A Tenda Vermelha

Anita Diamant · Capítulo 8 de 18

Páginas do PDF

A Tenda Vermelha

Capítulo 3

 

O meu pai organizou toda a família, os rebanhos e toda a sua casa, para a viagem. Jacob liderava a caravana, segurando um grande cajado de oliveira na mão, flanqueado por Levi e Simeão, que se pavoneavam, todos ufanos. Atrás deles, iam as mulheres e crianças que eram demasiado jovens para cuidarem dos rebanhos, pelo que os pequenos filho e filha de Uzna ficaram perto das pernas da mãe e Zibatu levava a sua bebê numa funda que carregava à cintura. Eu comecei por ir perto de Zilpa, esperando aliviar a tristeza que se tinha colado a ela, mas a mágoa dela acabou por me afugentar para perto da minha mãe e de Bilhah, que estavam absortas a planear as refeições e não me prestavam atenção. Por isso, dirigi-me a Raquel, cujo sorriso não esmaeceu mesmo quando o sol começou a bater-nos em cheio. A trouxa que ia às costas dela era mais do que suficientemente grande para levar os teraphim, e eu tinha a certeza de que era ali que eles estavam escondidos. A José, Tali e Issa mandaram tomar conta dos animais de carga, perto das mulheres, o que os fez amuar e dar pontapés na poeira, e resmungar que já eram suficientemente crescidos para lhes serem confiados trabalhos mais importantes do que tomar conta de um burro calmo e do boi que puxava o carro pesado.

Exatamente atrás de nós e das bestas de carga, Ruben era responsável pelos rebanhos e pelos pastores, que incluíam Zebulon e Dan, Gad e Aser, e os trabalhadores: Nomir, marido de Zibatu. e Zimri, pai das crianças de Uzna. Os quatro cães corriam em volta do perímetro dos rebanhos, com as orelhas coladas às cabeças, enquanto trabalhavam. Só levantavam os olhos castanhos das cabras e das ovelhas quando Jacob se aproximava, e então dirigiam-se ao dono para desfrutarem, por um momento, do toque da mão e da voz dele.

Judá, o nosso guardião da retaguarda, caminhava atrás dos rebanhos, vigiando-os para que nenhum animal se perdesse. Eu tendia a sentir-me sozinha, sem ninguém com quem falar, até porque o meu irmão parecia estar a apreciar a solidão.

Estava espantada com a quantidade de pessoas que éramos e com aquilo que me parecia ser a nossa grande fortuna. José disse-me que éramos um pequeno grupo, fosse qual fosse a medida usada para nos qualificar, uma vez que só tínhamos dois animais de carga para carregar os nossos pertences, mas eu continuei orgulhosa das posses do meu pai, e pensava que a minha mãe se comportava como uma rainha. Tínhamos andado durante muito pouco tempo, quando Levi apontou uma figura à nossa frente, sentada ao lado do caminho. Quando nos aproximamos, Raquel gritou: “Inna!” e correu a frente de nós, para cumprimentar a sua amiga e mestra. A parteira estava vestida para viajar, com um burro carregado de cobertores e de cestos a seu lado. A caravana não parou devido à inesperada presença da mulher solitária. Teria sido inútil fazer parar o rebanho na ausência de água. Em vez disso, Inna aproximou-se de Jacob, conduzindo o seu burro e andando um passo atrás do meu pai. Inna não se dirigiu ao meu pai, mas falou a Raquel para que Jacob pudesse ouvir as palavras dela. A parteira apresentou o seu caso com frases rebuscadas, que pareciam estranhas vindas de uma boca que habitualmente falava nos mais normais e, por vezes, rudes termos.

- Oh, minha amiga - disse Inna -, não suporto ver-te partir. A minha vida seria desoladora na tua ausência, e já estou demasiado velha para arranjar outra aprendiz. Só desejo juntar-me à tua família e estar entre vós pelo resto dos meus dias. Daria ao teu esposo tudo aquilo que possuo, em troca da sua proteção e de um lugar entre as mulheres das suas tendas.

Acompanhar-te-ia como tua serva ou como tua criada, para praticar a minha arte no Sul e aprender o que eles lá tiverem a ensinar. Ministraria à tua família, pousando os tijolos para as mulheres que dela fazem parte, curando as feridas dos homens, oferecendo serviço a Gula, a curandeira, em nome de Jacob.

E depois elogiou o meu pai, a quem chamou sábio, para além de bondoso. Afirmou ser uma criada dele.

Eu fui uma das muitas testemunhas do discurso de Inna. Levi e Simeão ficaram por perto, curiosos por saber o que a parteira queria. Lea e Bilhah tinham apressado o passo, para descobrirem porque é que a sua amiga tinha aparecido entre elas. Até Zilpa acordou e se aproximou. Raquel virou-se para Jacob, com as sobrancelhas a pôr a questão, as mãos juntas perto do peito. O marido sorriu-lhe.- A tua amiga é bem-vinda. Aos meus olhos, será a tua criada. É tua como se fizesse parte do teu dote. Não há mais nada a dizer. Raquel beijou a mão de Jacob e pô-la por um momento sobre o coração dela. Depois, levou Inna e o seu burro lá para trás, para perto dos nossos animais, onde as mulheres podiam falar com mais liberdade.- Irmã! - disse Raquel à parteira. - O que é isto? Inna baixou a voz e começou a contar uma história triste sobre um nascituro deformado - uma cabeça pequenina, membros tortos -, que uma rapariga que ficara grávida no seu primeiro sangue tivera.- Muito jovem - contou Inna, zangada. - Mesmo muito jovem. - O pai era um desconhecido, um homem de cabelos revoltos, com muitos anos, que só usava uma tanga e que trouxera a sua esposa à cabana de Inna. Quando o bebê e a mãe morreram, ele acusou a parteira de lhe ter causado desgraça à custa de feitiços.

Inna, que tinha passado três terríveis dias a trabalhar para salvar a mãe, não conseguiu suster a língua. Exausta e pesarosa, chamou monstro ao homem e acusou-o de ser o pai da rapariga em vez de ser marido dela. E depois cuspiu-lhe na cara.

