Zilpah.

Todos os dias Jacob inventava uma nova pergunta para a filha mais velha. Onde é que havia de levar os cabritos a pastar, na Primavera? Havia algum mel extra para regatear por uma boa ovelha? Estaria ela pronta para o sacrifício da colheita de cevada? E estava sempre sedento da cerveja que ela fazia conforme as maravilhosas receitas que um mercador egípcio ensinara à mãe dela. Lea respondia às perguntas de Jacob e servia-lhe a bebida desviando os olhos, com a cabeça quase enfiada no peito, como um pássaro no choco. Era-lhe penoso olhar para ele, e, no entanto, todas as manhãs, quando abria os olhos, o seu primeiro pensamento ia para ele. Viria falar com ela outra vez naquele dia? Notaria o quanto a mão dela tremia quando lhe enchia a taça?

Zilpah não suportava estar perto deles quando se juntavam.- Era como estar perto de bodes com cio - dizia ela. E eram tão educados… Torciam-se todos para não terem de se encarar, não se desse o caso de caírem de imediato em cima um do outro como cães com cio. Lea tentou ignorar o desejo do seu próprio corpo, e Raquel não estava consciente de nada senão dos preparativos do seu casamento, mas Zilpah via luxúria para onde quer que olhasse.

O mundo inteiro parecia-lhe subitamente úmido de desejo.

Lea dava voltas na cama à noite e Zilpah tinha visto Jacob nos campos, encostado a uma árvore, as mãos a trabucar no sexo até que caíra bruscamente de alivio. Durante o mês anterior ao casamento, Jacob deixou de sonhar com batalhas ou com os pais e o irmão e, em vez disso, passou as noites a andar sonambulamente com cada uma das quatro irmãs. Bebia das águas de um ribeiro, e encontrava-se no colo de Raquel. Levantava um grande seixo, para encontrar, debaixo dele, Lea nua. Fugia a correr da coisa horrível que o perseguia, e caía exausto nos braços de Bilhah, que tinha começado a adquirir formas de mulher. Salvava Zilpah da acácia, desemaranhando o longo cabelo dela dos ramos onde este se prendera. Acordava todas as manhãs a suar, com o sexo excitado. Rolava para fora do cobertor e agitava-se no chão até poder levantar-se sem embaraço.

Zilpah observava o triângulo de Jacob, Raquel e Lea enquanto este crescia até ao ponto de se transformar numa cunha que ela pudesse usar, pois por muito que amasse Lea, Zilpah nunca tinha gostado da bela Raquel. (Era o que Zilpah lhe chamava sempre - “Ah, e aí vem a bela Raquel”, dizia ela, com vinagre na voz.) Ela sabia que não dispunha de meios para impedir Jacob de se tornar no patriarca da família e, de fato, estava tão impaciente para ter crianças quanto todas as outras mulheres. No entanto, queria ser ela a escolher o curso desse rio. Além disso apetecia-lhe fazer a bela Raquel sofrer um bocadinho. Zilpah suspeitava que Raquel temia a noite de núpcias e incitava-a a confessar todas as suas preocupações. A rapariga mais velha suspirava e abanava a cabeça em sinal de comiseração enquanto Raquel revelava o muito pouco que sabia sobre os mecanismos do sexo. Não esperava ter prazer - só esperava sentir dor. Portanto, Zilpah disse à sua nervosa irmã que os pastores falavam do sexo de Jacob como de uma aberração da natureza. “Tem o dobro do tamanho do de qualquer homem normal”, murmurou ela, demonstrando com as mãos um comprimento impossível. Zilpah levou Raquel ao pasto mais alto e mostrou-lhe os rapazes a fazerem o que queriam com as ovelhas, que baliam penosamente e sangravam. A irmã mais velha compadecia-se da tremula Raquel, sussurrando “pobrezinha”, enquanto acariciava os cabelos da rapariga: “Pobre femeazinha.”

E essa foi a razão pela qual, no dia do seu casamento, Raquel entrou em pânico. A casta adoração de Jacob tinha sido agradável, mas agora ele viria exigir tudo dela e não havia maneira de recusar. O estômago de Raquel rebelou-se e ela vomitou. Arrancou punhados de cabelos. Lavrou as unhas na cara até fazer sangue. Implorou às irmãs que a salvassem.- Raquel chorava enquanto a tentávamos vestir para o banquete - disse Lea. - Chorava, afirmando que não estava preparada e que não estava bem e que era demasiado pequena para o seu marido. Até tentou fazer aquele truque com as bagas esmagadas, levantando a saia e choramingando que Jacob a mataria se encontrasse sangue lunar no leito nupcial. Eu disse-lhe que parasse de se comportar como uma criança, uma vez que já usava o cinto de mulher.

Mas Raquel caiu de joelhos, aos uivos, e implorou à irmã que tomasse o seu lugar sob o véu de noiva.

- Zilpah diz que tu o farás - gritou ela.

- Fiquei completamente muda - contou Lea. - Pois é claro que Zilpah tinha razão. Não me passara pela cabeça tal coisa, que pudesse ser eu a estar com ele naquela noite. Quase não o conseguia admitir perante mim mesma, quanto mais diante da minha irmã, que não estava assim tão bela naquele momento, com os olhos vermelhos do choro, as faces riscadas de sangue e sumo de bagas.

Primeiro disse que não. Ele havia de perceber logo, nenhum véu poderia esconder a diferença de altura entre ambas. Recusar-se-ia a ficar comigo e, então, eu passaria a ser mercadoria danificada, incasável, e não haveria nada a fazer senão vender-me como escrava. Mas enquanto protestava, o meu coração ia dizendo que sim. Raquel pedia-me que fizesse o que eu mais queria na vida. Portanto, ao mesmo tempo que argumentava, concordava.

