A Tenda Vermelha
Capítulo 5
Os preparativos para a viagem começaram um mês antes da ceifa da cevada. O meu pai decidiu que levaria a Mamre todas as suas esposas e a maior parte dos filhos. A Simeão e Levi mandou-os ficar para trás com os rebanhos e, uma vez que ambas as esposas deles estavam grávidas pela primeira vez, eles não objetaram. Embora Shua não estivesse grávida, Judá pediu também para ficar, e as mulheres sabiam todas porquê: os gritos dos prazeres noturnos deles eram uma fonte de piadas e de sorrisos tolos.
Os meus irmãos e eu fomos chamados à presença das nossas mães, que examinaram as nossas melhores roupas e as acharam insuficientes. Seguiu-se uma agitação de lavagem, remendos e costura. Raquel decidiu fazer uma túnica nova para o seu único filho. O traje de José, decorado com tiras de vermelho e amarelo, granjeou-lhe horríveis gozos por parte dos irmãos. Ele ignorou as gozações e jurou que preferia a peça de roupa que a sua mãe lhe tinha feito às coisas insípidas que eram dadas a usar aos homens. Não consegui perceber se ele estava a erguer uma fachada corajosa ou se realmente gostava do seu elegante vestuário. A mim, deram-me braceletes para os pulsos - as minhas primeiras jóias. Eram só de cobre, mas eu adorava-as, especialmente o som feminino e adulto que elas faziam. De fato, passei tanto tempo a admirar o modo como as três tiras se juntavam Dos meus pulsos, que não prestei atenção aos meus pés e, no primeiro dia em que as usei, tropecei e esfolei o queixo, que ficou em carne viva. Fiquei horrorizada com a idéia de ir conhecer a avó com um ar de criança cheia de crostas. Estudei a minha cara no espelho de Raquel todos os dias, até nos termos ido embora, implorei a Inna que me desse ungüento e escarafunchei a enorme crosta vermelha.
No dia em que partimos para Mamre, estava fora de mim de excitação, ignorei todos os pedidos que me eram feitos. A minha mãe, em todo o lado ao mesmo tempo, certificando-se de que os jarros do azeite e do vinho estavam selados em segurança, de que os meus irmãos tinham penteado as barbas, de que tudo estava pronto, acabou por perder a paciência comigo. Foi uma das poucas vezes em que ela levantou a voz para mim.
- Ou me ajudas, ou deixo-te cá, para servires as mulheres dos teus irmãos - disse ela. Não precisou de dizer mais nada. A viagem demorou poucos dias e foi alegre. Cantamos enquanto caminhávamos, a arranjarmo-nos no nosso vestuário luxuoso, orgulhosos do nosso lindo rebanho, pois só os melhores animais tinham sido escolhidos para serem dados de presente à avó. Jacob andava ao lado de Raquel, de manhã cedo, inalando o perfume dela, sorrindo, falando pouco. Depois, tomava o seu lugar ao lado de Lea para discutir os animais, as colheitas e a etiqueta apropriada para cumprimentar os pais dele. Ao fim da tarde, Jacob encaminhava-se para Bilhah, tirando o lugar a Ruben, a sombra dela. O meu pai caminhava com a mão sobre o pequeno ombro dela, como se precisasse do seu apoio.
Eu estava perfeitamente feliz. José ficava ao meu lado, e até se esquecia suficientemente da maneira como se devia comportar para me dar a mão, de tempos a tempos. À noite, eu ficava ao pé de Zilpa, que me alimentava a admiração pela avó com histórias sobre a reputação de Rebeca como adivinha, curandeira e profetisa, de modo que eu quase não conseguia adormecer. Quase não me conseguia conter para não correr, pois ia ver Tabea outra vez. Werenro sorrir-me-ia, contar-me-ia mais um bocado da sua história. E ia conhecer a avó, que eu imaginava que me perceberia instantaneamente e me adoraria acima de qualquer um dos meus irmãos.
A meio da manhã do terceiro dia, avistamos a tenda de Rebeca. Mesmo à distância, era uma maravilha, embora, a princípio, não tenha percebido o que é que brilhava no outro lado do vale diante de mim. A tenda era enorme - muito maior do que qualquer tenda que eu alguma vez tivesse visto - e completamente diferente das nossas habitações de pêlo de cabra.
Esta era um arco-íris preso à terra - vermelho, amarelo e azul -flutuando por sobre o terreno alto, sob um pálio de grandes e velhas árvores cujos ramos imploravam a um céu sem nuvens. À medida que nos aproximamos, tornou-se claro que aquilo era menos uma casa do que um pálio, aberto por todos os lados para receber os viajantes de todas as direções. Lá dentro, vimos de relance vividos objetos pendurados, em padrões simultaneamente delicados e audaciosos, com cenas de mulheres a dançar e peixes voadores, estrelas, crescentes, sóis, pássaros. Eram mais bonitos do que todas as coisas feitas à mão que eu alguma vez tivesse visto.
