A Tenda Vermelha

Anita Diamant · Capítulo 15 de 18

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A Tenda Vermelha

Capítulo 2

Ra-nefer vasculhou os mercados, à procura dos cestos certos para as roupas dele, de sandálias que durassem, de uma caixa perfeita onde ele pudesse pôr os seus pincéis. Encomendou uma placa esculpida para misturar tinta. Nakht-ra planeou um grande banquete em honra da partida de Ra-mose e deu-lhe de presente um requintado conjunto de pincéis. Os olhos de Ra-mose estavam arregalados de excitação, face à perspectiva de sair para o mundo, e sempre que estávamos juntos falava da sua viagem.

Eu observei os preparativos do fundo de um poço escuro. Se eu tentasse falar com o meu filho, os meus olhos transbordavam e a minha garganta fechava-se. Ele fez o seu melhor para me reconfortar.- Eu não vou morrer, Má - disse-me ele, com uma doçura séria que me fez ficar ainda mais triste. - Vou voltar com presentes para ti e, quando for um grande escriba, como o Ba, vou-te construir uma casa com o maior jardim de todas as Terras do Sul. - Abraçou-me e segurou-me a mão muitas vezes, nos dias que antecederam a sua partida. Manteve o queixo levantado, para que eu não pensasse que ele tinha medo ou que estava infeliz, embora fosse claro que não passava de um rapazinho que deixava as suas mães e a sua casa pela primeira vez. Beijei-o pela última vez no jardim, perto do lago onde ele se tinha maravilhado com os peixes e rido com os patos, e, depois, Nakht-ra pegou-lhe na mão. Fui para a açoteia, donde os vi sair de casa, com um pano enfiado na boca, para poder finalmente chorar até à exaustão. Naquela noite, o velho sonho voltou em plena força e vi-me mais uma vez sozinha, no Egito.

 

CAPÍTULO 2

 

Desde o momento em que ele nasceu, a minha vida passou a girar em torno do meu filho. Os meus pensamentos não se afastavam da sua felicidade e o meu coração batia com o dele. As delícias dele eram as minhas delícias e, uma vez que ele era de tal modo uma criança de ouro, os meus dias eram preenchidos com objetivos e gosto.

Quando se foi embora, fiquei ainda mais só do que quando cheguei ao Egito. Shalem fora o meu marido, durante umas poucas e curtas semanas, e a memória dele tinha decaído até se transformar num vulto triste que assombrava o meu sono, mas Ra-mose tinha estado comigo durante toda a minha vida adulta. No espaço dos anos que ele tinha, o meu corpo tinha assumido toda a sua forma e o meu coração tinha crescido em sabedoria, pois eu percebia o que era ser mãe. Quando olhei de relance para mim, no lago, vi uma mulher com lábios finos, cabelo encaracolado e olhos pequenos e estrangeiros. Quão pouco parecida com o meu escuro e belo filho era eu, e ele era mais parecido com o seu tio do que com qualquer outra pessoa, e estava a tornar-se naquilo que Ra-nefer tinha profetizado: um príncipe do Egito. Sobrava-me pouco tempo para remoer sobre a minha solidão, pois tinha de merecer o meu lugar na grande casa de Nakht-ra. Embora Ra-nefer nunca tivesse deixado de ser amável comigo, com Ra-mose ausente tínhamos muito menos que dizer uma à outra, e eu senti o silêncio entre nós tornar-se constrangedor. Eu raramente ia para dentro de casa. Fiz um lugar para mim própria no jardim, no canto de um barracão que servia para armazenar foices e enxadas - um lugar em que Ra-mose costumava esconder os seus tesouros: pedras lisas, penas, pedaços de papiro recolhidos na sala de Nakht-ra.

Ele deixou estas coisas para trás sem um olhar, mas eu mantive-as embrulhadas num pedaço de bom linho, como se fossem teraphim de marfim e não apenas brinquedos esquecidos de uma criança. Os homens que tratavam do horto não objetaram a ter uma mulher entre eles. Eu trabalhava muito e eles apreciavam o meu jeito para flores e frutos, que eu fornecia às cozinheiras. Eu não queria companhia, repelia as atenções dos homens tão freqüentemente, que eles pararam de me procurar. Quando via a família do meu filho a gozar a sombra do jardim, acenávamos uns aos outros e não trocávamos mais do que saudações educadas.

Quando chegou palavra de Ra-mose de Mênfis, foi o próprio Nakht-ra que me trouxe as notícias enviadas por Kar, o mestre-escola que tinha sido o seu próprio instrutor. Foi assim que eu soube que Ra-mose tinha dominado algo chamado keymt em apenas dois anos - um feito de memorização que provava que o meu filho iria longe e que talvez chegasse a servir o próprio rei. Nunca houve palavra acerca de ele vir a casa. Ra-mose recebia convites para ir caçar com os filhos do governador - não seria possível rejeitar uma oferta tão auspiciosa. Depois, o meu filho foi escolhido como aprendiz e ajudante de Kar, quando o mestre foi chamado a ajuizar acerca de um caso de lei, o que ocupou as semanas durante as quais os outros rapazes visitavam as suas famílias.

Uma vez, Nakht-ra e Ra-nefer visitaram Ra-mose em Mênfis, durante uma peregrinação ao túmulo do pai deles, que ficava lá. Voltaram com cumprimentos afetuosos para mim e com notícias acerca do crescimento dele, após quatro anos longe, ele era mais alto do que Nakht-ra, bem-falante e seguro. Também trouxeram provas da educação dele pedaços de cerâmica cobertos de escrita.

- Olha - disse Nakht-ra, apontando um dedo para a imagem de um falcão. - Vê quão fortes faz ele os ombros de Horus. Deram-me de presente este tesouro vindo da mão do meu filho. Eu maravilhei-me com ele, e mostrei-o a Meryt, que ficou devidamente impressionada com a regularidade e a beleza das imagens dele. Eu fiquei espantada com o fato de o meu filho conseguir tirar sentido de arranhadelas em pedaços de barro e reconfortei-me com o fato de saber que ele iria ser um grande homem qualquer dia. Ele poderia ser escriba dos sacerdotes de Amon ou, talvez, vizir de um governador. Não tinha sido o próprio Nakht-ra a dizer que Ra-mose talvez até pudesse aspirar ao serviço do rei? Mas é claro que nenhum destes sonhos me enchia os braços ou me reconfortava os olhos. Sabia que o meu filho se estava a tornar um homem e temia que quando o voltasse a ver fôssemos estranhos um para o outro.

