A Tenda Vermelha

Anita Diamant · Capítulo 3 de 18

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A Tenda Vermelha

Primeira Parte

 

As Histórias da Minha Mãe

 

CAPÍTULO 1

 

Esta história começa no dia em que o meu pai apareceu. Nesse dia irrompeu Raquel no acampamento em correria desatada, berrando como um bezerro desmamado. Antes que alguém tivesse tempo para repreendê-la por se comportar como um rapaz esgrouviado, extravasou dum só fôlego uma torrente de palavras que caíram como água na areia, uma história inverossímil acerca dum estranho à beira do poço. Um maluco sem sandálias. De cabelo emaranhado. Cara enfarruscada. Beijou-a na boca, um primo, filho da tia delas, a quem tinha apascentado carneiros e cabras e defendido o poço dos salteadores.- Que estás tu para aí a dizer? - perguntou Labão, seu pai. - Quem é que veio ao poço? Quem é que o atendeu? Quantos sacos traz?- Ele vai casar comigo - disse Raquel peremptoriamente, assim que conseguiu recuperar o fôlego. - Diz que lhe estou destinada e que se pudesse casava comigo amanhã. Vem a caminho daqui para falar consigo.

- Casar contigo? - disse Lea, de sobrolho carregado, ao mesmo tempo que cruzava os braços e atirava os ombros para trás. - Tu só és casadoira daqui a um ano - disse a rapariga, que apesar de poucos anos mais velha do que Raquel já tomava conta dos parcos haveres do pai. Quanto à mulher de Labão, já na casa dos quarenta, gostava de se dirigir à irmã em tom arrogante:

- Que vem a ser isto? Que história é essa de ele te ter beijado? De fato, tratava-se duma terrível violação dos costumes, mesmo sendo primo, mesmo sendo Raquel suficientemente jovem para ser tratada como criança.

Raquel espetou o lábio inferior, num beicinho que ainda poucas horas antes passaria por coisa infantil. Algo se passara desde que ela tinha aberto os olhos nessa mesma manhã com a idéia urgente de descobrir o lugar onde Lea escondia o mel. Lea, essa grande burra, nunca se dispunha a partilhá-lo com ela, guardava-o para os convidados, de vez em quando dava umas pitadas a Bilhah e a mais ninguém. Raquel só conseguia pensar no desconhecido desgrenhado cujos olhos tinham ido ao encontro dos dela com uma determinação que a fizera tremer até aos ossos.

Raquel sabia o que Lea queria dizer, mas o fato de não ter tido ainda a primeira regra não era coisa que a preocupasse naquele instante. Sentiu a cara a arder.

- Que vem a ser isto? - disse Lea, subitamente divertida.- Olhem para ela, a rapariga ficou apanhadinha, já alguma vez a tinham visto corar?

- O que é que ele te fez? - perguntou Labão, rosnando como um cão ao cheiro de intrusos no rebanho. Cerrou os punhos, eriçou o sobrolho e concentrou toda a sua atenção em Raquel, a filha a quem nem uma só vez batera, a quem raramente olhava de frente. Ela assustava-o desde o instante em que nascera uma vinda ao mundo violenta, lastimosa e mortal. Quando a criança emergiu, as mulheres viram chocadas que a causa de tanta dor, sofrimento e sangue (e por fim da morte da mãe) era afinal uma menina invulgarmente pequena.

A figura de Raquel era arrebatadora como a Lua e não menos bela. Ninguém podia negar-lhe a beleza. Mesmo quando eu era criança e adorava o rosto da minha mãe, já sabia que a beleza de Lea empalidecia perante a irmã mais nova, sensação que sempre me fez sentir traidora. E, no entanto negá-lo seria negar o próprio calor do Sol. A beleza de Raquel era invulgarmente cativante. Cabelo castanho com reflexos bronzeados, pele dourada, cor de mel, perfeita. Neste conjunto ambarino, a nota surpreendente de uns olhos escuros, não simplesmente castanho-escuros, mas negros como obsidiana polida e fundos como um poço. Embora fosse pequenina (de ossatura miúda, mesmo durante a infância), possuía mãos musculosas e voz rouca, como se falasse pela boca de outra mulher muito maior.

Ouvi um dia dois pastores discutirem sobre o melhor traço de Raquel, jogo a que também eu já me dedicara. Para mim, o traço mais encantador de Raquel eram as maçãs do rosto, altas e salientes como figos. Quando eu era bebê, tinha a mania de tocar naquelas rosetas, a ver se conseguia colher o fruto do seu sorriso. Quando percebi que não podia arrancá-las, passei a lambê-las, à cata do gosto que teriam. E a minha linda tia ria-se com um riso que lhe vinha do fundo da barriga. Gostava mais de mim do que de todas as outras sobrinhas juntas pelo menos assim o dizia, enquanto me tecia elaboradamente as tranças, para as quais a paciência ou o tempo da minha própria mãe nunca bastavam. É praticamente impossível exagerar a dimensão da beleza de Raquel. Já em bebê era uma jóia onde quer que se encontrasse, um ornamento, um prazer raro a criança de olhos negros e cabelos dourados. Deram-lhe a alcunha de Tuki, que significa “doçura”.

