A Tenda Vermelha
Capítulo 3
Benia tinha ido entregar a caixa, como combinado, mas eu não estava lá para a receber. Quando ele a trouxe ao portão do jardim, disseram-lhe com rudeza que Den-ner estava sentada na sala grande com o filho e não podia ser chamada por causa de um mercador. A caixa foi posta num canto da cozinha e eu não a vi senão depois de Ra-mose ter deixado Tebas e de a casa ter voltado ao normal.
Quando a cozinheira me deu, a curiosidade dela desaquietou-a. Como é que algo tão elegante e raro me tinha vindo parar às mãos? E quem era o homem que tinha perguntado por mim tão avidamente? Eu nada disse acerca dele ou da caixa às pessoas da casa, e a coscuvilhice rapidamente morreu. Também não enviei palavra a Benia, esperando que ele tomasse o meu silêncio como uma rejeição da oferta indireta que ele me tinha feito no mercado. Embora tivesse ficado impressionada com as palavras e com o toque dele, não me conseguia ver a viver como as outras mulheres. Apesar das palavras de Werenro, eu estava certa de que Ra-mose contaria os próximos e últimos capítulos da minha história. Meryt ficou furiosa comigo, por eu recusar Benia. Um homem como ele? De tanto sucesso? Tão amável? Ela ameaçou nunca mais falar comigo, mas ambas sabíamos que isso nunca poderia acontecer. Eu era a filha dela, e ela nunca me poria de lado.
Mas a caixa de Benia continuava a ser um embaraço e uma reprovação, para mim. Não pertencia a uma barraca de jardim. Não era feita para uma parteira nascida no estrangeiro, sem estatuto ou posição social. Era minha apenas porque o carpinteiro reconhecera a minha solidão e porque eu também tinha visto a necessidade nele. Enchi a caixa com presentes dados pelas minhas mães, mas cobri a sua brilhante beleza com uma velha esteira de papiro, para que não me lembrasse de Benia, que eu consignei ao canto do meu coração, com outros sonhos que tinham morrido.
As semanas fluíram calmamente e transformaram-se em meses; o tempo passou, pautado por histórias de nascimentos, a maior parte deles saudáveis. Aprendi que um tonico feito da garança vermelha que crescia no meu jardim aliviava o parto a muitas mães, e Meryt e eu éramos chamadas a locais cada vez mais distantes. Uma vez, foi enviada uma barca para nos levar à cidade de On, onde a concubina favorita de um sacerdote estava a morrer. Encontramos uma rapariga demasiado jovem para ser mãe, a gritar de terror, sozinha num quarto, sem o conforto da presença de outra mulher. Pouco depois de termos chegado, fechamos-lhe os olhos e eu tentei libertar o bebê, mas também estava morto. Meryt foi falar com o pai, que, longe de estar desolado pelas mortes, começou a amaldiçoar a minha amiga e a mim, por termos morto a sua esposa e a sua filha. Entrou de rompante na câmara de parto, antes que eu tivesse tido tempo de cobrir a pobre mãe.
- A estrangeira levantou uma faca para ela? - gritou ele. - Só um cirurgião pode fazer tal coisa. Esta mulher é uma ameaça, um demônio enviado do leste para destruir o reino do rio. - Atirou-se a mim, mas Meryt parou-o e, com uma força que eu não sabia que ela possuía, prendeu-o contra uma parede e tentou explicar-lhe que eu tinha cortado a mãe com a esperança de salvar a criança.
Mas eu não vi razão para dar explicações. Olhei para os olhos dele e vi uma alma odiosa e mesquinha, e fiquei cheia de raiva e de pena por causa da jovem mulher que estava deitada a meus pés.- Pervertido - rugi eu, na língua das minhas mães. - Filho nojento de um verme; que tu e outros como tu definhem como trigo no deserto. Era uma rapariga que não era amada, esta que está aqui a meus pés. O mau cheiro da infelicidade dela está-lhe agarrado. Por isto, morrerás em agonia.
Tanto Meryt como o sacerdote olharam fixamente para mim, enquanto eu lançava as minhas maldições e, quando acabei, o homem começou a tremer e, num sussurro aterrorizado, disse:
- Uma feiticeira estrangeira na Casa dos Deuses! O som das nossas vozes tinha atraído outros sacerdotes, que não me olharam nos olhos e que seguraram o seu irmão, para que nós pudéssemos ir embora. Na viagem de volta, vi a linha da margem passar e lembrei-me da profecia de Inna de que eu encontraria o que o meu coração desejava nas margens de um rio. Abanei a cabeça, face à ironia da visão dela, e voltei à minha barraca de jardim irrequieta e descontente.
Pela primeira vez desde a minha infância, estava irrequieta. Já não sonhava com Shalem, ou com a morte dele, mas acordava todas as manhãs assombrada por visões de paisagens desertas, ovelhas magras e mulheres que uivavam de choro. Levantava-me da minha pequena cama a tentar, em vão, dar um nome à minha inquietação. Meryt notou que eu tinha cabelos brancos na cabeça e ofereceu-se para me fazer uma tinta de cinza e do sangue de um boi negro. Eu ri da idéia, embora soubesse que ela usava a poção e que parecia muito mais nova do que os anos que tinha por causa desta. A sugestão dela fez-me ver a minha irrequietude como nada mais do que um sinal dos anos que passavam. Eu era quase da idade em que as mulheres deixam de sangrar na lua nova, e via-me a passar o crepúsculo dos meus dias na familiar paz do jardim de Nakht-ra. Pus uma estátua de Isis sobre a minha cama e rezei pela sabedoria e tranquilidade da senhora deusa, curandeira de mulheres e homens. Mas esqueci-me de rezar pelo bem-estar dos meus protetores terrenos. Uma noite, já tarde, fui acordada pelo som de gatos a uivar e, na manhã seguinte, Nakht-ra veio dizer-me que Ra-nefer tinha morrido durante o sono. O corpo foi levado por sacerdotes, que o preparariam para a vida depois da morte com um ritual elaborado, no túmulo do pai dela em Mênfis, onde tinha sido preparada uma estátua em sua memória. Os ritos durariam três dias.