Eu poderia ter desaparecido, durante aqueles longos anos, sem que ninguém se tivesse dado conta senão de passagem, com a exceção de Meryt. Mas Mervt estava sempre lá, nunca perdendo a bondade, mesmo quando eu lhe virava as costas e não lhe dava razão para me amar. A parteira veio ver-me todos os dias, nas semanas que se seguiram ao nascimento de Ra-mose. Tratou das minhas ligaduras e trouxe-me caldo de ossos de boi, para me dar força, e cerveja doce para o meu leite. Massageou-me os ombros nos lugares em que eles estavam rígidos de embalar o bebê, ajudou-me a levantar para o meu primeiro verdadeiro banho enquanto mãe, derramando água fresca e perfumada por sobre as minhas costas, embrulhando-me numa toalha lavada. Muito depois da minha reclusão ter acabado, Meryt continuou a visitar-me. Preocupava-se com a minha saúde e deleitava-se com o bebê, examinava-o de perto e dava-lhe lentas e sensuais massagens que o ajudavam a dormir durante horas. No dia em que ele foi desmamado, Meryt até me trouxe um presente uma pequena estátua de obsidiana de uma mãe a dar de mamar. Eu fiquei confusa com a generosidade dela, mas quando tentei recusar qualquer uma das atenções ou dos presentes. ela insistiu.

- A vida da parteira não é fácil, mas isso não é razão para não ser bonita- dizia ela.

Meryt sempre falou comigo de parteira para parteira. Não fazia diferença que eu nunca tivesse visto o interior de uma sala de parto desde que o meu próprio filho nascera, ela continuou a honrar a capacidade que eu tinha demonstrado no parto de Ra-mose. Quando voltou para a sua própria casa, depois de o meu filho ter nascido, pediu à sua senhora que soubesse o que pudesse de mim, a senhora dela, Ruddedit, tinha procurado saber a história através de Ra-nefer, que só lhe deu alguns detalhes. Meryt pegou neles e fez deles uma história fabulosa.

Na versão de Meryt, eu era a filha e a neta de parteiras que conheciam os efeitos das ervas e dos cascos de árvore ainda melhor do que os necromantes de On, onde as artes de cura do Egito são ensinadas. Ela acreditava que eu era uma princesa de Canaã, descendente de uma grande rainha que tinha sido destronada por um rei mau. Não a corrigi, temendo que, se nomeasse as minhas mães ou Inna, a minha história se derramasse de mim, e que fosse posta fora da casa e que o meu filho fosse ostracizado, por ter o sangue de assassinos a correr-lhe nas veias. Portanto, Meryt bordou a minha história, que repetia às mulheres que ia conhecendo (e elas eram muitas), enquanto assistia à maior parte dos nascimentos dos distritos nortenhos, tanto nobres como de baixa extração. Ela contava a história de como eu tinha salvo a vida do meu filho com as minhas próprias mãos, deixando sempre de fora o papel dela na história. Falava dos meus conhecimentos acerca de ervas e do renome que eu tinha ganho no deserto ocidental como curandeira. Estas coisas foi ela que as imaginou inteiramente por si própria. E quando eu ajudei uma das criadas de Nakht-ra a dar à luz o seu primeiro bebê, Meryt espalhou as notícias de como eu o tinha virado dentro do ventre ao sexto mês. Graças a Meryt, tornei-me uma lenda entre as mulheres locais, sem sequer uma vez me ter aventurado para fora do jardim de Nakht-ra.

Meryt tinha a sua própria história para contar. Embora tivesse nascido em Tebas, o sangue da mãe dela estava misturado com o do distante Sul, e a pele dela mostrava a cor da Núbia. Mas ao contrário de Bilhah, cuja cara me saltava à memória enquanto Meryt palrava, ela era alta e imponente.

- Se não me tivesse tornado parteira - disse ela -, gostaria de ter sido dançarina, contratada para grandes festas nas grandes casas, e mesmo no palácio do próprio rei. Mas essa vida esgota-se demasiado rápido - disse ela, com um suspiro fingido. - Eu já estou demasiado gorda para dançar para príncipes - dizia ela, dando palmadas na pele debaixo do seu braço magricela, que não mexia, e atirando uma gargalhada a que eu não conseguia resistir.

Meryt conseguia fazer qualquer pessoa rir. Mesmo as mulheres que estavam em pleno trabalho de parto esqueciam a sua agonia para sorrirem das suas piadas. Quando era pequeno, Ra-mose chamava-lhe “a amiga da Má”, mesmo antes de eu me aperceber de que ela era verdadeiramente minha amiga e que era uma bênção. Eu sabia tudo o que havia para saber sobre Meryt, pois ela adorava falar. A mãe dela era uma cozinheira casada com um padeiro, também conhecida como cantora. Era freqüentemente chamada para animar as festas do seu senhor. A voz dela fazia o público estremecer de prazer, com a sua ressonância profunda.

Se ela não estivesse de peito nu, eles teriam dúvidas de que fosse uma mulher - disse Meryt.

Mas a mãe morreu quando a filha ainda era uma menina e a casa não precisava dela, pelo que Meryt foi mandada para o lugar onde vivia até aos dias em que eu a conheci. Enquanto criança, carregou água para Ruddedit, filha de On, onde os sacerdotes são famosos como magos e curandeiros. A senhora via Meryt com bons olhos, e quando viu que Meryt era esperta, mandou-a aprender com a avozinha-parteira local, uma mulher com dedos invulgarmente longos, que dava sorte às mães. Meryt chegou à idade adulta naquela casa e, tal como sua mãe, casou com um padeiro local. Ele era um homem bom, que a tratava bem. Mas Meryt era estéril, nada conseguia induzir o ventre dela a dar fruto. Passados muitos anos, Meryt e o marido adotaram dois rapazes cujos pais tinham sido ceifados pela febre do rio. Os filhos já se tinham tornado homens e faziam pão para os trabalhadores, na aldeia dos construtores de túmulos, na margem ocidental do rio. O marido dela há muito que tinha morrido, Meryt, embora raramente visse os filhos, gabava-se freqüentemente das capacidades e da saúde deles.

- Os meus rapazes têm os dentes mais lindos que alguma vez viste -dizia ela solenemente, pois a própria boca dela era um poço de decadência, e ela mascava manjerona o dia inteiro, para aliviar a dor. Durante anos, Meryt não me poupou a qualquer detalhe da sua vida, na esperança de que eu partilhasse um qualquer bocadinho da minha. Por fim, desistiu de me fazer perguntas acerca de mim mesma, mas nunca parou de me convidar para ir cuidar de mulheres que fossem dar à luz com ela. Parava na casa de Nakht-ra e pedia a Herya ou a Ra-nefer que me fosse permitido acompanhá-la. As senhoras diferiam o pedido para mim, mas eu declinava sempre. Eu não tinha qualquer desejo de me afastar de Ra-mose, nem tinha qualquer desejo de ver o mundo. Não tinha dado um passo para fora dos terrenos desde que chegara e, à medida que os meses se transformaram em anos, comecei a ter medo da própria idéia. Estava certa de que me perderia, ou pior: de que seria descoberta, de uma forma qualquer. Imaginei que alguém reconheceria o pecado da minha família na minha cara e que eu seria despedaçada no próprio lugar. O meu filho descobriria a verdade acerca da mãe e dos irmãos dela, seus tios. Seria exilado da vida boa que parecia destinado a herdar e amaldiçoaria a minha memória.