Enraivecido, o desconhecido agarrou-a pelo pescoço e tê-la-ia morto não fora pelos vizinhos, que tinham sido atraídos pelos gritos e que o apartaram dela. Inna mostrou-nos as nódoas negras no pescoço. O homem exigia ser recompensado pelas suas perdas pelo pai de Inna, mas Inna não tinha pai, nem tinha irmão ou marido. Vivia sozinha desde a morte da mãe.

Tendo mantido a cabana da sua família, não precisava de abrigo, e o ofício de parteira mantinha-a abastecida de cereal e de azeite, e mesmo de lã para mercadejar. Uma vez que não era um fardo para ninguém, ninguém se tinha preocupado com ela. Mas, agora, o desconhecido zangado exigia saber porque é que os habitantes da aldeia toleravam tal “abominação”.

- Uma mulher sozinha é um perigo - gritou ele nas caras dos vizinhos de Inna. - Onde estão os vossos juizes? - disse ele num silvo. - Quem são os vossos anciãos?

Com isto, Inna começou a ficar com medo. O homem mais poderoso da sua aldeia de adobe odiava-a, desde que ela tinha recusado uma oferta de casamento feita em nome do filho tolo dele. Teve medo de que ele incitasse os homens contra ela, e que pudesse mesmo fazê-la escrava.- Idiotas. Todos eles - disse ela, cuspindo no pó. - Os meus pensamentos viraram-se para vós, como refúgio - disse ela, dirigindo-se a todas as mulheres da minha família, que caminhavam por perto, ouvindo cada uma das palavras dela. Raquel sabe que eu sempre quis ver mais lugares do mundo para além destes montes poeirentos. E, uma vez que Jacob trata as esposas dele melhor do que a maioria dos homens, comecei a ver a vossa partida como um presente dos deuses - prosseguiu ela. - E, irmãs, tenho que dizer-vos, estou cansada de comer a minha refeição da noite sozinha. Desejo ver um bebê que eu tenha ajudado a nascer, a crescer até à idade adulta. Desejo celebrar a lua nova entre amigas. Quero ter a certeza de que os meus ossos serão bem plantados após a minha morte. - Olhando em volta para nós, sorriu abertamente. - Por isso aqui estou.

As mulheres sorriram-lhe, felizes por terem uma tal curandeira entre elas. Embora Raquel fosse muito capacitada, Inna era famosa pelas suas mãos de ouro e estimada pelas suas histórias.

Zilpa viu no aparecimento de Inna um bom presságio. A presença da parteira animou-lhe tanto o espírito que, daí a pouco, a minha tia começou a cantar. Não era nada de exaltante, apenas uma lengalenga infantil acerca de uma mosca que incomodava um coelho, que comia o inseto, mas era comido por um cão, que, por sua vez, era comido por um chacal, que era caçado por um leão, que era morto por um gabarola, que era levado por An e Enlil, os deuses do céu, e posto nos céus para aprender uma lição.

Era uma canção simples, que todas as crianças conheciam e que, portanto, também todos os adultos que tinham sido crianças conheciam. Por alturas da última estrofe, todas as minhas mães e as outras mulheres e as crianças destas cantavam. Até os meus irmãos se tinham juntado, com Simeão e Levi a fazerem um concurso daquilo, a verem qual é que conseguia gritar mais alto que o outro. Quando a canção acabou, todos bateram palmas e riram. Era bom estar livre da sombra de Labão. Era bom estar no limiar de uma vida nova.

Foi a primeira vez que eu Ouvi vozes femininas e vozes masculinas a cantar em conjunto, e, durante toda a viagem, as fronteiras entre as vidas dos homens e das mulheres relaxaram. Nós juntamo-nos aos homens no trabalho de dar de beber ao rebanho, eles ajudaram-nos a desempacotar as coisas para a refeição da noite. Nós os ouvimos cantar canções de pastoreio, dirigidas ao céu noturno e cheias de histórias sobre as constelações. Eles ouviam as nossas canções de fiar, que cantávamos enquanto andávamos e trabalhávamos a lá com pequenos fusos. Aplaudíamo-nos uns aos outros e ríamos em conjunto. Era tempo fora da vida. Era como um sonho.

A maior parte das vezes os cantos eram entoados mesmo antes do sono ou de manhã cedo, enquanto ainda estávamos frescos. Pela tarde, toda a gente estava faminta e com os pés doridos. Só passados vários dias as mulheres se habituaram a usar sandálias do amanhecer ao anoitecer - em casa andávamos descalças nas tendas e à volta delas. Inna aliviava as nossas bolhas e as nossas dores, massageando-nos os pés com óleo perfumado com tomilho.

No entanto, não havia nada de mal com o nosso apetite. Os longos dias deixavam toda a gente ferozmente faminta, felizmente os meus irmãos supriam o pão ázimo e as papas de aveia da caminhada com aves e lebres que caçavam pelo caminho. A carne, preparada por Inna, tinha um sabor estranho mas maravilhoso, com uma especiaria de um amarelo vivo que ela tinha comprado.

Corria pouca conversa durante a refeição da noite. Os homens formavam uma roda, as mulheres outra. Quando a Lua se levantava, já toda a gente dormia - as mulheres e os bebês apinhados dentro de uma grande tenda, os homens e os rapazes em cobertores, debaixo das estrelas. Ao alvorecer, após uma refeição rápida de pão frio, azeitonas e queijo, recomeçávamos. Ao cabo de alguns dias nesta rotina, mal me conseguia lembrar da minha velha vida, enraizada num lugar só. Cada manhã trazia uma nova maravilha. No primeiro dia, Inna juntou-se a nós. No segundo dia, ao fim da tarde, chegamos à beira de um grande rio.