Ada estava demasiado doente para ajudar a vestir a noiva, naquela manhã, pelo que Zilpah tomou conta da intriga, esfregando as mãos e os pés de Lea com henua, desenhando o kohl em volta dos olhos dela, cobrindo-a de pechisbeques. Raquel estava sentada a um canto, abraçando os joelhos contra o peito e tremendo, enquanto Lea se preparava para aquela que deveria ser a noite de núpcias de Raquel.- Nunca me tinha sentido tão feliz - disse Lea. - Mas estava também cheia de medo. O que aconteceria se ele me virasse as costas com nojo? E se ele corresse para fora da tenda e me envergonhasse para sempre? Mas alguma coisa me dizia que ele me beijaria. O banquete foi simples e teve poucos convidados. Dois flautistas da aldeia vieram e foram-se embora rapidamente, um dos pastores trouxe óleo como presente, que deixou assim que encheu a barriga. Labão esteve bêbado desde o inicio, com a mão debaixo do vestido da pobre Ruti, tropeçou nos próprios pés quando conduziu Lea para junto de Jacob. A noiva, muito curvada debaixo do véu, deu três voltas na mesma direção em torno do noivo, mais três na outra. Zilpah serviu a carne.- Pensei que o dia nunca mais tinha fim - contou Lea. - Não me podiam ver através do véu, nem eu podia ver com clareza, mas como é que Jacob não percebia que era eu que ali estava? Esperei, infelicíssima, que ele me desmascarasse, que se levantasse de um salto e dissesse que tinha sido enganado. Mas ele não o fez. Estava sentado a meu lado, tão perto que eu conseguia sentir o calor da coxa dele contra a minha. Comeu cordeiro e pão, e bebeu tanto vinho como cerveja, embora não a ponto de se tornar sonolento ou estúpido. Por fim, Jacob levantou-se e ajudou-me a levantar. Conduziu-me à tenda onde passaríamos os nossos sete dias, com Labão a seguir-nos, a gritar e a desejar-nos muitos filhos varões - lembrou Lea. - Jacob não se aproximou de mim enquanto não se fez silêncio lá fora. Então, tirou-me o véu. Era uma peça linda, bordada a muitas cores e usada por gerações de noivas que tinham vivido centenas de noites de núpcias cheias de prazer, violência, medo, deleite e decepção. Tremi, pensando qual seria o meu destino. Não estava completamente escuro dentro da tenda. Ele viu a minha cara e não mostrou qualquer surpresa. Com uma respiração pesada, tirou-me o resto das roupas, primeiro soltou-me o manto dos ombros, desatando o cinto, e depois ajudando-me, quando dei um passo para fora das minhas roupas. Fiquei nua diante dele. A minha mãe tinha-me dito que o meu marido apenas me levantaria a roupa e que entraria em mim ainda com as roupas dele vestidas. Mas eu estava descoberta e, passado um instante, também ele estava, com o sexo apontado para mim. Parecia um asherah sem cara! Aquela idéia era tão cômica, que, se eu tivesse sido capaz de respirar, teria dado uma gargalhada. Mas eu estava com medo. Afundei-me no cobertor, e ele colocou-se imediatamente a meu lado. Acariciou-me as mãos e tocou-me a cara e, depois, pôs-se em cima de mim. Tive medo. Mas lembrei-me dos conselhos da minha mãe e abri as mãos e separei os pés e ouvi o som da minha própria respiração em vez da dele. Jacob foi bom para mim. Entrou lentamente em mim, da primeira vez, mas acabou tão depressa que eu mal me pude acalmar antes que ele ficasse parado e pesado em cima de mim, como um homem morto, durante o que pareceram horas. Então as mãos dele ganharam vida. Vaguearam pela minha cara, pelo meu cabelo, e depois, oh, pelos meus seios e pela minha barriga, pelas minhas pernas e pelo meu sexo, que ele explorou com o mais leve dos toques. Era como o toque de uma mãe a seguir os traços da orelha da sua criança recém-nascida, uma sensação tão doce, que eu sorri. Ele olhou para o meu prazer e assentiu com a cabeça. Ambos rimos. E, então, Jacob falou com ternura à sua primeira mulher.- O meu próprio pai raramente falava comigo, e parecia preferir a companhia do meu irmão - sussurrou ele. - Mas, uma vez, enquanto viajávamos, passamos por uma tenda onde um homem batia numa mulher, esposa, concubina ou escrava, não havia maneira de saber. Isaac, meu pai, suspirou e disse-me que nunca tinha levado nenhuma mulher para a cama dele senão a minha mãe, apesar de ela apenas lhe ter dado dois filhos pouco tempo depois do casamento deles. Rebeca tinha-o recebido com ternura e paixão quando se tinham casado, porque enquanto noivo dela, ele tinha-a tratado como se ela fosse a Rainha do Céu e ele fosse o consorte dela. A união deles era a união do mar e do céu, da chuva e da terra seca. Da noite e do dia, do vento e da água. As noites deles estavam cheias de estrelas e de suspiros, enquanto eles interpretavam os papéis de deusa e de deus. As carícias deles engendravam mil sonhos. Dormiam nos braços um do outro todas as noites, exceto quando chegava o tempo de ela entrar na tenda vermelha, ou quando ela amamentou os filhos. Foi isto que o meu pai me ensinou acerca de maridos e mulheres - disse Jacob, meu pai, a Lea, minha mãe, na primeira noite que passaram juntos. E, depois, chorou pela perda do amor do pai dele.

Lea chorou também, por pena do marido dela, e também de alívio e de alegria pela boa sorte que tinha. Ela sabia que a própria mãe dela também tinha chorado na sua noite de núpcias, mas essas lágrimas tinham sido lágrimas de desespero, pois Labão tinha sido rude desde o inicio.

Lea beijou o marido. Ele beijou-a. Beijaram-se uma e outra vez. E mesmo nessa primeira noite, quando tinha a carne tenra de ser aberta por um homem, Lea respondeu ao toque dele. Ela gostava do cheiro dele e da sensação que a barba lhe provocava na pele. Quando ele entrou nela, ela fletiu as pernas e o sexo com uma espécie de força que a surpreendeu e que, a ele, lhe agradou. Quando Jacob gritou, no prazer final, foi inundada pela sensação do poder que ela própria tinha. E quando ela seguiu a própria respiração, descobriu o prazer próprio, uma abertura e um preenchimento que a fizeram suspirar e ronronar e, depois, dormir como não dormia desde criança. Ele chamou-lhe Innana. Ela chamou-lhe Baal, Irmão-amante de Ishtar.