Eu tinha vergonha destes medos secretos, que me fizeram virar as costas às lições que me tinham sido ensinadas por Raquele Inna e, por conseguinte, à memória delas. A minha falta deutilidade aprisionava-me, mas mesmo assim não conseguia fazer o que sabia que devia fazer. Meryt nunca desistia. Por vezes, se um parto corria mal, ela voltava no fim, mesmo a horas tardias, acordando-me na minha pequena cama na barraca do jardim, para me contar a história e para me perguntar como é que poderia ter feito melhor as coisas. A maior parte das vezes, conseguia assegurá-la de que tinha feito o melhor que qualquer pessoa conseguia fazer, e ficávamos as duas sentadas em silêncio. Mas, às vezes, ouvia uma história que me fazia doer o coração. Uma vez, quando uma mulher morreu subitamente durante o parto, Meryt não pensou em pegar numa faca para tentar libertar o bebê que estava no ventre, pelo que ambos pereceram. Não escondi o meu desalento suficientemente bem, e Meryt leu-o na minha cara.

- Diz-me, então - exigiu ela, agarrando-me pelos ombros. - Não torças a boca, quando podias ter salvo o bebê. Ensina-me, pelo menos, para que eu possa tentar.

Envergonhada por causa das lágrimas de Meryt, comecei a falar dos métodos de Inna, do modo como ela usava a faca, dos truques de manipulação dela. Tentei explicar o uso que ela fazia das ervas, mas faltavam-me os nomes egípcios para as plantas e raízes. Por isso, Meryt trouxe o estojo de ervas dela, e começamos a traduzir. Eu descrevi o uso que a minha mãe fazia da urtiga, do funcho e dos coentros, e ela vasculhou os mercados, à procura de folhas e sementes que eu não via desde a infância.

Meryt trouxe-me amostras de cada flor e de cada caule que eram vendidos no cais. Alguns deles eram-me familiares, mas outros cheiravam mal, especialmente as cocções locais, feitas à base de coisas mortas: pedaços de animais secos, pedras e conchas esmagadas, e excrementos de todos os gêneros. Os curandeiros egípcios aplicavam o esterco de cavalos-marinhos e de crocodilos e a urina de cavalos e de crianças a várias partes do corpo, em diferentes estações. Havia alturas em que as mais odiosas preparações pareciam ajudar, mas eu ficava sempre espantada com o fato de um povo tão preocupado com a limpeza do corpo aceitar remédios tão malcheirosos.

Embora o conhecimento egípcio das ervas fosse profundo e antigo, fiquei contente por conhecer métodos e plantas dos quais eles sabiam pouco. Meryt encontrou sementes de cominhos no mercado e ficou surpreendida ao saber que estas ajudavam à cura de feridas. Comprou hissope e menta, com as raízes ainda intactas, e elas prosperaram no solo negro e pungente do Egito. Ninguém mais sofreu de azia, na casa de Nakht-ra. E, assim, Meryt tornou-se famosa pelas “suas” curas ervanárias exóticas e eu tive a satisfação de saber que a sabedoria das minhas mães estava a ter um bom uso.

A minha vida calma acabou durante o quarto ano após Ra-mose ter saído da casa de Nakht-ra, quando a filha de Ruddedit foi pôr-se em cima dos tijolos.

O nome dela era Hatnuf e estava num mau caminho. O seu primeiro bebê nascera morto - de tamanho normal e perfeito em cada um dos seus traços, mas sem vida. Depois de anos a abortar, uma outra criança tinha finalmente criado raiz, mas ela antevia este parto com terror. Após um dia inteiro de trabalho de parto, as dores não tinham aberto caminho ao bebê. Meryt estava a assistir ao parto e a dona da casa tinha mandado chamar um físico-sacerdote, que se pôs a cantar orações, encheu o quarto de amuletos pendurados e pôs uma pilha de ervas e de esterco de cabra a fumegar, enquanto Hatnuf se acocorava sobre esta. Mas o cheiro fez a mãe desmaiar e, ao cair, a rapariga cortou a testa e sangrou. Depois disso, Ruddedit baniu o médico do quarto e fê-lo esperar do lado de fora da porta da frente, onde ele recitava encantamentos com o zumbido nasal de um sacerdote. O dia fez-se noite, mais uma vez, e a noite começou a clarear numa outra alvorada e, mesmo assim, nem as dores aliviavam nem o bebê se mexia. Hatnuf, filha única da senhora, estava quase morta de medo e de dor, quando Meryt sugeriu que eu fosse chamada.

Dessa vez, não era uma questão de me perguntarem se queria ir. Meryt apareceu à porta da minha barraca de jardim com Ruddedit em pé, em frente da luz da alvorada, por trás dela. O cansaço quase não diminuía a beleza, numa cara que já não era nova.

- Den-ner disse ela, com o sotaque do Egito -, tens de vir e fazer o que puderes pela minha filha. Não nos resta experimentar nada. O cheiro de Anúbis já está na câmara de parto. Traz o teu estojo e segue-me. Meryt contou-me a história rapidamente, e eu agarrei numas quantas ervas que tinha posto a secar nas vigas da minha barraca. A senhora ia quase a correr. Mal tive tempo de perceber que estava fora do jardim. Passamos à frente da casa de Nakht-ra, e lembrei-me do dia em que a tinha visto pela primeira vez, há uma vida inteira atrás. A luz do Sol bateu nos mastros de bandeira com ponta de ouro do grande templo, onde as bandeiras pendiam sem vida, na quietude da alvorada. A casa de Ruddedit era logo do outro lado do templo, por isso não nos levou tempo nenhum a chegar à antecâmara onde Hatnuf estava deitada no chão a lamentar-se, cercada pelas criadas da casa, que estavam quase tão exaustas quanto a mãe que estava em trabalho de parto. A morte assolava o quarto. Vi-a nas sombras debaixo da estátua de Bes, amigável e grotesco guardião das crianças, que parecia sorrir comprometido à sua incapacidade.

Ruddedit apresentou-me à filha, que olhou para cima, para mim, com olhos vazios, mas que fez o que lhe pedi para fazer. Ela pôs-se de lado, para que eu pudesse enfiar uma mão oleada até ao ventre dela, mas não senti sinal da cabeça do bebê. O quarto estava muito silencioso, enquanto as mulheres esperavam para ver o que eu faria, ou o que pediria delas.

A sombra em forma de cão da morte mexeu-se, sentindo o meu desalento. Mas a avidez dele só me fez ficar zangada. Amaldiçoei o latido e a cauda e a própria mãe dele. Fiz isto na minha língua nativa, que soava com dureza aos meus ouvidos, passados tantos anos a ouvir palavras egípcias. Meryt e as outras pensaram que eu estava a dizer um encantamento secreto e murmuraram em sinal de aprovação. Até Hatnuf se mexeu e olhou em volta.

Pedi azeite e um almofariz e misturei as ervas mais fortes que tinha à mão: birthwort e um extrato de cânhamo, sendo que ambas por vezes fazem com que o ventre expulse o seu conteúdo, no inicio da gravidez. Não sabia se iriam fazer efeito e fiquei preocupada com o fato de a combinação poder causar danos, mas não sabia que mais havia de tentar, uma vez que ela estava a morrer. O bebê já estava morto, mas não havia razão para desistir da mãe.