Todas as mulheres se prestaram a cuidar de Raquel quando Huna, a mãe dela, morreu. Huna era uma parteira expedita, famosa pelas suas risadas guturais e muito pranteada pelas outras mulheres. Ninguém se queixou por ter de cuidar da órfã de Huna, e até os homens, sobre quem as crianças exerciam tão pouco fascínio como as pedras da lareira, não se coibiam de passar as mãos calejadas por aquelas bochechas singulares. Depois levantavam-se, cheiravam a ponta dos dedos e abanavam a cabeça.

Raquel cheirava a água. Verdade! Por onde quer que passasse a minha tia, sentia-se um cheiro a água fresca. Era um cheiro incrível, viçoso, delicioso, que enchia de vida e frescura aqueles montes empoeirados. O fato é que durante muitos anos o poço de Labão matou a fome à família. A princípio houve esperança de que Raquel viesse a tornar-se vidente e fosse capaz de descobrir veios de água. Ela não fez jus à expectativa, mas ainda assim o aroma a água manteve-se agarrado à sua pele e às suas roupas. Quando uma das crianças desaparecia, muitas vezes íamos encontrá-la adormecida nos cobertores de Raquel, a chuchar no dedo. Não admira que Jacob tivesse ficado igualmente rendido. Os outros homens tinham-se habituado à figura de Raquel e ao seu espantoso perfume, mas a Jacob deve ter semelhado uma aparição. Olhou-a diretamente nos olhos e ficou subjugado. Quando a beijou, Jacob gritou no mesmo tom do homem que se deita com a mulher. E por tal som despediu Raquel a sua infância.

Labão reparou logo que ele vinha de mãos vazias, mas também viu que a roupa e a túnica eram de boa qualidade, o odre de bom fabrico, e o cabo da faca, talhado em osso polido. Jacob postou-se diante de Labão e, vergando a cabeça, apresentou-se:

- Tio, eu sou filho de Rebeca, sua irmã, filha de Nacor e de Milca, assim como o tio é filho deles. Minha mãe ordenou-me de vir até vós, meu pai baniu-me para junto de vós. Contar-vos-ei toda a história quando não me encontrar tão sujo e descomposto. Solicito a vossa hospitalidade, tão afamada em toda a região.

Raquel abriu a boca para falar, mas Lea deu-lhe um puxão no braço e num relance mandou-a calar, nem mesmo a juventude de Raquel justificava que ela interrompesse um homem quando este se dirigia a outro. Raquel bateu com o pé no chão e pensou pensamentos envenenados acerca da irmã, essa coruja mandona, cabra vesga. As palavras de Jacob acerca da afamada hospitalidade de Labão não passavam de mentira cortês, pois Labão estava longe de sentir satisfação pelo aparecimento do sobrinho. Poucas coisas provocavam contentamento no velho, e menos ainda a aparição inesperada de estranhos esfomeados. No entanto, nada havia a fazer - tinha de honrar a reclamação de parentesco, impossível negar a relação entre ambos. Jacob sabia os nomes e Labão reconheceu o rosto da irmã no homem que tinha diante de si.

- És bem-vindo - disse Labão, sem sorrir nem retribuir a saudação do sobrinho. Deu meia volta e, conforme se afastou, apontou o polegar a Lea, encarregando-a de tomar conta daquela chatice. A minha mãe acenou em concordância, encarou o forasteiro e assim ficou a conhecer o primeiro homem adulto que não desviava a vista ao confronto dos seus olhos.

A visão de Lea era perfeita. Segundo uma das fábulas ridículas tecidas à volta da história da minha família, arruinou os olhos ao chorar um rio de lágrimas perante a idéia de casar com meu tio Esaú. Se em tal acreditam, talvez estejam também interessados em comprar um sapo mágico que fará desfalecer de amor todo aquele que vos olhar. Mas os olhos de minha mãe não enfraqueceram, nem adoeceram, nem remelaram. A verdade é que os olhos dela enfraqueciam os outros e a maioria das pessoas preferia olhá-la de esguelha. Um era lápis-lazúli, o outro verde como o vidro egípcio.

Quando ela nasceu, a parteira declarou vinda ao mundo uma bruxa e a necessidade de afogá-la antes que lançasse alguma maldição sobre a família. Mas a minha avó Ada esbofeteou a estúpida mulher e amaldiçoou-lhe a língua.

- Mostra-me a minha filha - disse Ada em voz tão alta e altiva que até os homens lá fora a ouviram. Ada apelidou o seu último rebento de Lea, que significa “senhora”, e chorou uma prece para que a criança sobrevivesse, pois já enterrara sete filhos e filhas.

Muitos continuaram convencidos de que a criança era um demônio. Não se sabe porquê, Labão, alma supersticiosa além dos limites da imaginação, sempre a bufar e a reverenciar cada vez que virava à esquerda, sempre a uivar a cada eclipse lunar, recusou a sugestão de que Lea devia ser abandonada à morte no relento da noite. Resmungou umas quantas imprecações por causa do sexo feminino da criança, mas de resto passou a ignorar a filha e nunca mencionou a sua peculiaridade. Mais uma vez, as mulheres suspeitaram que o velho era incapaz de distinguir as cores.