Deixaram-nos a sós durante todos os sete dias e sete noites. Levavam-lhes comida, ao amanhecer e ao anoitecer, e eles comiam com a fome insaciável dos amantes. Pelo final da semana, tinham feito amor a todas as horas do dia e da noite. Estavam certos de ter inventado mil novos métodos de dar e de receber prazer. Tinham dormido nos braços um do outro. Tinham-se rido como crianças da estupidez de Labão e das esquisitices de Zilpah. Mas não tinham falado de Raquel. Foi uma semana de ouro, cada dia mais doce, mas também mais triste. Nunca haveria outro momento em que Lea e Jacob pudessem vaguear pelas recordações de cada um deles, ou em que pudessem estar à vontade nos braços um do outro durante o dia. Aquelas refeições eram as únicas que eles alguma vez iriam partilhar, conversando e encontrando um no outro afinidades espirituais no tocante aos negócios e à política familiar.

Os dois decidiram que Jacob emergiria daquela semana simulando ira. Iria ter com Labão e diria:

- Fui ludibriado. Serviram-me vinho forte, e deste-me a velha e rezingona Lea, em vez da minha amada Raquel. O meu trabalho para ter Raquel foi recompensado com uma burla, pelo que exijo a devolução daquilo que te dei. E, muito embora tenha passado estes sete dias e sete noites com a tua filha mais velha, tal como era meu dever, não a considerarei minha mulher enquanto não me deres um dote em nome dela, e até que Raquel também seja minha.

E foi precisamente isso que Jacob disse, quando saiu da tenda.- Tomarei a donzela Zilpah como dote de Lea tal como Bilhah será o dote de Raquel. Tomarei mais um décimo do teu rebanho para te livrar da tua desafortunada filha. E, para ser justo, trabalharei mais sete meses como preço a pagar por Lea. São estas as minhas condições. Jacob fez este discurso perante todas as pessoas do acampamento, no dia em que ele e Lea emergiram da reclusão em que tinham estado. Lea manteve os olhos no chão enquanto o marido recitava as palavras que eles tinham ensaiado na noite anterior, nus, suando o suor um do outro. Ela fez de conta que chorava, enquanto torcia a boca para se impedir de rir.

Enquanto Jacob se pronunciava, Ada ia assentindo com a cabeça. Zilpah ficou branca, à menção do nome dela. Labão, que passara a semana bêbado em honra do casamento da filha, estava tão estupidificado que mal conseguiu cuspir um protesto antes de lançar as mãos ao ar amaldiçoando-os a todos, e de voltar à escuridão da sua tenda. Raquel cuspiu aos pés de Jacob e afastou-se tempestuosamente. Algures, pelo final da semana nupcial, ela começara a arrepender-se do pânico que tinha sentido. Tinha perdido para sempre a posição de primeira esposa e, depois, tinha ouvido os sons vindos da tenda nupcial, risos e gritos de prazer abafados. Raquel tinha exposto a mágoa dela a Bilhah, que a levara a ver um par de cães a acasalar, e um par de ovelhas -nenhum dos quais parecia sofrer com o ato. Raquel foi à aldeia, e contou a Inna o que tinha acontecido. Inna contou-lhe histórias de paixão e prazer e levou Raquel à cabana dela, e mostrou-lhe como desvendar os segredos do próprio corpo.

Quando Jacob encontrou Raquel na árvore onde se costumavam encontrar, ela insultou-o sonoramente, chamando-lhe ladrão, degenerado, demônio e disse-lhe que ele era um porco que se metia em ovelhas, cabras e cães. Acusou-o de não a amar. Gritou que ele devia ter percebido que era Lea que lá estava, sob o véu, sentada ao lado dele na festa de casamento. Ele podia ter impedido tudo. Porque é que não o fizera? E chorou amargamente.

Quando as lágrimas se esgotaram, Jacob abraçou-a contra o peito, até parecer que ela estava a dormir, e disse-lhe que ela era a própria filha da Lua, luminosa, radiante e perfeita. Disse-lhe que o amor dele por ela era adoração, que só sentia que tinha um dever para com Lea, que era uma mera sombra da luz de Raquel. Que ela, apenas ela, Raquel, seria a noiva do coração dele, a primeira esposa, o primeiro amor. Que bela traição.

Aconteceu, assim, que, no dia antes da lua cheia seguinte, se deu uma segunda festa de casamento, ainda mais simples do que a primeira. E Raquel tomou o seu lugar na tenda com Jacob. Pouco sei dessa semana, pois Raquel nunca falou do assunto. Ouviram-se lágrimas vindas da tenda de Jacob e Raquel, o que era bom sinal. Ninguém, por acaso, ouviu riso, também. Finda a semana, Raquel esgueirou-se até à tenda vermelha antes do amanhecer, onde dormiu até ao dia seguinte.

Na primeira lua nova a seguir à semana nupcial de Lea, não houve sangue entre as pernas dela, mas ela não deu a notícia a ninguém. No meio dos apressados preparativos para o casamento de Raquel, era suficientemente fácil esconder o fato de ela, na realidade, não precisar de mudar o lugar dela na palha e de não precisar de usar um trapo entre as pernas, quando andava.

Duas semanas depois de Raquel ter entrado na tenda nupcial com Jacob, Lea foi ter com a mãe e pôs a mão seca de Ada na sua jovem barriga. A mulher mais velha abraçou a filha. “Não pensei que viveria o suficiente para ver um neto”, disse ela a Lea, sorrindo e chorando ao mesmo tempo. “Rapariga amada, filha minha.”

Lea disse que tinha mantido silêncio acerca da sua gravidez, para proteger a felicidade de Raquel. O estatuto de primeira esposa de Lea seria confirmado com o nascimento de um filho, e ela soube desde o início que estava a gerar um rapaz. Mas Raquel ficou furiosa, quando soube da gravidez de Lea. Pensou que a irmã não lhe tinha dito nada porque armara uma complicada intriga para a envergonhar, para assegurar o seu próprio papel enquanto primeira esposa e levar a que Jacob a abandonasse a ela.

