A Tenda Vermelha

Anita Diamant · Capítulo 5 de 18

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A Tenda Vermelha

Capítulo 3

 

Raquel foi caindo na modorra. Deixou de dar assistência a Inna e não saía debaixo da manta se Lea não a fosse abanar e insistir para que ajudasse as outras mulheres. Só assim Raquel fiava ou tecia ou trabalhava no horto, mas sem palavras nem sorriso. Jacob não conseguia tirá-la da tristeza. Repelido por aquele silêncio inabalável, desistiu de apelar à sua companhia durante a noite. A mágoa dela tornou-se um vulto tão denso, que até os bebês deixaram de procurar a sua tia bonita. Raquel ficou sozinha na sua própria noite negra. Vendo o desespero de Raquel, Bilhah foi ter com ela, encontrou-a agachada debaixo da manta. A irmã mais nova deitou-se ao lado de Raquel e abraçou-a com doçura materna.

- Deixa-me ir ter com Jacob por ti - disse Bilhah num sussurro. - Deixa-me ter um filho nos teus joelhos. Deixa-me ser o teu ventre e os teus seios. Deixa-me sangrar o teu sangue e chorar as tuas lágrimas. Deixa-me ser o teu canal até que a tua vez chegue, pois a tua vez ainda chegará. Deixa-me ser a tua esperança, Raquel. Não te decepcionarei. Raquel não respondeu. Não disse nada durante muito tempo. Bilhah perguntou-se se a irmã dormira enquanto ela falava, ou se a oferta a teria ofendido. Bilhah conta que esperou tanto tempo por uma resposta, que chegou a duvidar de que as palavras formuladas no seu coração alguma vez lhe tivessem passado pelos lábios.

Mas Bilhah, habituada ao silêncio, esperou. Por fim, Raquel voltou-se e beijou-a, apertando a pequena mulher contra o corpo, reconfortando-se no calor dela.

- E as lágrimas que ela chorou não eram amargas, nem mesmo salgadas -disse Bilhah -, mas doces, como água da chuva. Bilhah sabia que, muito embora a proposta apresentada a Raquel fosse feita de amor, esse oferecimento também servia os desejos do seu coração. Ela compreendia o desejo de Raquel, porque também era esse o seu desejo. Já estava bem dentro da idade fértil. Os sons do amor, no pequeno mundo das nossas tendas, acordavam-na de noite, deixando-a abalada e insone. Assistir aos partos das irmãs provocara-lhe o desejo de participar desse grande mistério da maternidade que, pago com dor, é retribuído com o brilhante sorriso e a pele sedosa de uma criança. Doíam-lhe os seios ansiosos de amamentar.

A honesta Bilhah revelou cada canto do seu coração a Raquel, sobejamente conhecedora do vazio que a sua irmã descrevia. Nos braços uma da outra choraram, e depois adormeceram. Na manhã seguinte, Raquel foi ter com Jacob e pediu-lhe que ele fizesse um filho a Bilhah em nome dela. Aquilo não era um pedido, pois Raquel tinha o direito de ter um filho de Jacob.

Não era necessário procurar ou obter outra permissão. Jacob concordou. (Porque não haveria de concordar? Lea amamentava o mais recente filho dela, Raquel virara-lhe as costas havia meses.) Portanto, naquela noite, na lua cheia de um mês frio, Bilhah foi ter com Jacob e deixou-o na manhã seguinte, já não donzela, embora não fosse noiva.

Não houve henna para as mãos de Bilhah, nem banquete, nem presentes. Não houve sete dias para aprender os segredos do corpo de Jacob ou o significado das suas palavras. Quando o Sol nasceu, no dia seguinte, Jacob voltou à supervisão dos rebanhos e Bilhah foi ter com Raquel e contou todos os pormenores da sua noite à irmã. Anos mais tarde, contou a mim.

Ela chorou, quando entrou na tenda de Jacob, e ficou surpreendida com as suas próprias lágrimas. Queria ser iniciada no mistério do sexo, aprender os velhos hábitos de homens e mulheres. Mas sentia-se só, ao entrar na tenda do marido sem companhia, sem irmãs, ou cerimônia, ou celebração. Não tivera direito aos rituais de uma noiva com dote e, no entanto, sentia falta deles.

- Jacob foi amável - lembrou Bilhah. - Pensou que as minhas lágrimas eram sinal de medo, por isso abraçou-me como a uma criança, e deu-me um bracelete de lã.

Não era nada. Não era um metal precioso, ou marfim, ou qualquer coisa de valor. Só uma trança feita de restos. O tipo de coisa que os pastores fazem, sem pensar, sentados debaixo de uma árvore quando o Sol vai a pino, de pedaços de lá que ficam presos em sarças ou que são soprados para o chão. Jacob tinha rolado os fios castanhos, pretos e creme contra a coxa, até ter o suficiente para fazer uma trança.

Ele tirou aquela coisa simples do braço e cortou-a para se ajustar ao dela. Um triste e pequeno nada como preço a pagar pela noiva, mas ela usou-a durante o seu primeiro ano enquanto terceira esposa de Jacob, até que, um dia, o bracelete se desfez e ela o perdeu sem sequer saber onde. Ao pensar no seu bracelete, Bilhah sorriu, e, com o dedo indicador, recordou o lugar onde um pedaço de cordel a tinha atado a Jacob.- Ele reconfortou-me com aquele presente pobre, sem uma palavra, e eu parei de chorar. Sorri para ele. E depois, oh, fui tão ousada, que mal me pude reconhecer a mim mesma. Pus a minha mão no sexo dele, e coloquei a mão dele no meu sexo. Ele levantou-me a saia e massageou-me a barriga e os seios. Enterrou a cara entre as minhas coxas, e eu quase dei uma gargalhada com o choque do prazer. Quando ele entrou em mim, foi como se eu tivesse caído numa poça de água, foi como se a Lua cantasse o meu nome. Foi tudo aquilo que eu esperava que fosse. Dormi nos longos braços de Jacob, embalada como uma criança pela primeira vez, desde que a minha mãe me segurara - que o nome dela esteja inscrito nas estrelas. Só por aquela noite, amei Jacob. Bilhah contou tudo isto a Raquel. Não foi fácil para a minha bela tia ouvi-lo, mas ela insistiu com Bilhah para que ela não deixasse nada por contar. E a irmã mais nova repetiu a história tantas vezes quantas Raquel pediu para ouvir, até que a memória da consumação de Bilhah se tornou a memória da própria Raquel, e o prazer e a gratidão da irmã se entranharam nos sentimentos que ela nutria por Jacob. No dia seguinte a Jacob ter conhecido Bilhah pela primeira vez, ele foi chamado para longe, para fazer negócio com um mercador de Carchemish, que ficava a dois dias de viagem. Bilhah sofreu com esta ausência, pois ansiava por se deitar com ele outra vez. Raquel sofreu, ao perceber que Jacob tinha encontrado a felicidade com Bilhah. Lea sofreu, por se sentir muito distante das vidas das irmãs. Zilpah observava tudo, dizia pouco e suspirava muito.