Nakht-ra perguntou-me se eu gostaria de assistir aos ritos com ele. Eu agradeci-lhe, mas disse que não. Deve ter ficado aliviado, pois ambos sabíamos que, para mim, não havia um lugar cômodo entre os celebrantes.
Nos dias que se seguiram à morte de Ra-nefer, amaldiçoei-a tanto quanto chorei pela morte dela. Tinha sido a minha salvadora, e tinha-me aprisionado. Tinha-me dado Shalem e, depois, tinha-me roubado a memória dele. Por fim, não conhecia de todo a mulher. Tinha-a visto muito pouco, desde que Ra-mose fora para a escola, e não fazia idéia de como é que ela se ocupara durante todos aqueles anos, se fiava ou tecia, se dormia durante todo o dia, se chorava durante a noite pelo filho e pelo marido. Se me odiava ou tinha pena de mim ou me amava.
Tive sonhos com pormenores vividos, nas noites que se seguiram à morte dela, e Ra-nefer visitou-me sob a forma de uma pequena ave que saía a voar do Sol nascente, gritando “Siquém” com uma voz familiar a que eu não conseguia dar nome. A ave Ra-nefer tentava levantar pessoas e objetos do chão e batia as asas com frustração, até estar exausta e furiosa. Todas as noites, ela desaparecia de encontro ao Sol, com gritos agudos. Parecia que a alma perturbada dela nunca encontraria paz. Depois de sete noites dessa visão, eu já só sentia pena dela. Nakht-ra morreu na estação seguinte, por ele, chorei sem reservas. Honesto, generoso, bem-humorado e sempre bondoso, era o modelo de um nobre egípcio. O meu filho era abençoado por ter um pai daqueles, e eu sabia que Ra-mose iria chorar pelo único Ba que jamais conhecera. Presumi que Ra-mose tivesse ido a Mênfis para os ritos, embora tal não me fosse dito. Só Nakht-ra é que pensava em falar-me das viagens do meu filho. Com a morte dele, senti a minha ligação a Ra-mose enfraquecer.
Depois da morte de Nakht-ra, a mulher dele foi viver com o irmão, algures no Norte, no Delta. A casa seria dada a um novo escriba. Se Ra-mose fosse um pouco mais velho e tivesse mais prática da política do templo, talvez lhe tivesse sido dada a posição. Em vez disso, escolheram um dos rivais de Nakht-ra. A maior parte do pessoal ficaria lá e a cozinheira insistiu para que eu também ficasse. Mas o frio nos olhos da nova senhora, que veio sondar aquela que seria a sua nova casa, fez-me querer tudo menos isso.
Também Meryt estava a enfrentar uma mudança. O filho mais velho, Menna, tinha-lhe oferecido um lugar debaixo do teto dele, no Vale dos Reis. Fora nomeado padeiro-chefe e tinham-lhe dado uma casa maior, onde a mãe seria bem-vinda. Menna fez a viagem para vir ver a mãe e disse que, embora nascessem muitos bebês às mulheres dos artesãos, no vale, não havia parteiras hábeis, e muitas mulheres tinham morrido. Meryt seria uma cidadã com honrarias, se fosse viver entre eles. A minha amiga estava tentada. Desde a desastrosa viagem a On tinham começado a circular rumores acerca da parteira nascida no estrangeiro e da sua companheira. O sacerdote que eu tinha amaldiçoado perdera o uso da voz e depois ficou coxo. Havia menos chamados para assistir aos partos de mulheres nobres, embora as criadas delas e as mulheres dos mercadores ainda nos procurassem.
Eu sabia que a minha amiga apreciava a idéia de honrarias e de um novo começo, mas preocupava-a o fato de ir viver com uma nora, e inquietava-se por ter de abandonar os confortos da vida em Tebas. Disse ao filho que iria ponderar o convite até à estação seguinte, em que o novo ano começava. Afinal, explicou-me ela, a aparição de Sírio marcava o tempo mais auspicioso para fazer mudanças.
A minha amiga e eu pesamos as nossas hipóteses, mas ficávamos freqüentemente silenciosas, mantendo secretos os nossos piores medos. Na verdade, eu não tinha para onde ir. Herya não me tinha oferecido um lugar com ela. Teria, simplesmente, que ficar onde estava e ter esperança em que tudo corresse pelo melhor. Se Meryt se fosse embora para casa do filho, a solidão engolir-me-ia, mas mantive-me calada em relação a isso, enquanto ela descrevia a vida no vale.
Meryt nunca considerou ir-se embora sem mim, mas ficava preocupada com a idéia de pedir à nora que aturasse duas mulheres na casa dela. A minha amiga apresentou o seu dilema à sua boa senhora, e Ruddedit implorou-lhe que ficasse, e deu-lhe palavra de que também eu sempre teria um lugar debaixo do teto dela.
Mas o marido da senhora não era nada parecido com Nakht-ra. Era um tirano de vistas curtas, com um feitio que, por vezes, se abatia sobre as costas dos criados, e até Ruddedit mantinha uma certa distância, face a ele. A minha vida seria roubada e furtiva, se eu fosse para aquela casa. Poderia ter perdido o alento, se não fosse pelo consolo que encontrei nos meus sonhos, em que um jardim de mil lótus floria, crianças riam e braços fortes me abraçavam e me faziam sentir segura. Meryt deu grande importância a estes sonhos e visitou um oráculo local, que me previu amor e riqueza nas entranhas fumegantes de uma cabra. O ano novo veio e Menna voltou para ver a mãe. A mulher dele, Shif-ra, acompanhou-o, dessa vez, e disse:
- Mãe, vem para casa conosco. Os meus filhos trabalham todo o dia com o pai, na padaria, e eu, muitas vezes, estou sozinha em casa. Há imenso espaço para te sentares ao sol e descansares. Ou, se quiseres continuar a ser parteira, eu carregarei o teu estojo, e tornar-me-ei tua assistente. Serás honrada, na casa do meu marido e, depois da tua morte, honraremos a tua memória com uma boa estela com o teu nome no lado oeste.