O meu pai tinha dito que iríamos atravessar a grande água, mas eu não tinha pensado no significado das palavras dele. Quando chegamos ao topo de uma colina que dava sobre o vale do rio, fiquei espantada. Nunca tinha visto tanta água num só lugar, nem qualquer outro de nós, exceto Jacob e Inna. O rio não era muito largo no lugar onde o passamos a vau, a “ele”, como Zilpa queria que eu dissesse. Mesmo assim, era vinte vezes mais largo do que os riachos que eu tinha conhecido. Estendia-se pelo vale como um carreiro brilhante, com o Sol poente a incendiar-se no seu caminho.

Chegamos a um ponto de passagem onde o fundo estava cheio de seixos e o vau era largo. O chão de cada uma das margens estava batido e alisado por muitas caravanas, e o meu

pai decidiu que pararíamos ali até à manhã seguinte. Os animais foram conduzidos à água e nós acampamos, mas, antes da refeição, o meu pai e os meus irmãos juntaram-se nas margens do Eufrates e derramaram uma libação de vinho no grande rio.

Não éramos os únicos no vau. Nas margens, para cima e para baixo, tinham parado mercadores para comer e dormir. Os meus irmãos vaguearam e olharam para as caras novas e para as roupas estranhas. “Um camelo”, gritou José, e os nossos irmãos correram atrás dele para verem mais de perto a besta de pernas magras. Eu não podia ir com eles, mas não fiquei com pena de ter sido deixada para trás, porque isso deu-me uma oportunidade de ir até ao rio, que me atraía como um contador de histórias.

Fiquei à beira da água até que o último traço da luz do dia se tivesse desvanecido do céu e, mais tarde, depois da refeição da noite, voltei para saborear o cheiro do rio, que era tão excitante para mim como incenso: pesado e escuro e totalmente diferente do aroma doce e pálido da água do poço. A minha mãe, Lea, teria dito que eu cheirava as ervas que apodreciam nas margens e a presença misturada de tantos animais e homens, mas eu reconheci a fragrância daquela água da mesma maneira que conhecia o perfume do corpo da minha mãe.

Fiquei sentada ao pé do rio mesmo depois dos outros terem ido dormir. Baloucei os meus pés na água até ficarem engelhados e suaves e brancos como nunca os tinha visto. Ao luar, vi o modo como as folhas iam deslizando corrente abaixo, até desaparecerem. Fui embalada pelo lento correr da água contra os bancos de areia e estava quase a dormir, quando fui acordada por vozes. Virando-me, para olhar para o lado da nascente, vi dois vultos a moverem-se no meio do rio. Por um momento, pensei que talvez pudessem ser demônios do rio ou bestas da água que me viessem arrastar para a minha sepultura aquática. Não fazia idéia de que as pessoas se podiam mover através da água daquela maneira, nunca tinha visto ninguém nadar. Mas depressa me apercebi de que eram apenas homens, os egípcios que eram donos do camelo, falando um com o outro na sua língua estranha e ronronada. Embora o riso deles fosse baixo, a água transportava o som como se eles estivessem a murmurar diretamente nos meus ouvidos. Não fui para o meu cobertor até eles terem deixado a água, e terem devolvido ao rio a capacidade de continuar a sua pacífica viagem através da noite sem ser perturbado. De manhã, o meu pai e os meus irmãos caminharam até ao rio sem parar, levantando as roupas, para não as molharem. As minhas mães penduraram as sandálias nos cintos e deram gargalhadinhas, por revelarem tanto das suas pernas. Zilpa cantarolou uma canção do rio, enquanto fazíamos a travessia. Os gêmeos correram à frente, molhando-se um ao outro descuidadamente.

Mas eu tive medo. Embora me tivesse apaixonado pelo rio, podia ver que, no seu ponto mais profundo, a água batia contra a cintura do meu pai. Isso queria dizer que eu ficaria submersa até ao pescoço, e que seria engolida. Pensei em agarrar na mão da minha mãe, como um bebê, mas ela estava a equilibrar uma trouxa na cabeça. As mãos de todas as minhas mães estavam ocupadas e eu era demasiado orgulhosa para pedir a José que me desse a dele.

Não tinha tempo para ter medo. Os animais de carga estavam nas minhas costas, forçando-me a avançar, de modo que entrei no rio e senti a água a subir-me até aos tornozelos e às barrigas das pernas. A correnteza parecia uma carícia nos meus joelhos e coxas. Num instante a minha barriga e o meu peito ficaram submersos e eu soltei uma gargalhadinha. Não havia nada a temer! A água não continha qualquer ameaça, só um abraço que eu não queria quebrar. Desviei-me para um lado, quando o boi passou, seguido pelo resto dos animais. Mexi os braços por entre a água. sentindo-os flutuar à superfície, observando as ondas e o rasto que seguiam o meu gesto. Aqui estava a magia, pensei eu. Aqui estava algo de sagrado.

Observei as ovelhas a esticarem os pescoços para fora da água: as cabras, de olhos muito abertos, mal tocando o fundo com os cascos. E, depois, vieram os cães, que, sabe-se lá como, possuíam o truque de correr através da água movimentando as pernas e avançando, ofegando, mas não sofrendo. Aqui estava mais magia: os nossos cães conseguiam nadar tão bem quanto os egípcios.

Por fim, Judá juntou-se a mim, com um ar tão dubitativo em relação à água quanto o que eu tinha sentido alguns momentos antes.- Irmã - disse ele. - Acorda e vem comigo. Aqui está a minha mão -ofereceu ele. Mas, quando eu estendi a minha mão para agarrar a dele, perdi o apoio e caí para trás. Judá agarrou-me e arrastou-me. Estava de costas, com o céu por cima, e senti a água a empurrar-me para cima. Aiii. Um gritinho agudo escapou da minha boca. Um demônio do rio, pensei eu. Um demônio do rio agarrou-me. Mas Judá puxou-me para os seixos da margem mais distante, e eu perdi a louca leveza no meu corpo. Mais tarde, nessa noite, quando me deitei para dormir entre as mulheres, contei às minhas mães o que tinha visto e sentido na margem e dentro do rio, durante a minha travessia. Zilpa disse que eu estava enfeitiçada pelo deus do rio. Lea estendeu a mão e apertou a minha, tranquilizando-nos a ambas. Mas Inna disse-me:

- És uma criança da água. O teu espírito respondeu ao espírito do rio. Tens de ir viver para perto de um rio, um dia, Dina. Só ao pé de um rio serás feliz.