Quando voltou, Jacob trouxe a Raquel um colar de contas e passou a sua primeira noite com ela. Lea ainda estava a amamentar, pelo que Jacob chamou Bilhah com frequência, nos meses seguintes, em especial quando Raquel se ausentava para assistir a um parto. Jacob e a terceira esposa falavam muito pouco quando estavam juntos, mas os seus corpos juntavam-se em posturas assumidas francas, que lhes proporcionavam quer prazer, quer libertação.

- Jacob dizia que eu lhe dava paz - contou Bilhah com grande satisfação. Bilhah concebeu. Raquel recebeu a notícia com beijos e regozijou-se com a irmã. à medida que os meses passavam e a barriga dela crescia, Raquel afagava-a e pedia-lhe que desse um nome a cada sensação, a cada dor aguda, a cada estado de espírito. Sabia Bilhah em que momento se enraizara a vida? O cansaço da gravidez fazia-se sentir nas pernas ou nos olhos? Ela tinha desejos de coisas salgadas ou de coisas doces? As duas partilharam uma manta, durante a gravidez de Bilhah. A mulher estéril sentiu o lento inchar da barriga da irmã e o crescente peso dos seios dela. Viu a carne a esticar em linhas claras marcadas na barriga e nas coxas e notou a cor cambiante dos mamilos. À medida que a criança crescia em Bilhah, deixando-a descorada e sem energia, Raquel floria. Tornou-se suave e redonda como Bilhah, e as covas que a mágoa lhe tinha escavado na cara desapareceram. Ria-se e brincava com os sobrinhos e com as outras crianças do acampamento. Cozia pão e fazia queijo sem que lhe pedissem. Vivia tão profundamente na gravidez de Bilhah, que, durante o nono mês, lhe começaram a inchar os tornozelos, quando chegou o momento de o bebê vir ao mundo, Raquel chamou Inna, para que esta fosse a parteira, de modo a que só ela pudesse estar por trás de Bilhah durante o trabalho de parto, para a abraçar e sofrer com ela.

Felizmente para Bilhah, o parto foi tão simples e rápido quanto a gravidez tinha sido difícil. Após uma manhã de respiração ofegante e de gemidos, ela colocou-se em cima dos tijolos, enquanto Raquel se agachava em torno dela. Os cotovelos de Bilhah apoiaram-se nos joelhos abertos de Raquel e foi como se as duas mulheres partilhassem o mesmo ventre, durante a horrível hora em que o bebê percorreu o seu caminho para fora. As caras de ambas ficaram vermelhas de esforço, e quando a cabeça da criança apareceu gritaram a uma só voz. Inna disse que era como se uma mulher com duas cabeças tivesse dado à luz, raramente se tinha visto coisa tão estranha.

Nascido o rapaz, cortado o cordão umbilical, Raquel segurou-o primeiro, com as lágrimas a correr, durante muito tempo. Ou, pelo menos, assim pareceu a Bilhah, que mordeu a língua e esperou pelo momento em que abraçaria o primeiro rebento do seu ventre. Os olhos de Bilhah seguiram cada movimento de Raquel, enquanto esta limpava o sangue do corpo do bebê e verificava se ele tinha tudo no devido lugar e não apresentava nenhuma imperfeição. Bilhah mal respirava, de braços vazios na expectativa, mas não disse nada. Por lei, aquele filho pertencia a Raquel. Anos e anos a assistir a tantos partos tinham tornado terno o coração de Raquel, com um grande suspiro pôs o rapaz nos braços de Bilhah, onde ele levantou os olhos para a cara da mãe e sorriu para os olhos dela antes de lhe tomar o peito.

Nesse instante, Raquel acordou do seu sonho e viu que o bebê não era filho dela. O seu sorriso desvaneceu-se, os ombros caíram-lhe, as mãos agarraram-se com força aos seus seios infantis. Inna tinha-lhe dito que, se deixasse o bebê chuchar neles durante tempo suficiente, ele encontraria leite dentro dela e ela poderia tornar-se a mãe de leite dele. Mas Raquel não tinha fé na capacidade do seu corpo para manter uma vida. Pôr uma criança a amamentar num peito vazio, causaria sofrimento ao filho, que não era de todo dela, mas de Bilhah. Além disso, era possível que Bilhah adoecesse e viesse mesmo a morrer, se não esvaziasse os seios, pois Raquel já tinha visto isso acontecer. E Raquel amava a irmã. Esperava que o bebê que estava no seio de Bilhah fosse tão bom homem quanto a mãe dele era boa mulher. Raquel deixou Bilhah com o filho desta e foi ter com Jacob. Disse ao marido que o nome do bebê era Dan, que significa julgamento. Para a mulher que o tinha dado à luz, Dan tinha um som doce, mas para aquela em cujo nome ele fora concebido tinha um tom amargo. Ver o bebê nos braços de Bilhah dia após dia quebrou, mais uma vez, a confiança de Raquel. Ela era apenas a tia, estava ali, era a estéril. Mas, dessa vez não se revoltou contra o céu nem virou a raiva contra as irmãs. Sentava-se (demasiado infeliz para chorar) debaixo da acácia consagrada a Innana, onde os pássaros se juntavam ao amanhecer. Foi à asherah, prostrou-se perante o amplo sorriso da deusa e murmurou: “Dá-me filhos, ou morrerei.”