Quando quase conseguíamos sentir a sombra do bosque sagrado, apareceu a avó. Não saiu para nos receber nem mandou nenhuma das suas mulheres, mas esperou na sombra da tenda maravilhosa de braços cruzados, a observar. Não consegui desviar os meus olhos dela. Não me lembro da saudação formal do meu pai ou da cerimônia para apresentar os meus irmãos, um por um, e depois os presentes, e finalmente as minhas mães e eu. Só a via a ela. A avó - a minha avó. Ela era a pessoa mais velha que eu alguma vez tinha visto. Os anos que ela tinha, proclamavam-se nas grandes rugas da testa e à volta da boca, mas a beleza da juventude ainda se agarrava a ela. Ela mantinha-se tão ereta quanto Ruben, quase tão alta quanto ele. Os seus olhos negros eram claros e penetrantes, pintados ao estilo egípcio - um padrão de kolil pesado e negro, que fazia parecer que ela via tudo. Os trajes eram púrpura - cor da realeza e da santidade e da riqueza. O toucado era longo e negro, perpassado de fios de ouro, criando a ilusão de um cabelo luxuriante onde, de fato, só uns poucos fios cinzentos lhe restavam. Rebeca não reparou que eu a olhava fixamente. Os olhos da avó estavam fixos no filho que ela não via desde o tempo em que ele era um rapaz de faces macias, e que agora era um homem com filhos crescidos e avô. Não demonstrou emoção, enquanto Jacob lhe apresentou os filhos e as esposas dele, e os presentes que trouxera. Assentia com a cabeça, aceitava tudo, não dizia nada.
Eu pensei que ela era magnífica distante como uma rainha. Mas vi a boca da minha mãe apertar-se em desprazer. Ela tinha esperado uma demonstração de amor maternal pelo filho favorito. Eu não pude ver a cara do meu pai, para medir a reação dele.
Depois das boas-vindas oficiais, a avó virou-nos as costas e nós fomos levados para o lado oeste do monte, para montarmos as nossas tendas e nos prepararmos para a refeição da noite. Foi aí que eu soube que a Tabea ainda não tinha chegado e que Werenro tinha sido enviada a Tiro, para comerciar a rara tinta púrpura que a avó preferia.
Não vivia nenhum homem no bosque. Rebeca era assistida por dez mulheres, que também tomavam conta dos peregrinos que vinham procurar conselho e profecias daquela a quem chamavam “Oráculo”. Quando fiz perguntas acerca do pai do meu pai, uma das assistentes da avó disse-me que Isaac morava a curta distância, na aldeia de Arba, numa barraca aconchegada que era mais bondosa para os velhos ossos dele do que uma tenda aberta. “Ele virá para a refeição desta noite”, disse a mulher, cujo único nome era Débora. A avó chamava a todas as suas acólitas Débora, em honra da mulher que tinha sido a ama dela, na infância, e que a servira ao longo da vida, e cujos ossos jaziam enterrados sob as árvores de Mamre.
As mulheres da avó falavam em murmúrios tímidos e vestiam-se com a mesma simples túnica branca. Eram uniformemente amáveis, mas distantes, e rapidamente parei de tentar vê-las como indivíduos e comecei a pensar nelas todas como as Déboras. A tarde passou rapidamente, na preparação para a refeição da noite. No preciso momento em que o primeiro pão saía do fogo, chegou palavra de que Isaac tinha chegado. Corri em volta da tenda para ver o meu avô aproximar-se do bosque. Rebeca também veio ver, erguendo a mão numa breve saudação. O meu pai foi ter com ele para o cumprimentar, o passo dele a tornar-se mais e mais rápido, até ele estar de fato a correr em direção ao pai.
Isaac não respondeu à saudação da esposa ou à excitação do filho. Continuou, aparentemente sereno, no seu assento almofadado em cima de um burro conduzido por uma mulher com os mesmos trajes brancos do séqüito da minha avó - embora esta usasse um véu que lhe cobria tudo exceto os olhos. Só quando ele se aproximou é que eu percebi que o meu avô era cego, e que tinha os olhos semicerrados num aperto que lhe azedava toda a cara numa carranca permanente. Tinha ossos pequenos, era magro, e teria parecido frágil se não tivesse o cabelo tão espesso e escuro quanto o de um homem mais novo. A avó observou a criada a ajudar Isaac a descer e a acompanhá-lo ao seu cobertor no lado leste de Mamre. Mas, antes da criada lhe libertar o cotovelo, Isaac tomou a mão dela na sua e levou-a aos lábios. Beijou-lhe a palma da mão e pô-la na face dele. A cara de Isaac relaxou num sorriso, para que qualquer um que quisesse vê-lo pudesse saber que a mulher velada era a companheira do coração do meu avô.
O meu pai pôs-se perante Isaac e disse: “Pai?”, numa voz transbordante de lágrimas. Isaac virou a cara na direção de Jacob e abriu os braços. O meu pai abraçou o velho e ambos choraram. Falaram em sussurros, enquanto os meus irmãos esperavam as apresentações. As minhas mães retrairam-se, trocando olhares furtivos por causa da comida, que ficaria seca e sem sabor se não fosse servida rapidamente.
Mas os homens não queriam ser apressados. Isaac puxou o filho para um lugar a seu lado, enquanto Jacob lhe apresentava cada um dos filhos. Isaac passou as mãos pelas caras dos meus irmãos Ruben e Zebulon, Dan, Gad e Aser, Naftali e Issacar. Quando José foi finalmente apresentado como o filho mais novo, o avô puxou-o para o colo dele, como se ele fosse um bebê e não um rapaz perto da idade adulta. Isaac passou os dedos pelos contornos da cara de José e pelos músculos dos braços dele com ternura. Levantou-se uma brisa, que ergueu a tenda de seda bem alto sobre eles, abraçando avô e neto no seu maravilhoso arco-íris. Era uma visão grandiosa, tirou-me o fôlego. E foi precisamente nesse momento que Rebeca, que até então se mantivera distante, finalmente quebrou o seu silêncio majestático.- Deves estar com fome e com sede, Isaac - disse ela, oferecendo hospitalidade numa voz muito pouco graciosa. - As tuas crianças estão sedentas por causa da viagem. Deixa que a tua Débora te traga para dentro. Deixa as tuas noras mostrarem-me que sabem cozinhar. Um rodopio de trajes brancos pôs a refeição na mesa e o festim começou. O meu avô comeu bem, tomando os seus bocados de comida dos dedos da mulher velada. Perguntou se os seus netos tinham comido o suficiente e de tempos a tempos esticava o braço para encontrar o seu filho - pondo uma mão amorosa e tonta no ombro ou na face dele, deixando manchas de gordura que o meu pai não limpou. Vi isto de trás de uma árvore, pois com todas aquelas criadas, não era necessário que eu carregasse comida ou água.