As acusações de Raquel ressoavam até às bandas do poço, que ficava a uma boa distância da tenda onde ela gritava. Acusou Lea de ter pedido ajuda a Zilpah para lhe roubar o lugar que era dela por direito próprio. Insinuou que Lea não estava grávida de Jacob, mas de um pastor com lábio leporino e meio idiota que rondava o poço.- Cabra ciumenta! - gritava Raquel. - Desastrada de mau olhado, o que tu querias era que Jacob te amasse tanto quanto me ama a mim. Sou eu quem ele ama! Sou eu o coração dele! Tu és uma égua parideira! Vaca patética!

Lea calou-se até Raquel ter acabado. Depois, calmamente, chamou burra à irmã e esbofeteou-a com força, primeiro numa face e, depois, na outra. Não disseram uma palavra uma à outra durante meses. Suponho que Lea sempre tivera ciúmes de Raquel. E era verdade que Lea não cantara nem sorrira muito, durante a semana que Jacob passara com Raquel. De fato, ao longo dos anos, quando o meu pai levava a minha bela tia para a cama dele, a minha mãe mantinha a cabeça vergada sobre o trabalho dela, que foi crescendo na proporção do número dos filhos e do produto do trabalho de Jacob, donde resultava sempre mais lã para fiar.

Mas Lea não era ciumenta da mesma maneira que as raparigas parvas das canções de amor, que morrem de saudade. Não havia bílis na tristeza de Lea, quando Jacob se deitava com as outras esposas dele. Aliás, ela deliciava-se com todos os filhos dele, e amamentou a maior parte deles, em vários momentos. Podia contar com o chamamento de Jacob uma ou duas vezes por mês, para falarem acerca do rebanho e para uma taça extra de cerveja doce. Nessas noites, sabia que dormiriam juntos, ela com os braços em volta da cintura dele, e que, na manhã seguinte, a família se banharia no sorriso dela e teria o prazer de comer um bom petisco.

Mas estou a adiantar-me na minha história. Pois levou anos até que Lea e Raquel aprendessem, finalmente, a partilhar um marido e, a princípio, elas eram como cães que rondavam, rosnavam e retinham as distâncias, enquanto exploravam a fronteira entre ambas.

Mesmo assim, a principio, pareceu que uma espécie de paridade iria sobrevir, porque na lua nova seguinte também Raquel descobriu que não precisava dos trapos e da palha. Ambas as irmãs estavam grávidas. A colheita de cevada foi enorme. Os pastores davam palmadas nas costas a Jacob e diziam piadas acerca da potência dele. Os deuses sorriam. Mas, justamente quando a barriga de Lea começou a inflar a túnica dela, Raquel começou a sangrar. Uma manhã cedo, quase três meses depois do casamento, ela acordou todo o acampamento aos gritos. Lea e Zilpah acorreram e foram encontrá-la a chorar convulsivamente, embrulhada num cobertor ensangüentado. Ninguém a conseguia reconfortar. Não permitia que Ada se sentasse com ela. Não permitia que Jacob a visse. Durante uma semana, agachou-se a um canto da tenda vermelha, onde comeu pouco e dormiu um sono febril e sem sonhos. Lea perdoou a Raquel as horríveis palavras dela e compadeceu-se. Experimentou tentá-la com os seus doces favoritos, mas Raquel cuspia na comida e em Lea, que se fazia maior e mais rotunda de dia para dia, e mais bonita do que alguma vez fôra.

- Foi tão injusto. Tão triste - disse Bilhah, que finalmente convenceu Raquel a comer umas azeitonas e a persuadiu a sair do cobertor rígido e manchado de sangue. Foi Bilhah que caminhou até à aldeia onde Inna vivia, para ver se a parteira tinha alguma poção que arrancasse a irmã daquela espécie de morte em que se encontrava. A própria Inna voltou com ela, e passou horas com Raquel, lavando-a, dando-lhe a comer bocadinhos de pão molhados em mel, persuadindo-a a beber golinhos de hidromel aromático vermelho. Inna murmurou palavras secretas de reconforto e de esperança ao ouvido de Raquel. Disse-lhe que teria grande dificuldade em engravidar, mas predisse que, um dia, teria filhos lindos, luminosos como estrelas e guardiões da sua memória. Inna prometeu diligenciar toda a sua técnica, para que Raquel concebesse outra vez, mas só se ela fizesse tudo o que a parteira lhe dissesse para fazer.

Foi por isso que, quando Lea procurou a bênção da sua irmã no seu sexto mês, Raquel pôs as mãos na barriga de Lea e acariciou a vida que nela habitava. Raquel chorou nos braços da irmã, beijou as mãos de Ada e pediu a Zilpah que lhe escovasse o cabelo. Levou Bilhah para um canto e agradeceu-lhe por ter ido buscar Inna. Foi a primeira vez que Raquel agradeceu a alguém por ter feito alguma coisa. Na manhã seguinte, Lea e Raquel saíram, lado a lado, da escuridão da tenda vermelha, de volta para a luz do mundo, onde estava Jacob. Raquel dizia que ele chorou ao vê-las juntas, Lea dizia que ele tinha sorrido.

“O primeiro parto de Lea não foi especialmente difícil”, disse Raquel. Quando me contou a história da chegada de Ruben, a minha tia já tinha visto nascer centenas de bebês. E, muito embora Raquel se esquecesse de onde tinha posto o fuso assim que o pousava, lembrava-se de todos os pormenores de cada parto que tinha testemunhado. Ela disse-me que, embora o trabalho de parto de Lea tivesse começado antes do pôr do Sol e não tivesse acabado antes do dia seguinte, o caminho fora sempre a direito. A cabeça do bebê estava virada para baixo e as ancas de Lea eram suficientemente largas. Apesar disso, o calor daquela noite de Verão era sufocante, e nunca nenhuma das irmãs assistira a um parto. Na verdade, o sofrimento maior de Lea foi o medo manifestado pelas irmãs.

O parto começou lentamente, durante a tarde, com dores breves que lhe espicaçavam as costas. Ela sorria, após cada pequeno ataque, contente por aquilo ter começado, ansiosa por ser admitida na irmandade das mães. Confiante de que o seu corpo, tão largo e grande, seria capaz de cumprir o seu propósito, ela cantou, nos primeiros momentos. Canções infantis, baladas, canções de embalar.