Apliquei a mistura e, pouco depois, a rapariga foi acometida de fortes dores. Fiz com que as mulheres ajudassem Hatnuf a subir outra vez para os tijolos, onde massageei a barriga dela e tentei empurrar o bebê para baixo. As pernas de Hatnuf não a aguentavam e, pouco depois, Meryt teve que tomar o lugar de Ruddedit por trás e Hatnuf, de onde lhe sussurrava palavras de encorajamento, enquanto eu metia a mão dentro dela outra vez, para apalpar a cabeça do bebê, que agora estava perto da porta.

A pobre mulher, acometida de dores imparáveis e intoleráveis, revirou os olhos e caiu nos braços de Meryt, sem sentidos, incapaz de fazer força.

Já era completamente de dia, naquele momento, mas a sombra no quarto não deixava os raios do Sol penetrar a escuridão. As minhas faces estavam raiadas de lágrimas. Eu não sabia que fazer a seguir. Inna tinha contado uma vez uma história acerca de ter libertado um bebê do ventre da sua mãe morta, mas esta mãe não estava morta. Eu não possuía mais nenhum truque, não tinha ervas.

E então lembrei-me da canção com que Inna tanto se deliciara, a canção que ela aprendera nos montes sobranceiros a Siquém.

“Não temas,” cantei eu, recordando facilmente a melodia, indo ao fundo buscar as palavras.

Não temas, o momento está a chegar

Não temas, os teus ossos São fortes

Não temas, a ajuda está por perto

Não temas, Gula está perto

Não temas, o bebê está à porta

Não temas, ele viverá para te honrar

Não temas, as mãos da parteira são capazes

Não temas, a terra está por baixo de ti

Não temas, temos água e sal

Não temas, mãezinha

Não temas, mãe de todos nós.

Meryt juntou-se a mim, a cantar as palavras “Não temas”, sentindo o poder dos sons, sem saber o que é que estava a dizer à terceira vez, todas as mulheres estavam a cantar “Não temas”, e Hatnuf recomeçou a respirar profundamente.

O bebê nasceu pouco depois e, de fato, estava morto. Hatnuf virou a cara para a parede e fechou os olhos, só desejando juntar-se a ele. Mas quando Meryt começou a encher o pobre e ferido ventre dela com linho fervido, Hatnuf gritou outra vez, com uma voz de mãe em trabalho de parto.

- Há outra criança - disse Meryt. Vem Den-ner - disse ela. - Apanha o gêmeo.

Com mais um bocado de força, apenas, Hatnuf deu à luz um bebê completamente diferente do irmão. Onde o primeiro era gordo e perfeito e não tinha vida, este era magricela, engelhado e gritava com pulmões de touro.

Meryt riu-se, com o som, e o quarto irrompeu em estrépito e ruidoso divertimento e risinhos de alivio e de alegria. O bebê ensanguentado, por lavar, sujo, foi passado de mão em mão, beijado e abençoado por todas as mulheres que ali estavam. Ruddedit caiu de joelhos e riu e chorou com o seu neto nos braços. Mas Hatnuf não nos ouviu. O pequenito chegou numa torrente de sangue que não cessava. Nenhuma quantidade de enchimento estancava o fluxo: momentos depois do nascimento do seu filho, Hatnuf morria, com a cabeça no colo da mãe. A cena, no quarto, era terrível: a mãe morta, um bebê morto, um recém-nascido magricela a berrar pelo peito que nunca lhe daria de comer. Ruddedit ficou sentada, desolada pela morte da sua única filha, avó pela primeira vez. Meryt chorou com a sua senhora e eu esgueirei-me dali para fora, desejando nunca me ter aventurado fora do meu jardim.

 

Depois do horror daquela cena, pensei que seria proibida de entrar em qualquer outra câmara de parto. Mas, da maneira como Meryt contava a história, eu era a única responsável por se ter salvo a vida da criança sobrevivente, que tinha nascido, dizia ela, num dia tão odiado por Set, que era um milagre que ele alguma vez tivesse exalado uma única respiração.

Passado pouco tempo, vinham mensageiros das outras casas importantes de Tebas à porta do jardim de Nakht-ra, com ordens para não voltarem a casa sem Den-ner, a parteira. Eram os criados de sacerdotes, de escribas, de outros a quem não se podia dizer que não. Eu só consentia se Meryt me acompanhasse, mas, uma vez que ela concordava sempre, tornamo-nos as parteiras da nossa vizinhança, que compreendia muitas casas boas, onde as senhoras e as suas criadas gozavam de ventres férteis. “Eramos chamadas pelo menos uma vez a cada sete dias, e por cada bebê saudável éramos recompensadas com jóias, amuletos, bom linho ou jarros de azeite. Meryt e eu dividíamos estes produtos e, embora eu oferecesse a minha parte a Ra-nefer, ela insistia em que eu ficasse com eles.

Bastou um ano destas lides para atravancar a minha barraca com uma coleção de objetos que eu não usava nem me faziam gosto. Meryt olhou em volta, um dia, e declarou que eu precisava de uma caixa de vime para colocar os meus pertences. Uma vez que eu era proprietária de coisas mais do que suficientes para fazer trocas, Meryt selecionou um dia auspicioso para irmos ao mercado.

Por essa altura, eu tinha saído para assistir a muitos partos, mas, mesmo assim, estava aterrorizada com esta aventura no mundo maior. Meryt sabia que eu tinha medo, pegou-me na mão, quando saímos do jardim, palrando o caminho todo, para me impedir de cismar nos meus medos. Agarrei-me a ela como um bebê com medo de perder a sua mãe, mas, passado algum tempo, encontrei coragem para observar a azáfama do cais de Tebas. A colheita ainda estava longe e a maior parte dos lavradores pouco tinha a fazer senão esperar pelo amadurecimento, pelo que as bancas estavam entupidas de gente do campo, sem nada de especial para mercadejar, para além de tempo. Meryt trocou um colar de contas de uma das mães dela por um bocado de bolo doce e nós fomos mordiscando enquanto vagueávamos, de braço dado, de banca em banca. Fiquei maravilhada com a quantidade de joalharia ali posta à venda e perguntei-me quem é que poderia comprar tantos pechisbeques.

Vi fazedores de sandálias a fabricar sapatos baratos, feitos por encomenda. Uma fila de homens esperava por um barbeiro em particular, conhecido por ter a melhor coscuvilhice. Desviei os olhos de uma pilha de lanifícios cananitas, que poderiam ter sido tecidos pelas minhas próprias tias. Meryt e eu rimo-nos das travessuras de um macaco que segurava pela trela uma parelha de cães altos e de ar famélico e os fazia implorar por bocados de comida.

Depois de termos absorvido as vistas, a minha amiga disse que era tempo de começarmos a nossa caça, mas o primeiro cesteiro que encontramos não tinha nada suficientemente grande para corresponder às minhas necessidades, pelo que continuamos a andar, passando pelos mercadores de vinho e de azeite, padeiros e vendedores de pássaros vivos. Também vimos muitas coisas bonitas: cerâmica kushita incisa, jarras de bronze martelado, deuses e deusas lares, bancos e cadeiras de três pernas. Os meus olhos recaíram sobre uma bonita caixa com uma cobertura marchetada que floria com um jardim feito de marfim e faiança e madrepérola.