Nunca esmoreceu a cor dos olhos de Lea (ao contrário do que esperavam e prediziam certas mulheres), antes carregavam na diferença e na estranheza quando acicatada. Embora pestanejasse, como toda a gente, este reflexo era quase invisível, de modo que parecia nunca fechar os olhos. Mesmo o mais amoroso dos seus olhares dava parecenças de fixidez de cobra, poucos suportavam olhá-la a direito. As exceções eram recompensadas com beijos e risos e sopas de mel. Jacob voltou a fixar os olhos de Lea, tanto bastou para que ela simpatizasse imediatamente com ele. A verdade é que Lea já tinha reparado nele, por ser tão alto. Ela era uma mão travessa mais alta do que a maioria dos homens seus conhecidos, por isso a todos rejeitava embora soubesse fazer injustiça, pois certamente, de todas essas cabeças que mal lhe chegavam ao nariz, algumas pertenceriam a muito bons homens. Mas desagradava-lhe a idéia de deitar-se ao lado de um par de pernas mais curtas e fracas do que as suas. Não que alguém a tivesse pedido. Ela bem sabia que lhe chamavam Dragão, Olhos de Diabo e outras coisas ainda piores.

O seu desagrado por homens baixos fora reforçado por um sonho em que um homem muito alto lhe sussurrara ao ouvido. As palavras não as recordava, mas tinham-na acordado e posto as coxas em brasa. Assim que viu Jacob lembrou-se do sonho e esbugalhou os olhos. Jacob também ficou com boa impressão de Lea. Embora ainda estivesse a zunir do encontro com Raquel, não podia ignorar a presença de Lea. Não só era alta, como bem proporcionada e forte. Fora abençoada com um peito cheio, alto, sempre a espreitar fora do vestido. Os antebraços eram de rapaz, mas a andadura era de mulher com quadris promissores. Lea sonhara um dia com uma romã aberta em dois, com oito sementes vermelhas à vista. Segundo Zilpah, o sonho significava que ela havia de ter oito filhos saudáveis, e a minha mãe estava tão certa disso como estava certa da maneira como fazia o pão e a cerveja. O odor de Lea não constituía mistério. Cheirava ao fermento que todos os dias amassava e cozia. Tresandava a pão, a bem-estar e (pelo menos assim pareceu a Jacob) a sexo. Deslumbrado da estatura daquela mulher, cresceu-lhe a água na boca. Tanto quanto sei, nunca disse uma palavra acerca dos olhos dela.

A minha tia Zilpah, segunda filha de Labão, dizia recordar-se de tudo quanto lhe acontecera. Garantia ter memória da sua própria vinda ao mundo e até dos dias passados na barriga da mãe. Jurava recordar-se da morte da mãe na tenda vermelha, onde caiu doente dias depois de Zilpah ter vindo ao mundo, de pés para a frente. Lea zombava destas gabarolices, embora não o fizesse diante de Zilpah, que era a única pessoa capaz de obrigar a minha mãe a calar a boca.

As recordações de Zilpah quanto à chegada de Jacob eram bem diversas das de Raquel ou Lea, mas é preciso ver que Zilpah era tida em pouca conta pelos homens, que ela descrevia como sendo gente peluda, bruta e meio humana. Dizia que as mulheres precisavam dos homens para gerar crianças e deslocar objetos pesados, mas de resto não lhes entendia o propósito, e muito menos lhes achava encanto. Amou apaixonadamente os filhos até lhes ver crescer a barba e daí para a frente mal lhes dirigiu o olhar.

Quando tive idade suficiente para lhe perguntar como foi quando o meu pai chegou, ela disse que a presença de El pairou à volta dele, única razão de o fazer digno de nota. Zilpah disse-me que El era o deus da trovoada, das cumeadas e dos sacrifícios horrendos. El era capaz de exigir a um pai que cortasse com o filho que atirasse com ele para o deserto ou pura e simplesmente o esquartejasse. Era um deus estranho, inflexível, incompreensível e frio, mas, isso lhe reconhecia, consorte à altura da Rainha dos Céus, a quem amava de todas as maneiras e feitios. Zilpah era mais pronta a falar dos deuses e das deusas do que das pessoas. Coisa que me enfastia por vezes, mas ela expressava-se de forma encantadora e eu adorava as histórias acerca de Ninhursag, a grande mãe, e de Enlil, o primeiro pai. E depois ela debitava em tom esganiçado, ao som dum tamborzinho de barro, cânticos grandiosos de gente verdadeira que se encontrara com as divindades e com elas dançara ao som das flautas e dos címbalos.

Desde a idade da sua primeira regra, Zilpah teve-se na conta de uma espécie de sacerdotisa, guardadora dos mistérios da tenda vermelha, filha de Asherah, irmã de Siduri, conselheira das mulheres. Era uma tolice, pois apenas os sacerdotes serviam as deusas dos grandes templos da cidade, enquanto as sacerdotisas serviam os deuses. De resto, Zilpah não possuía nenhum dos dons oraculares. Faltava-lhe o talento para as ervas e era incapaz de profetizar, conjurar ou ler nas entranhas das cabras. A romã com oito sementes de Lea foi o único sonho que ela conseguiu interpretar corretamente.