Mas, à medida que a noite foi passando, que a Lua se levantou no céu e depois se começou a afundar, deixou de haver canções e sorrisos. Cada contração apoderava-se de Lea, torcia-a, como um pedaço de pano, e deixava-a a arfar e temente da dor seguinte. Ada segurava-lhe a mão. Zilpah murmurava orações a Anath.

- Eu não fui de qualquer utilidade - recordava Raquel. - Vagueei para dentro e para fora da tenda, roída de ciúme. Mas, à medida que as horas passavam, cada uma mais difícil do que a outra, a minha inveja diminuiu e fiquei horrorizada com a dor que via em Lea, a forte, o touro invencível, que estava no chão a tremer e com os olhos muito abertos. Aterrorizou-me a idéia de me ver no lugar dela, de poder ainda vir a estar no lugar dela. E tenho a certeza de que os mesmos pensamentos fizeram Zilpah e Bilhah tremer e ficar em silêncio, enquanto a nossa irmã estava em trabalho de parto.

Bilhah apercebeu-se, por fim, de que a ajuda de Ada não bastava e foi buscar Inna, que chegou ao raiar do dia. Por essa altura, Lea gania como um cão. Quando Inna chegou, pôs as mãos na barriga de Lea e depois apalpou-a por dentro. Fê-la deitar-se de lado e massageou-lhe as costas e as coxas com um óleo que cheirava a menta. Inna sorriu a Lea e disse:- O bebê está quase à porta.

E, enquanto tirava os instrumentos do estojo, pediu às mulheres que se juntassem ali à volta, para ajudarem a irmã a trazer o bebê ao mundo.- Foi a primeira vez que vi os instrumentos de parteira - disse Raquel. -Faca, o cordel, canas para sucção, ânforas de cominhos, hissopo e óleo de menta. Inna pôs os seus dois tijolos no chão e disse a Lea que daí a nada teria de apoiar-se neles. Pôs-me a mim e a Zilpah de cada um dos lados para dar apoio a Lea, quando esta se agachasse sobre uma cama de palha limpa. Zilpah e eu fizemos de cadeira, passando-lhe os braços em volta dos ombros e por baixo das coxas.

- Sua sortuda - disse Inna a Lea, que por aquela altura não se sentia minimamente sortuda. - Olha para o trono real de irmãs que tens. Inna falava sem parar, derrubando o silêncio amedrontado que se amuralhara à volta de Lea. Inna fez perguntas a Ada acerca das dores dela e arreliou Zilpah por causa do ninho emaranhado que era o cabelo dela. Mas quando vinha uma contração, Inna só tinha palavras para Lea. Elogiava-a, sossegava-a, dizia-lhe “bem, bem, bem, minha menina. Bem, bem, bem”, arrulhando como um bando de rolinhas. Inna começou a massagear a pele em volta do rabo de Lea, que tinha inchado até à deformidade. Massageou-a com movimentos cada vez mais fortes, à medida que as dores se tornavam mais próximas. Depois pôs as mãos de Raquel na barriga de Lea e mostrou-lhe como devia empurrar para baixo, suavemente, mas com firmeza, quando fosse chegado o momento. Disse a Lea que não devia empurrar, que não devia empurrar, até que Lea começou a berrar palavrões.- Vi aquele bebê a vir ao mundo, como nunca tinha visto nada na minha vida - contou Raquel. - Claramente. Sem um pensamento para mim mesma. Pensei na minha própria mãe, que tinha visto aquilo tantas vezes, cujas mãos tinham guiado tantas almas para este mundo, mas que tinha morrido ao dar-me vida. Mas não tinha tempo para ter pena de mim própria, porque, de repente, uma estranha bolha vermelha emergiu do meio das pernas de Lea e, depois, quase de imediato, um dilúvio de água ensangüentada correu pelas coxas dela abaixo. Lea fez força, com a cara vermelha, os olhos - azul e verde -esbugalhados, brilhantes. As pernas tremiam-lhe, como se a qualquer momento fossem quebrar, e foi preciso toda a força de Zilpah e de Raquel para a segurar. Então, Inna disse a Bilhah que tomasse o lugar de Raquel, para que esta pudesse apanhar o bebê, talvez o sangue do parto fizesse com que o ventre de Raquel se enchesse outra vez, também. E, assim, Raquel banhou-se no rio da vida.

Lea rugiu, e deu à luz um filho. O menino era tão grande, que foi preciso que Inna e Raquel o apanhassem, e começou a chorar mesmo antes de lhe levantarem a cabeça. Não foi necessário usar as canas para desimpedir o nariz e a boca do bebê.

Todas riram, com lágrimas a correr-lhes pelas faces, arfantes, por causa do esforço do parto de Lea.

Passaram o bebê em volta da tenda, limpando-o e beijando-o, elogiando-lhe os membros, o tronco, a cabeça, o pequeno sexo. Falavam todas ao mesmo tempo, com algazarra inaudita. Jacob gritou às mulheres que lhe contassem as noticias.

- És pai - disse Inna. - Vai-te embora. Em breve te mandaremos chamar, e verás o teu filho, o teu primogênito, quando tivermos acabado. -Depois ouviram Jacob berrar de alegria e gritar as noticias a Labão e Ruti, e aos cães dele, que ladravam, e às nuvens no céu. A placenta caiu de dentro de Lea, que estava meia adormecida de exaustão. Inna fê-la beber e comer antes de a deixar descansar e pôs o bebê no peito de Lea, onde ele mamou. Mãe e filho dormiram, as irmãs cobriram-nos. Ada ficou a vê-los, com um sorriso de avó que lhe permaneceu na cara mesmo depois de adormecer. Inna embrulhou a placenta num trapo velho, enterrando-a nessa noite, no canto oriental da hamah, tal como se deve fazer à placenta de um filho primogênito. Horas mais tarde, quando Lea acordou, deu ao bebê o nome de Ruben. O nome era uma espécie de grito alegre, um nome que, justamente, desafiava os espíritos malignos a fazerem-lhe mal. Mas Lea não tinha medos em relação ao seu robusto rapaz. Jacob foi chamado e acolheu o filho com grande ternura.