Jacob, vendo o seu sofrimento, abraçou-a com grande ternura. E depois de tantos anos, tantas noites, tantos abortos e tantas esperanças perdidas, Raquel encontrou prazer nos braços dele.

- Na verdade, antes disso nunca tinha percebido porque é que Lea e Bilhah tinham procurado a cama de Jacob - contou Raquel. - Sempre tinha ido para a cama dele com uma certa vontade, mas sobretudo por dever. Mas, depois de Dan ter aberto o ventre de Bilhah, a minha paixão igualou-se, finalmente, à de Jacob, sabe-se lá porquê, e eu percebi a vontade das minhas irmãs de se deitarem com ele. E então fiquei de novo com ciúmes, por todos os anos de louca doçura entre os amantes que tinha perdido.

Raquel e Jacob passaram muitas noites juntos, explorando o novo cio entre eles, e Raquel teve esperança outra vez. Algumas parteiras diziam que o prazer aquecia demasiado a semente e a matava. Outras afirmavam que os bebês só vêm quando as mulheres sorriem. Foi isto que ela disse a Jacob, para inspirar as carícias dele.

Durante os últimos meses da gravidez de Bilhah, Zilpah foi para a cama de Jacob pela primeira vez. Não se ofereceu para o fazer, como Bilhah tinha feito, embora fosse pelo menos cinco anos mais velha do que esta -da idade de Lea, que nessa altura já tinha cinco filhos vivos. Zilpah sabia que aquilo acabaria por acontecer, um dia, e tinha-se resignado. Mas, ao contrário de Bilhah, Zilpah nunca pediria semelhante coisa. Teria de ser Lea a mandar fazê-lo. Por fim, ela fê-lo.

- Uma noite, enquanto eu caminhava à luz da lua cheia, ela apareceu diante de mim - contou Zilpah. - A principio, pensei que estava a sonhar. A minha irmã tinha um sono tão pesado quanto Labão e nunca se levantava de noite. Mesmo os próprios bebês dela tinham dificuldade em acordá-la. Mas ali estava ela, no silêncio. Caminhamos sob a luz branca e brilhante da dona Lua, de mão na mão, durante muito tempo. E, mais uma vez, duvidei se seria realmente a minha irmã que ali estava ou um fantasma, porque a mulher a meu lado permanecia em silêncio, enquanto Lea tinha sempre alguma coisa a dizer. Por fim, com palavras cautelosas, pôs-se a falar da Lua. Disse-me o quanto gostava da luz branca e contou-me que lhe falava e que a chamava pelo nome todos os meses. Disse que a Lua era a única cara da deusa que parecia prestar-lhe atenção, a julgar pelo modo como regia o preenchimento e o esvaziamento do corpo dela. A minha irmã era sábia - acrescentou Zilpah. Parou, virou-se para mim e, tomando ambas as minhas mãos nas dela, perguntou-me: “Estás finalmente preparada para engolir a Lua?” O que é que eu havia de dizer? Era a minha vez.

De fato, talvez ela tivesse esperado demais, Zilpah tinha esperança de já ser demasiado velha para engravidar, aos cinco mais vinte anos. A idade, só por si, não era bom augúrio. Raquel fora estéril desde a juventude, apesar dos seus esforços. E Lea, fértil como uma planície regada, não parecia dar sinais de perda de capacidades. A única maneira de descobrir o que a mãe da vida tinha reservado para Zilpah era indo ela ter com Jacob e tornando-se a menor das esposas dele. Na manhã seguinte, Lea falou com Jacob. Bilhah ofereceu-se para pôr henna nas mãos de Zilpah, mas ela fez um trejeito firme com a boca e recusou. Naquela noite, ela caminhou lentamente até à tenda de Jacob, onde ele se deitou com ela e a conheceu. Zilpah não retirou prazer do toque de Jacob. “Fiz o que esperavam de mim”, disse ela, com um tom tal, que ninguém se atreveu a pedir que adiantasse mais nada. Ela nunca se queixou das atenções de Jacob. Ele fez o melhor que podia para lhe acalmar os medos, tal como o tinha feito com as suas outras esposas. Chamou-a muitas vezes, tentando conquistá-la. Pediu-lhe que cantasse canções das deusas e escovou-lhe o cabelo. Mas, fizesse ele como fizesse, nada comovia Zilpah.

- Nunca percebi a vontade que as minhas irmãs tinham de se deitar com Jacob - dizia ela, com um cansado gesto da sua longa mão. - Era um dever, tal como moer cereais, algo que desgasta o corpo, mas que é necessário para que a vida continue. Mas, de resto, também não fiquei decepcionada - acrescentou ela. - Não era nada que eu esperasse gostar. Zilpah concebeu, durante a gravidez de Bilhah. E, pouco depois do Dan de Bilhah ter nascido, parecia mesmo que Zilpah tinha engolido a Lua. Com a sua estrutura estreita, a barriga parecia enorme e perfeitamente redonda. As irmãs faziam pouco dela, mas Zilpah só sorria. Estava feliz por se ter visto livre das atenções de Jacob, pois os homens não se deitavam com mulheres grávidas. Ela glorificava o seu novo corpo e tinha maravilhosos sonhos de poder e de fuga. Sonhava dar à luz uma filha, embora não uma criança, mas uma espécie de deusa colocada entre as mulheres, uma mulher-espírito. Crescida, com seios adultos. Não usaria mais do que um cinto de cordel, atrás e à frente. Percorreria a terra a grandes passos, e o sangue lunar dela faria as árvores crescerem, por onde quer que passasse.- Adorava adormecer, quando estava grávida - contou Zilpah. - Viajava até tão longe nos meus cobertores, durante aqueles meses. Mas quando o tempo dela chegou, o bebê demorou a aparecer e Zilpah sofreu. As ancas dela eram demasiado estreitas e o trabalho de parto durou de pôr do Sol a pôr do Sol, durante três dias. Zilpah chorava e gritava, certa de que a sua filha iria morrer ou de que ela própria morreria antes de ver a sua menina, a sua Ashrat, pois ela já lhe tinha escolhido o nome e tinha-o dito às irmãs, para o caso de não sobreviver. Foi difícil, para Zilpah. No inicio da noite do terceiro dia do parto, ela estava quase morta por causa das dores, que, muito embora fossem fortes, não pareciam trazer o bebê para mais perto deste mundo. Por fim, Inna recorreu a uma poção que ainda não tinha experimentado e que comprara a um mercador de Canaã. Ela enfiou a mão até à teimosa porta do ventre de Zilpah e massageou-o com uma goma forte e aromática que fez o seu trabalho rapidamente, arrancando um grito agudo da garganta de Zilpah, por essa altura tão rouca por causa do seu trabalho de parto que parecia menos uma mulher e mais um animal apanhado no meio de um incêndio. Inna murmurou um fragmento de um encantamento em nome da antiga deusa da cura.