Zilpah era filha de Labão, concebida por uma escrava chamada Mer-Nefat, comprada a um mercador egípcio nos tempos em que Labão ainda tinha cabedais para tanto. Segundo Ada, a mãe de Zilpah era uma lingrinhas com cabelos de azeviche, tão calada que as pessoas até se esqueciam que ela possuía o dom da fala, traço que a filha não herdou. Zilpah era poucos meses mais nova do que Lea, quando a mãe de Zilpah morreu, Ada amamentou-as ambas. Juntas brincavam e andavam por toda a parte, como é costume nas crianças, juntas guardavam o rebanho, colhiam amoras, inventavam cantigas e riam. Além de Ada, ninguém lhes fazia falta neste mundo.

Zilpah era quase tão alta como Lea, mas mais esguia e menos robusta de peito e pernas. De cabelo negro e tez escura, Lea e Zilpah semelhavam ao pai e partilhavam o nariz da família, tal qual Jacob - um magnificente bico de falcão que mais parecia alongar-se quando sorriam. Ambas falavam com as mãos, juntando as pontas do polegar e do indicador em oval enfática. Quando o sol as obrigava a franzir os olhos, idênticas rugas desenhavam no canto dos olhos.

Mas o cabelo de Lea era encaracolado, o de Zilpah escorrido até à cintura. Era o seu traço mais atraente, de modo que a minha tia detestava cobri-lo. Os toucados esmagavam-lhe a cabeça, dizia ela, levando a mão à cara com gesto tolo. Mesmo em criança era-me permitido rir dela. As enxaquecas justificavam a sua permanência na tenda das mulheres. Não se juntava a nós quando preguiçávamos ao sol da Primavera ou à brisa quente da noite. Mas quando era a lua nova (delgada e esquiva, mal se desenhando no céu), Zilpah deambulava pelo acampamento, bamboleando a cabeleira longa, batendo palmas, ofertando canções para encorajar o regresso da Lua.

Quando Jacob apareceu, Bilhah tinha oito anos e não reteve memória desse dia. “Devia estar em cima duma árvore qualquer, a chuchar nos dedos e a contar nuvens”, dizia Lea, repescando a única imagem que restou da infância de Bilhah.

Bilhah era a órfã da família. Último rebento da semente de Labão, era filha duma escrava chamada Tefnut - uma negra de figura diminuta que fugiu numa noite em que Bilhah já tinha idade suficiente para perceber que fora abandonada. “Ela nunca se refez dessa mágoa”, dizia Zilpah com muita brandura, sempre condoída da dor alheia. No meio de toda aquela gente, Bilhah era uma solitária. Não só por ser a mais nova e ter outras três irmãs capazes de dar conta das tarefas. Bilhah era uma menina triste, sempre esquecida a um canto. Pouco falava, raramente sorria. Nem a minha avó Ada, que adorava crianças, que recolhera Zilpah, órfã de mãe, na sua roda e que era doida por Raquel, conseguia acalentar essa estranha avezinha solitária que nunca cresceu mais do que um menino de dez anos e cuja pele era da cor do âmbar escuro.

Bilhah não era bela como Raquel, nem competente como Lea, nem despachada como Zilpah. Era miudinha, escura, silenciosa. Ada exasperava-se com o cabelo dela, que mais encaracolado e revolto não podia ser. Em comparação com as outras duas meninas sem mãe, Bilhah andava desgraçadamente abandonada.

Entregue a si mesma, subia às árvores e punha-se a sonhar. Do seu poleiro estudava o mundo, as manchas do céu, os hábitos dos animais e das aves. Conhecia todos os pássaros de cada bando, a cada animal dava um nome secreto correspondente à sua personalidade. Uma noite regressou dos campos e sussurrou a Ada que havia uma cabra negra que ia parir gêmeos. Ora não só não era época de as cabras terem crias, como aquela cabra há quatro estações era estéril. Ada abanou a cabeça perante o desconcerto de Bilhah e enxotou-a.

No dia seguinte Labão trouxe notícia dum estranho acontecimento ocorrido nos rebanhos, a sua narrativa coincidia ponto por ponto com a predição de Bilhah. Ada foi ter com a menina e pediu-lhe desculpa. “Bilhah é muito esperta”, disse Ada às outras filhas, que olharam para a irmã ignorada e repararam, pela primeira vez, na bondade dos seus olhos negros.

Quem prestasse um pouco de atenção via logo que Bilhah era boa. Era boa assim como o leite é bom, assim como a chuva. Bilhah observava os céus e os animais, observava também a família. Nos recantos escuros das tendas viu Lea esconder a sua mortificação dos olhos das outras pessoas. Reparou que Raquel temia a escuridão e Zilpah sofria de insônias. Bilhah sabia que Labão tinha tanto de mesquinho como de estúpido.

Bilhah diz que a sua primeira recordação de Jacob data do dia em que a este nasceu a primeira criança. Era um rapaz (Ruben) e, claro está, fez as delícias de Jacob, que levantou a criança nas mãos e se pôs a dançar com ela à volta da tenda vermelha.