Quando Jacob foi-se embora depois do primeiro encontro com o filho, a felicidade dele pareceu evaporar-se. Curvou a cabeça até ao peito e pôs-se a matutar no que era preciso fazer a seguir. De acordo com o costume da família, o rapaz devia ser circuncidado, e não havia ninguém que o pudesse fazer senão o próprio Jacob. Jacob não deixaria Labão tocar no bebê, quanto mais com uma faca. Não conhecia homem algum na aldeia ou nos montes mais próximos que soubesse fazer aquilo, menos ainda quem percebesse por que razão faria ele aquilo ao filho primogênito. Teria de ser ele.

Jacob tinha visto o pai a cortar os prepúcios dos bebês filhos dos homens que trabalhavam para ele e não tinha desviado o olhar nem se tinha retraído durante toda a execução. Mas nunca tinha feito tal coisa ele próprio, nem, percebia-o agora, tinha observado com suficiente atenção o modo como o pai fazia o curativo da ferida. E, é claro, nunca tinha gostado tanto de um bebê na vida dele.

Mas como aquilo tinha que ser feito, fosse como fosse, ele iniciou os preparativos, que Zilpah observou, e contou a Lea, que estava doente com a idéia de ver o seu bebê, o seu prêmio, ser posto no altar da bamah para ser mutilado. Pois era dessa maneira que ela encarava aquilo. A aba de pele no pênis não significava nada para ela. Na realidade, agora que vira o aspecto de um homem circuncidado, preferia o aspecto do sexo de Jacob exposto, limpo, mesmo afoito -, à pequena mortalha que envolvia o membro do filho, fonte de muitas piadas estúpidas e ordinárias, na tenda vermelha. Uma vez, Lea ameaçara pegar num pedaço de madeira queimada e desenhar uma cara no sexo de Ruben, para que, quando Jacob puxasse para trás o prepúcio, deixasse cair a faca de espanto. As mulheres rolavam nas esteiras, agarradas a si próprias, rindo do tenro equipamento que os homens carregavam entre as pernas.

Mas, após alguns dias, as piadas pararam e Lea chorou tanto e durante tanto tempo por causa do rapaz que trazia ao peito, que os caracóis escuros da cabeça dele ficaram salgados de lágrimas. Mesmo assim, não objetou ao costume do pai do marido dela. Jacob tinha sobrevivido a isso, dizia ela repetidamente às irmãs, sobretudo para se tranqüilizar a si própria. Isaac tinha sido circuncidado, e antes dele Abraão. No entanto, a idéia de o bebê dela ir sentir dor e ficar em perigo fazia a jovem mãe tremer, e o fato de ter percebido que Jacob não tinha qualquer experiência daquela tarefa pô-la num frenesi de preocupação. Zilpah observava, vendo igualmente que Jacob não estava à vontade com o ritual. Todas as noites ele se sentava na bamah com a faca dele, e afiava-a no altar. Do pôr do Sol até ao nascer da Lua, durante três noites seguidas, até que o fio estivesse perfeito, ele afiou e poliu a lâmina, até que ela cortasse um cabelo ao mais leve toque. Jacob pediu a Ada que fizesse ligaduras pequenas, tecidas de lã nova, tirada da primeira tosquia do cordeiro primogênito daquela temporada. Mandou perguntar a Lea se ainda tinha algum dos ungüentos da parteira para ajudar à cicatrização. Na sétima noite após o nascimento de Ruben, Jacob sentou-se, observando silenciosamente o céu até o Sol raiar. Derramou libações e cantou ao deus dos pais dele. Derramou libações sobre a asherah, também, e abriu as mãos perante ela. Zilpah observou tudo aquilo e depois deixou de se referir a Jacob como “aquele rapaz,” começou a chamá-lo pelo nome.

Na madrugada do oitavo dia após o nascimento do filho, Jacob matou um cabrito e queimou-o no altar. Lavou as mãos e esfregou-as com palha, até que ficassem vermelhas, como se tivesse estado a mexer num cadáver. E, então, caminhou até à tenda vermelha e pediu às mulheres que lhe dessem Ruben, o filho de Lea.

Chamou Labão para que o seguisse e os dois homens caminharam sozinhos até à bamah, onde Jacob despiu o bebê, cujos olhos estavam abertos, e o pôs no altar. Jacob deu um alto e um longo suspiro, enquanto desnudava o rapaz, depois fez um sinal a Labão para que ele segurasse as pernas do bebê. Com isso, Ruben começou a gritar. Jacob tomou a faca nas mãos e franziu o sobrolho.

- Tinha lágrimas nos olhos - disse Zilpah. - Tomou o sexo do bebê nas mãos e puxou a pele para cima com firmeza, segurando-a entre os dois dedos longos da mão esquerda. Com a mão direita, cortou, com um golpe rápido e seguro, como se fosse um velho hábito dele, como se soubesse o que estava a fazer - disse ela.

Ruben uivou e Jacob deixou cair a faca. Rapidamente, revestiu a ferida com a ligadura de Ada e embrulhou mal o bebê, como fazem os homens. Levou o filho de volta às mulheres, murmurando ao ouvido perfeito de Ruben palavras que mais ninguém podia ouvir. A tenda vermelha, que tinha estado em silêncio durante a ausência do bebê, explodiu em atividade. Lea fez um curativo à ferida com o óleo de cominhos que Inna tinha deixado para as feridas de parto. Ada embrulhou bem o bebê e devolveu-o à mãe, cujo seio ele tomou com alívio, adormecendo de seguida.

O bebê sarou rapidamente, tal como Lea, durante o seu primeiro mês enquanto jovem mãe, dentro do abrigo da tenda vermelha. Ela foi mimada pelas irmãs, que mal a deixavam pôr os pés no chão. Jacob passava por lá todos os dias, levando aves acabadas de depenar para as refeições dela. Através da parede peluda da tenda, eles davam um ao outro as noticias dos seus dias, com uma ternura que aquecia quem os ouvisse.