Adorei cada momento da viagem para Canaã. Desde que mantivesse o meu fuso a trabalhar, as minhas mães não se importavam com o que eu fizesse ou onde é que eu ia, de modo que vagueava da frente da caravana para a retaguarda, tentando estar em todo o lado e ver tudo. Lembro-me pouco da terra ou do céu que devem ter mudado. Enquanto viajávamos. Uma vez Raquel e Inna levaram-me com elas para colher ervas e flores num monte que se tornava cada vez mais íngreme e mais escarpado, à medida que nos dirigíamos para sul. Fiquei espantada, ao ver árvores a crescer em tanta quantidade, que até mulheres tão elegantes como Raquel e Inna tinham de andar em fila indiana para passarem entre elas. Lembro-me das curiosas agulhas dessas árvores, que deixavam os meus dedos a cheirar a verde durante todo o dia.

Do que eu mais gostava, era das vistas da estrada. Havia caravanas que se dirigiam de volta ao Egito, carregadas de cedro, filas de escravos com destino a Damasco, e mercadores de Siquém que se dirigiam a Carchemish, perto da nossa antiga casa. Tanta gente estranha passava por nós: homens sem barba, como rapazes, e homens enormes, negros, de tronco nu. Embora houvesse menos mulheres na estrada, vi de relance mães cobertas de véus negros, escravas nuas, e uma bailarina que usava um peitoral feito de moedas de cobre. José ficava tão fascinado pelas pessoas quanto eu, e, por vezes, corria para ver mais de perto um animal ou um trajo particularmente estranhos. Eu era demasiado tímida para ir com ele, e as minhas mães não o teriam permitido. O meu irmão descrevia-me o que via e nós maravilhávamo-nos com aquilo tudo.

Eu, no entanto, não partilhava as minhas observações da nossa família com José. Sentia-me como uma ladra, a espiar os meus pais e irmãos, mas ardia por saber mais coisas acerca deles, especialmente sobre o meu pai. Uma vez que Jacob caminhava um pouco conosco todos os dias, eu observava-o, e reparava no modo como ele tratava as minhas mães. Ele falava com Lea acerca de provisões e de planos, com Raquel acerca de memórias da sua viagem para norte, para Haran. Tinha cuidado para não desrespeitar nenhuma das mulheres com as atenções que lhes concedia.

Zilpa curvava a cabeça, quando o meu pai se aproximava, e ele respondia na mesma moeda, mas raramente falavam. Jacob sorria a Bilhah como se ela fosse filha dele. Ela era a única que ele tocava, passando a mão sobre o sedoso cabelo negro dela quando quer que passasse por ela. Era um ato de familiaridade que parecia exprimir a ternura dele, mas que também provava a ausência de poder dela enquanto a menor das esposas dele. Bilhah não dizia nada, mas corava imenso quando ele lhe fazia estas carícias.

Reparei que a devoção de Ruben por Bilhah não se tinha apagado com o tempo. A maior parte dos meus irmãos, à medida que iam ficando mais altos e lhes nascia a barba, desatava os laços de infância que tivera com as mães e tias. Todos, exceto Ruben, que gostava de andar perto das mulheres, especialmente de Bilhah. Durante a viagem, ele parecia saber onde é que ela estava a cada momento. Quando ele a chamava, ela respondia: “Sim, irmão”, embora ele fosse sobrinho dela. Ela nunca falou dele a ninguém, e eu penso que nunca a ouvi dar voz ao nome dele, mas percebia muito bem o afeto que os unia e alegrava-me com isso.

Ruben era fácil de conhecer, mas Judá era irrequieto. Tinha escolhido a sua posição atrás do rebanho, mas por vezes fazia pressão sobre um dos irmãos mais novos para que este ocupasse o lugar dele, para poder vaguear. Subia ao topo de uma colina rochosa e gritava para nós, cá em baixo, e, depois, desaparecia até ao anoitecer.

- Ele ainda é jovem para isso, mas já está faminto por uma mulher -murmurou Inna à minha mãe, uma noite, quando Judá veio para o pé do fogo mais tarde, procurando o seu jantar.

Voltei-me para Judá e apercebi-me de que o corpo do meu irmão tinha começado a tomar a forma do corpo de um homem, com os braços bem musculados, as pernas cobertas de pêlos. Ele era o mais bonito de todos os meus irmãos. Os dentes dele eram perfeitos, brancos e pequenos, lembro-me disto porque ele sorria tão raramente, que os dentes dele eram sempre uma surpresa. Anos mais tarde, quando vi pérolas pela primeira vez, pensei nos dentes de Judá.

Ao olhar para Judá como um homem, pensei que Ruben já tinha certamente idade para casar e ter filhos. Na realidade, ele era pouco mais novo do que Nomir, cuja filha estava quase pronta para andar. Simeão e Levi também eram suficientemente crescidos para terem esposas. E, então, percebi outra das razões por que tínhamos deixado Haran para conseguir preços para as noivas dos meus irmãos sem que os dedos peganhentos de Labão se metessem no caminho. Quando fiz uma pergunta à minha mãe sobre isto, ela disse: “É claro que sim”, mas eu fiquei impressionada com os meus conhecimentos mundanos e com a minha perspicácia.

Já ninguém falava de Labão. à medida que os dias foram passando e que a Lua começou a minguar, parecia que estávamos livres das garras do meu avô. Jacob quase tinha deixado de visitar Judá na retaguarda do rebanho, olhando por cima do ombro para ver se o seu sogro estaria a vir na nossa pegada. Em vez disso, os pensamentos dele viraram-se para Edom e para o encontro com Esaú, o irmão que não via havia vinte anos, desde o dia em que ele tinha roubado a bênção do pai e tinha fugido. Quanto mais nos afastávamos de Haran, mais Jacob falava de Esaú.