- Ora bem, ali está uma peça digna do túmulo do mestre - disse Meryt, com honesta admiração.

O carpinteiro apareceu por trás do seu trabalho e começou a contar a história da sua feitura: onde é que tinha comprado a madeira de acácia, a dificuldade que tinha tido em aplicar o marfim. Falou refletida e lentamente, como se estivesse a contar uma história, em vez de estar a tentar fazer uma venda. Eu mantive os meus olhos na caixa, enquanto ele falou, ouvindo apenas o calor da voz e olhando fixamente as mãos dele, à medida que traçavam o desenho que dera origem ao seu trabalho manual.

Meryt começou a picar o tipo.

- Por quem é que nos tomas, parvo? - perguntou ela. - Pensas que somos senhoras ricas disfarçadas de parteiras? Quem mais, se não um homem rico, poderia comprar uma coisa tão boa quanto esta? Quem é que poderia reclamar ter feito tal obra de arte, se não o construtor do túmulo do próprio rei? Estás a gozar comigo, homenzinho - disse ela. Ele riu-se das palavras dela, e respondeu:

- Se pensas que eu sou pequenino, deves vir de uma terra de gigantes, irmã. Eu sou Benia - apresentou-se ele. - E olha que vais ficar surpreendida com as pechinchas que estão disponíveis na minha banca. Tudo depende do comprador, minha querida - picou ele de volta. - As mulheres bonitas conseguem sempre o que querem. Face àquilo, Meryt uivou de riso e deu-me uma cotovelada nas costelas, mas eu não disse nada, porque sabia que as palavras dele tinham sido dirigidas a mim. Um instante mais tarde, também Meryt percebeu que o carpinteiro tinha estado a falar para mim e, muito embora eu não tivesse dito uma palavra, o som da voz dele e a suavidade das suas palavras tinham tido efeito em mim.

Os meus dedos, quase de motu proprio, seguiram o padrão de uma folha de um branco leitoso, que estava embutida na canxa.- Isto vem do coração de uma criatura do mar, que vive lá longe, no Norte - disse Benia, apontando para outra parte do desenho.

Reparei no tamanho das mãos dele. Os dedos eram grossos como os ramos de uma jovem árvore de fruto, e ainda mais longos do que as enormes palmas das mãos dele, que o trabalho árduo tinha roído em montes e vales de músculos. Apanhou-me a olhar fixamente e retirou a mão, como que envergonhado.

- Quando eu nasci, a minha mãe olhou para mim e gritou, quando as viu- disse Benia. - Elas já eram demasiado grandes para o meu corpo, mesmo nessa altura. “Um escultor”, disse ela ao meu pai, que me pôs de aprendiz com o melhor cortador de pedra. Mas eu não tinha qualquer talento para pedra. O alabastro rachava, só de eu olhar para ele, e mesmo o granito não permitia que eu me aproximasse. Só a madeira compreendia as minhas mãos. Flexível, e quente, e viva, a madeira fala comigo e diz-me onde devo cortar, como a devo moldar. Adoro o meu trabalho, senhora.

Olhou-me nos olhos, que eu tinha levantado para a cara dele, enquanto ele falava.

Meryt viu o olhar a passar entre nós e intrometeu-se no silêncio, como uma peixeira astuta.

- Esta é Den-ner, mercador, uma viúva, e a melhor parteira de Tebas. Vimos ao mercado à procura de um simples cesto, para guardar o pagamento das mães que lhe estão gratas.

- Mas um cesto não é suficiente para uma mestra - disse Benia, voltando-se para regatear com Meryt. - Deixa-me ver o que é que trouxeste para trocar, Mãe, pois eu estive aqui sentado todo o dia sem sorte.

Meryt desembrulhou a nossa coleção de bugigangas: uma lousa esculpida para preparar malaquite em sombra verde para os olhos, um grande escaravelho de cornalina, demasiado vermelho para a minha barriga, e um belíssimo toucado feito de contas, presente de uma bela concubina que deu à luz um bom rapazinho que deu diretamente à sua senhora, sem sequer olhar para o bebê. (Meryt e eu vimos muitas coisas estranhas nas salas de parto de Tebas.)

Benia fingiu estar interessado no escaravelho.

- Para a tua esposa? - perguntou Meryt, sem qualquer pretensão de subtileza.

- Não tenho esposa - respondeu Benia simplesmente. - Vivo em casa da minha irmã há já muitos anos, mas o marido dela está impaciente com o meu lugar à mesa dele. Em breve deixarei a cidade, para viver entre os homens do Vale dos Reis - disse ele lentamente, falando para mim, mais uma vez.

Com isto, Meryt ficou excitada em seu próprio proveito e contou-lhe tudo sobre os filhos dela, que eram padeiros, que tinham sido empregados para os trabalhadores de lá.

- Quando for para lá, irei procurá-los - prometeu Benia, acrescentando: -Ser-me-á dada a minha própria casa, lá, tal como é devido a um mestre artesão. Quatro quartos só para mim - disse ele, como se já ouvisse a própria voz a ecoar nas câmaras vazias.

- Que desperdício, carpinteiro - respondeu Meryt. Enquanto os dois trocavam estas confidências em minha intenção, os meus dedos seguiam as margens do lago que Benia tinha talhado na cobertura da caixa. Antes que eu me pudesse afastar, ele cobriu a minha mão com a sua própria.

Tive medo de olhar para a cara dele. Talvez ele estivesse a olhar de soslaio. Talvez ele pensasse que, por fazer esta transação absurda -trocando uma bugiganga bonita por uma obra de mestre -, eu lhe ficasse a dever o uso do meu corpo. Mas quando Meryt me deu uma cotovelada nas costelas, para que eu respondesse, só vi bondade na cara do carpinteiro.

- Traz a caixa à porta do jardim, na casa de Nakht-ra, escriba dos sacerdotes de Amon-Ra - disse Meryt. - Trá-la amanhã. - Ela passou-lhe o escaravelho.

- Amanhã durante a manhã - disse ele. E nós fomo-nos embora.- Bem, aquilo é que foi uma boa transação, rapariga -disse Meryt. - E aquele escaravelho foi uma peça de sorte, para te comprar uma caixa de tesouro e um marido também.

Abanei a cabeça à minha amiga e sorri como se ela estivesse a dizer disparates, mas não disse que não. Não disse nada. Estava embaraçada e excitada. Senti a face corada e um aperto entre as pernas que não me era familiar.

E, no entanto, não percebi inteiramente o meu coração, pois isto não era nada como o que tinha sentido da primeira vez que vi Shalem. Nenhum vento quente soprou através de Benia para dentro de mim. Este sentimento era muito mais frio e calmo. Mesmo assim, o meu coração batia mais depressa e eu sabia que os meus olhos estavam mais brilhantes do que anteriormente.

Benia e eu tínhamos trocado umas poucas palavras e apenas roçáramos os dedos um do outro. E no entanto sentia-me ligada àquele desconhecido. Não tinha dúvidas de que ele sentia o mesmo.