Ada esteve felicíssima durante todo aquele mês e viu a sua filha sair da tenda vermelha recuperada e descansada. Ficou deliciada com os primeiros bocejos e os primeiros espirros do neto, foi a primeira a notar que Ruben levantava a cabeça. Segurava no bebê sempre que Lea o pousasse e a alegria de o ter tirou-lhe anos da cara e a dor dos ossos. Mas a doença que lhe tinha gasto a força não podia ser curada sequer pela maior das alegrias. E, uma manhã, não se levantou do seu cobertor. Ada fora a única mãe que as irmãs tinham conhecido, puseram-lhe cinzas nos cabelos e prestaram-lhe as honras devidas. Zilpah escovou-lhe o cabelo até o deixar sedoso. Raquel vestiu-a na melhor túnica que possuiam, Bilhah ataviou-lhe os secos punhos, pescoço e dedos com os poucos anéis e pulseiras que Ada possuía. Juntas, cruzaram-lhe os braços e dobraram-lhe os joelhos, para que parecesse uma criança adormecida. Sussurraram-lhe desejos aos ouvidos, para que os levasse para o outro lado da luz, onde os espíritos dos antepassados dela receberiam a sua alma, que podia, agora, descansar no pó da terra e não conhecer mais sofrimento.

Embrulharam-na numa mortalha de lã virgem, debruada a ervas de cheiro doce, e enterraram-na no meio das raízes da grande árvore onde as mulheres freqüentemente se juntavam para ver a Lua nascer. Jacob abriu a cova, enquanto Labão o observava, com cinzas nos cabelos, em honra da primeira esposa. Com Ada, Labão enterrou a juventude, a força e, talvez, um melhor eu esquecido. Ele atirou o primeiro punhado de terra, depois virou-se e foi-se embora, antes que as quatro irmãs acabassem de aconchegar Ada com terra, flores e grandes lamentações.

Dois meses depois de Ada morrer, Bilhah entrou na tenda vermelha. Com o desaparecimento de Ada e sem nenhuma outra anciã para tomar o lugar dela, Lea, que amamentava o filho, tornou-se na mãe que a acolheu. Cumprimentou a acólita e ensinou-lhe a gerir o fluxo de sangue, a alegrar-se com a escuridão da Lua, a juntar o ciclo do corpo dela à repetição da vida.

A roda tinha girado. E, muito embora Labão mantivesse o título de chefe do clã, iniciara-se o tempo de Jacob como patriarca. Também as minhas mães começaram a numerar os dias delas com a sabedoria das mulheres.

Muitos bons anos se seguiram. As chuvas vieram na estação certa, a água do poço era doce e abundante. A terra foi poupada à pestilência, a paz reinou entre as tribos circundantes. Os rebanhos prosperaram de tal maneira que Jacob já não conseguia fazer tudo sozinho, e portanto contratou Shibtu, o terceiro filho de um pastor local, como trabalhador, por sete anos. Depois contratou Nomir, que trouxe uma esposa, Zibatu, e houve uma cara nova na tenda vermelha.

A boa sorte e a crescente fortuna da família não eram resultado exclusivo das capacidades de Jacob, nem tudo podia ser atribuído à vontade dos deuses. O trabalho das minhas mães era responsável por grande parte dessas coisas. Conquanto ovelhas e cabras sejam sinal de riqueza, o seu valor só é plenamente concretizado no casamento das mulheres. Os queijos de Lea nunca azedavam, e quando o bolor atacava o trigo ou o milho-miúdo, ela fazia com que as espigas afetadas fossem limpas para proteger o resto da colheita. Zilpah e Bilhah teciam a lã dos crescentes rebanhos de Jacob em padrões de preto, branco e açafrão que atraíam os mercadores e traziam riqueza acrescida. Foram também tempos de grande fertilidade entre as mulheres. Muitos bebês nasceram, a maior parte deles sobreviveu. Lea usava o manto da grande mãe, quase sempre grávida ou a amamentar recém-nascidos. Dois anos depois do nascimento de Ruben, deu à luz um segundo filho, Simeão. Levi nasceu apenas dezoito meses mais tarde. Lea teve um aborto depois disso, mas um ano mais tarde varreu a mágoa com a alegria do quarto filho, Judá.

Estes irmãos, de idades tão próximas, formavam uma tribo por si sós. Ruben, sempre o mais pesado e alto, era amável com os mais novos. Simeão era um demônio - bonito e presumido, impertinente e mal-educado -, mas perdoava-se tudo por causa das covinhas que ele tinha. Levi era um ratinho dócil e o escravo de Simeão. Judá era um rapaz calado, terno para com toda a gente. Tinha a tez muito mais clara do que os irmãos, e Jacob disse a Lea que ele se parecia com o próprio irmão de Jacob, Esaú.

Enquanto Lea estava grávida de Simeão, também a Ruti de Labão carregava grande barriga, acabando por dar à luz um rapaz, Kemuel, ao qual se seguiu, um ano mais tarde, Beor. O velho adorava os seus filhos de sobrancelhas salientes, que, a principio, brincavam às lutas com os filhos de Lea, mas depois inventaram uma linguagem secreta que os trancou num pequeno mundo à parte. Labão pensava que aquilo demonstrava a superioridade dos seus filhos, mas o resto da família via aquilo como prova do incorreto desenvolvimento que era a natureza deles e das limitadas perspectivas que tinham. A algazarra feliz das crianças cercava-os a todos, mas a bênção de gerar não era igualitariamente distribuída. Raquel abortava uma e outra vez. Depois de o dilúvio sangrento lhe ter iludido as esperanças pela quarta vez, caiu doente com uma febre que a enlouqueceu durante três dias e noites. Essa febre assustou tanto as demais irmãs, que elas insistiram em que parasse de tentar conceber e a persuadiram a beber a infusão de semente de funcho que sela o útero, pelo menos até ter recuperado peso e força. Raquel, exausta, concordou.

Mas ela não conseguia descansar durante muito tempo, no meio do clamor dos filhos das irmãs. Embora já não odiasse Lea tão intensamente como no passado, Raquel não conseguia sorrir à irmã, vendo que o seu próprio corpo continuava a não dar fruto. Ausentava-se freqüentemente das tendas da família, procurando os conselhos de Inna, que tinha uma aparentemente infinita lista de concoções e estratégias para lhe abrir o ventre.