Os meus irmãos estavam com fome e acabaram rapidamente. Pouco depois, Zilpa veio-me buscar para o nosso lado da grande tenda, onde as mulheres se aglomeraram. A avó sentou-se e nós observamo-la enquanto ela provava uma única vez tudo o que estava em frente dela. Não disse nada acerca dos guisados ou dos pães ou dos doces. Não elogiou o queijo ou as azeitonas gigantes que as minhas mães tinham colhido. Não ligou à cerveja da minha mãe.
Mas o silêncio de Rebeca já não me surpreendia. Tinha deixado de pensar nela como uma mulher igual às minhas mães, ou mesmo a qualquer outra mulher. No espaço de uma tarde, ela transformara-se numa força dos deuses, como uma chuvarada ou um incêndio na mata. Por causa de a avó ter comido pouco e não ter dito nada, a nossa refeição foi mais sombria do que festiva. Não houve passagem de tigelas para segunda prova, nem elogios, nem perguntas, nem qualquer conversa. O grande festim acabou em breves minutos e as Déboras levantaram as últimas taças sem dar tempo de pensar em voltar a enchê-las. A avó levantou-se e encaminhou-se para a ponta ocidental da sua tenda, onde o Sol se punha num clarão de laranja e dourado. As assistentes dela seguiram-na. Rebeca estendeu as mãos, como se quisesse tocar os últimos raios de sol.
Quando deixou cair os braços, as assistentes começaram a cantar uma canção que convidava a Lua da ceifa de cevada a apresentar-se. As estrofes repetiam uma profecia antiqüíssima. Quando cada espiga de cevada tivesse vinte e sete sementes, o fim dos dias chegaria e haveria descanso para os cansados e o mal desapareceria da terra como a luz das estrelas ao nascer do Sol. O último refrão acabou justamente quando a escuridão engoliu o campo.
Acenderam-se lâmpadas no grupo dos homens, acenderam-se lâmpadas no das mulheres. A avó veio conosco, e eu temi que ficássemos sentadas em espera silenciosa durante toda a noite, mas o meu medo não tinha fundamento, pois, logo que as luzes foram acesas, ela começou a falar.- Esta é a história do dia em que eu vim para a tenda de Mamre, para o bosque de árvores sagradas, para o umbigo do mundo - disse a avó, Rebeca, em tons que poderiam ter sido escutados pelos homens, caso estivessem a ouvir. - Foi nas semanas que se seguiram à morte de Sarai, a profetisa, amada de Abraão, mãe de Isaac. Aquela que deu à luz quando era demasiado velha para carregar água, quanto mais para carregar uma criança. Sarai, mãe querida. Na manhã em que entrei neste bosque, uma nuvem desceu sobre a tenda e sobre Sarai. Uma nuvem dourada que não carregava chuva, nem cobria o Sol. Era uma nuvem que só é vista sobre grandes rios e sobre o mar, mas nunca antes fora avistada em lugar tão alto. E, no entanto, a nuvem pairou sobre a tenda de Sarai enquanto Isaac me conheceu e eu me tornei esposa dele. Passamos os nossos primeiros sete dias como marido e mulher sob essa nuvem, em que os deuses com certeza estavam presentes. E nunca houve colheita mais rica em vinho e cereal e óleo do que naquela Primavera, minhas filhas - disse ela, num murmúrio que era ao mesmo tempo orgulhoso e derrotado. - Ah, mas para mim, tantas filhas nasceram mortas. Tantos filhos, mortos no ventre. Só dois sobrevivem. Quem poderá explicar este mistério?
A avó ficou silenciosa e a sua disposição sombria cobriu as ouvintes e os nossos ombros descaíram. Mesmo eu, que não tinha perdido nenhuma criança, senti uma aflição de mãe. Passado um momento, a minha avó levantou-se e apontou para Lea, para que ela a seguisse a uma câmara interior da grande tenda, onde as lâmpadas estavam acesas com óleo perfumado e as tapeçarias brilhavam. Nós, as restantes, ficamos sentadas durante algum tempo, até percebermos que tínhamos sido mandadas embora.
A entrevista da minha mãe com a avó deu-se pela noite dentro. Primeiro, Rebeca olhou longamente para a sua nora, traindo a sua miopia ao aproximar-se muito para observar a cara dela. Depois, começou o interrogatório cerrado sobre cada pormenor da vida de Lea.- Porque é que não te deixaram fora para morrer, quando nasceste, com olhos como os teus? Qual é o local de enterro da tua mãe? Como é que preparas lá para tingir? Onde é que aprendeste a fazer aquela cerveja? Que espécie de pai é Jacob, o meu filho? Qual dos teus filhos é o teu favorito? Qual dos teus filhos é o que temes? Quantos cordeiros é que o meu filho sacrifica a El, no festival da Primavera? Qual é a tua prática na lua nova? Quantos bebês perdeste durante a gravidez? Que planos fazes para a entrada na idade adulta da tua filha? Quantos epahs de cevada cultivas em Succoth, e quantos de trigo? A minha mãe nem se conseguia lembrar de todas as perguntas que lhe tinham sido postas naquela noite, mas respondeu-lhe cabalmente e sem tirar os olhos da cara da avó. Isto espantou a mulher mais velha, que estava habituada a enervar as pessoas, mas Lea não ficou intimidada. As duas arregalavam os olhos uma à outra.