- Ele era muito carinhoso com o menino - disse Bilhah. Não deixava que a Ada lhe tirasse do alcance da vista, mesmo quando a criança começava a chorar. Dizia que o filho era um milagre de perfeição. Pus-me ao lado dele e ficamos juntos em adoração à criança. Contamos-lhe os dedos e acariciamos-lhe a moleirinha. Deliciamo-nos com ele e com a alegria um do outro. E foi assim que conheci teu pai Jacob.

Jacob chegou ao entrar da noite, numa semana de lua cheia, comeu uma refeição simples de pão de cevada e azeitonas e caiu num sono pesado que se prolongou pelo outro dia adiante. Lea ficou mortificada com a simplicidade da refeição que lhe tinham oferecido, de modo que no dia seguinte preparou um festim só visto em dias de grande festa.- Suei aquela refeição como nunca tinha suado na cozinha - dizia Lea, quando me contava esta história, no calor abafado do poente, enquanto balouçávamos os jarros de pescoço alto, para coar a água da coalhada de cabra.

- O pai dos meus futuros filhos estava naquela casa, disso tinha eu a certeza. Eu bem via que ele estava de olho posto em Raquel, em cuja beleza eu reparei pela primeira vez. Mesmo assim, como ele olhava para mim sem pestanejar, não perdi a esperança. Matei um cabrito, um macho imaculado, como se fosse um sacrifício aos deuses. Pisei milho até o farelo ficar macio como as nuvens. Vasculhei as bolsas onde costumava guardar as especiarias mais preciosas e servi-me da última pitada de romã seca. Pilei, cortei e espremi que nem uma doida, convencida que ele havia de perceber o que eu lhe estava a oferecer. Ninguém me veio ajudar a cozinhar, aliás nem eu teria permitido que outras mãos tocassem no pão ou no cabrito, nem sequer no caldo do milho. Nem à minha mãe teria deixado verter água num pote - disse ela com um risinho. Eu adorava esta história e pedi-lhe vezes sem conta que voltasse a contá-la. Lea era sempre ponderada, diligente, sóbria para além de qualquer leviandade. No entanto, quando recordava a primeira refeição confeccionada para Jacob, parecia uma rapariga tonta e lamecha.- Eu era uma pateta - disse ela. - Queimei o primeiro pão e desatei a chorar. Até sacrifiquei um pedaço da sêmea seguinte, para favorecer as simpatias de Jacob. Tal como quando cozemos os bolos para a Rainha dos Céus ao sétimo dia, arranquei um punho de massa, beijei-o e ofereci-o ao fogo em sinal de esperança de que o homem me pretendesse. Nunca contes nada disto à Zilpah, senão moem-me o juízo -disse Lea, num sussurro conspirativo e zombeteiro. - E, claro está, belos açoites me havia de dar o nosso avô Labão, se fizesse a menor idéia da quantidade de comida que eu servi a um maltrapilho que mais não tinha do que um caneco de azeite para oferecer. Mas eu enchi o velho com tamanha quantidade de cerveja que ele nem piou. Ou talvez não tenha dito nada das minhas extravagâncias por saber que aquele parente lhe trazia sorte. Talvez tenha adivinhado que estava ali um genro que fraco dote havia de reclamar. Era difícil perceber o que ía na cabeça do velho. Parecia um boi, o teu avô.

- Um poste - disse eu.

- Um penedo - disse a minha mãe.

- Uma poia de cabra - disse eu.

A minha mãe apontou o dedo para mim como se eu fosse uma menina marota, mas depois desatou a rir, até porque descascar em Labão era o passatempo preferido das filhas.

Nunca mais me esqueci da ementa. Anho temperado com coentros, marinado em soro de leite de cabra e molho de romã. Duas qualidades de pão: ázimo de cevada e levedado de trigo. Marmelada e figos guisados com amoras e tâmaras frescas. Azeitonas, escusado será dizer. E para beber, um vinho doce de boa casta, três espécies de cerveja e caldo de cevada.

Tal era o cansaço de Jacob, que esteve à beira de faltar à refeição tão apaixonadamente concebida. Zilpah perdeu imenso tempo a tentar acordá-lo e por fim teve de deitar-lhe água fria no pescoço, coisa que o pôs tão alvoroçado que ele desatou a esbracejar e a deitou ao chão, onde ela ficou estendida a bufar como um gato.

Zilpah não simpatizou nada com Jacob. Percebeu muito bem que a presença dele vinha alterar as coisas entre irmãs e enfraquecer os seus laços com Lea. Irritou-a ser ele muito mais atraente do que os outros homens que elas conheciam e que não passavam de pastores desbocados, além dos mercadores viandantes que olhavam para as irmãs como se fossem um rebanho de ovelhas.

Jacob era bem-falante e bem-apessoado. E assim que ele cruzou olhares com Lea, Zilpah percebeu que a vida ia levar grande volta. Estava danadinha por travar a mudança, mas não sabia como. Finalmente Jacob levantou-se, foi sentar-se à direita de Labão, à porta da tenda, e comeu até fartar. Lea lembrava-se de cada dentada dele.- Atacou o guisado de anho vezes sem conta e serviu-se de três pedaços de pão. Reparei que gostou dos doces e que preferiu a cerveja doce à bebida acre que Labão despejou pela garganta abaixo. Já sei como lhe conquisto a barriga, pensei eu. Hei-de descobrir como conquistar o resto. Esta tirada fazia sempre as minhas outras mães rebolarem de riso, pois embora Lea fosse uma mulher prática, era também a mais lúbrica das irmãs.