Durante todo o caminho para casa, o meu passo foi cadenciado pelo ritmo do meu espanto - “Como é que isto pode ser? Como é que isto pode ser?”

Quando nos aproximamos da casa de Nakht-ra, Meryt quebrou um silêncio pouco costumeiro e riu, dizendo:

- Ainda vou ajudar os teus bebês a nascer. Pelas minhas contas, ainda não estás há trinta anos neste mundo. Vou ter netos através de ti, filha do meu coração - e deu-me um beijo de despedida. Mas, tendo entrado no jardim, todos os pensamentos sobre Benia foram banidos. A casa estava num alvoroço. Ra-mose tinha voltado!

Ele tinha chegado pouco depois de eu ter saído. Os criados tinham ido à minha procura e, uma vez que eu nunca deixava o local sem informar Ra-nefer primeiro, ela tinha ficado alarmada, até tinha enviado palavra à sua amiga Ruddedit. Quando a minha sogra me viu entrar no pátio com um bolo meio comido trazido do mercado, ficou zangada e deu uma volta nos calcanhares sem dizer palavra. Foi a cozinheira que me disse para me apressar e ir ver o meu filho, que tinha vindo para casa recuperar.

- Recuperar? - perguntei-lhe, subitamente gelada de medo. - Ele esteve doente?

- Oh, não - disse ela com um sorriso aberto. -Veio para casa para sarar da circuncisão e para celebrar a sua entrada na idade adulta em grande estilo. Vou ter de trabalhar da alvorada até à meia-noite, durante toda esta semana - disse ela, e deu-me um beliscão na cara. Não ouvi nada, depois da palavra “circuncisão”. A minha cabeça zumbia e o meu coração batia a toda a força, quando entrei de rompante na grande sala onde Ra-mose estava deitado numa liteira, perto da cadeira de Nakht-ra. Olhou para mim e sorriu com leveza, sem um traço de dor na cara, que era, agora, uma cara completamente diferente. Já tinham passado quase cinco anos desde que ele me deixara, o rapazinho já era um jovem. O cabelo dele, que já não estava rapado, tinha crescido grosso e negro. Os braços mostravam músculo, as pernas já não eram suavemente sedosas, e o peito sugeria a beleza do pai.- Mãe - disse o jovem que era meu filho. - Oh, Mãe, estás com bom ar. Ainda melhor do que aquele de que me lembrava. Ele estava apenas a ser educado. Era um príncipe do Egito a dirigir-se à criada que o tinha dado à luz. Justamente o que eu temia: éramos estranhos um para o outro, as nossas vidas nunca nos permitiriam passar daí. Fez um gesto para que eu me aproximasse e me sentasse ao lado dele e Nakht-ra fez um sorriso de aprovação.

Perguntei-lhe se ele sofria, e ele afastou a questão.

- Não tenho dores - disse ele. - Eles dão-nos vinho com um bocadinho de sumo de papoula, antes de desembainharem a faca, e depois, também. Mas tudo isso foi há uma semana, já estou bastante recuperado. Agora é tempo de celebrar, e estou em casa para o banquete. - E logo, variando: -Mas como é que estás, Má? Dizem-me que agora és uma parteira famosa, a única em quem as grandes senhoras de Tebas confiam, quando são chamadas ao leito do parto.

- Sirvo como posso - disse eu calmamente, e pus a pergunta dele de lado, pois o que é que uma mulher pode dizer a um homem acerca de bebês e de sangue? - Mas tu, filho, conta-me o que é que aprendeste. Fala-me dos teus anos na escola, das tuas amizades, das honrarias que ganhaste, pois o teu tio diz que eras o melhor entre os teus companheiros. Uma nuvem passou pela cara de Ra-mose, e eu reconheci o rapazinho que rebentava em lágrimas, quando encontrava um pato- bebê morto, no jardim. Mas o meu filho não falou do escárnio dos seus companheiros de carteira, nem me contou os gritos de gozo que o seguiam para todo o lado, durante o primeiro ano dos estudos dele: “Onde é que está o teu pai? Tu não tens pai.”

Ra-mose não falou da sua solidão, que cresceu à medida que ele foi provando ser o melhor da sua turma, e que o professor o notou e o elegeu favorito. Só falou de Kar, seu professor, que ele amava e a quem obedecia em todas as coisas, e que o amava como um tonto.

Ao contrário de outros mestres, ele nunca batia nos seus alunos nem ralhava com eles por causa dos erros cometidos.- Ele é o homem mais nobre que eu jamais conheci, com a exceção do tio - disse Ra-mose, tomando a mão de Nakht-ra na sua. - Estou em casa não só para celebrar a minha maioridade, mas também para celebrar o grande presente que Kar me deu. O meu professor pede-me que eu o acompanhe ao Sul, a Kush, onde o mercado de ébano e marfim foi reavivado e onde o vizir foi apanhado a desviar dinheiro do rei. O próprio rei pediu a Kar que fosse e supervisionasse a instalação de um novo supervisor, e que fizesse um inventário e relatasse o que lá visse. Eu irei, para dar assistência ao meu professor e para o observar, quando ele se sentar como juiz, e as pessoas trouxerem as suas disputas perante ele. - Ra-mose fez uma pausa, para que eu ouvisse a importância das palavras seguintes. - Foram-me dadas instruções no sentido de aprender os deveres de um vizir. Depois desta viagem, a minha educação ficará completada e eu receberei a minha própria comissão e começarei a ganhar honras para a minha família. O meu tio está satisfeito, mãe. Tu também estás satisfeita?

A pergunta era sincera, ecoando com o anseio de um rapaz que pede à mãe que se pronuncie acerca dos feitos dele.

- Estou satisfeita, meu filho. És um bom homem que honrará esta casa. Desejo-te felicidades, uma boa mulher, e muitos filhos. Estou orgulhosa de ti, e orgulhosa de ser tua mãe.

Era tudo o que eu podia dizer. Tal como ele não me falou da dor que tinha sofrido na escola, eu não lhe falei do quanto sentia falta dele, ou de quão vazio o meu coração tinha estado, ou de como ele tinha levado a luz da minha vida, ao partir. Olhei-o nos olhos e ele correspondeu ao meu olhar com afeto. Deu-me uma palmadinha na mão e levantou-a até aos lábios. O meu coração batia ao ritmo dos tambores gêmeos da felicidade e da solidão.

Duas noites mais tarde, observei Ra-mose do outro lado da sala, durante a festa dada em honra dele. Ficou sentado ao lado de Nakht-ra e comeu como um rapaz a quem não tivessem dado de comer durante uma semana. Bebeu do vinho, e os olhos dele brilharam de excitação. Eu também bebi vinho, e olhei fixamente para o meu filho, interrogando-me sobre a vida que ele iria viver, surpreendida com o fato de ele já ser um homem, de ser poucos anos mais novo do que o pai dele era quando o vi pela primeira vez, na casa do pai deste.