Meryt ficou comovida com o discurso da nora. Shif-ra era alguns anos mais nova do que eu, era uma mulher feia, com a exceção dos olhos, grandes e orlados de pestanas negras e grossas, radiantes de compaixão.- Menna tem sorte em ter-te disse Meryt, tomando as mãos da mulher nas suas. - Mas eu não posso deixar a Den-ner aqui. Ela, agora, é minha filha e, sem mim, está sozinha no mundo. Na verdade, ela é que é a mestra parteira, e eu sou assistente dela. É a ela que as mulheres da Tebas real chamam, quando o tempo delas se aproxima. Não te posso pedir para a acolheres. E, no entanto, se lhe ofereceres a mesma hospitalidade, acredito que serás bem recompensada, nesta vida. Ela carrega a marca do dinheiro e da sorte. Sonha com grande acerto e vê através das mentiras. Tudo isto se colou a mim, e também te beneficiará a ti e à tua casa.
Shif-ra foi falar com o marido com as palavras de Meryt. Menna não ficou satisfeito com a idéia de ter outra mulher a envelhecer em casa dele, mas a promessa de sorte acabou por fazer efeito. Veio com a mãe e a mulher à minha barraca, para me fazer sentir bem-vinda, e eu aceitei a oferta dele com genuína gratidão. Tirei um escaravelho turquesa da minha caixa e dei-o a Menna.
- A hospitalidade é o tesouro dos próprios deuses - disse eu, pondo a testa no chão perante o padeiro, que ficou embaraçado por lhe ser feita tão profunda vênia.
- Talvez o meu irmão te possa dar o jardim - disse ele, ajudando-me a levantar. A mulher dele não tem jeito para cultivar coisas, e a minha mãe diz-me que tens o toque do próprio Osiris, com a terra. Foi a minha vez de ficar embaraçada com a sua amabilidade. Como é que eu tinha encontrado tantas pessoas boas na minha vida? Qual era o propósito de tão boa sorte?
O trabalho de Menna chamava-o de volta a casa, pelo que tivemos poucos dias para nos prepararmos para a viagem. Primeiro, fui ao mercado e contratei um escriba que escrevia em nome de pessoas iletradas e, por meio dele, mandei palavra a Ra-mose, assistente do escriba Kar, residente em Kush, para o informar que a mãe, Den-ner, se tinha mudado para o Vale dos Reis, para casa do padeiro-chefe chamado Menna. Enviei-lhe bênçãos em nome de Isis e de Horus, filho dela. E paguei ao escriba o dobro dos honorários, para ter a certeza de que a mensagem encontraria o meu filho.
Juntei as ervas do meu horto, levando pedaços de raízes, assim como plantas secas. Enquanto trabalhava, lembrei-me de como as minhas mães despojavam o horto delas, antes de deixarem uma vida por outra. Aventurei-me no mercado sozinha e troquei a maior parte das minhas bugigangas por azeite e óleo de castor, e por óleo e bagas de zimbro, pois tinha ouvido dizer que poucas árvores se davam bem no vale. Vasculhei as bancas à procura da melhor faca que pudesse encontrar e, no dia antes de irmos embora, Meryt e eu fomos até ao rio, e colhemos canas suficientes para salvar mil bebês.
Emalei o que me pertencia na caixa de Benia, que se tornava cada vez mais bonita, à medida que a madeira amadurecia. Ao fechar a tampa, senti alívio pela minha fuga a um futuro infeliz. Na noite anterior a ir-me embora da casa de Nakht-ra mantive vigília no jardim, andando à volta do lago, passando os dedos por cada arbusto e árvore, enchendo o nariz com os odores ricos do lótus a florir e do trevo fresco. Quando a Lua começou a pôr-se, esgueirei-me para dentro de casa e vagueei, pelo meio de corpos adormecidos, em direção ao telhado. Os gatos roçaram-se contra mim e eu sorri, lembrando o meu primeiro medo, ao ver as “cobras com pêlo” daquela terra. Todos os meus dias no Egito tinham sido passados naquela casa e, olhando para trás, para esses dias, ao ar da noite, lembrava-me de pouco senão de coisas boas: o odor do meu filho bebê e a cara de Nakht-ra, pepinos e peixe com mel, o riso de Meryt e os sorrisos das novas mães que eu tinha ajudado a darem à luz filhos e filhas saudáveis. As coisas dolorosas (a história de Werenro, a escolha de Ra-nefer, até a minha própria solidão) pareciam os nós de um lindo colar, necessários para manter as contas no lugar. Os meus olhos encheram-se, enquanto eu me despedia desses dias, mas não senti qualquer arrependimento. Estava sentada do lado de fora da porta do jardim, com a minha caixa e com uma pequena trouxa a meu lado, quando os outros chegaram, de manhã. Ruddedit caminhou conosco até ao barco e abraçou-me, quando entrei nele. Ela chorou nos braços de Mervt durante muito tempo, mas era a única que chorava, quando o barco se afastou da margem. Acenei-lhe uma vez, mas, depois, virei os olhos para oeste.
A viagem da casa do escriba para a casa do padeiro só demorou um dia, mas a passagem media a diferença entre dois mundos. O barco estava apinhado de residentes do vale que estavam numa disposição de gala, a caminho de casa, vindos do mercado. Muitos dos homens tinham pago o ministério de barbeiros ao ar livre, pelo que as faces deles brilhavam, e o cabelo também. As mães conversavam acerca das crianças que tinham à ilharga, mimando-as e ralhando-lhes à vez. Desconhecidos entabulavam conversa uns com os outros, comparando compras e tentando estabelecer uma ligação ao compararem nomes de família, ocupações e moradas. Pareciam encontrar sempre um amigo ou um antepassado comum e, depois, davam palmadas nas costas uns dos outros, como irmãos há muito separados.
Estavam à vontade consigo próprios e com os outros de uma maneira que eu nunca tinha visto em quaisquer outras pessoas. Interroguei-me acerca da razão de ser de tudo aquilo. Talvez fosse por não haver nem senhores nem guardas, no barco, nem mesmo um escriba. Só artesãos e respectivas famílias, dirigindo-se para casa.