Raquel experimentou cada remédio, cada poção, cada rumor de cura. Só usava vermelho e amarelo - as cores do sangue da vida e o talismã para uma menstruação saudável. Dormia com a barriga encostada a árvores que se dizia serem consagradas a deusas locais. Onde quer que visse água a correr, deitava-se nela, esperando que a vida do rio inspirasse vida dentro dela. Engoliu uma tintura feita de pólen de abelhas até que a língua se lhe tingiu de amarelo e a urina jorrar cor de açafrão. Comia cobra - o animal que, ano após ano, se dá à luz a si próprio. É claro que quando alguém, adulto ou criança, encontrava uma mandrágora - a raiz que se parece tanto com um marido excitado -, a levava a Raquel e a passava para a mão dela com um piscar de olho e desejos de bons resultados: Ruben encontrou, uma vez, uma raiz particularmente grande, e levou-a à tia com o orgulho de um caçador de leões. Mas as mandrágoras não fizeram nada pelo ventre de Raquel. Durante a sua procura de uma criança sua, Raquel deu assistência a Inna e tornou-se aprendiza. Aprendeu o que fazer quando o bebê se apresenta de pés para baixo, e o que fazer quando o bebê vem demasiado depressa e as carnes da mãe se rompem e ficam em chaga. Aprendeu o que fazer para que a mãe de um nado morto não morresse de desespero. E como, quando uma mãe morresse, abrir o ventre desta e salvar a criança que está lá dentro.

Raquel trouxe às irmãs histórias que as faziam chorar, e suspirar, e pensar. Histórias de uma mãe que morreu, e de um pai que vendeu a criança antes de o corpo da mãe esfriar. De um homem que desmaiou com a morte da esposa amada. De uma mulher que chorou sangue pela sua criança morta. Raquel falava de poções que operavam milagres numa mulher e que pareciam matar outra, de um monstro inócuo que tinha sido deixado a morrer ao ar da noite, de sangue que tinha bons resultados, e de sangue que curava.

Também havia histórias triunfantes, de gêmeos saudáveis, de um bebê nascido azul, com o cordão umbilical a envolver-lhe o pescoço, trazido de volta à vida por Inna, que sugara a vida das narinas do pequeno com uma cana do rio. Por vezes, Raquel fazia as irmãs rir, com imitações de mulheres que rugiam como leões, e de outras que sustinham a respiração e desmaiavam, para não fazerem barulho.

Raquel tornou-se o elo entre elas e o mundo maior. Com as histórias de vida e de morte, Raquel trazia também ervas novas para temperar vegetais, receitas de ungüentos para curar as feridas e remédios cada vez mais estranhos para a sua infertilidade, sendo que todos falhavam. Muitas vezes, Raquel voltava com um bracelete, uma tigela, ou um pedaço de lã para dobar - provas de gratidão pela generosidade dela no leito dos partos. A beldade arrogante transformava-se numa terna curandeira ao serviço das mães. Chorava em cada parto, nos felizes como naqueles que acabavam em gritos agudos e em queixumes. Chorou com Ruti, e até com Lea.

Quando chegou o momento de Zilpah se pôr sobre os tijolos da parteira, foi Raquel sozinha - sem Inna -, quem conduziu a irmã através da provação, quem desatou o cordel, e quem corou de prazer ao ver o “seu” primeiro bebê, que lhe conferia o titulo de parteira. Lea cozinhou-lhe um banquete, nessa noite, e Zilpah derramou libações de sal e de vinho diante ela, em reconhecimento do seu novo estatuto de serva das mulheres em nome de Anath, a curandeira.

Com o correr do tempo, mais trabalhadores vieram viver ali e trabalhar para Jacob, com eles, vinham mulheres, que davam à luz crianças, e que perdiam crianças. Zibatu, deu à luz Nasi, mas depois perdeu a sua segunda criança, uma menina que veio dois meses antes do tempo. Iltani deu à luz duas gêmeas que prosperaram, embora tenha morrido de febre antes que as filhas pudessem conhecer a cara da mãe. Lamassi deu à luz um filho, Zinri, mas a filha dela foi deixada fora da tenda para morrer, porque tinha lábio leporino.

Na tenda vermelha, nós sabíamos que a morte era a sombra do parto, o preço que as mulheres pagam pela honra de dar vida. Portanto, a nossa dor era comedida.

Após o nascimento de Judá, Lea ficou cansada. Ela, que fora sempre a primeira a levantar-se e a última a retirar-se, que parecia mais satisfeita quando fazia duas coisas ao mesmo tempo (mexer uma panela enquanto cuidava de uma criança ou moer cereais enquanto supervisionava a fiação), começou a vacilar, à tarde, e a ver sombras onde elas não existiam. Inna aconselhou-a a não engravidar, por uns tempos, e trouxe-lhe sementes de funcho e mostrou-lhe como fazer um pessário de cera de abelhas.

Regozijava-se com a robustez dos filhos, parava todos os dias para os acariciar e para participar no jogo de pedras lisas deles. Fazia bolo com mel, tal como era costume, e planeou um novo horto em que as ervas atrairiam mais abelhas para as colméias próximas. Dormia bem à noite e levantava-se em paz de manhã.

Lea recordava os seus anos de repouso como um tempo de grande satisfação. Tinha a inteireza de cada dia nas mãos, enquanto enumerava a doçura das crianças, o prazer do trabalho. Deu graças à existência das sementes de funcho e ao bom senso de as ter usado. Os seus bolos excederam-se em doçura naquele ano, e ela respondia ao corpo de Jacob com mais ardor do que nunca.

Quando falava daquele tempo, Lea dizia: “O sabor da gratidão é como o néctar da colmeia.”

Passados dois anos, ela pôs de lado as sementes de funcho e o pessário, e concebeu outro filho, que deu à luz com facilidade e a quem denominou Zebulon, que para Lea significava “exaltar” - porque, com o nascimento dele, Lea exaltava a capacidade do corpo dela de se curar e de dar vida mais uma vez. Ela adorava o novo bebê quase tanto quanto o seu primogênito.

E quando deu o filho a Jacob para a circuncisão, sorriu para o marido, e ele beijou-lhe as mãos.