No limiar da idade adulta, Ra-mose era meia cabeça mais alto do que Nakht-ra, tinha olhos límpidos, era aprumado como uma árvore. Ra-nefer e eu sentamo-nos lado a lado, pela primeira vez em vários anos, e admiramos o homem-criança que nos tinha dado a ambas uma razão para viver. A minha mão roçou a dela, e ela não retirou a mão ao sentir o meu toque, mas segurou os meus dedos nos dela, e, pelo menos por um momento, partilhamos o nosso amor pelo nosso filho e, através dele, pelo não nomeado filho e marido de Siquém.

Uma bonita empregada de mesa levantou os olhos para ele, e ele namoriscou de volta. Eu ri-me, ao pensar no bebê cujo rabo eu tinha lavado a interessar-se, agora, por uma mulher. A minha cara doía de sorrir e, no entanto, os meus suspiros eram tão altos, que Ra-nefer se virou, uma vez, para perguntar se eu tinha alguma dor.

Foi o melhor banquete a que eu jamais assistira, com grande parte da Tebas nobre a comparecer. As flores brilhavam à luz de cem lâmpadas. O ar estava carregado do cheiro a comidas ricas, lótus fresco, incenso e perfume. O riso, alimentado por seis tipos de cerveja e três variedades de vinho, ressoou pela sala, as dançarinas saltavam e giravam até brilharem de suor e ofegarem, no chão.

Fora contratada uma segunda trupe de músicos, para complementar os executantes locais. Aquela companhia ia velejando pelo rio, parando em templos e em casas nobres, para tocar, mas, ao contrário de outras, recusavam-se a tocar com dançarinas no chão, insistindo em que o público prestasse atenção às suas canções, que diziam ter qualidades mágicas. A misteriosa líder era uma senhora velada. Cega, tal como muitas mestras da harpa, ela era senhora do sistrwn, o sino-tambor. De acordo com os rumores, a cantora tinha escapado das mandíbulas de Anúbis, ganhando uma segunda vida, mas ele arrancara-lhe a cara à dentada, razão pela qual ela usava um véu. A história era contada com um piscar de olho e uma cotovelada, pois os egípcios sabiam usar uma história suculenta para atrair mais clientes. Mesmo assim, quando a cantora cega foi conduzida para dentro da sala, caiu um silêncio expectante e a multidão ébria sentou-se.

Estava vestida de branco, coberta da cabeça aos pés num material tipo gaze, que flutuava em camadas, até ao chão. Ra-nefer inclinou-se na minha direção:

- Parece uma nuvem de fumo.

Instalada num banco, libertou as mãos das vestes, para pegar no instrumento, e o silêncio libertou um suave arfar de surpresa, pois as mãos dela eram tão brancas como as vestes que usava, de uma palidez espantosa, como se tivessem sido marcadas por um terrível fogo. Ela abanou o sistrum quatro vezes, produzindo quatro sons inteiramente diferentes que fizeram os ouvintes ficar sóbrios e calarem-se, para prestarem atenção.

Primeiro, o grupo tocou uma canção leve, de flautas e tambores, depois, uma trombeta solitária produziu uma melodia chorosa, que fez com que as senhoras suspirassem, e com que os homens afagassem o queixo. Uma velha canção infantil fez com que toda a gente na sala sorrisse, com a expressão descuidada que em tempos tinham usado, enquanto rapazes e raparigas.

Havia, de fato, magia nesta música, que podia transformar a mais negra tristeza na mais luminosa alegria. Os convidados levantaram bem as mãos na direção dos executantes, para baterem palmas e erguerem as taças em sinal de gratidão para com Nakht-ra, pelo ótimo entretenimento.

Silenciados os aplausos, a tocadora de sistrum começou a cantar, acompanhada pelo seu próprio instrumento e por um único tambor. Era uma canção longa, com muitos refrões. A história que contava não era extraordinária: uma história de amor encontrado e perdido, a mais velha história do mundo. A única história.

No início da canção, o homem correspondia ao amor da rapariga e eles deleitavam-se um no outro. Mas, então, a história dava uma reviravolta triste e o amante rejeitava a sua senhora, deixando-a sozinha. Ela chorava e rezava a Hathor, a Senhora Dourada, mas sem qualquer resultado. O amado não a aceitava de volta. A tristeza da rapariga era infindável e insuportável. As mulheres choravam abertamente, a todas recordando a juventude. Os homens limpavam os olhos, sem vergonha, lembrando a primeira paixão. Até os mais novos suspiravam, sentindo agonia de perdas vindouras.

Acabada a canção, fez-se um longo silêncio. A harpista escolheu uma ária calma, mas a conversa parou. Não se ergueram mais taças. Ra-nefer levantou-se e abandonou a sala sem cerimônia. Um por um, o resto da companhia retirou-se. A festa acabou silenciosamente, a sala esvaziou-se ao som de suspiros e de agradecimentos murmurados. Os músicos guardaram os instrumentos e levaram a sua líder. Alguns dos criados dormiam no chão, demasiado exaustos para iniciarem as limpezas. A casa estava completamente silenciosa.

Ainda faltavam umas horas para a alvorada quando me pus a caminho do lugar onde os músicos dormiam. A mulher velada estava encostada a uma parede, sem se mexer. Pensei que ela também estivesse a dormir, mas ela virou-se, com as mãos esticadas, para descobrir quem é que se aproximava. Eu pus as minhas mãos nas dela, que eram pequenas e frias.- Werenro - disse eu.

O som do meu sotaque assustou-a.

- Canaã - disse ela, num sussurro amargo. Era esse o meu nome, no tormento.

- Eu era uma criança - disse eu. - Tu eras a mensageira de Rebeca, a minha avó. Contaste-nos uma história de que nunca me esqueci. Mas tu foste morta, Werenro. Eu estava lá, com a avó, quando te levaram de volta. Eu vi-as enterrar os teus ossos. Voltaste, realmente, dos mortos? Houve um longo silêncio, e a cabeça dela caiu para a frente, por baixo dos véus.

- Sim - disse ela. E, depois, passado um momento: - Não. Não escapei. A verdade é que estou morta. - Que estranho que e, encontrar um fantasma daquele tempo aqui, numa grande casa, ao pé do rio. - Diz-me- perguntou ela -, também estás morta?

- Talvez esteja - respondi, tremendo.

- Talvez estejas, pois os vivos não fazem essas perguntas, nem conseguem aguentar a dor da verdade sem o consolo da música. Os mortos compreendem. Conheces o rosto da morte? - perguntou ela.- Sim - disse eu, lembrando as sombras em forma de cão que assistem a tantos partos, simultaneamente pacientes e ansiosas.- Ah - disse ela, e, sem aviso, levantou o véu. Os lábios dela não tinham sido tocados, mas o resto da cara estava despedaçado e cheio de cicatrizes. O nariz fora partido e rasgado até ficar aberto, as bochechas tinham caído para dentro e estavam cozidas com cicatrizes profundas, os olhos eram pedras leitosas. Parecia impossível que alguém pudesse sobreviver àquela destruição. - Eu estava de saída de Tiro com um frasco de tinta púrpura para ela, para a avó. Era o momento da alvorada, e o céu envergonhava todas as tendas de Mamre. Estava eu a olhar para cima, quando eles me apanharam. Eram três, homens cananitas como quaisquer outros, porcos e estúpidos. Não me disseram nada a mim, nem uns aos outros. Pegaram na minha bolsa e no meu cesto e rasgaram-nos e, depois, viraram-se contra mim.