Gula, apressa o parto

Gula, apelo a ti, infeliz e desesperada

Torturada pela dor tua serva

Sê misericordiosa e ouve esta oração.

Em breve, Zilpah estava em cima dos tijolos, com Lea em pé atrás dela, apoiando o nascimento da criança que tinha sido concebida em nome dela. Zilpah já não chorava, quando Inna lhe disse para fazer força. Estava cinzenta e fria, meia morta e sem forças sequer para gritar, quando o bebê finalmente veio, rasgando-lhe a carne à frente e atrás. Não era a tão esperada filha, mas um rapaz, grande, magro, de cabelo preto. Lea abraçou a irmã e disse que ela tinha sorte em ter tido tal filho e em estar viva. Lea deu-lhe o nome de Gad, que quer dizer sorte, e disse: “Que ele te traga a Lua e as estrelas e segurança na tua velhice.” Mas a alegria na tenda vermelha foi cortada por um outro grito de Zilpah. A dor tinha voltado.

- Estou a morrer. Estou a morrer - soluçava ela, chorando pelo seu filho, que nunca conheceria a mãe. - Ele viverá como eu vivi - gritou ela -, órfão de uma concubina, assombrado por sonhos de uma mãe fria e morta. Infeliz - choramingou ela. - Infeliz filho de uma infeliz mãe. Inna e Raquel agacharam-se de cada lado da mãe em desespero, procurando a fonte desta nova dor. Inna pegou na mão de Raquel e pô-la na barriga de Zilpah, mostrando-lhe uma segunda criança no ventre.- Não desistas ainda, mãezinha - disse Inna a Zilpah. - Terás gêmeos esta noite. Não sonhaste com isto? Não é grande sacerdotisa, pois não? -disse ela, com um sorrisinho.

O segundo bebê veio depressa, uma vez que Gad já tinha aberto o caminho. Caiu do ventre da mãe como fruta madura, mais um rapaz, também escuro, mas muito menor do que o outro. Mas a mãe dele não o viu. Um rio de sangue seguiu o rasto do nascituro, e a luz dos olhos de Zilpah apagou-se. Uma e outra vez Inna e Raquel encheram-lhe o ventre de lã e ervas para estancar a hemorragia. Molharam-lhe os lábios com água e bebidas fortes com mel. Cantaram hinos de cura e queimaram incenso, para impedirem o espírito dela de voar para fora da tenda. Mas Zilpah permaneceu deitada no cobertor, não morta, mas também não viva, durante mais de oito dias. Não se apercebeu da circuncisão de Gad e do seu segundo filho, a quem Lea deu o nome de Aser, por causa da deusa que Zilpah amava. Lea deu de mamar aos rapazes, assim como Bilhah e uma das mulheres dos trabalhadores.

Passados dez dias, Zilpah gemeu e levantou as mãos.- Sonhei com dois filhos - disse ela, com a voz rouca. - É assim? Trouxeram-lhe os bebês, escuros e a prosperar. E Zilpah riu. O riso de Zilpah era um som raro, mas os nomes fizeram-na cacarejar de riso.

- Gad e Aser. Sorte e a deusa. Parece o nome de um mito dos velhos tempos - disse ela. - E eu era Ninmah, a senhora glorificada, de quem nascera tudo.

Zilpah comeu e bebeu, e curou-se, embora não pudesse dar de mamar aos filhos. Mas com essa mágoa podia ela. Tinha dois filhos, ambos lindos e fortes, e não lamentava a sua filha sonhada. Quando eles cresceram e a deixaram, Zilpah lamentou-se do fato de não ter uma menina a quem ensinar coisas. Mas quando os abraçava saboreava apenas a alegria das mães, as mais doces lágrimas. Inna disse-lhe que ela devia ter cuidado para não engravidar pelo menos durante dois anos, mas Zilpah não tinha intenções de passar por aquelas dores outra vez. Tinha dado dois filhos à sua família. Foi procurar Jacob, uma manhã, antes de ele ir para a pastagem, e disse-lhe que outra gravidez com toda a certeza a mataria. Pediu-lhe que se lembrasse disso, quando chamasse uma esposa para a cama dele, e nunca mais dormiu com Jacob.

De fato, Jacob tremera ao saber que tinha tido gêmeos dela. Ele próprio era um de dois gêmeos, coisa que só lhe tinha trazido sofrimento.- Esqueçam que eles partilharam o ventre da mãe - ordenou ele. Assim foi, não porque Jacob tivesse mandado, mas porque os dois eram muito diferentes. Gad, alto e magro, com as suas flautas e o seu tambor, Aser, mais pequeno, magrinho e caseiro, com o talento do pai para animais. A gravidez seguinte de Lea trouxe mais um par de gêmeos - Naftali e Issacar. No entanto, ao contrário dos gêmeos de Zilpah, estes dois eram tão parecidos que, enquanto crianças, nem mesmo a mãe conseguia sempre distingui-los. Só Bilhah, capaz de ver cada folha de uma árvore a uma luz diferente, nunca se deixava enganar por aqueles dois, que se amavam um ao outro com uma espécie de harmonia silenciosa que nenhum dos meus outros irmãos conhecia.