- E então, depois de tanta trabalheira, depois de tanta comezaina, que imaginas tu que aconteceu? - perguntou Lea, como se eu não conhecesse tão bem a resposta como conhecia a pequena cicatriz em forma de crescente que ela tinha na raiz do polegar.

- O que se passou foi que Jacob adoeceu. Vomitou tudo até à última migalha. Deitou tudo fora até ficar de rastos e a ganir. Implorou a El, a Ishtar, a Marduk e à sua abençoada mãe que o livrassem de tamanha agonia ou o deixassem morrer. Zilpah, malvada, esgueirou-se para dentro da tenda a ver como estava ele e depois veio a correr contar-me, pintando as coisas ainda piores do que já eram. Disse-me que ele estava mais branco do que a lua cheia e vomitava as entranhas. Fiquei mortificada… e aterrorizada. E se ele morresse por causa dos meus cozinhados? Ou, o que ia dar no mesmo, se ele recuperasse e viesse culpar-me das suas desgraças? Enfim, quando vi que mais ninguém adoeceu a seguir à refeição, percebi que a culpa não era da comida. Mas depois, vê lá a minha parvoice, meteu-me na cabeça que o meu toque lhe era prejudicial. Ou que talvez tivesse errado na oferenda do pão, que em vez de o preitear a um deus ou uma deusa, tivesse feito praga maléfica. Tornei-me piedosa outra vez e verti o que restava de bom vinho, em nome de Anath, o Curandeiro. Isto foi pela terceira noite dos seus padecimentos, e na manhã seguinte ele estava curado. Neste ponto da história ela sempre abanava a cabeça e suspirava. Não foram bons auspícios para tão frutuosos amantes, verdade seja dita.

Jacob restabeleceu-se rapidamente e por ali foi ficando, até que por fim parecia que sempre tinha vivido naquele lugar. Tomou a seu cargo os rebanhos magricelas, de modo que Raquel já não precisava andar atrás dos animais, tarefa que lhe cabia a ela na falta de irmãos. O meu avô culpava o estado lastimoso dos rebanhos e a sua míngua ao fato de todos os filhos varões terem morrido à nascença ou durante a infância, deixando-o só com filhas. Não tinha a mínima consciência da sua própria indolência, convencido de que só um filho lhe podia alterar a sorte. Consultou os sacerdotes locais, que o mandaram sacrificar os melhores carneiros e um touro para que os deuses lhe dessem filho varão. Deitou-se com as mulheres e as concubinas no meio dos campos, como aconselhou uma velha parteira, mas o único ganho que daí tirou foi urticária nas costas e arranhões nos joelhos. Quando Jacob apareceu, já ele desesperara de ter um filho ou qualquer outra melhoria na vida. Nada esperava de Ada, adoentada e já fora da idade de ter filhos. As outras três mulheres tinham morrido ou fugido e ele já não se podia dar ao luxo de pagar uma jovem escrava enjeitada, e menos ainda outra noiva. De modo que dormia sozinho, exceto nas noites em que lhe dava na gana de ir chatear o rebanho, como um miúdo traquina. Raquel dizia que a concupiscência do meu avô era famosa no meio dos pastores. “As ovelhas fogem como gazelas assim que vêem Labão a subir o monte.” As filhas desprezavam-no por centenas de motivos e eu conhecia-os a todos. Zilpah contou-me que poucos meses antes da sua primeira regra, num dia em que lhe coube levar o almoço ao pai, ele estendeu a mão e lhe apertou o mamilo entre o indicador e o polegar, espremendo-o como quem ordenha cabras.

Também Lea dizia que Labão lhe tinha metido a mão debaixo do vestido, mas essa queixou-se a Ada, e a minha avó deu tal carga de pilão ao marido que o pôs a sangrar. A seguir espatifou-lhe os cornos ao deus guardião da casa seu favorito, por fim, quando ameaçou amaldiçoá-lo de furúnculos e impotência, ele jurou nunca mais tocar em nenhuma das filhas. Comprou braceletes de ouro para Ada e para as filhas até para Zilpah e Bilhah, a quem nunca reconhecia como sendo da sua linhagem. E trouxe para casa um lindíssimo asherah - um pilão muito alto, quase do tamanho de Bilhah - fabricado pelo melhor oleiro que conseguiu encontrar. As mulheres colocaram o pilão em cima do bamah, um altar onde se ofereciam sacrifícios. O rosto da deusa era invulgarmente amoroso, com olhos amendoados e sorriso rasgado. Sempre que derramávamos vinho por cima dela, nas noites escuras de lua nova, parecia que a boca da deusa mais se abria de prazer.

Mas tudo isto aconteceu anos antes da chegada de Jacob, quando Labão ainda tinha uns quantos escravos ao seu serviço, com as respectivas mulheres e filhos a espalharem no campo o cheiro dos cozinhados e o som dos risos. Quando o meu pai chegou, restavam-lhe apenas uma mulher doente e quatro filhas.