Por fim, a avó não conseguia pensar em nada mais para perguntar, assentiu e fez um som sem palavras, um grunhido de ressentida aprovação.
- Muito bem, Lea, mãe de muitos filhos. Muito bem.
Com um meneio da mão, despediu a minha mãe, que foi direita ao seu cobertor e adormeceu, exausta.
Durante os dois dias seguintes, as minhas tias foram chamadas para a câmara interior da avó, uma por uma.
Raquel foi acolhida com beijos e carícias. Ouviu-se riso infantil quando as duas passaram uma tarde juntas. A avó deu palmadinhas nas faces da minha linda tia e beliscou-lhe os braços suavemente. Rebeca, que fora a beldade da sua geração, mostrou a sua caixa de maquiagem - uma coisa grande, negra, lacada, com muitos compartimentos, cada um deles cheio de uma poção ou um ungüento, de um perfume ou uma tinta. Raquel saiu da presença da avó sorrindo e a cheirar a óleo de lótus, com as pálpebras verdes e os olhos contornados com um kohl negro brilhante que lhe dava um ar formidável, em vez de parecer apenas bonita. Quando Zilpa foi chamada, a minha titi caiu de cara à frente da avó e foi recompensada com um pequeno poema sobre Asherah, consorte de El e deusa do mar. A avó olhou brevemente para a cara de Zilpa, fechou os seus olhos negros e predisse o tempo e o lugar da morte da minha tia. Esta notícia, que ela nunca revelou a ninguém, não perturbou Zilpa. Se alguma coisa fez, foi dar-lhe uma espécie de paz que durou o resto da vida dela. Desse dia em diante, Zilpa sorriu enquanto trabalhava no tear- não um sorrisinho ávido, mas um grande sorriso que a fazia mostrar os dentes, como se estivesse a lembrar de uma boa piada. Bilhah temia a entrevista com a avó, e tropeçou enquanto se aproximava da velha mulher. A avó franziu o sobrolho e suspirou, enquanto Bilhah manteve os olhos fixos nas mãos. O silêncio tornou-se pesado e, passado um bocado, Rebeca virou-se e saiu, deixando Bilhah sozinha com as belas tapeçarias que pareciam estar a gozar com ela. Estes encontros significavam pouco para mim. Durante três dias, os meus olhos estiveram no horizonte, à espera de Tabea. Ela chegou, finalmente, no dia do próprio festival, com Esaú e a primeira esposa dele, Ada. A visão da minha melhor amiga pôs-me num alvoroço, e eu corri para ela. Ela atirou-se num abraço contra mim. Quando nos separamos, reparei quanto ela mudara nos poucos meses em que tínhamos estado separadas. Era mais alta do que eu uma boa meia cabeça e não havia necessidade de puxar as roupas dela de encontro ao corpo para lhe ver os peitos. Mas quando vi o cinto que a declarava mulher, caiu-me o queixo. Ela tinha entrado na tenda vermelha! Já não era uma criança, mas uma mulher. Senti as minhas faces arderem de inveja, enquanto as dela ficaram coradas de orgulho. Eu tinha mil perguntas para lhe fazer sobre como era e sobre a cerimônia, e sobre se o mundo era um lugar diferente, agora que o lugar dela nesse mundo era diferente.
Mas não tive tempo de perguntar nada à minha prima. A avó já tinha notado o avental da Tabea e aproximou-se da minha tia coberta de moedas. Poucos minutos depois, estava a gritar com Ada com uma fúria que eu pensava reservada aos deuses que tinham o trovão e o relâmpago à sua disposição.
A ira de Rebeca era terrível.
- Queres dizer que o sangue dela foi desperdiçado? Fechaste-a sozinha, como a um qualquer animal?
Ada bajulou-a e fez tenção de responder quando a avó levantou os punhos.
- Não te atrevas a defender-te, meu ignorante pedaço de nada - silvou a avó. Sua babuina! Eu disse-te o que fazer e tu desobedeceste-me, e agora não há nada a fazer. A melhor das raparigas dele, a única das sementes dele com um traço de inteligência ou sentimento, e tu trataste-a como um… como um… Pah! - Rebeca cuspiu aos pés da nora. - Não tenho palavras para esta abominação. - A voz tornou-se-lhe gélida e baixa. -Basta. Não és digna de permanecer na minha tenda. Vai-te embora daqui. Maldita sejas, deixa este lugar e nunca mais me apareças à frente. A avó ergueu-se em toda a sua altura e esbofeteou Ada com toda a força. A pobre mulher desfez-se no chão, lamentando-se, com medo que lhe tivessem lançado um feitiço. Os homens, que tinham acorrido a saber do motivo de desagrado da avó, arrepiaram caminho, ao verem a maldição do Oráculo, e rapidamente viraram costas àquilo que era claramente assunto de mulheres.
Ada arrastou-se para longe, mas Tabea lançou-se logo no chão aos pés de Rebeca, soluçando: “Não, não, não.” A cara da minha prima tornou-se cinza, os olhos arregalados de terror.
- Toma o meu nome e chama-me Débora, também. Faz-me a mais insignificante das tuas servas, mas não me mandes embora. Oh, por favor, avó. Por favor. Imploro-te, imploro-te.
Mas Rebeca não olhou para a criatura que sofria a seus pés. Não viu Tabea a rasgar a cara até fazer correr riscas de sangue. Não a viu rasgar o vestido em bocados, nem a viu engolir punhados de pó. A avó virou costas e afastou-se dos últimos estertores da esperança de Tabea, embrulhando bem a capa em volta do corpo, como que para se proteger da infelicidade que tinha diante de si. As seguidoras da avó levantaram Tabea do chão e carregaram-na de volta para as tendas das esposas de Esaú.