Pobre Bilhah. Depois de Dan, todo os bebês dela - um menino e duas meninas - morreram antes de serem desmamados. Mas ela nunca deixou a dor envenenar-lhe o coração e, em vez disso, amou o resto de nós.

Jacob era, então, um homem com quatro esposas e dez filhos, e o nome dele era conhecido entre os homens do campo. Era um bom pai e levava os seus rapazes com ele para os montes, assim que eles fossem capazes de carregar a sua própria água, e ensinava-lhes os costumes das ovelhas e das cabras, os segredos do bom pastoreio, os hábitos de longas caminhadas, as técnicas da funda e da lança. Também aí, longe das tendas das mães deles, lhes contava a terrível história do pai dele, Isaac. Quando ele e os filhos ficavam de vigia nas pastagens mais distantes, por causa de um chacal que tivesse sido avistado ou simplesmente para desfrutar do ar fresco de uma noite de Verão, ele contava aos filhos a história de como o avô dele, Abraão, atara os pés e as mãos de Isaac e, depois levantara uma faca sobre a garganta do rapaz, para dar a El o sacrifício do seu filho favorito. El era o único deus a que Jacob se curvava - um deus ciumento e misterioso, demasiado assustador (dizia ele) para ser esculpido em ídolo por mãos humanas, demasiado grande para ser contido por qualquer sitio - mesmo um lugar tão grande como o céu. El era o deus de Abraão, Isaac e Jacob, e era o desejo de Jacob que os filhos dele também aceitassem esse El como o deus deles. Jacob era um tecelão de palavras e apanhava o seu público ávido na teia das suas histórias, descrevendo a faca brilhante, os olhos muito abertos de medo de Isaac. A salvação chegara no último momento, quando a faca já estava encostada à garganta de Isaac e uma gota de sangue rolava pelo pescoço do rapaz, tal como as lágrimas que molhavam os olhos de Abraão. Nesse instante, um espírito de fogo travou a mão do velho e trouxe um puro bode branco para ser sacrificado em vez de Isaac. Ruben e Simeão, Levi e Judá olhavam fixamente para o braço do pai, aberto contra a noite estrelada, e tremiam imaginando-se a si próprios no altar.- O deus dos meus pais é um deus misericordioso - dizia Jacob. Mas quando Zilpah ouviu a história contada pelos filhos, disse: - Que misericórdia é essa, que seca o cuspo de medo na boca de Isaac? O deus do vosso pai pode ser grande, mas é cruel.

Anos mais tarde, quando os netos finalmente conheceram o rapaz da história, por essa altura um velho, ficaram horrorizados ao ouvirem como Isaac gaguejava, ainda com medo da faca de seu pai. Os filhos de Jacob adoravam o pai e os vizinhos respeitavam-lhe o sucesso. Mas ele não estava à vontade. Labão era dono de tudo o que ele conseguira - dos rebanhos, dos trabalhadores e das famílias deles, dos frutos do jardim, da lá para o comércio. E Jacob não estava sozinho nos seus ressentimentos contra Labão. Lea e Raquel, Bilhah e Zilpah irritavam-se sob o governo do pai delas, que parecia tornar-se cada vez mais ordinário e arrogante, à medida que os anos passavam. Tratava as próprias filhas como escravas e batia nos filhos delas. Tirava lucro do labor dos teares delas sem uma palavra de agradecimento. Deitava olhares de soslaio às mulheres dos trabalhadores e ficava com a cerveja delas como suborno contra a sua luxúria. Maltratava Ruti todos os dias.

As quatro irmãs falavam dessas coisas na tenda vermelha, para onde sempre iam um dia antes do resto das mulheres do acampamento. Talvez os primeiros anos delas juntas, quando eram as únicas mulheres no acampamento, tivessem criado um hábito nos corpos delas que trouxesse o fluxo de sangue algumas horas antes das mulheres dos trabalhadores. Ou talvez fosse uma necessidade dos corações delas passarem um dia juntas. De qualquer forma, as mulheres dos trabalhadores não se queixavam, nem lhes cabia dizer coisa alguma. Para além disso, as mulheres de Jacob acolhiam-nas sempre com doces, quando entravam para celebrar a lua nova e descansar na palha.

Ruti não dizia nada, mas os seus olhos pisados e as suas nódoas negras eram um modo de as censurar. Não sendo mais velha que Lea, Ruti tinha-se tornado macilenta. Após o nascimento dos seus filhos, Labão tinha-a tratado bem - o bode sovina até lhe tinha trazido pulseiras para lhe abrilhantar os pulsos e os tornozelos. Mas depois ela deixou de engravidar e ele começou a bater-lhe e a chamar-lhe nomes tão feios, que as minhas mães não mos repetiam. Os ombros de Ruti curvaram-se de desespero e perdeu vários dos dentes pela força dos punhos de Labão. Mesmo assim, ele continuou a usar o corpo dela a seu bel-prazer, idéia que fazia a minha mãe tremer.

Mas apesar de muito se condoerem dela, as esposas de Jacob não acolheram Ruti. Ela era a mãe dos rivais dos filhos delas, a inimiga material. As mulheres dos trabalhadores viam o modo como elas se mantinham afastadas de Ruti e imitavam-nas. Mesmo os próprios filhos delas se riam dela e tratavam-na como a um cão. Ruti, já sozinha, mantinha-se à parte. Tornou-se uma miséria de tal modo esfarrapada e estropiada, que ninguém a via. Quando foi ter com Raquel, desesperada por ajuda, parecia mais um fantasma do que uma mulher.- Senhora, imploro-vos. Dai-me as ervas que expulsem o bebê que carrego - sussurrou ela, num silvo frio e inexpressivo. - Prefiro morrer a dar-lhe outro filho, e, se for uma rapariga, afogo-a antes que ela seja suficientemente crescida para sofrer nas mãos dele. Ajudai-me, pelos filhos do vosso marido - disse Ruti, com uma voz vinda do Outro lado da tumba. - Sei que não o fareis por mim. Vós odiais-me, todas vós. Raquel levou as palavras de Ruti às suas irmãs, que a ouviram em silêncio e ficaram envergonhadas.