No dia anterior à lua nova paramos mais cedo, para termos tempo para preparar a tenda vermelha e cozinhar para os três dias que tinham sido dados às mulheres. Uma vez que íamos ficar naquele lugar por mais de uma noite, o meu pai também montou a tenda dele. Estávamos perto de um pequeno riacho muito bonito, em que crescia alho selvagem em profusão. O cheiro a pão logo começou a encher o acampamento, prepararam-se grandes panelas de guisado, para os homens terem comida suficiente enquanto as minhas mães se retiravam do serviço deles.

As minhas mães e Uzna entraram na tenda das mulheres antes do pôr do Sol. Eu fiquei cá fora, para ajudar a servir os homens. Nunca trabalhei tanto na minha vida. Não era tarefa pouca. dar de comer a catorze homens e rapazes e duas crianças pequenas, para não falar das mulheres que estavam dentro da tenda. A maior parte do serviço calhou-me a mim, uma vez que Zibatu estava freqüentemente a amamentar o bebê dela. Inna não tinha paciência para os meus irmãos. Eu estava orgulhosa de alimentar a minha família, de fazer o trabalho de uma mulher adulta. Quando finalmente nos juntamos às minhas mães na tenda, depois de escurecer, nunca me senti tão grata por poder descansar. Dormi bem, sonhei que usava uma coroa e que servia água. Zilpa disse que eram sinais certos de que a minha maturidade não estava muito longe. Foi um sonho bom, mas acabou na manhã seguinte, num pesadelo assombrado pela voz de Labão.

Mas não era nenhum sonho. O meu avô tinha chegado exigindo justiça.-Dai-me o ladrão que levou os meus ídolos - gritou ele. - Onde estão os meus teraphim?

Corri para fora da tenda mesmo a tempo de ver o meu pai, com o cajado de oliveira na mão, a andar em direção a Labão. Beor e Kemuel estavam atrás do meu avô, para além de três homens de Haran, que mantiveram os olhos no chão em vez de olharem Jacob (que eles estimavam) na cara.-A quem chamas ladrão? - perguntou o meu pai. Quem acusas tu, velho tolo? Servi-te durante vinte anos sem ser pago, sem honra. Não havia ladrão nenhum neste lugar, até tu teres quebrado a paz que aqui havia.

Labão ficou sem palavras face ao tom do genro.-Eu sou a razão da tua confortável velhice - disse Jacob. - Fui um servo honesto. Não trouxe nada que não fosse meu. Não tenho nada aqui, exceto aquilo que tu concordaste que era meu e que não foi justo pagamento por aquilo que te dei. As tuas filhas são minhas esposas, e não querem ter nada a ver contigo. Os teus netos são meus filhos, e não te devem nada. Enquanto estive nas tuas terras, dei-te honras que não merecias, mas agora não estou tolhido pelas obrigações entre hóspedes e anfitriões.

Por essa altura, já todos os meus irmãos se tinham juntado atrás de Jacob, e, juntos, pareciam um exército. Até José segurava um cajado nas mãos. O ar estava pesado de ódio.

Labão deu um passo atrás.

- Meu filho! Porque me censuras? - disse ele lisonjeiramente, com a voz subitamente velha e suave. - Estou aqui apenas para me despedir da minha amada família: as minhas filhas e os meus netos. Somos parentes, tu e eu. Tu és meu sobrinho e eu amo-te como a um filho. Não percebeste bem as minhas palavras. Só desejo beijar a minha família e dar-te a minha bênção - disse ele, abrindo muito os dedos, curvando a cabeça, como um cão a mostrar submissão. - Não é o deus de Abraão também o deus dos meus pais? Ele é grande, com certeza. Mas, meu filho - disse Labão, olhando para cima, para a cara de Jacob -, o que é feito dos meus outros deuses? O que lhes fizeste?- O que queres dizer? - disse o meu pai.

Labão semicerrou os olhos e respondeu:

- Os meus deuses lares foram roubados, e desapareceram quando da vossa partida. Venho reclamá-los para mim e para os meus filhos. Porque é que desejas privar-me da proteção que eles me dão? Temes a ira deles, embora só adores o que não tem cara? O meu pai cuspiu aos pés de Labão.

- Não trouxe nada. Não há nada na minha casa que te pertença. Não há lugar para ladrões, debaixo das minhas tendas. Mas Labão ficou firme.

- Os meus teraphim são preciosos, para mim, sobrinho. Não deixo este lugar sem eles.

Com isto, Jacob encolheu os ombros.

- Eles não estão aqui - disse ele. - Vê por ti próprio.- E, ao dizer aquilo, virou as costas a Labão e foi-se embora, entrando no bosque e desaparecendo.

Labão começou a sua revista. Os meus irmãos ficaram em pé, de braços cruzados contra o peito, e viram o velho a desatar cada trouxa, a desenrolar cada tenda enrolada, a passar os dedos por cada saco de cereal, a espremer cada odre de vinho. Quando ele se dirigiu à tenda de Jacob, Simeão e Levi tentaram bloquear-lhe o caminho, mas Ruben afastou-os. Eles seguiram-no e ficaram a vê-lo, enquanto ele remexia os cobertores do meu pai e até quando levantou o tapete do chão, para dar pontapés na terra, para o caso de ter sido aberto um buraco. O dia foi passando e Labão sempre a procurar. Eu corria para trás e para a frente, do sitio onde o meu avô caçava para a tenda vermelha, contando o que via às minhas mães. As caras delas mantiveram-se inexpressivas, mas eu sabia que estavam preocupadas. Nunca tinha visto as mãos das mulheres a trabalhar durante a lua nova. No entanto, ali, cada uma delas estava ocupada com o seu fuso. Depois de Labão ter revirado a tenda do meu pai, não havia outro lugar em que pudesse procurar senão na tenda vermelha. Os olhos dele fixaram-se na tenda das mulheres, que estava na orla do acampamento. Era impensável que um homem saudável entrasse de sua vontade naquele lugar durante o ponto alto do mês. Os homens e os rapazes olharam, para ver se ele se colocaria entre mulheres que sangravam - e ainda pior: as próprias filhas dele.

