A Tenda Vermelha

Anita Diamant · Capítulo 13 de 18

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A Tenda Vermelha

Capítulo 8

 

Por minha voz souberam elas daquilo. A minha própria mãe deu um grito esganiçado ao ver o meu corpo ensangüentado. Caiu no chão, a carpir a sua criança assassinada, e as tendas esvaziaram-se para conhecerem a causa da dor de Lea. Mas Bilhah desatou-me e ajudou-me a levantar, enquanto Lea olhava fixamente, primeiro horrorizada, depois aliviada, e, por fim, assombrada. Estendeu os braços para mim, mas a minha expressão deteve-a.

Eu virei-me, tencionando voltar a pé para Siquém. Mas as minhas mães levantaram-me do chão, e eu estava demasiado fraca para resistir. Despiram-me dos meus cobertores e das minhas roupas, negros e rijos do sangue de Shalem. Lavaram-me e ungiram-me com azeite e pentearam-me o cabelo. Puseram-me comida nos lábios, mas eu não comia. Deitaram-me num cobertor, mas eu não dormia. Durante o resto do dia, ninguém se atreveu a falar comigo, e eu nada tinha a dizer. Quando a noite caiu outra vez, ouvi os meus irmãos a regressar, e ouvi o som do saque deles: mulheres a chorar, crianças aos gritos, animais a balir, carroças a gemer sob o peso dos bens roubados. Simeão e Levi gritavam ordens roucas. A voz de Jacob não se fazia ouvir em parte alguma.

Eu deveria estar derrotada pela dor. Deveria estar exausta a ponto de nada ver. Mas o ódio tinha-me endurecido a espinha. A viagem montanha acima, atada como num sacrifício, tinha-me sacudido e conduzido a uma raiva que se alimentava de si própria enquanto eu estava deitada no meu cobertor, rígida e atenta. O som das vozes dos meus irmãos levantou-me da cama e eu saí para os enfrentar.

Os meus olhos dardejavam fogo. Teria sido capaz de os reduzir todos a cinzas com uma palavra, uma respiração, um olhar de relance.- Jacob - gritei eu com a voz de um animal ferido. - Jacob - uivei, invocando-o pelo nome, como se eu fosse o pai e ele o filho travesso. Jacob emergiu da tenda dele, a tremer. Mais tarde, afirmou que não tinha conhecimento do que fora feito em seu nome. Culpou Simeão e Levi e voltou-lhes as costas. Mas eu vi completa compreensão nos olhos turvados dele, enquanto esteve perante mim. Vi a culpa dele antes que ele a pudesse negar.

- Jacob, os teus filhos cometeram assassínio - disse eu, numa voz que não reconheci como a minha. - Mentiste e foste conivente, e os teus filhos assassinaram homens justos, abatendo-se sobre eles quando eles sentiam uma fraqueza que foi de tua própria invenção. Espoliaste os corpos dos mortos e pilhaste os locais onde eles estavam enterrados, pelo que as sombras deles te perseguirão para sempre. Tu e os teus filhos criaram uma geração de viúvas e órfãos que nunca te perdoará. Jacob -disse eu, numa voz que ecoava como o trovão. - Jacob - disse eu num silvo, na voz da serpente que larga vida e que, mesmo assim, vive. -Jacob - uivei, e a Lua desapareceu. - Jacob nunca mais conhecerá paz, outra vez. Perderá o que valoriza e repudiará aqueles que deveria abraçar. Nunca mais encontrará descanso, e as preces dele não encontrarão o favor do deus do pai dele. Jacob sabe que as minhas palavras são verdadeiras. Olha para mim, pois eu uso o sangue dos homens justos de Siquém. O sangue deles mancha-te as mãos e a cabeça, e nunca mais voltarás a estar limpo. Estás sujo e estás amaldiçoado -disse eu, cuspindo na cara do homem que tinha sido o meu pai. Depois, virei-lhe as costas, e ele morreu para mim.