- Sabes como fazer isso? - perguntou Lea.

Raquel fez um gesto com a mão, desqualificando a pergunta como matéria passível de ser considerada. Não era uma questão difícil, especialmente porque Ruti estava no primeiro mês. Os olhos de Bilhah chisparam.

- Não somos melhores do que ele, por a termos deixado sofrer sozinha, por não a termos reconfortado, por não a termos ajudado. Zilpah virou-se para Raquel e perguntou-lhe:

- Quando é que vais fazer isso?

- Teremos que esperar pela próxima lua nova, quando todas as mulheres vierem ter conosco - respondeu Raquel. - Labão é demasiado estúpido para suspeitar de alguma coisa. Acho que nem mesmo a mais sutil de entre elas se apercebe daquilo que nós sabemos e fazemos entre nós, mas é melhor ter cuidado.

As irmãs não mudaram no seu tratamento aparente de Ruti. Não lhe falavam e não lhe demonstraram qualquer espécie de bondade. Mas à noite, quando Labão ressonava, uma das quatro encontrava-a, enrolada num cobertor imundo ao fundo da tenda, e dava-lhe a comer um caldo ou pão molhado em mel. Zilpah tomou o sofrimento de Ruti como se fosse seu. Não conseguia suportar o vazio dos olhos dela ou o desespero que a rodeava, como se de um nevoeiro vindo do mundo dos mortos se tratasse. Começou a visitá-la todas as noites para lhe murmurar palavras de encorajamento ao ouvido, mas ela limitava-se a estar ali deitada, surda a qualquer esperança. Por fim, a Lua minguou e todas as mulheres entraram na tenda vermelha. Lea pôs-se em frente das mulheres dos trabalhadores e mentiu com o coração puro:

- Ruti não está bem. A menstruação dela está atrasada, mas a barriga dela está quente e tememos que ela aborte esta noite. Raquel fará tudo o que puder, com ervas e encantamentos, para salvar a criança. Cuidemos da nossa irmã Ruti.

Mas, passados alguns minutos, era claro para todas que o que Raquel ministrava a Ruti não tinha a intenção de salvar a criança, mas de a expulsar do ventre de Ruti. Todas olharam, do fundo da tenda vermelha, onde os bolos e o vinho permaneciam intatos, enquanto Raquel misturava uma infusão herbácea negra que Ruti bebeu em silêncio. Ficou deitada, quieta, com os olhos fechados. Zilpah murmurou os nomes de Anath, a curandeira, e da antiga Gula, que assiste as mulheres durante o parto, enquanto Raquel murmurava palavras elogiosas a Ruti, cuja coragem se revelou durante a noite.

Quando as ervas começaram a fazer efeito, causando grandes cãibras, Ruti não fez qualquer barulho: quando o sangue começou a correr, grumoso e escuro, os lábios de Ruti não se abriram. À medida que as horas iam passando, o sangue corria e não parava e, mesmo assim, ela não dizia nada. Raquel encheu muitas vezes o ventre de Ruti com lã, até que, finalmente, tudo acabou.

Nenhum homem soube o que se passou naquela noite. Nenhuma criança contou o segredo, porque nenhuma mulher alguma vez falou daquilo, nem uma palavra, até que Zilpah me contou a história. Por essa altura, não era mais do que um eco vindo do Além.

A minha mãe contou-me que, depois do nascimento dos seus filhos gêmeos, tinha decidido não engravidar mais. Os seios dela eram como os de uma velha, a barriga estava flácida e doíam-lhe as costas todas as manhãs. A idéia de outra gravidez enchia-a de terror, por isso começou a tomar funcho, para impedir que a semente de Jacob mais uma vez criasse raiz.

Mas, então, aconteceu que, estando Inna longe, no Norte, o fornecimento de sementes se tornou escasso. Passaram-se meses e ela sem voltar com as suas bolsas de ervas. Lea experimentou um velho remédio - ensopar um floco de lã em azeite velho e pô-lo na boca do útero antes de se deitar com Jacob. Mas o expediente falhou e, pela primeira vez, o conhecimento de que tinha vida dentro dela deixou-a triste.

Lea não queria levar esta preocupação a Raquel, cuja fome por um bebê seu não tinha diminuído. A esposa fértil procurava poupar os sentimentos da irmã estéril mantendo-se afastada dela. Dividiam os deveres de uma primeira esposa. Lea estava encarregada da tecelagem e da cozinha, do jardim e das crianças. Raquel (ainda bonita e com a cintura estreita) servia o marido e tratava dos mercadores que vinham ao acampamento, tomava conta das necessidades de Jacob e, com as suas capacidades crescentes de curandeira, cuidava das dores e doenças de homens, mulheres e até dos animais.

Os partos e a lua nova juntavam as duas mulheres na tenda vermelha. Mas Lea dormia virada para a parede ocidental, enquanto Raquel abraçava a oriental, e só se falavam por intermédio das irmãs: Lea por Zilpah, Raquel por Bilhah.

Mas, agora, Lea não tinha escolha. Inna não voltara e Raquel era a única que conhecia as ervas, as orações, as massagens apropriadas. Não havia mais ninguém a quem recorrer.

Quando Raquel se foi embora para assistir a um parto num acampamento próximo, Lea deu uma desculpa qualquer acerca de ir buscar água e apressou o passo até se encontrar ao lado de Raquel. As faces de Lea queimavam, e de olhos baixos pediu à irmã a ajuda prestada a Ruti. Raquel surpreendeu-a com a amabilidade da sua resposta.

- Não te livres da tua filha - disse ela. - Estás grávida de uma menina.- Mas então ela irá morrer - disse Lea, pensando nos abortos de Raquel. -(Inna tinha dito que eram todas meninas.) E mesmo que viva, não irá conhecer a mãe, porque eu estou quase morta de tanta gravidez. Mas Raquel argumentou por todas as irmãs, que há muito guardavam os seus tesouros para uma filha.