Depois do barco, seguiu-se uma curta e íngreme subida para a cidade, que se estendia à distância, na entrada do vale, como um gigantesco ninho de vespas. O meu coração perdeu o alento. Era o lugar mais feio que eu jamais vira. No calor cauterizante do sol da tarde, as árvores que havia ao longo das ruas desertas tinham um ar doente e sujo. As casas amontoavam-se, lado a lado, às centenas, cada uma tão pouco digna de atenção e monótona como a seguinte. Os poiais conduziam do caminho estreito à escuridão, e eu perguntei-me se seria demasiado alta para estar em pé nos poiais mais altos. As ruas não demonstravam qualquer indício de jardins, de cores, ou de qualquer uma das coisas boas da vida. Não sei como, Menna distinguia uma rua da seguinte, e conduziu-nos ao poial da casa do irmão dele, onde estava um rapazinho a olhar. Quando nos viu, gritou pelo pai, e o segundo filho de Meryt, Hori, saiu de rompante para a rua, com ambas as mãos cheias de pão fresco. Correu para Meryt e levantou-a pelos cotovelos, fazendo-a rodar e rodar em volta, sorrindo com o sorriso da própria Meryt. A família dele juntou-se e bateu palmas, enquanto a avó se ria para o filho e o beijava no nariz. Hori ainda tinha a casa cheia de crianças, cinco ao todo, que iam de uma filha casadoira ao bebê nu que primeiro nos tinha espiado.
A família transbordou para a rua, atraindo vizinhos às portas, sorridentes perante tanta excitação. Depois, Meryt foi conduzida através da antecâmara da casa de Hori para a sala dele, um quarto modesto, onde as janelas altas deixavam cair a luz da tarde sobre esteiras de chão de cores vivas, e sobre as paredes pintadas com uma luxuriante cena de jardim. A minha amiga foi sentada na melhor cadeira da casa e formalmente apresentada aos netos, um por um.
Fiquei sentada no chão, ao pé de uma parede, vendo Meryt a banhar-se na glória dos seus filhos. As mulheres trouxeram comida dos quartos traseiros, onde eu vi uma cozinha de jardim. Meryt elogiou a comida, que estava bem condimentada e era muita, e declarou que a cerveja era melhor do que qualquer uma que ela tivesse provado na cidade dos nobres. A nora ficou radiante com aquelas palavras e o filho assentiu com orgulho.
As crianças olhavam fixamente para mim, nunca tendo visto uma mulher tão alta ou uma cara tão obviamente estrangeira. Mantiveram a distância, com a exceção do pequeno sentinela, que trepou para o meu colo e ficou lá, com o polegar na boca. O peso de uma criança no meu peito lembrou-me da doçura dos dias em que eu pegava em Ra-mose daquela maneira. Esquecendo-me das boas maneiras, suspirei com tal saudade que os outros se viraram para mim.
- A minha amiga! - gritou Meryt, que correu para o meu lado. - Perdoa-me por te ter esquecido. - A mãe da criança veio e tirou-mo, e Meryt juntou-se a mim, a meus pés. - Esta é Den-ner - anunciou ela, - e virou-me, como a uma criança, para que toda a gente pudesse ver a minha cara. - Menna dir-vos-á que ela é uma parteira sem amigos que ele acolheu por compaixão. Mas eu digo-vos que eu sou amiga e irmã dela, e que sou aluna dela, pois nunca vi nem ouvi falar de uma parteira tão habilidosa. Tem as mãos de Isis e, com o amor da deusa pelas crianças, mostra a compaixão do céu pelas mães e pelos bebês. Meryt, com as faces coradas por causa da atenção que recebia da sua família, falou sobre mim como uma mercadora no mercado a vender os seus objetos.
- E ela também é um oráculo, meus queridos. Os sonhos dela são certeiros, e a raiva dela é temível, pois eu vi-a a arrancar um homem mau à primavera da vida dele, por ele ter feito mal a uma jovem mãe. Ela vê com clareza nos corações dos homens e nenhum a engana com lindas palavras que escondam um coração mentiroso. Ela vem do Leste -disse Meryt, já bêbada da própria voz e da atenção dos filhos. - Lá, as mulheres são freqüentemente tão altas quanto os homens do Egito. E a nossa Den-ner é tão esperta quanto alta, pois fala tanto a língua do Leste como a nossa língua. E deu à luz Ra-mose, um escriba, o herdeiro de Nakht-ra, que um dia será um dos poderosos desta terra. Temos sorte em ter a mãe dele entre nós, e a casa de Menna considerar-se-á com sorte, quando ela dormir sob o teto dele.
Eu estava mortificada, vendo tantos olhos postos em mim.- Obrigada - foi tudo o que eu consegui dizer. - Obrigada - disse eu, fazendo uma vênia a Menna e Shif-ra, e depois a Hori e à mulher dele, Takharu. - Obrigada pela vossa generosidade. Sou uma vossa criada, como forma de exprimir a minha gratidão.
Voltei ao meu canto, ao pé da parede, contentando-me em observar a família, enquanto eles comiam e gracejavam e saboreavam a presença uns dos outros. À medida que a luz começou a desaparecer, fechei os olhos por um momento, e vi Raquel com José ao colo, a face dela comprimida contra a dele.
Não tinha pensado no meu irmão José durante anos, e não conseguia localizar a memória com exatidão. Mas a cena era tão vivida como as minhas memórias do toque de Lea, tão clara na minha mente como as tendas de Mamre. Já em criança eu sabia que seria José a levar a história da família até à geração seguinte. Seria ele que se transformaria em algo de mais interessante e complicado do que, muito simplesmente, um homem muito bonito nascido de uma mãe muito bonita.
A família de Meryt pensou que eu estava a fazer uma sesta, enquanto me mantive sentada contra a parede, mas eu estava perdida em pensamentos sobre José e Raquel, Lea e Jacob, sobre as minhas tias e Inna, e sobre os dias antes de Siquém. Suspirei outra vez, o suspiro de uma órfã, e a minha respiração encheu a sala de uma melancolia momentânea, que anunciou o fim da festa de boas-vindas.