Labão murmurava consigo próprio, enquanto se aproximava. Arregalou os olhos aos filhos e netos e, depois, abriu a aba e entrou na tenda.

A respiração rouca de Labão era o único som que se ouvia. Ele olhou de relance em volta da tenda, nervoso, não olhando para os olhos de nenhuma das mulheres. Ninguém se mexeu ou falou. Por fim, e com grande desprezo, ele disse: “Bah”, e dirigiu-se à pilha de cobertores.

Raquel levantou-se do lugar dela na palha. Não baixou os olhos, quando se dirigiu ao pai. De fato, olhou diretamente para a cara dele e, sem raiva, nem medo, e sem aparentar qualquer emoção, disse:- Fui eu que os trouxe, pai. Sou eu que tenho todos os teraphim. Todos os teus deuses. Eles estão aqui. Estou sentada em cima deles. Os teraphirn da nossa família estão agora banhados no meu sangue mensal, pelo que os teus deuses estão poluídos para além da redenção. Podes levá-los, se quiseres - continuou Raquel calmamente, como se estivesse a falar de trivialidades. - Eu desenterro-os, e até os limpo para ti, se assim quiseres, pai. Mas a magia deles virou-se contra ti. Estás sem a proteção deles, daqui para a frente.

Ninguém respirou, enquanto Raquel falava. Os olhos de Labão foram-se abrindo e ele começou a tremer. Olhou fixamente para a sua linda filha, que parecia brilhar na luz rosada que se filtrava através da tenda. Foi um longo e terrível momento, que acabou quando Labão se virou e se arrastou para fora da nossa vista. Lá fora, na luz, encontrou-se cara a cara com Jacob, que voltara.

- Não encontraste nada - disse o meu pai, com suprema confiança. Como Labão não respondia, Jacob continuou: - Não há ladrões nas minhas tendas. Este será o nosso último encontro, velhote. Estamos conversados.

Labão não disse nada, mas abriu muito as palmas das mãos e curvou a cabeça, como sinal de aquiescência.

- Vem - disse ele. - Vamos resolver o nosso caso. - O meu avô fez um gesto para que Jacob o seguisse na subida do monte até ao acampamento. Os meus irmãos seguiram-nos, para darem testemunho. Labão e Jacob escolheram dez pedras cada um, e dispuseram-nas em camadas umas em cima das outras até criarem um monte que marcasse as fronteiras entre eles. Labão derramou vinho por cima do marco. Jacob derramou azeite por cima do marco. Cada um dos homens jurou paz ao outro tocando a coxa um do outro. Depois, Jacob virou-se e desceu o monte. Foi a última vez que qualquer um de nós viu Labão, o que consideramos uma bênção.

Jacob estava ansioso por se ir embora daquele lugar, pelo que a tenda vermelha foi desmantelada na manhã seguinte e nós seguimos viagem para a terra a que o meu pai chamava lar.

O meu pai andava consumido pelas memórias de Esaú. Embora já tivessem passado vinte anos, Jacob ainda recordava a expressão de Esaú, quando este finalmente alcançara o significado do que lhe tinha acontecido. Não só Jacob o traíra ao roubar a bênção do amado pai deles, como era claro que Rebeca estivera por trás disso - derradeira prova da preferência dedicada ao filho mais novo. Jacob tinha observado a expressão do irmão à medida que Esaú juntava as peças da traição familiar, e o meu pai tinha sentido vergonha. Jacob compreendeu a dor na barriga de Esaú e soube que, se tivesse estado no lugar do irmão, também ele o teria perseguido com uma adaga desembainhada.

Jacob vivia com o espectro terrível da vingança do seu irmão, descrevendo-o diariamente aos seus filhos, e a Lea, Raquel e Bilhah durante as noites que passava com elas, pois passara a montar a sua própria tenda, de forma a poder ser reconfortado por uma mulher até de manhã. O medo de Jacob era tão grande, que eludia toda a recordação do amor do seu irmão, sempre mais forte do que as curtas iras que o assolavam. Jacob esquecera os momentos em que Esaú lhe dera de comer e o protegera, rira com ele e o elogiara. O medo do meu pai transformava Esaú num demônio vingativo, que eu imaginava como uma raposa vermelha com braços como troncos de árvore. Este tio assombrava os meus sonhos e tornava a viagem de que eu tinha gostado numa marcha forçada para a morte certa. Não fui eu a única a caminhar com medo. A partir do momento em que o meu pai começar a contar as suas histórias acerca de Esaú, acabaram-se as canções na estrada ou no acampamento. A viagem foi silenciosa, nos dias que se seguiram à nossa despedida final de Labão, e mesmo Judá já não desejava andar sozinho na retaguarda do rebanho. Pouco depois, surgiu outro rio para atravessar e Esaú foi varrido dos meus pensamentos. Regozijei-me, ao ver água a correr outra vez, e corri para a margem do rio para pôr a minha cara perto dos deliciosos cheiro e som.

Também o meu pai pareceu refrescado pela visão do rio e pela tarefa que ele impunha. Disse que acamparíamos na outra margem, naquela noite, e juntou os seus filhos à sua volta, para lhes distribuir tarefas. Embora a água não fosse, nem de longe, tão larga como no grande rio mais a norte, este era mais profundo no centro e mais rápido. As folhas não deslizavam lentamente rio abaixo, mas corriam, como se perseguissem uma presa rápida. A nossa travessia tinha que ser rápida, uma vez que o Sol já começava a baixar.

Inna e Zilpa derramaram uma oferenda ao deus do rio, enquanto os primeiros animais eram conduzidos para a água e guiados para o outro lado. Os animais menores tiveram de ser levados dois a dois e pelo cachaço, com um homem de cada lado. Os cães trabalharam até à exaustão. Quase perdemos um deles na corrente, mas José agarrou-o e os irmãos fizeram dele o herói do dia.