- Faremos tudo por ti, enquanto estiveres grávida da nossa menina. Lea, por favor - pediu ela, usando o nome da irmã pela primeira vez na memória de cada uma das mulheres. - Faz o que digo antes que conte tudo a Zilpah - ameaçou Raquel. Lea riu e acalmou-se, pois o seu desejo de ter uma filha ainda era forte.

Enquanto dormia no ventre da minha mãe, apareci-lhe a ela e a cada uma das minhas tias em sonhos vividos.

Bilhah sonhou comigo numa noite em que dormia nos braços de Jacob.- Vi-te vestida com um bom vestido de bom linho, coberto por um longo colete de contas azuis e verdes. O teu cabelo estava entrançado e carregavas um bom cesto através de um pasto mais verde do que qualquer outro que eu alguma vez tenha visto. Caminhavas por entre rainhas, mas estavas sozinha.

Raquel sonhou com o meu nascimento.

- Apareceste no ventre da tua mãe com os olhos abertos e com a boca cheia de perfeitos dentinhos. Falaste, enquanto deslizavas para fora, por entre as pernas dela, dizendo: “Olá, mães. Cá estou eu, finalmente. Não há nada que se coma?” Isto fez-nos rir. Havia centenas de mulheres a assistir ao teu nascimento, algumas delas vestidas com roupas estrangeiras, de cores chocantes, com as cabeças rapadas. Todas nós rimos e rimos. Acordei no meio da noite a rir.

A minha mãe, Lea, dizia que tinha sonhado comigo todas as noites.

-Tu e eu sussurrávamos coisas uma à outra como se fôssemos velhas amigas. Tu eras muito sábia, dizendo-me o que comer para acalmar o meu estômago perturbado, como resolver uma questão entre Ruben e Simeão. Eu contei-te tudo sobre Jacob, teu pai, e sobre as tuas tias. Tu contaste-me coisas acerca do outro lado do universo, onde a escuridão e a luz não são separadas. Eras tão boa companhia. Eu detestava acordar. Havia uma coisa que me incomodava naqueles sonhos - disse a minha mãe. - Nunca conseguia ver a tua cara. Estavas sempre atrás de mim, mesmo atrás do meu ombro esquerdo. E, de cada vez que eu olhava para trás para conseguir ver-te por um momento, tu desaparecias. O sonho de Zilpah não estava cheio de riso e de companheirismo. Ela dizia que me tinha visto a chorar um rio de sangue que dera lugar a monstros verdes achatados, que abriam as bocas cheias de filas de dentes afiados.

- Mesmo assim, não tinhas medo - disse Zilpah. - Caminhavas nas costas deles e domavas-lhes a fealdade, e desaparecias na direção do Sol.

Eu nasci durante uma lua cheia, numa Primavera memorável pela plenitude de cordeiros que nasceram. Zilpah ficou do lado esquerdo da minha mãe, enquanto Bilhah a apoiava no lado direito. Inna estava lá, para presenciar a celebração e apanhar a placenta no seu antiquíssimo balde. Mas Lea pediu a Raquel que fosse a parteira e me agarrasse. Foi um parto fácil. Depois de todos os rapazes que tinham vindo antes de mim, eu vim rapidamente e de forma tão indolor quanto um parto o pode ser. Era grande - tão grande quanto Judá, que fora o maior. Inna pronunciou-me “a filha de Lea” com uma voz cheia de satisfação. Tal como com todos os seus bebês, a minha mãe olhou primeiro para os meus olhos e sorriu, ao ver que eram ambos castanhos como os de Jacob e de todos os filhos dele.

Depois de Raquel me ter limpo, passou-me a Zilpah, que me beijou, e depois a Bilhah, que também me beijou. Tomei o seio da minha mãe com a boca ávida, e todas as mulheres do acampamento bateram palmas à minha mãe e a mim. Bilhah deu a comer à minha mãe leite com mel e bolo. Lavou o cabelo de Lea com água perfumada e massageou-lhe os pés.

Enquanto Lea dormia, Raquel, Zilpah e Bilhah levaram-me para fora, para o luar, e puseram-me henna nas mãos e nos pés, como se eu fosse uma noiva. Disseram uma centena de bênçãos à minha volta, ao Norte, ao Sul, ao Leste e ao Oeste, para me protegerem de Lamashtu e dos outros demônios ladrões de bebês. Deram-me mil beijos. De manhã, a minha mãe começou a contar dois ciclos da Lua dentro da tenda vermelha. Após o nascimento de um rapaz, as mães descansavam de uma lua à outra, mas o nascimento de uma dadora de vida requeria um maior período de separação do mundo dos homens.- O segundo mês foi de enorme prazer - disse-me a minha mãe. - As minhas irmãs tratavam-nos a ambas como rainhas. Nunca foste deixada deitada em cima de um cobertor por um só instante. Houve sempre braços para te segurar, para te fazer festinhas, para te abraçar. Púnhamos óleo na tua pele de manhã e à noite. Cantávamos-te canções ao ouvido, mas não te fazíamos cu-cu, nem te falávamos na linguagem dos bebês. Falávamos-te com todas as nossas palavras, como se fosses uma irmã crescida e não um bebê. E, antes de teres um ano, respondias-nos sem trocares as letras.

Enquanto era passada da minha mãe para uma tia atrás da outra, elas debatiam o meu nome. Isto levou a uma longa sessão de suspiros e de recordações de Ada, que ficaria tão deliciada com todos os seus netos. Mas Zilpah preocupava-se com o fato de esse nome poder confundir os demônios, que poderiam pensar que Ada tinha escapado do mundo inferior e vir atrás de mim.

Zilpah gostava do nome Ishara - que era uma homenagem à deusa e que era fácil de rimar. Ela tinha planos para muitas canções em minha honra. Mas Bilhah não gostava do som daquele nome. “Parece um espirro”, disse ela.

Raquel sugeriu Bentresh, nome hitita que ela ouvira da mulher de um comerciante. “Parece música”, disse ela.