Amaldiçoei-os a todos. Com o cheiro do sangue do meu marido ainda nas minhas narinas, nomeei cada um deles e invoquei o poder de cada deus e de cada deusa, de cada demônio e de cada tormento, para que os destruíssem e devorassem: os filhos da minha mãe Lea, e o filho da minha mãe Raquel, e os filhos da minha mãe Zilpa, e o filho da minha mãe Bilhah. O sangue de Shalem estava incrustado debaixo das minhas unhas, não havia piedade alguma no meu coração por qualquer um deles.

- Os filhos de Jacob são víboras - disse eu aos meus irmãos acobardados.- São pútridos como os vermes que se alimentam dos cadáveres. Os filhos de Jacob vão, cada um deles, sofrer, por sua vez, e vão voltar o sofrimento contra o pai deles.

O silêncio era absoluto e sólido como uma parede, quando eu lhes virei as costas. Descalça, não usando mais do que uma combinação, afastei-me dos meus irmãos e do meu pai e de tudo o que tinha sido o meu lar. Afastei-me também do amor, para nunca mais ver o meu reflexo nos olhos das minhas mães. Mas não podia viver entre eles. Caminhei em direção a uma noite sem lua, ensangüentando os pés e aleijando os joelhos no caminho para o vale, mas nunca parei, até chegar às portas de Siquém. Ia agarrada a uma visão.

Enterraria o meu marido e seria enterrada com ele. Encontraria o corpo dele e embrulhá-lo-ia em linho, pegaria na faca que lhe tinha roubado a vida e abriria os meus pulsos com ela, para que pudéssemos dormir juntos no pó. Passaríamos a eternidade no mundo silencioso, triste e cinzento dos mortos, comendo pó, olhando através de olhos feitos de pó para o falso mundo dos homens.

Não tinha outro pensamento. Estava sozinha e vazia. Era uma sepultura à espera de ser preenchida com a paz da morte. Andei até me encontrar perante o grande portão de Siquém, de joelhos, incapaz de me mexer. Se Ruben me tivesse encontrado e me tivesse levado de volta, a minha vida teria acabado. Poderia ter andado e chorado por muitos mais anos, meio louca, acabando os meus dias no poial da terceira esposa de um irmão menor. Mas a minha vida teria acabado. Se Ruben me tivesse encontrado, Simeão e Levi certamente teriam morto o meu bebê, deixando-o ao relento durante a noite, para que os chacais o despedaçassem. Poderiam ter-me vendido como escrava, em conjunto com José, arrancando-me a língua primeiro, para me impedirem de amaldiçoar os olhos, a pele, os ossos, os escrotos deles. Eu nunca seria aplacada pela dor e pelo sofrimento deles, não importa o quão horrível eles fossem.

Nem ficaria amolecida, quando Jacob se acovardou e tomou um novo nome, Israel, para que as pessoas não o lembrassem como o carniceiro de Siquém. Fugiu do nome Jacob, que se tornou uma outra palavra para “mentiroso”, pelo que “Serves o deus de Jacob” era um dos piores insultos que um homem podia arremessar a outro naquela terra, durante muitas gerações. Tivesse eu lá estado para o ver, poderia ter sorrido, quando o dom dele para os animais o abandonou, e até os cães dele o desertaram. Ele não merecia nada menos do que a agonia de saber que José fora despedaçado por animais selvagens.

Se Ruben me tivesse encontrado às portas de Siquém, eu teria estado lá para dar a Raquel o enterro que ela merecia. Raquel morreu na estrada, para onde Jacob se dirigiu para escapar à ira do vale, que se levantou para vingar a destruição de Hamor e da paz de Siquém. Raquel pereceu em agonia, dando à luz o último filho de Jacob. “Filho da dor”, chamou ela ao rapazinho que lhe custou um rio de sangue negro. Mas o nome que Raquel escolheu para o filho dela era demasiado acusador, pelo que Jacob desafiou o desejo da sua esposa moribunda e fez de conta que Ben-om era Benjamim.