Eu não compreendi verdadeiramente o que tinha acontecido, mas sabia que a minha querida amiga sofrera uma injustiça. Os meus ouvidos zuniam e o meu coração batia com muita força. Não podia acreditar na crueldade da avó. A minha amada prima, que gostava mais de Rebeca do que da própria mãe, tinha sido mais mal tratada do que os leprosos que vinham à procura de curas milagrosas. Odiei Rebeca como nunca tinha odiado ninguém.
A minha mãe pegou na minha mão, conduziu-me à tenda dela e deu-me uma taça de vinho doce. Acariciando o meu cabelo, respondeu à minha pergunta mesmo antes de eu a fazer. Lea, minha mãe, disse:- A rapariga vai sofrer durante o resto dos seus dias, e a tua compaixão é apropriada. Mas o teu ódio não é merecido, filha. Não era intenção dela magoar a Tabea. Acho que ela a amava bastante, mas não teve escolha. Estava a defender a mãe dela e a defender-se a si própria, a mim e às tuas tias, a ti e às tuas filhas, depois de ti. Ela estava a defender os costumes das nossas mães e das mães delas, e a grande mãe, que dá por muitos nomes mas que está em perigo de ser esquecida. Isto não é fácil de explicar, mas eu vou dizer-to. Uma vez que és a minha única filha, e dado que vivemos tanto tempo de tal modo isolados, já sabes muito mais do que devias. Já passaste algum tempo conosco, na tenda vermelha. Até já assististe a um parto, que é uma coisa que nunca podes contar à avó. Eu sei que não vais revelar o que te vou dizer agora.
Assenti na minha promessa, e a minha mãe suspirou do coração. Olhou para baixo, para as próprias mãos, castanhas do sol, sábias do uso, raramente em repouso, como estavam agora. Pôs as palmas das mãos voltadas para cima sobre os joelhos e fechou os olhos. Meio a cantar, meio a murmurar, Lea disse:
- A grande mãe a quem chamamos Innana é uma guerreira feroz, noiva da Morte. A grande mãe a quem chamamos Innana é o centro do prazer, aquela que faz os homens e as mulheres virarem-se uns para os outros, à noite. A grande mãe a quem chamamos Innana é a rainha do oceano e a padroeira da chuva. Isto é do conhecimento de todos, tanto homens como mulheres. Dos bebês que mamam e dos avós que falham. Aqui, ela parou, e abriu um grande sorriso infantil.- Zilpa havia de rir-se, se me visse aqui a falar de lendas - disse ela, olhando diretamente para mim, por um momento, e eu retribui o sorriso, partilhando a piada. Mas, passado um momento, a minha mãe retomou a sua pose formal e continuou: - A grande mãe a quem chamamos Innana deu à mulher um dom que não é conhecido entre os homens, e este é o segredo do sangue. O fluxo no escuro do mês, o sangue curandeiro do nascimento da lua, para os homens isto é fluxo e mau feitio, aborrecimento e dor. Eles imaginam que nós sofremos e consideram-se sortudos. Nós não os desenganamos. Na tenda vermelha, a verdade é conhecida. Na tenda vermelha, onde os dias passam como uma corrente ligeira, enquanto o dom de Innana corre por nós, limpando o corpo da morte do último mês, preparando o corpo para a vida do novo mês, as mulheres dão graças pelo repouso, pela restauração, pelo conhecimento de que a vida vem de entre as nossas pernas, e de que a vida custa sangue.
Depois pegou na minha mão e disse-me:
- Digo isto antes do momento certo, filha minha, embora não tarde muito entres na tenda para celebrares comigo e com as tuas tias. Tornar-te-ás uma mulher cercada por mãos amantes que te carregarão e te apanharão o teu primeiro sangue e que se certificarão de que ele volte para o ventre de Innana, para o pó que formou o primeiro homem e a primeira mulher. O pó que foi misturado com o sangue da lua dela. Infelizmente, muitas das filhas dela esqueceram-se do segredo do dom de Innana e viraram as costas à tenda vermelha. As esposas de Esaú, as filhas de Edom, que Rebeca despreza, não ensinam nem acolhem as suas jovens, quando elas se tornam adultas. Tratam-nas como bestas: mandam-nas para fora, sós e amedrontadas, fechadas nos dias escuros da lua nova, sem vinho nem o conselho das mães. Não celebram o primeiro sangue daquelas que carregarão vida, nem o levam de volta à terra. Puseram de lado a costura, que é o assunto sagrado de mulheres, e permitem que os homens mostrem os lençóis ensangüentados das filhas deles, como se o mais insignificante dos baal pedisse tal degradação como tributo. A minha mãe detetou a minha confusão. Ainda não podes compreender tudo isto, Dina disse ela. Mas em breve saberás, e eu certificar-me-ei de que sejas recebida na vida de mulher com cerimônia e ternura. Não temas.
Era escuro quando a minha mãe disse a última destas palavras. As canções do festival da cevada chegaram aos nossos ouvidos e a minha mãe levantou-se, oferecendo-me a mão. Saímos para a noite, para ver as oferendas, queimadas num altar, ao lado da árvore mais alta. Cantaram-se músicas maravilhosas, harmonias de muitas partes. As Déboras dançaram em círculo, ao som das suas próprias palmas. Espalharam-se e agacharam-se, saltaram e oscilaram como se partilhassem uma só mente, um só corpo, e eu percebi o desejo de Tabea de se juntar àquela dança. Ada desapareceu durante a noite, levando consigo a minha amiga, amarrada às costas de um burro, como uma oferenda que ainda não estivesse morta, com um trapo enfiado na boca para lhe abafar os gritos.