A noite estava a chegar quando Menna nos conduziu, a Meryt e a mim, pelas ruas iluminadas pelo luar, até casa dele, que era próxima. Embora fosse maior e ainda melhor atribuida do que a de Hori, o ar estava quente e abafado, lá dentro, pelo que carregamos as nossas pequenas camas por um escadote acima, em direção ao terraço, onde o dossel de estrelas parecia ao alcance da mão.
Eu acordei mesmo antes do nascer do Sol e levantei-me para ver toda a cidade e sonhar. Eles estavam deitados, sozinhos ou em pares, ou em grupo, com crianças e cães. Uma gata seguia rua abaixo, levando qualquer coisa na boca. Pôs a coisa no chão e eu vi que era um gatinho, que ela começou a limpar com lambidelas. Enquanto os observava, o sol fez as colinas ficarem cor-de-rosa e, depois, douradas. As mulheres mexeram-se e espreguiçaram-se e, depois, desceram escadas abaixo. Pouco depois, o cheiro de comida enchia o ar e o dia começava. A princípio, Shif-ra não permitia que eu ou Meryt fizéssemos fosse o que fosse na cozinha ou no horto dela, pelo que nós duas ficávamos sentadas, inúteis, a vê-la trabalhar. Meryt tinha horror de se tornar uma sogra intrometida, mas as mãos dela estavam ansiosas por se ocuparem.- Deixa-me só prensar a cerveja - pedia ela.
- Eu podia varrer o chão - propunha eu. Mas Shif-ra parecia sentir-se insultada com as nossas ofertas. Ao cabo de uma semana de estarmos sentadas, não aguentava mais. Pegando num jarro grande e vazio, anunciei: Vou à fonte e saí porta fora, antes que a minha anfitriã pudesse levantar qualquer objeção, surpreendendo-me a mim própria, assim como a Meryt. Depois de anos de ter medo das ruas em Tebas, saí rapidamente para esta rua, não inteiramente segura de para onde é que devia ir. Mas, uma vez que havia sempre outras mulheres a ir ou a vir da fonte, rapidamente descobri a minha rota.
Enquanto andava, fui olhando para dentro dos poiais e sorri a crianças nuas que brincavam na poeira. Comecei a ver diferenças entre uma casa e a seguinte: flores plantadas aqui e ali, lintéis pintados de vermelho ou verde, bancos postos à entrada. Sentia-me outra vez menina, com os olhos abertos a novas cenas, com o meu dia esvaziado de trabalho. Perto da fonte, ultrapassei uma mulher grávida que cambaleava à minha frente.
- Este não é o teu primeiro, pois não? - perguntei-lhe com vivacidade, quando fiquei ao lado dela. Quando se virou para olhar para mim, vi a cara de Raquel, tal como esta deve ter sido, nos longos anos antes de, finalmente, ter tido José. A cara da mulher contorceu-se de raiva e de desespero. - Oh, minha querida - disse eu, envergonhada. - Falei antes de perceber o que isto significa para ti. Não temas, mãezinha. Este rapaz será saudável.
Os olhos dela abriram-se de medo, e com esperança, e a boca dela caiu, aberta.
- Como é que te atreves a falar comigo dessa maneira? Este irá morrer como os outros antes dele. Sou odiada pelos deuses. - As palavras saíram tintas de amargura e raiva. - Sou uma mulher sem sorte nenhuma.
A resposta saiu-me com a segurança da própria grande mãe, uma voz que veio através de mim, mas não de mim.
- Ele nascerá perfeito, e em breve. Se não for esta noite, será amanhã. Chama-me, e eu ajudar-te-ei nos tijolos e cortarei o cordão. Ahouri era o seu nome, depois de termos enchido os nossos jarros, conduziu-me de volta à casa do padeiro. Ela vivia poucas portas a leste de Menna e, quando o tempo dela chegou, na noite seguinte, o marido veio procurar a parteira nascida no estrangeiro. Com Meryt, assisti a um dos partos mais fáceis e menos complicados da minha vida. Ahouri soluçou de alívio, enquanto segurava a terceira criança do seu ventre, mas a única que nascera a respirar. Era um rapaz robusto, a quem ela chamou Den-nouri, o primeiro a quem era dado nome em minha honra. O marido dela, um oleiro, deu-me um belíssimo jarro, como forma de agradecimento, e beijou-me as mãos, e ter-me-ia levado para casa nos braços se eu o tivesse permitido. Meryt espalhou a história de que eu tinha feito uma qualquer espécie de maravilha por Ahouri e, passado pouco tempo, estávamos mais ocupadas do que tínhamos estado em Tebas. A maior parte dos homens que trabalhava no vale era jovem, com mulheres em idade de ter filhos, e nós assistimos a uns bons dez partos por mês. Shif-ra já não tinha convidadas ociosas a quem dar de comer e, na verdade, rapidamente ganhou mais iguarias e linho do que precisava. Menna estava orgulhoso de ter mulheres tão respeitadas sob o seu teto e tratava-me como se eu fosse a sua própria tia.
As semanas e os meses passaram rapidamente e a vida no vale tomou um ritmo cadenciado. As manhãs eram os momentos de maior azáfama, antes que o grande calor caísse. Os homens saíam cedo, as crianças brincavam nas ruas enquanto as mulheres varriam a casa, cozinhavam as refeições do dia e iam buscar água às fontes, onde se trocavam notícias e faziam planos para o festival seguinte.
Embora o grande rio não fosse visível da cidade, regulava, mesmo assim, o fluxo da vida quotidiana naquele vale árido. As estações do rio eram celebradas pelos artesãos (que tinham crescido ao pé do Nilo a embeberem-se nos ritmos agrícolas) com grande exaltação. Após tantos anos na terra do grande rio, aprendi finalmente os belíssimos nomes das estações que ele regulava: Akhit a inundação, perit a descida das águas, sheniou a colheita. Cada uma delas tinha o seu feriado, o seu rito lunar, as suas próprias comidas e canções festivas.