Werenro começou a balançar-se, para trás e para a frente, e a voz dela ficou inexpressiva.

- O primeiro empurrou-me para o chão mesmo no meio da estrada. O segundo rasgou-me as roupas. O terceiro levantou a veste e caiu em cima de mim. Esvaziou-se para dentro de mim, que nunca me tinha deitado com um homem. E, depois, cuspiu-me na cara. O segundo tomou a sua vez, mas não conseguiu fazer o seu ato e, portanto, começou a bater-me, amaldiçoando-me por lhe ter causado o seu problema. Partiu-me o nariz e vários dentes, e só quando me viu a sangrar é que ficou suficientemente excitado para fazer o que queria. O terceiro varou-me e rasgou-me por trás. E riu. - Ela parou de se baloiçar e sentou-se direita, ainda a ouvir aquele riso. - Eu fiquei deitada de cara para baixo, na estrada, enquanto eles os três ficaram de pé à minha beira. Pensei que fossem matar-me e assim acabassem com o meu tormento. Mas não. “Porque é que não gritas?”, gritou o que tinha rido. “Não tens língua? Ou talvez não sejas mulher coisa nenhuma, pois não és da cor das mulheres. És da cor da merda de um cão doente. Vou-te ouvir a gritar, já veremos se és mulher ou fantasma.” E foi então que eles me fizeram o que podes ver. Não preciso de falar disso. - Werenro baixou o véu e começou a balançar-se outra vez. - Ao primeiro som de passadas, deixaram-me como morta. O cão de um pastor encontrou-me onde eu estava estendida, seguido por um rapaz, que gritou, quando me viu. Ouvi-o vomitar e pensei que ele iria fugir, mas em vez disso cobriu-me com as roupas dele e trouxe a mãe. Ela aplicou-me cataplasmas na cara e unguentos no corpo e afagou-me as mãos com pena, e manteve-me viva, e nunca me pediu para explicar nada. Quando se chegou à conclusão que eu sobreviveria, ela perguntou-me se deveria mandar uma mensagem para Mamre, pois tinha reconhecido os pedaços das minhas roupas. Mas eu disse que não. Estava farta de ser escrava, estava farta da arrogância de Rebeca, e estava farta de Canaã. O meu único desejo era vir para casa, sentir o cheiro do rio e o perfume do lótus, de manhã. Disse-lhe que desejava estar morta em Mamre e ela fez com que isso acontecesse. Cortou punhados do meu cabelo e embrulhou-o, com as minhas roupas e alguns ossos de ovelha, no meu saco. Mandou o filho à cidade, onde ele encontrou um mercador que se dirigia a Mamre, que levou à avó a notícia da minha morte. A mulher cananita deu-me um véu e uma bengala e levou-me a Tiro. Procurou uma caravana que se dirigisse à terra do grande rio. Eles aceitaram-me, em troca de um animal do rebanho dela e da promessa de que eu os distrairia com canções e histórias. Os mercadores trouxeram-me até On, onde me veio parar às mãos um sistrum, e agora encontro-me aqui, contigo, com Canaã na minha boca outra vez. - Dito isto, ela voltou a cabeça para longe de mim, e cuspiu. Uma cobra deslizou do lugar onde o cuspo dela caiu e eu estremeci, na rajada fria da ira de Werenro. - Seria capaz de amaldiçoar a nação inteira, com a exceção da bondade da mulher cananita. Os meus olhos foram apagados, pelo que nunca vi a cara dela, mas imagino-a a brilhar com luz e beleza. De fato, quando penso nela, vejo a cara da lua cheia. Talvez ela estivesse a fazer penitência por qualquer mal que tivesse cometido. Ou talvez tivesse sido abandonada, um dia, e alguém a tivesse ajudado a escapar. Ou talvez ninguém a tivesse ajudado, quando ela estava necessitada. Não me perguntou nada, nem sequer o meu nome. Salvou-me, sem outra razão além da bondade do seu coração. O nome dela era a bondade em pessoa: Tamar, o fruto que sustenta - disse Werenro, e começou a baloiçar-se outra vez. - Não sou infeliz. Nem estou satisfeita. Não há nada no meu coração. Não gosto de ninguém, nem de coisa alguma. Sonho com cães de dentes arreganhados. Estou morta. Não é assim tão mau, estar morta.

Os suspiros e o ressonar dos músicos adormecidos, interromperam as palavras dela.

- Boas almas - disse ela dos seus companheiros, com ternura. - Não pedimos nada uns aos outros. Mas tu - perguntou-me Werenro -, como é que vieste a falar a língua do rio?

Sem hesitação, contei-lhe tudo. Encostei a cabeça para trás, fechei os olhos e dei voz à minha vida. Nunca em toda a minha vida tinha falado tanto e durante tanto tempo e, no entanto, as palavras vieram sem esforço, como se fosse coisa que eu tivesse feito muitas vezes, anteriormente.

Surpreendi-me a mim própria, ao lembrar-me de Tabea, ao lembrar-me de Ruti, ao lembrar-me da minha maioridade na tenda vermelha. Falei de Shalem e do nosso modo apaixonado de fazer amor, sem corar. Falei da nossa traição e do assassínio dele. Contei-lhe do acordo de Ra-nefer comigo e do carinho que Meryt tinha por mim, e falei do meu filho com orgulho e com amor.

Não foi difícil. De fato, foi como se eu tivesse estado sedenta e houvesse água fria na minha boca. Disse “Shalem”, e a minha respiração estava limpa, após tantos anos de fedor

e amargura. Chamei ao meu filho “Bar-Shalem” e um velho aperto no meu peito desfez-se.

Recitei os nomes das minhas mães e soube, com toda a certeza, que elas estavam mortas. Encostei a cara ao ombro de Werenro e ensopei o vestido dela em memória de Lea e Raquel, de Zilpa e Bilhah.

Durante toda a minha narração, Werenro assentiu com a cabeça, e suspirou, e segurou-me na mão. Quando eu, finalmente, fiquei em silêncio, ela disse:

- Não estás morta. - A voz dela traiu um pouco de tristeza. - Tu não és como eu. A tua dor brilha no interior do teu coração. A chama do amor é forte. A tua história não está acabada, Dina - disse ela, com o sotaque das minhas mães. - Não “De-nner”, a parteira estrangeira, mas “Dina,” a amada filha de quatro mães.

Werenro afagou-me a cabeça, que descansava no ombro dela, enquanto a sala começou a clarear, com os primeiros indícios da alvorada. Eu adormeci encostada ali, mas, quando acordei, ela tinha ido embora. Ra-mose foi embora uma semana mais tarde, na companhia de Kar, que chegou de Mênfis, a caminho de Kush. Ra-mose trouxe o venerável mestre ao jardim, para nos apresentar, mas ele mal reconheceu a presença da mãe de baixa extração do seu aluno favorito. Depois de eles partirem, perguntei-me, sem pena, se o velhote sobreviveria a tão longa viagem.