Todos os homens começaram a ficar cansados. Até Judá cambaleava, devido ao esforço de conduzir animais assustados enquanto lutava contra a corrente. O rio foi generoso, nenhum dos animais se perdeu. Pela altura em que o sol pousava nos topos das árvores, só o boi, os burros, as mulheres e os bebês restavam.

Ruben e Judá lutaram com o boi aterrorizado, que mugiu como um animal que vai para o matadouro. Levou muito tempo, até que conseguissem arrastar a besta para o outro lado, por essa altura, já anoitecia. A minha mãe e eu fomos as últimas a serem levadas para o outro lado, desta vez com a minha mão na dela, para que eu não fosse roubada pela corrente. Quando chegamos à outra margem já era escuro, e só o meu pai ficara para trás.

Jacob gritou para o outro lado:

- Ruben - disse ele.

E o meu irmão respondeu:

- Estou aqui.

- Toma conta dos animais - disse o meu pai. - Não te incomodes com a tenda. A noite está suficientemente quente. Eu atravesso com a primeira luz do amanhecer. Estejam preparados para seguir viagem.

A minha mãe não ficou satisfeita com o plano de Jacob e disse a Ruben para gritar em resposta ao nosso pai e para se oferecer para passar a noite com ele. Ele não o permitiu.

- Diz à tua mãe para acalmar os medos. Não sou nem uma criança, nem um ancião fraco e tremulo. Dormirei sozinho debaixo do céu, tal como fiz na minha juventude, quando viajei para norte. Preparem-se para partir de manhã - disse Jacob, e não falou mais. A Lua ainda era nova, portanto a noite era escura. A água teria adoçado o ar, se o pêlo molhado dos animais não tivesse enlameado o perfume da água com almíscar. Os animais baliram durante o sono, não estando habituados a estarem molhados no frio da noite. Eu tentei ficar acordada, para ouvir a música do curso de água, mas daquela vez o marulhar embalou-me num sono profundo. Todos dormiram profundamente. Se o meu pai gritou, ninguém ouviu.

Ruben estava com Lea, na margem do rio, antes do nascer do Sol, para receber Jacob, mas o meu pai não apareceu. O acolhimento do dia pelos pássaros já tinha acabado e o sol começava a secar o orvalho, mas não havia vestígio dele. Ao sinal de Lea, Ruben, Simeão e Judá mergulharam na água, para procurarem o pai. Encontraram-no espancado e nu, no meio de uma clareira de plantas rasteiras onde a erva e os arbustos tinham sido esmagados e partidos num círculo amplo, em volta dele. Ruben correu de volta para nós, a gritar por uma peça de vestuário para cobrir o nosso pai, e depois carregou-o de volta, através da corrente.

O tumulto deu lugar ao silêncio, quando Jacob foi trazido, sem sentidos, deitado nos braços do filho, com a perna esquerda a pender num ângulo esquisito, como se já não estivesse ligada ao corpo dele. Inna acorreu e ordenou que a tenda do nosso pai fosse montada. Bilhah fez uma fogueira. Os homens ficaram ali de pé, de mãos a abanar. Ruben não tinha respostas para as perguntas deles, e eles calaram-se. Inna veio para fora da tenda e disse: “Febre.” Raquel correu para o seu estojo de ervas. Inna fez um gesto para que Ruben a seguisse para dentro da tenda e, alguns momentos mais tarde, ouvimos o terrível grito animal, enquanto ele guiava a perna do nosso pai de volta ao lugar dela. Os queixumes que se seguiram foram ainda piores. Não sendo notada, nem necessária, eu fiquei sentada fora da tenda, observando a cara resoluta de Inna e as faces coradas de Raquel, enquanto elas andavam para dentro e para fora. Vi os lábios da minha mãe comprimirem-se numa linha fina, enquanto ela curvava a cabeça para ouvir os relatórios delas. Escutei pelas paredes da tenda, enquanto o meu pai gritava a um demônio azul do rio e comandava um exército de anjos para lutar contra um poderoso inimigo que se levantava das águas. Zilpa murmurava encantamentos a Gula, Inna cantava sobre deuses antigos cujos nomes eu nunca tinha ouvido: Nintinugga, Ninisinna, Baba.

Ouvi o meu pai chorar, implorar demência ao irmão. Ouvi Jacob, o pai de onze filhos, chamar pela mãe dele: “Ema, Ema”, como uma criança perdida. Ouvi Inna a calá-lo e a encorajá-lo a beber, como se ele ainda fosse um bebê.

Naquele interminável dia, ninguém comeu nem trabalhou. à noite, adormeci no meu lugar ao pé da tenda, com sonhos enformados pelos gritos do meu pai e pelos murmúrios das minhas mães. Ao amanhecer, acordei sobressaltada e fui recebida pela quietude. Pus-me de pé num salto, aterrorizada, certa de que o meu pai estava morto. De certo seríamos capturados por Esaú e tornados escravos. Mas quando comecei a chorar Bilhah encontrou-me e abraçou-me.- Não, pequenina - disse ela, acariciando-me o cabelo acachapado. - Ele está bem. Recuperou o juízo e dorme calmamente, agora. As tuas mães também estão a dormir, estão demasiado cansadas dos trabalhos delas. Ao anoitecer da segunda noite depois da sua provação, o meu pai estava suficientemente bem para se sentar à porta da sua tenda para a refeição da noite. Ainda lhe doía a perna, mal podia andar, mas tinha os olhos claros e as mãos firmes. Dormi outra vez sem medo. Ficamos durante dois meses ao pé do rio Jabbok, para que Jacob pudesse curar-se. Montaram-se as tendas das mulheres e as dos trabalhadores também. Os dias assumiram um caráter corriqueiro, com os homens a tomarem conta dos rebanhos, enquanto as mulheres cozinhavam. Construímos um forno com barro do rio, e foi bom ter pão fresco outra vez, úmido e quente, em vez daquela coisa seca que tínhamos comido na estrada e que sabia sempre a pó. Durante os primeiros dias da doença de Jacob foram abatidas duas ovelhas, para fazer caldos fortalecedores dos ossos delas, pelo que houve carne, durante algum tempo. Raro mimo, que semelhava tudo aquilo a um festival.