Mesmo antes da minha primeira lua das colheitas no vale, veio um escriba à porta de Menna, com uma carta do meu filho. Ra-mose escreveu para dizer que estava outra vez a viver em Tebas, que lhe tinha sido atribuído o lugar de escriba do novo vizir, que se chamava Zafenat Paneh-ah, e que era o escolhido do rei. Enviou saudações em nome de Amon-Ra e Isis, e uma oração pela minha saúde. Era um bilhete formal, mas eu fiquei feliz por ter pensado em mim o suficiente para o enviar. E aquele pedaço de calcário, escrito pela sua própria mão, tornou-se a mais preciosa das minhas posses e, apesar dos meus protestos, tornou-se prova do meu estatuto de pessoa de importância.
Não muito depois de a carta do meu filho ter chegado, apareceu outro homem à porta, a procurar a mulher chamada Den-ner. Shif-ra perguntou-lhe se eram a mulher ou a filha dele que precisavam dos tijolos da parteira, mas ele disse:
- Nenhuma delas.
Então, ela perguntou se ele era um escriba com outra carta vinda de Tebas, mas ele disse que não. “Sou carpinteiro.” Shif-ra foi ao jardim, com notícias curiosas acerca de um carpinteiro solteiro que procurava uma parteira. Meryt tirou os agudos olhos da fiação e, ostentando falso desinteresse, disse:
- Den-ner, vai ver o que é que o desconhecido quer. - Eu fui sem pensar. Os olhos dele estavam mais tristes, mas, em todas as outras coisas, continuava o mesmo. Fiquei ali parada um momento, antes de Benia estender a mão direita na minha direção. Sem hesitar, pus a minha mão esquerda na mão dele. Estendi a minha mão direita e pegou nela com a esquerda dele. Ficamos assim, de mão na mão e a sorrir como tontinhos, sem falar, até que Meryt não conseguiu aguentar mais tempo sem saber o que se passava.
- ó Den-ner - chamou ela com falsa preocupação. - Estás aí, ou era um pirata que estava à porta?
Conduzi-o pela casa, até lá atrás, onde Meryt saltitava como um pássaro, de um pé para o outro, com o sorriso louco do deus Bes na cara. Shif-ra também sorria, tendo, justamente, sabido que Meryt passara os últimos meses à procura do artista que me tinha dado o seu coração, em conjunto com a caixa luxuosa que me acompanhava desde Tebas. Elas disseram-lhe que se sentasse e ofereceram-lhe cerveja e pão. Mas Benia só olhava para mim. E eu correspondia ao olhar fixo dele.- Vá lá, então - disse Meryt, dando-me um abraço e, depois, um empurrão. - Menna irá levar-te a tua caixa, de manhã, e eu irei atrás dele, com pão e sal. Vai, em nome da senhora Isis e do consorte dela, Osíris. Vai e alegra-te.
Ao deixar a casa da minha amiga para seguir um desconhecido, fiquei surpreendida com a minha própria certeza, mas não hesitei. Caminhamos pelas ruas, lado a lado, durante o que me pareceu muito tempo, sem dizer nada. A casa dele era perto da margem da colônia, perto do caminho que levava aos túmulos, muitas ruas longe de Meryt. Enquanto caminhamos, lembrei-me das histórias das minhas mães acerca de mãos pintadas com henna, e de canções para o noivo e para a noiva, quando eles estavam a caminho da tenda nupcial. Sorri, ao pensar em mim mesma como estando numa espécie de procissão, naquele momento, a caminhar para o meu leito nupcial. Também sorri, ao pensar em como Meryt iria correr de fonte para fonte, na manhã seguinte, contando a toda a gente o caso entre Benia, o mestre carpinteiro, e Den-ner, a parteira mágica. Quase ri, ao pensar nisso. Benia interpretou o som que escapou da minha boca como um sinal de tensão. Pôs o braço em volta de mim, pôs os lábios contra o meu ouvido, e sussurrou:- Não temas.
Palavras mágicas. Encostei a cabeça ao ombro dele, e fizemos o resto do caminho de mãos dadas, como crianças.
Quando chegamos a casa dele, que era quase tão grande quanto a de Menna, levou-me a ver todos os quartos e, com grande orgulho, mostrou-me a mobília que tinha construído: duas cadeiras que pareciam tronos, uma cama com ornamentações esculpidas, caixas de muitas formas. Ri-me, quando vi a cadeira de alívio, que era demasiado bonita para o propósito sujo a que servia.
- Pensei em ti, quando fiz estas coisas - disse ele, encolhendo os ombros de embaraço. - Pensei em ti aqui sentada, a dormir aqui, a pores as coisas na ordem, ao teu próprio modo. Quando a Meryt me encontrou, fiz isto para ti.
Pegou numa requintada caixa que estava num nicho da parede. Não era ornamentada, mas era perfeita, feita de ébano (madeira usada quase exclusivamente para os túmulos dos reis), polida até brilhar como lua negra.
- Para o teu estojo de parteira - disse ele, e estendeu-ma. Olhei fixamente para ela, por um momento, assoberbada pela generosidade e pela ternura.
- Não tenho nada para te dar como testemunho - disse eu. Encolheu um ombro, num gesto que eu rapidamente vim a conhecer tão bem como conhecia as minhas próprias mãos.
- Não tens que me dar nada. Se me tirares isto das mãos livremente, a tua escolha será o teu testemunho.
E foi assim que me tornei uma mulher casada, no Egito. Benia pôs uma refeição na mesa, para nós, que consistia em pão e cebolas e fruta, e ficamos sentados na cozinha e comemos e bebemos num silêncio nervoso. Eu era uma rapariguinha, da última vez que me tinha deitado com um homem. Benia tinha pensado em mim desde aquele dia no mercado, dois anos antes. Éramos tímidos como dois virgens que são casados pelos pais.
Depois de comermos, pegou na minha mão e levou-me para o quarto principal, onde estava a linda cama, cheia de linho lavado. Lembrou-me a cama de Ra-nefer, na casa de Nakht-ra. Lembrou-me a cama de Shalem, na casa do pai dele. Mas, então, Benia virou-me para ele, pousou as mãos na minha cara, e eu esqueci todas as camas que tinha visto antes daquele momento.