Nos poucos dias que antecederam a nossa partida evitei a avó e permaneci junto das minhas mães. Só desejava ir embora daquele lugar, mas, quando nos preparamos para voltar para Succoth, Lea veio ter comigo com uma cara soturna.
- A avó diz que ficas aqui em Mamre durante três meses - disse ela. -Rebeca falou com o teu pai e foi tudo combinado sem o meu… Ela parou, ao ver a minha cara acossada. - Gostaria de poder ficar ou de deixar Zilpa contigo, mas a avó não quer nada disso. Só te quer a ti. -Fez uma longa pausa antes de dizer: - É uma honra. - Pôs as duas mãos em volta do meu queixo e acrescentou com ternura: - Havemos de estar outra vez juntas quando o trigo amadurecer.
Não chorei. Estava assustada e com raiva, mas decidida a não chorar, portanto, mantive a boca fechada, respirei pelo nariz e impedi os meus olhos de pestanejarem. Foi assim que sobrevivi, enquanto via a forma da minha mãe a tornar-se mais e mais pequena e, depois, a desaparecer no horizonte. Nunca tinha imaginado a solidão de estar sem ela, ou sem as minhas tias, ou, até, sem um dos meus irmãos. Senti-me como um bebê deixado ao relento para morrer, mas não chorei. Virei-me de volta para as Déboras, que me observavam ansiosamente, mas não chorei. Só à noite, sozinha no meu cobertor, virei a cara para o chão e chorei até sufocar. Todas as manhãs me levantava tonta e confusa, até me lembrar de que estava sozinha na tenda da minha avó.
As minhas memórias daqueles meses em Mamre parecem pálidas e dispersas. Quando voltei para as minhas mães, elas ficaram desapontadas por eu não lhes poder falar mais de maravilhas que tivesse visto ou de segredos que tivesse aprendido. Era como se tivesse andado por uma gruta cheia de jóias e só tivesse apanhado um punhado de seixos cinzentos.
Eis o que recordo:
Uma vez em cada sete dias, a avó fazia um grande espetáculo de fazer bolos. Durante o resto da semana, ela não sujava as mãos com o trabalho de mulheres, muito menos a amassar e a manusear a massa. Mas, no sétimo dia, ela pegava em farinha e água e mel, dava-lhes voltas e dava-lhes forma, e sacrificava um canto de um bolo de três lados, “à Rainha do Céu”, murmurava ela para a massa antes de a consignar às chamas.
Eu duvidava de que a Rainha gostasse lá muito das coisas secas e sensaboronas que Rebeca oferecia. “Não são bons?”, perguntava ela, quando as coisas saíam do forno. Eu assentia, tal como era meu dever, empurrando a minha porção Com água, que era tudo o que me era dado a beber. Felizmente, as criadas dela eram muito melhores pasteleiras, e os bolos delas eram suficientemente doces e úmidos para qualquer rainha. Apesar de tudo, quando a minha avó murmurava a sua pequena oferenda doméstica, era a única vez que eu a via sorrir com os olhos. Era tarefa minha ir ter com Rebeca de manhã cedo para a ajudar nas abluções matinais, que a preparavam para os peregrinos vindos ao bosque diariamente. Eu carregava a complicada caixa de cosméticos dela, que continha diferentes perfumes para a testa, os pulsos, os sovacos e os tornozelos, uma poção para a pele por baixo dos olhos e uma mistela de cheiro azedo para a garganta. Depois dos perfumes e dos cremes, ela começava a cuidadosa aplicação de cor aos lábios, aos olhos, às faces. Dizia ela que o mais importante de todos os tratamentos de beleza era cheirar bem, e o hálito dela estava sempre perfumado de menta, que mastigava de manhã à noite.
A avó parecia arder num fogo indefinível. Comia pouco e raramente se sentava. Olhava com desprezo para qualquer pessoa que necessitasse de descanso. Na realidade, criticava toda a gente exceto os filhos dela e, muito embora preferisse Jacob, elogiando a beleza dele e dos seus filhos, era claro que confiava no meu tio para fazer tudo. Mensageiros iam e vinham de Seir dia sim, dia não. Esaú era chamado para entregar um epah extra de cevada ou para encontrar carne digna da mesa da avó. Vi-o a cada quinzena, pelo menos, com braçadas de presentes. O meu tio era um bom homem e um bom filho. Certificava-se de que os peregrinos abastados visitassem o bosque e trouxessem ricas oferendas. Encontrara a Isaac a cabana de pedra que permitia a Rebeca o luxo de viver como uma sacerdotisa, sem homem a quem servir. A avó dava palmadinhas na face de Esaú sempre que ele deixava a tenda dela, e ele irradiava como se ela o tivesse elogiado até ao céu. Coisa que ela nunca fez.
A minha avó nunca falou mal de Esaú, nem disse nada de bom acerca dele. As esposas dele, no entanto, eram detestadas ao pormenor. Embora fossem mulheres cumpridoras que, a dado momento, lhe enviaram bons presentes na esperança de conquistarem a sua aprovação, ela tomava-as a todas por idiotas descuidadas. Durante anos, tinha gozado com elas abertamente, de modo que elas só a visitavam quando Esaú insistia. Ela não era mais bondosa com as minhas mães. Considerava Raquel preguiçosa, linda, mas preguiçosa. Chamava feia a Bilhah e chata supersticiosa a Zilpa. Admitia com um certo ressentimento que Lea era boa trabalhadora e claramente abençoada, por ter tido tantos filhos saudáveis. Mas nem mesmo Lea era suficientemente boa para Jacob, que merecia uma companheira perfeita. Não uma mulher gigante com olhos de cores diferentes.