Lea ouviu-as a todas, e quando as suas irmãs começaram a ficar demasiado excitadas nas suas discussões acerca da filha dela, ameaçou chamar-me Lillu, um nome que todas odiavam.

Na segunda lua cheia após o meu nascimento, Lea voltou a juntar-se ao seu marido e disse o meu nome a Jacob. Disse-lhe que fora eu própria que o escolhera.

- Durante os meus sessenta dias, murmurei cada nome que as minhas irmãs sugeriram ao teu pequeno ouvido. Todos os nomes que alguma vez tinha ouvido, e mesmo alguns que eu própria inventei. Mas quando disse “Dina” deixaste cair o mamilo da tua boca e olhaste para mim. É assim que és Dina, a minha última criança. A minha filha. A minha memória.

José foi concebido nos dias que se seguiram ao meu nascimento. Raquel tinha ido ter com Jacob a levar-lhe a notícia de que ele finalmente fizera uma filha saudável. Os olhos dela brilhavam enquanto lhe dizia e Jacob sorriu ao ver como a sua esposa estéril retirava prazer do bebê de Lea. Naquela noite, depois de se terem apreciado um ao outro à maneira suave dos casais que se conhecem bem, Raquel sonhou com o seu primeiro filho e acordou a sorrir.

Não disse nada a ninguém, quando o seu sangue lunar não veio. As muitas falsas partidas e as perdas logo no início assombravam-na, e ela guardou muito bem o seu segredo. Foi para a tenda vermelha na lua nova e mudou a palha como se a tivesse sujado. Ela era tão esguia, que o ligeiro engrossar da sua cintura passou despercebido a todas menos a Bilhah que manteve segredo sobre o assunto.

Ao quarto mês, Raquel foi ter com Inna, que lhe disse que os sinais pareciam bons para aquele rapaz, e Raquel começou a ter esperança. Mostrou a barriga inchada às irmãs, que dançaram em circulo em volta dela. Pôs a mão de Jacob no montinho do ventre dela. O pai de dez filhos chorou.

Raquel ficou com as costas vergadas. Os pequenos seios dela ficaram túrgidos e doridos. Os seus tornozelos perfeitos incharam. Mas ela não teve senão prazer nas queixas das mulheres grávidas. Começou a cantar, enquanto tomava conta das fogueiras usadas para cozinhar, e dedicou-se ao seu fuso. A família ficou surpreendida com a doçura da sua voz, que nunca tinham ouvido elevar-se para cantar. Jacob dormiu com Raquel durante todas as noites da gravidez dela, uma chocante quebra de costumes e um incitamento aos demônios. Mas ele não deu ouvidos aos avisos, e Raquel adorava as atenções dele, à medida que se ia avolumando.

No oitavo mês, Raquel começou a ficar doente. A pele dela ficou pálida e o cabelo caiu-lhe. Mal podia estar de pé sem cair de desmaio. O medo engoliu-lhe a esperança e ela mandou chamar Inna, que lhe receitou caldos fortes feitos de ossos de bodes e de touros. Disse a Raquel para descansar, e vinha visitar a amiga o mais freqüentemente que podia.

Inna veio assistir ao parto de Raquel. Os pés do bebê estavam virados para baixo e ela sangrou muito antes de ele aparecer. Os esforços de Inna para virar a criança causaram dores terríveis a Raquel e ela gritou de um modo que fazia tanta pena, que as crianças do acampamento começaram todas a chorar ao ouvi-la. Jacob estava sentado na bamah, olhando fixamente a cara da deusa, pensando se lhe deveria fazer alguma oferenda, muito embora tivesse prometido só adorar o deus do pai dele. Foi arrancando erva e segurou a cabeça até não poder agüentar mais os gritos dela, e foi para a pastagem mais alta até Raquel ter dado à luz. Passaram dois dias, até Ruben ter sido enviado para o ir buscar. Dois terríveis dias, em que Lea e Zilpah e Bilhah se despediram de Raquel, pois parecia certo que ela iria morrer.

Mas Inna não desistiu. Deu a Raquel cada erva e cada remédio da sua bolsa. Experimentou combinações que nenhum ervanário tinha usado. Murmurou orações secretas, embora não fosse iniciada nos mistérios das palavras mágicas e dos encantamentos.

Raquel não desistiu, mas lutou pelo desejo do seu coração, negado durante quinze anos. Lutou como um animal, com os olhos a rolar, o suor a escorrer. Mesmo passados três dias e três noites, não chamou a morte para a libertar do seu tormento. “Ela era um portento de se ver”, disse Zilpah.

Por fim, Inna conseguiu fazer com que o bebê desse a volta. Mas o esforço pareceu partir algo dentro de Raquel, cujo corpo foi tomado por um tremor que não passava. Os olhos rolaram-lhe para dentro da cabeça e o pescoço estava tão tenso que a cara se lhe tinha virado para as costas. Era como se demônios se tivessem apossado do corpo dela. Até Inna ficou sem fôlego.

E, então, acabou. O corpo de Raquel foi libertado das garras da morte, a cabeça do bebê apareceu e Raquel reuniu as últimas energias para fazer força.

Ele era pequeno, com uma grande cobertura de cabelo. Um bebê como todos os outros bebês, enrugado, feio e perfeito. Mas o melhor de tudo é que ele era de Raquel. A tenda ficou em silêncio, enquanto cada mulher chorava lágrimas de gratidão. Sem uma palavra, Inna cortou o cordão e Bilhah recolheu a placenta. Lea limpou Raquel e Zilpah lavou o bebê. Suspiraram e secaram os olhos. Raquel viveria para ver o seu bebê crescer.

Raquel recuperou lentamente, mas não podia dar de mamar. Três dias depois do nascimento de José, os seios dela ficaram duros e quentes. Compressas quentes aliviaram-lhe a dor, mas o leite secou. Lea, que me estava a amamentar, deu de mamar a José, também. A velha raiva de Raquel por Lea avivou-se com aquilo, mas desapareceu quando descobriu que José era um bebê irrequieto, que gritava e esperneava até que o pusessem nos braços da mãe.