Deitarmo-nos juntos foi uma terna surpresa. Desde a nossa primeirissima noite que o Benia teve grande cuidado com o meu prazer, e parecia descobrir o seu próprio prazer no meu. A minha timidez desapareceu, durante aquela noite, e, à medida que as semanas passaram, descobri poços de desejo e de paixão que nunca tinha suspeitado possuir. Quando Benia se deitava comigo o passado desaparecia e eu era uma alma nova, renascida no sabor da boca dele, no toque dos dedos dele. As enormes mãos agarravam-me o corpo e desatavam nós secretos, criados por anos de solidão e silêncio. A visão das suas pernas nuas (grossas e torcidas como cordas, por causa dos músculos) excitava-me tanto, que Benia me espicaçava, quando saía de manhã, levantando a saia, para revelar o topo da coxa, fazendo-me corar e rir. O meu marido ia para a sua oficina todas as manhãs, mas, ao contrário dos cortadores de pedra e dos pintores, não tinha de trabalhar nos túmulos, pelo que voltava para mim à noite, que era quando eu e ele descobríamos ter ainda maior prazer um no outro - assim como o triste fato de eu não saber cozinhar.
Durante os anos que passei na casa de Nakht-ra, raramente vagueei para dentro da cozinha, quanto mais preparar uma refeição. Nunca tinha aprendido a fazer pão num forno egípcio, ou a amanhar peixe, ou a depenar aves. Comíamos fruta verde do jardim negligenciado de Benia e eu implorava pão a Menna. Envergonhada, pedi a Shif-ra que me desse uma lição de culinária, a que Meryt assistiu só para fazer pouco de mim. Tentei recriar as receitas da minha mãe, mas não tinha os ingredientes, e tinha-me esquecido das proporções. Sentia-me tonta e envergonhada, mas Benia só se ria.
- Não vamos morrer à fome - disse ele. - Mantive-me vivo durante anos com pão pedido emprestado, e fruta, e com o ocasional banquete em casa dos meus amigos e da família. Não me casei contigo para seres minha cozinheira.
Mas, muito embora fosse uma estranha, na cozinha, encontrei grande alegria em tratar da minha própria casa. Era enorme doçura decidir onde devia ficar uma cadeira, decidir o que plantar no jardim. Apreciei o prazer de criar a minha própria ordem, trauteando canções enquanto varria o chão ou dobrava cobertores. Passava horas a dispor as panelas na cozinha, primeiro por ordem de tamanho e, depois, de acordo com a cor delas.
A minha casa era um mundo que me pertencia, um país em que eu era governante e cidadã, onde escolhia e servia. Uma noite, voltando para casa muito tarde, exausta, depois de ter assistido ao parto de gêmeos saudáveis, pensei que me tinha perdido no caminho. Parada no meio da rua, na noite escura, reconheci a minha casa pelo cheiro - uma mistura de coentros, de trevo, e do odor a cedro de Benia. Meses depois de me ter mudado para a minha própria casa, Menna preparou um pequeno banquete para mim e para Benia. Os trabalhadores do meu marido cantaram canções da oficina deles. Os filhos de Meryt cantaram sobre pão. E, depois, todos os homens, com as suas mulheres e crianças, juntaram as vozes para cantarem canções de amor, das quais parecia haver um número infinito. Eu reagi timidamente à atenção que chovia sobre nós, às taças levantadas, aos sorrisos abertos, e aos beijos. Apesar de Benia e eu sermos demasiado velhos para aqueles disparates, estávamos atordoados de deleite um com o outro. Quando Meryt se inclinou para mim e me disse para parar de ficar ressentida com as pessoas por terem a oportunidade de se banharem na luz da nossa felicidade partilhada, pus de lado toda a timidez com gratidão e sorri aos meus amigos.
Tinha tido razão em confiar em Benia, que era a alma da bondade. Uma noite, deitamo-nos de costas a olhar fixamente para os céus. Havia apenas uma lasca de Lua e as estrelas dançavam por cima de nós, quando me contou a vida dele. As palavras vieram lentamente, pois grande parte das memórias eram tristes.
- Só tenho uma recordação do meu pai - disse Benia. - A visão das costas dele, enquanto se afastava de mim, num campo onde eu estava sentado atrás do arado, a desfazer torrões de terra. Tinha eu seis anos quando ele morreu, deixando a Mãe com quatro crianças. Eu era o terceiro filho. Ela não tinha irmãos, nem uma família de gente generosa. Teve de encontrar colocação para nós, portanto levou-me à cidade e mostrou as minhas mãos aos cortadores de pedra. Tomaram-me como aprendiz e ensinaram-me e fizeram-me trabalhar até que as minhas costas se tornaram rijas e as minhas mãos calejadas. Mas eu era a piada das oficinas. O mármore rachava se eu entrasse numa sala, o granito chorava se eu levantasse um cinzel para ele. Um dia, ao vaguear pelo mercado, vi um carpinteiro a arranjar um banco velho, para uma mulher pobre. Ele viu o meu cinto e fez uma vênia profunda, pois, muito embora eu fosse apenas um aprendiz, os cortadores de pedra, que trabalham em materiais imortais, são considerados muito melhores do que os que trabalham a madeira, cujas façanhas, mesmo as mais grandiosas, decaem como o corpo de um homem. Disse ao carpinteiro que desperdiçava o respeito dele em mim e que até o mero arenito me derrotava. Confessei que estava em perigo de ser mandado para a rua. O trabalhador da madeira tomou a minha mão na dele, virando-a para um lado e para o outro. Deu-me uma faca e um pedaço de madeira e pediu-me que fizesse um brinquedo para o neto dele. A madeira parecia quente e viva, e o boneco ganhou forma nas minhas mãos sem esforço. O próprio grão do pinho parecia sorrir para mim. O carpinteiro fez um sinal de assentimento, face à coisa que eu tinha feito, e levou-me para a oficina do professor dele, apresentando-me como um provável aprendiz. E foi aí que descobri o trabalho da minha vida. Aqui, o meu marido suspirou.