Ela dizia mesmo estas coisas na minha presença! Como se eu não fosse a filha da minha mãe, como se as minhas tias não fossem, também, as minhas amadas mães. Mas eu não as defendia. Quando o Oráculo falava, não eram permitidas contradições. Eu não era tão arrojada quanto Lea, e as minhas lágrimas noturnas eram freqüentemente de vergonha, para além de serem de solidão.
Rebeca guardava o pior da sua verve para o marido dela, no entanto, Isaac tornara-se tolo com a velhice, dizia ela, e cheirava mal coisa que ela não conseguia suportar. Ele tinha esquecido o que lhe devia, pois não tivera ela razão ao fazê-lo dar a bênção a Jacob? Rebeca falava constantemente acerca da ingratidão de Isaac e dos sofrimentos padecidos às mãos dele. Mas, para mim, não era evidente o que o meu avô tinha feito. Ele parecia amável e inócuo, quando vinha, nos dias quentes, desfrutar a brisa sob os grandes terebintos. Eu ficava satisfeita por Isaac não necessitar dos cuidados de Rebeca. Era bem servido pela sua Débora velada. Corria o rumor de que a cobertura dela escondia um lábio leporino, embora fosse impensável que alguém assim não tivesse sido morto na infância.
Quando Esaú vinha a Mamre, visitava primeiro a mãe e tratava das necessidades dela. Era bem-educado e até atencioso, mas, assim que podia, virava-se para o avô e acompanhava-o de volta a Arba, onde os dois homens saboreavam o seu vinho noturno. Ficavam acordados até tarde, a falar e a rir, servidos pela Débora velada. Soube isto através das outras que usavam branco. Elas eram boas para mim. Davam-me palmadinhas no ombro, quando me traziam o jantar, escovavam-me o cabelo e deixavam-me trabalhar com os belos fusos de marfim delas. Mas não contavam histórias, à noite, e nunca soube os nomes que as próprias mães lhes tinham dado, ou como é que tinham vindo para Mamre, ou se sentiam falta da companhia de homens. Elas pareciam suaves e contentadas, mas tão descoloridas como as vestes que usavam. Não lhes invejava a vida com o Oráculo. Na lua nova, Rebeca não me permitiu entrar na tenda vermelha com as mulheres que sangravam, ela era muito estrita na observância desta regra. Ela, que já passara o seu período de engravidar, não entrava, nem eu, ainda imatura, podia entrar. Uma das outras Déboras também ficava conosco cá fora. Ela explicou-me que nunca lhe tinham vindo as regras, mas não se queixou da falta de descanso. Ela e eu cozinhamos e servimos as celebrantes, cujo riso baixo me fazia ansiar pela tenda das minhas mães.
Quando as mulheres emergiram descansadas e sorridentes - na manhã do terceiro dia, foi-me permitido segui-las, quando foram ao ponto mais alto do monte ver o Sol levante. A avó, ela própria, derramou uma libação de vinho, enquanto as mulheres cantavam uma canção sem palavras de calmo regozijo. No silêncio profundo que se seguiu, pareceu-me que a Rainha do Céu pairava nas árvores acima de nós. Essa recordação regressa à minha memória em cada lua nova. Nunca aprendi a amar a minha avó. Não conseguia esquecer ou perdoar o que ela tinha feito à Tabea. No entanto, chegou o dia em que lhe prestei homenagem.
As portas da tenda do Oráculo estavam sempre abertas e de todas as direções era recebido o desconhecido. Este tinha sido o decreto de Sarai e Abraão, que, segundo se dizia, recebiam de igual modo príncipes e mendigos. Por conseguinte, todas as manhãs Rebeca recebia peregrinos na bela tenda. Ela via todos os que vinham desgraçados ou esplendorosos e não se apressava com os pobres.
Eu fiquei ao lado das suas acólitas enquanto ela cumprimentava os hóspedes. Primeiro, aproximou-se dela uma mulher sem filhos e implorou um filho. O Oráculo deu-lhe um cordão vermelho para ela atar numa das árvores de Mamre, murmurou uma bênção ao ouvido da mulher estéril e disse-lhe que fosse com a Débora que era habilidosa com as ervas.
A seguir, veio um mercador à procura de um amuleto para a sua caravana.
-Tem sido uma temporada má para mim - começou ele. - Estou quase pobre, mas ouvi falar dos teus poderes - disse ele, com uma espécie de desafio a insinuar-se-lhe na voz. - vim ver por mim mesmo. A avó aproximou-se dele e olhou-o de frente até ele desviar os olhos desse profundo.
- Tu é que deves fazer uma devolução - disse ela, de uma maneira que parecia um aviso.
Os ombros dele descaíram e a sua arrogância derreteu.- Não tenho bens para fazer a restituição, avó - disse ele.- Não há outra maneira - disse o Oráculo, em voz alta e formal. Mandou-o embora com um gesto da mão, e ele retirou-se obedientemente às arrecuas e correu monte abaixo como se um exército o perseguisse. Rebeca viu a minha boca aberta e explicou tudo com um encolher de ombros:
- Só os ladrões vêm à procura de negócios milagrosos.