Se bem que Labão apreciasse a presença de Jacob, os dois homens detestavam-se profundamente. Eram diferentes como um corvo e um burro, mas estavam ligados por laços de sangue e, passado algum tempo, pela trama do negócio.

Jacob revelou-se trabalhador diligente e com muito jeito para os animais- especialmente os cães. Conseguiu transformar os três rafeiros inúteis de Labão em ótimos cães pastores. Mal ele assobiava, os cães vinham logo à sua ilharga. Bastava-lhe bater as palmas, logo os rafeiros se punham a correr em círculos até reunir o rebanho diante dele. Entoava uma cantilena especial e eles punham-se de guarda com tal ferocidade que o gado de Labão nunca mais viu dente de raposa ou chacal. Quanto aos larápios, preferiam dar aos calcanhares a ter de enfrentar a ferocidade dos colmilhos da matilha.

Passado pouco tempo os outros homens começaram a invejar os cães de Jacob e propuseram-se comprá-los. Em vez de os vender, ele negociou um dia de trabalho em troca da primeira cria do cachorro com olhos de lobo. Quando a menor das nossas cadelas pariu as crias do cão, Jacob treinou os cachorros e vendeu quatro dos cinco pelo que nos pareceu uma montanha de tesouros, que ele se apressou a transformar em presentes probatórios de como entendia bem as filhas de Labão. Levou Raquel ao poço onde se haviam conhecido e ofereceu-lhe um brinco de lápis-lazúli que ela usou até à morte. Foi ter com Lea quando ela estava a cardar a lã e, sem uma palavra, estendeu-lhe três braceletes finamente lavradas. A Zilpah ofereceu um pequeno vaso votivo com a forma de Anath e que vertia libações pelos mamilos. Depôs um saco de sal aos pés inchados de Ada. Nem se esqueceu de Bilhah, que teve direito a uma anforazinha de mel.

Labão queixou-se de que a cadela pertencia a ele, mas afinal fora o sobrinho quem revertera o lucro dos cachorros em proveito próprio. Mas o velho foi prontamente apaziguado com uma bolsa de moedas, pegou logo nelas, foi a correr à vila e voltou a comprar a Ruti. Pobre criatura. Passado um ano Jacob já era administrador dos bens de Labão. Com seus cães, Jacob levava os cordeiros a pastar nos prados mais viçosos, as ovelhas enchiam a pança nos canteiros mais suculentos e os carneiros retouçavam nas ervas daninhas. Os rebanhos prosperaram de tal forma que na tosquia seguinte Jacob teve de contratar dois rapazes para acabarem a tarefa antes das primeiras chuvas. Raquel, Lea, Zilpah e Bilhah dedicaram-se à horta e alargaram o canteiro do trigo. Jacob convenceu Labão a sacrificar dois carneiros gordos e um anho ao deus do seu pai, em agradecimento pelas dádivas. Lea amassou pãezinhos com fermento (à custa da reserva de trigo) para juntar à imolação, que foi executada segundo as instruções de Jacob. Conforme o uso de seus pais, queimou pães inteiros e tudo quanto eram as melhores partes dos animais, e não apenas pequenas porções. As mulheres comentaram entre si o desperdício.

Foi ano de grandes mudanças para a minha família. A manada multiplicou-se, o cereal floresceu e o ano fechou com casório. Um mês depois de ter chegado, Jacob perguntou a Labão pelo preço de Raquel, tal como ela previra logo no primeiro dia. Sendo evidente que o sobrinho nada possuía de seu, Labão pensou que podia fazer o negócio ao desbarato com a proposta magnânime de trocar a filha por sete anos de serviço. Jacob riu-se-lhe na cara:

- Sete anos? Estamos a falar duma rapariga, e não de um trono. Sei lá se daqui a sete anos ela ainda está viva? Eu próprio posso morrer. Aliás, o mais certo daqui a sete anos é você já estar morto, velhote. Dou-lhe sete meses. Quanto ao dote, fico com metade do seu miserável rebanho. Labão pôs-se em pé num pulo e chamou ladrão a Jacob.- Não restam dúvidas de quem és filho - disse ele. - Julgas que o mundo te deve alguma coisa? Não te armes em esquisito comigo, meu grandessíssimo deserdado, se não queres que te recambie para a faca do teu irmão.

Zilpah, a melhor espia de todas elas, transmitiu o relato da discussão, contando tintim por tintim como os dois regatearam o valor da minha tia, como Labão barafustou e Jacob teimou. Finalmente acordaram no preço da noiva: um ano de serviços. Quanto ao dote, Labão queixou-se de pobreza.

- Tenho tão pouca coisa, meu filho - subitamente armado em patriarca. -E ela é um verdadeiro tesouro.

Jacob não podia aceitar noiva sem dote. Seria o mesmo que tomar Raquel por concubina e fazer figura de tolo, pagando com um ano da sua vida por uma rapariga que apenas trazia consigo um almofariz, uma roca e a roupa que vestia. E assim Labão arredondou a conta juntando Bilhah, de modo que Raquel passava a ter estatuto de mulher com dote e Jacob, a prazo, ganharia uma concubina.

- Além disso tem de me dar uma décima dos anhos nascidos enquanto o rebanho estiver à minha guarda, durante o ano que hei-de prestar-lhe serviço - disse Jacob.