O medo de Jacob afastou-o do pobre corpo esvaziado de Raquel, que ele enterrou à pressa e sem cerimônia, ao lado da estrada, com nada mais do que uns poucos seixos a recordar, lembrar o grande amor da vida dele. Talvez eu tivesse ficado ali, na sepultura de Raquel, com Inna, que se plantou naquele lugar e juntou pedras lindas para fazer um altar à memória da única filha dela. Inna ensinou as mulheres do vale a dizer o nome de Raquel e a atarem cordões vermelhos à volta do pilar dela, prometendo que, como recompensa, os ventres delas só carregariam frutos vivos, assim assegurando que o nome da minha tia vivesse para sempre nas bocas das mulheres.

Se Ruben me tivesse encontrado, eu teria visto a minha maldição a enrolar-se à volta do pescoço dele, despoletando uma vida inteira de paixão nunca levada a cabo e de declarações de amor não ditas a Bilhah, e do amor dela por ele. Quando essa barragem se quebrou, eles foram sem fôlego para os braços um do outro, abraçando-se nos campos, sob as estrelas, e mesmo dentro da própria tenda de Bilhah. Eles eram os amantes mais verdadeiros, a própria imagem da Rainha do Mar e do seu Senhor-Irmão, feitos um para o outro, e condenados por isso. Quando Jacob os surpreendeu, deserdou o mais merecedor dos seus filhos e mandou-o para uma pastagem distante, onde ele não podia proteger José. Jacob bateu a Bilhah na cara, partindo-lhe os dentes. Desde então, ela começou a desaparecer. A doce, a pequena mãe tornou-se mais pequena e mais magra, mais silenciosa, mais observadora. Já não cozinhava, só fiava, e o fio dela era mais fino do que o que mulher alguma jamais fiou, tão fino como uma teia de aranha. E, um dia, desapareceu. As roupas dela estavam em cima do seu cobertor e os seus poucos anéis foram encontrados onde as mãos dela talvez pudessem estar pousadas. Nenhumas pegadas levavam à distância. Ela desapareceu, e Jacob nunca mais voltou a pronunciar o seu nome.

Zilpa morreu de febre, na noite em que Jacob esmagou o último dos deuses lares de Raquel debaixo de uma árvore sagrada. Ele encontrou a pequena deusa rã a que tinha destrancado o ventre de gerações de mulheres e, pegando num machado, despedaçou o ídolo antiquíssimo. Urinou na pedra esmagada, amaldiçoando-a como causa de todo o seu infortúnio. Vendo isto, Zilpa arrancou o cabelo e gritou aos céus, implorou a morte, cuspiu na memória da mãe que a tinha deixado. Deitou-se no chão e pôs punhados de poeira na boca. Foram precisos três homens para a atar, para a impedir de se magoar a si mesma. Foi uma morte terrível, e, enquanto a preparavam para a sepultura, o corpo dela partiu-se em pedaços, como uma velha e quebradiça lâmpada de barro.

Ainda bem que não vi nada disso. Estou grata por não ter estado lá quando Lea perdeu o uso das mãos e, depois, dos braços, e por não a ter visto na manhã em que ela acordou no meio do seu próprio esterco, incapaz de se levantar. Ela ter-me-ia implorado, tal como implorou às insensíveis noras dela, que lhe desse veneno, e eu tê-lo-ia feito. Eu teria tido pena e teria cozinhado a bebida mortal e tê-la-ia morto e tê-la-ia enterrado. Antes isso do que morrer mortificada. Se Ruben me tivesse levado de volta às tendas dos homens que me tinham transformado no instrumento da morte de Shalem, teria cometido assassínio no meu coração todos os dias. Teria provado bilis e amargor nos meus sonhos. Teria sido um borrão na terra. Mas os deuses tinham outros planos para mim. Ruben veio demasiado tarde. O Sol brilhava por cima das muralhas da cidade quando ele chegou ao portão oriental, e por essa altura, já outros braços me tinham carregado dali para fora.