O último peregrino daquela manhã era uma mãe que carregava uma criança suficientemente crescida para andar. Mas quando a mulher o desembrulhou, percebemos porque é que ele ainda estava nos braços dela. As pernas dele estavam atrofiadas e os pés cobertos de chagas, abertas e exsudantes e dolorosas de ver. Pelo olhar que fazia, era claro que estava quase morto de sofrimento. A avó tirou o rapaz dos braços da mãe. Levou-o até à almofada dela com os lábios encostados à testa dele e sentou-se com ele ao colo. Pediu um ungüento usado para queimaduras, algo que acalma mas não pode curar. Depois, com as próprias mãos, sem se retrair e sem se afastar, pôs aquilo nas feridas dele. Quando Rebeca acabou, envolveu os pés doentes dele nas mãos perfumadas dela, e segurou-os como se fossem preciosos, delicados e limpos. A mãe abriu a boca, mas o rapazinho não sentia admiração pela curandeira. Com a dor aliviada por um momento, ele descansou a cabeça no peito liso dela e adormeceu.
Ninguém se mexeu, nem falou. Não sei quanto tempo ficamos ali, enquanto ele dormitava, mas doeram-me as costas antes que a criança abrisse os olhos. Ele pôs os braços à volta do pescoço da avó e beijou-a. Ela retribuiu o abraço e depois devolveu-o à mãe, que chorou ao ver o sorriso na cara do seu rapaz, e que chorou outra vez ao ver a tristeza na cara do Oráculo, sinal de que nada podia fazer para manter aquele rapazinho vivo.
Não consegui odiar Rebeca, depois daquilo. Embora nunca a tenha visto demonstrar tal ternura por mais ninguém, não podia esquecer o modo como ela tomara a dor daquele rapazinho nas suas próprias mãos, reconfortando-o e dando paz à mãe dele.
Nunca falei sobre a Tabea com a minha avó. Não me atrevia. Em silêncio, chorava a perda da minha melhor amiga com tanta tristeza como se a tivesse embrulhado numa mortalha. Mas foi Werenro que nós enterramos.
Eu andava ansiosa por ver a mensageira outra vez, tal como as outras, em Mamre. Ela era favorita entre as Déboras, que sorriam quando eu fazia perguntas acerca do retorno dela.
- Não deve tardar - disse aquela que gostava de me escovar o cabelo. - E, então, teremos histórias, à noite, e tu não estarás tão triste.
Mas chegou-nos palavra, através de um mercador vindo de Tiro, que Werenro, mensageira de Rebeca de Mamre, fora assassinada. Os restos do corpo dela foram encontrados às portas da cidade, com a língua cortada e cabelo vermelho espalhado por todo o lado. Um mercador que tinha visitado o templo havia alguns anos, lembrando-se da mulher de ar estranho que servia o Oráculo, reconheceu o saco dela. Juntou o que restava dela para trazer os ossos de volta à avó, que não traiu qualquer emoção ao saber das terríveis noticias.
O saco que ele carregava era penosamente pequeno, e nós enterramo-lo bem fundo na terra, num simples jarro de barro. Ouvi as Déboras chorar nessa noite, e acrescentei mais uma camada de sal ao meu próprio cobertor. Mas quando sonhei com Werenro, ela estava a sorrir o sorriso sarapintado dela de um assento numa grande árvore, com um grande pássaro pousado no ombro.
No dia a seguir a Werenro ter sido enterrada, fui ter com Rebeca de manhã, como era habitual, mas ela já estava vestida, perfumada e pintada para aquele dia. Estava sentada nas suas almofadas, silenciosa e ausente. Nem sei se ela deu conta da minha entrada. Tossi. Ela não olhou para mim mas, passado algum tempo, falou, e eu percebi porque é que os peregrinos vinham a Mamre.
- Eu sei que aqui estás, Dina - disse ela. - Eu sei que me odeias por causa da rapariga de Esaú. Foi uma pena. Ela era a melhor de todas, e é claro que a culpa não foi dela. Foi a pobre da estúpida da mãe dela, que não fez o que eu lhe disse para fazer, mas o que a estúpida da própria mãe dela lhe ensinou. Devia ter ficado com ela, quando era bebê. A rapariga não tinha hipótese.
A minha avó disse isto sem olhar para mim, como se estivesse a ventilar os seus próprios pensamentos. Mas depois virou os olhos para mim e fixou-me no seu olhar profundo.
- Tu estás salva desse destino - disse ela. - A tua mãe não os deixará fazer da tua virgindade um prêmio. Ela não permitirá que o teu sangue seja outra coisa que não uma oferenda ao ventre da grande mãe. Estás segura, nesse aspecto. - E depois, olhando para mim atentamente, tentando discernir o meu futuro: - Uma outra qualquer infelicidade te espera, no entanto. Algo que eu não consigo discernir. Tal como não consegui antes ver o fim de Werenro. Talvez a tua tristeza não seja mais do que um ou dois bebês perdidos, ou uma viuvez prematura, pois a tua vida será muito longa. Mas não há qualquer motivo para assustar crianças com o preço da vida.
Fez-se silêncio, durante algum tempo, e, quando Rebeca voltou a falar, embora as palavras dela fossem sobre mim, era como se eu já não estivesse lá.
- Dina também não é a herdeira. Vejo agora que não haverá nenhuma. Mamre será esquecida. A tenda não ficará levantada depois de mim -encolheu os ombros, como se aquilo não tivesse grande importância. Os grandes não precisam de nós para nada, na verdade. As nossas libações e orações não valem mais do que o canto dos pássaros ou o zumbido das abelhas. Pelo menos os louvores dirigidos a eles estão assegurados. Ela levantou-se e veio na minha direção, até que os nossos narizes quase se tocaram.
- Perdôo-te por me odiares - disse ela, e fez um gesto para que eu saísse da tenda.
Ruben veio uns dias mais tarde e eu deixei Mamre sem sequer um aceno de cabeça da avó. Contente como estava por voltar para a tenda da minha mãe, os meus olhos picavam com lágrimas enquanto nos afastávamos. Voltava de mãos vazias. Pouca atenção recebi de Rebeca. Não consegui agradar-lhe.