Perante isto, Labão amaldiçoou a semente de Jacob e virou-lhe costas, furioso. Passou-se isto uma semana antes de os homens concluírem o negócio, uma semana inteira durante a qual Raquel choramingou e se portou como uma criança, enquanto Lea quase não abriu a boca e se limitou a servir papas de milho frias, comida de nojo. Quando, finalmente, chegaram a acordo, Labão foi ter com Ada, para acertarem os preparativos da boda. Mas Ada disse que não: “Não somos desses bárbaros que dão as crianças em casamento.” Raquel nem sequer podia ser prometida, disse ela ao marido. A rapariga podia parecer pronta a casar, mas ainda não tinha maturidade suficiente, nem sequer sangrara. A minha avó disse que Anath havia de amaldiçoar a horta se Labão ousasse quebrar esta lei e que ela própria reuniria forças bastantes para rachar outra vez o pilão na cabeça do esposo. Mas as ameaças eram desnecessárias. Labão percebeu logo que só lhe vinham vantagens do adiamento, foi imediatamente ter com Jacob e deu-lhe conta das novidades: teria de esperar até que a rapariga estivesse pronta, só então poderia marcar-se o casório.

Jacob aceitou a situação. Que outra coisa havia ele de fazer? Furiosa, Raquel pôs-se aos gritos com Ada, que lhe deu um par de estalos e a mandou chatear outro. Raquel, por seu turno, esbofeteou Bilhah, praguejou contra Zilpah e rezingou com Lea. Até chutou poeira aos pés de Jacob, chamando-lhe mentiroso e cobarde, a seguir derramou-lhe lágrimas no pescoço.

Raquel começou a recear o futuro. Talvez nunca sangrasse, talvez nunca casasse com Jacob, talvez nunca conseguisse ter filhos. Súbito, o seu peito maneirinho e espevitado, de que tanto se orgulhava, pareceu-lhe insignificante. Talvez fosse anormal, hermafrodita, como o ídolo tosco da tenda do pai, aquele com um peciolo entre pernas e tetas de vaca. De modo que Raquel fez por precipitar a puberdade. Antes da lua nova seguinte, amassou pãezinhos de oferenda à Rainha dos Céus, coisa que nunca tinha feito, e dormiu toda a noite com a barriga assente na base do asherah. Mas a lua minguou, voltou a crescer, e as pernas de Raquel sempre enxutas. Sozinha, foi à vila pedir ajuda a Inna, a parteira, que lhe deu uma infusão repugnante de urtigas colhidas numa nascente próxima dali. Mais uma lua nova, e Raquel sempre infante.

No quarto minguante seguinte, Raquel esmagou bagas vermelhas e chamou as irmãs mais velhas para verem a mancha no cobertor. Mas o sumo era púrpura e Lea e Zilpah riram-se das sementes disseminadas nas coxas dela.

No mês seguinte Raquel encafuou-se na tenda, donde não saiu nem sequer para ir ter com Jacob.

Por fim, no nono mês após a chegada de Jacob, Raquel teve a sua primeira regra e chorou de alívio. Ada, Lea e Zilpah entoaram a canção gutural reservada ao nascimento, à morte e ao amadurecimento das mulheres. Quando o Sol desceu para dar lugar à lua nova, untaram de henna as unhas e a sola dos pés de Raquel. Pintaram-lhe as pálpebras de amarelo e, recolhendo todas os braceletes, gemas e jóias que conseguiram encontrar, forraram-lhe os dedos das mãos e dos pés, os tornozelos e os pulsos. Cobriram-lhe a cabeça com o mais fino bordado e levaram-na para a tenda vermelha. Cantaram às deusas, à Innana e à Senhora Asherah do Mar. Falaram de Elath, mãe dos dezassete deuses, entre os quais Anath, a que cuida das crianças, defensora das mães. Assim cantaram:

Que frescura se compara à de Anath

Que beleza iguala a de Astarte?

Astarte é agora em teu ventre, E carregas o poder de Elath.

Enquanto as mulheres cantavam todas estas canções de boas-vindas, Raquel comia mel de tâmaras e bolos de fina farinha de trigo com a forma triangular do sexo feminino. Bebeu vinho doce até mais não poder. Ada massageou-lhe os braços, as costas e o ventre com óleos aromáticos, até a pôr meia adormecida. Quando a levaram para o campo, onde desposou a terra, Raquel estava tonta de prazer e vinho. Nem percebeu como lhe tinham ficado as pernas polvilhadas de terra e sangue, e adormeceu a sorrir.

Sentia-se feliz e expectante, preguiçou na tenda durante os três dias seguintes, recolheu o precioso fluido num vaso de bronze - pois o primeiro mênstruo das mulheres constituía poderosa libação para a horta. Nesse período mostrou-se generosa e descontraída como nunca a tinham visto.

Assim que as mulheres deram por findos os ritos mensais, Raquel exigiu a marcação do casamento. Por mais que batesse o pé, não conseguiu demover Ada do costume de aguardar sete meses após a primeira menstruação. Assim ficou decidido, e conquanto Jacob já tivesse trabalhado um ano para Labão, o contrato foi selado e os sete meses seguintes também pertenceram a Labão.