- Foi, também, lá que eu conheci a minha mulher, que era uma criada na casa do meu mestre. Éramos tão jovens - disse ele suavemente, e no silêncio que se seguiu, eu percebi que ele tinha amado a esposa da sua juventude com todo o coração. - Depois da longa pausa, continuou: -Tivemos dois filhos.
Mais uma vez parou e, no silêncio, ouvi as vozes de rapazinhos; o riso tonto de amor de Benia; uma mulher a cantar uma canção de embalar.- Morreram de febre do rio - disse Benia. - Tinha-os levado para fora da cidade, para ir ver o meu irmão, que, por casamento, fazia parte de uma família de agricultores. Mas quando chegamos à casa, encontramos o meu irmão a morrer e o resto da família dele infectado. A minha mulher tomou conta deles todos - sussurrou ele. - Devíamos ter-nos vindo embora - concluiu, com uma auto-reprovação ainda em carne viva, passados tantos anos. - Depois disso vivi apenas para o meu trabalho, e só amei o meu trabalho. Visitei as prostitutas, uma vez - confessou ele embaraçado. - Mas era demasiado triste. Até ao dia em que te vi no mercado, não me dei ao trabalho de ter esperança em nada. Quando te reconheci como minha amada, o meu coração voltou à vida. Mas quando desapareceste e pareceste desdenhar-me, fiquei zangado. Pela primeira vez na minha vida, tive raiva do céu, por me ter roubado a minha família e, depois, por te ter balouçado em frente aos meus olhos e te ter arrebatado para longe de mim. Estava furioso e assustado com a minha própria solidão. Por isso, arranjei uma mulher. Eu tinha estado completamente quieta. até ali. mas aquele anúncio fez-me sentar.
- Sim, sim - disse ele, embaraçado. - A minha irmã encontrou-me uma rapariga casadoira. Uma criada em casa de um pintor, e eu trouxe-a para aqui, comigo. Foi um desastre. Eu era demasiado velho para ela, ela era demasiado parva para mim. Oh, Den-ner - disse ele, numa infelicidade de desculpas. - Nós éramos tão errados um para o outro, que até poderia parecer engraçado. Nunca falávamos. Tentamos partilhar a minha cama duas vezes, e até isso foi horrível. Por fim, ela teve mais coragem do que eu, a pobre rapariga. Passadas duas semanas, foi-se embora. Saiu de casa, enquanto eu estava a trabalhar, foi até ao barco e voltou para casa do pintor, onde ainda está. Resignei-me a fazer das bebidas fortes a minha companhia regular, até que Meryt me procurou. Visitou-me três vezes, antes que eu tivesse concordado em ir ver-te. Tenho sorte, por a tua amiga não entender o significado de “não”. Virei-me para o meu marido e disse:
- E a minha sorte é medida pela tua bondade, que não tem limites. Fizemos amor muito lentamente, naquela noite, como se fosse a última vez que o fizéssemos, a chorar. Uma das lágrimas dele caiu na minha boca, onde se transformou numa safira azul, fonte de força e de esperança eterna.
Benia não me pediu que lhe contasse a minha história. Os olhos dele enchiam-se de perguntas, quando eu mencionava a maneira de fazer cerveja da minha mãe, ou a habilidade da minha tia como parteira, mas ele refreava sempre o impulso de saber. Acho que tinha medo que eu me esfumasse, se ele tentasse sequer perguntar o significado do meu nome, ou como é que se dizia “água” na minha língua natal. Noutra noite sem luar, contei-lhe, quanto podia, da minha verdade: que o pai de Ra-mose era o filho de Ra-nefer, irmã de Nakht-ra, e que eu tinha vindo para Tebas depois do assassínio do meu marido, que tinha ocorrido na nossa própria cama. Quando me ouviu dizer isto, Benia estremeceu, pôs os braços dele à minha volta como se eu fosse uma criança, acariciou-me o cabelo e limitou-se a dizer: “Pobrezinha.” Que era tudo o que eu desejava ouvir.
Nenhum de nós alguma vez deu voz aos nomes dos nossos amados mortos e, por este ato de respeito, eles permitiram que nós vivêssemos em paz com os nossos novos companheiros, e nunca assombraram os nossos pensamentos durante o dia, nem visitaram os nossos sonhos à noite.
A vida era doce, no Vale dos Reis, na margem ocidental do rio. Benia e eu encontrávamos quanto precisávamos um no outro. Na realidade, éramos ricos de todas as maneiras menos de uma, pois não tínhamos filhos.
Eu era estéril, ou talvez apenas demasiado velha para ficar grávida. Embora já tivesse vivido uma vida preenchida (perto de duas vintenas de anos), as minhas costas eram fortes e o meu corpo ainda obedecia à atração da Lua. Tinha a certeza de que o meu ventre era frio, mas, mesmo assim, nunca consegui arrancar a raiz da esperança do meu coração, e quedava-me triste a cada passagem da lua nova. Apesar disso, as crianças não estavam completamente ausentes das nossas vidas, pois Meryt vinha sentar-se freqüentemente na soleira da nossa porta, com os netos atrás, que nos tratavam como tio e tia -especialmente a pequena Kiya, que gostava tanto de dormir na nossa casa, que a mãe por vezes a mandava ficar conosco, para ela me ajudar no jardim e para dar mais cor às nossas vidas.
Benia e eu partilhávamos histórias, à noite. Eu falava-lhe dos bebês que apanhava e das mães que morriam, embora felizmente fossem poucas. Ele falava das encomendas dele - cada uma delas um novo desafio, baseada não só nos desejos do comprador e dos construtores, mas também nos desejos da madeira na mão dele.
Os dias passavam em paz, e o fato de não haver muita coisa que diferenciasse um dia do dia seguinte parecia-me um grande presente. Eu tinha as mãos do Benia, a amizade da Meryt, o toque da carne de recém-nascido, os sorrisos das novas mães, uma menina que ria na minha cozinha, uma casa minha.
Era mais do que o suficiente.