Mas, à medida que o meu pai foi recuperando a saúde, o medo dele voltou ainda maior do que antes, e transformou-o. Jacob não conseguia falar de mais nada, senão da vingança do irmão, e via o ataque noturno e a sua luta com o exército de anjos como presságios da batalha que se aproximava. Começou a suspeitar de qualquer tentativa de o acalmar e mandou embora o amável Ruben. Em vez dele, começou a confiar em Levi, que deixava Jacob enumerar infindavelmente as suas preocupações e ia assentindo com ar sinistro às predições mais desesperadas do nosso pai.

Entre si, as minhas mães ponderavam o significado do mais recente sonho de Jacob, tão poderoso que tinha feito a travessia para este mundo. Debatiam as preocupações e os planos de Jacob. Deveria ele atacar? Seria um erro enviar um mensageiro a Esaú? Não seria mais sábio apelar à ajuda do pai dele, Isaac? Talvez as mulheres devessem mandar uma mensagem a Rebeca, que não era só sogra, mas também tia delas? Mas não faziam qualquer menção à mudança de trato do marido delas. O homem confiante tornara-se hesitante e cauteloso. O pai afetuoso fazia-se exigente e, mesmo, frio. Talvez elas pensassem que se tratava de um sintoma da doença, ou talvez simplesmente não vissem o que eu vi.

Eu comecei a odiar cada menção a Esaú, embora, passado algum tempo, o meu medo tivesse dado lugar ao aborrecimento. As minhas mães nem sequer se deram conta de eu ter começado a evitar as tendas delas. Estavam demasiado envolvidas no desenrolar da história do meu pai e em especulações acerca do que se seguiria, e havia pouca coisa para eu fazer. Toda a nossa lã estava fiada e os teares não seriam desempacotados, pelo que as minhas mãos permaneciam freqüentemente desocupadas. Ninguém me chamava para ir buscar água ou para carregar lã, não havia horto para mondar. Eu estava perto do fim da infância e era livre como nunca fora nem voltaria a ser.

José e eu começamos a explorar o rio. Andávamos pelas margens e observávamos os peixes pequeninos que enxameavam os remoinhos. Caçávamos rãs, de um verde vivido, diferente de qualquer outro que jamais víramos. Eu apanhava ervas e legumes selvagens. José apanhava gafanhotos em armadilhas, para os molhar em mel. Banhávamos os pés nas águas frescas e rápidas, molhávamo-nos um ao outro, até ficarmos a pingar. Secávamo-nos ao sol e as nossas roupas cheiravam à brisa e à água do Jabbok.

Um dia, seguindo direitos à nascente, descobrimos uma ponte natural sobre o rio - um carreiro de pedras lisas que permitia uma travessia fácil. Sem ninguém para nos proibir de o fazer, atravessamos para a outra margem e em breve nos apercebemos de que tínhamos encontrado o próprio local em que o nosso pai tinha sido ferido. Reconhecemos a clareira que ele tinha descrito - o círculo de dezoito árvores, a erva pisada e os arbustos partidos e dobrados. Encontramos um lugar queimado no chão, onde tinha ardido um grande fogo. Os pêlos no meu pescoço eriçaram-se e José segurou a minha mão na dele, que estava úmida de medo. Olhando para cima, não ouvimos nada- nem canto de pássaro nem murmurar das folhas ao vento. O lugar queimado não emanava qualquer cheiro e mesmo a luz do Sol parecia silenciada, à nossa volta. O ar parecia tão morto como Ruti deitada no wadi. Eu queria ir-me embora, mas não conseguia mexer-me. José disse-me, mais tarde, que ele também teria fugido. Mas os pés dele tinham-se enraizado na terra. Levantamos os olhos para o céu, perguntando-nos se os anjos aterradores do nosso pai voltariam, mas os céus permaneciam vagos. Ficamos em pé como pedras, à espera que algo acontecesse. Um grande barulho levantou-se do círculo de árvores como um trovão, e nós demos gritos agudos, ou pelo menos tentamos gritar, mas nenhum som saiu das nossas bocas abertas, enquanto um javali negro corria para fora da floresta. Correu diretamente de encontro a nós, através do prado batido. Gritamos outra vez o nosso grito silencioso, e não havia sequer o barulho dos cascos da besta, que se movia na nossa direção com a velocidade de uma gazela. Pensei que estávamos prestes a morrer, os meus olhos encheram-se de pena pelas nossas mães, ouvi Lea a soluçar atrás de mim.

Quando me voltei para a encarar, ela não estava lá. Apesar disso, o feitiço tinha-se quebrado. Os meus pés estavam livres e eu corri de volta ao rio, puxando o José com força maior do que a minha. Talvez também houvesse anjos do meu lado, pensei eu, quando alcancei as pedras de apoio e fiz a travessia. O José escorregou na primeira pedra e cortou o pé. Desta vez a voz dele soou de dor. O som da voz dele pareceu parar o javali no seu percurso e o animal caiu, como se tivesse sido atingido por uma lança.

José recuperou o equilíbrio e rastejou de volta para a outra margem, onde eu estendi as minhas mãos para ele e nos abraçamos, tremendo, entre os sons da água, o restolhar das folhas e o batimento aterrorizado dos nossos corações.

- O que era aquele lugar? - perguntou o meu irmão, mas eu só conseguia abanar a cabeça. Olhamos para o javali e para a clareira e para o círculo de árvores, mas a besta tinha desaparecido e a cena parecia agora normal e, até, bela: um pássaro voava contra o horizonte, chilreando, e as árvores abanavam ao vento. Eu tremi, José apertou-me a mão. Sem uma palavra, juramos manter segredo sobre aquele dia. Mas o meu irmão nunca mais foi o mesmo. A partir daquela noite começou a sonhar com o poder dos sonhos do pai dele. A princípio, só falava comigo dos seus extraordinários encontros com anjos e demônios, com estrelas dançantes e bestas falantes. Mas passado pouco tempo os sonhos tornaram-se demasiado grandes só para os meus ouvidos.