A Tenda Vermelha
Capítulo 6
Embora tivesse tido saudades de casa durante cada momento da minha ausência, fiquei chocada com o que vi logo à chegada. Nada era como eu me lembrava que era. O meu pai, os meus irmãos e todos os outros homens tinham-se tornado insuportavelmente rudes e brutos. Grunhiam em vez de falarem, coçavam-se e metiam o dedo no nariz e chegavam a aliviar-se à vista das mulheres. E o fedor!
O barulho do acampamento também era ensurdecedor. Cães a ladrar, ovelhas a balir, bebês a chorar e mulheres a gritar. Como é que eu nunca tinha notado o modo como elas se esganiçavam umas para as outras e para as crianças? Até a minha própria mãe tinha mudado. Todas as palavras que lhe saíam da boca eram Críticas, exigentes e arrogantes. Tudo tinha que ser feito à maneira dela, e nada do que eu fizesse era suficientemente bom. Só ouvia desprezo e raiva na voz dela, quando me dizia para ir buscar água ou para tomar conta de um dos bebês ou para ajudar Zilpa na tecelagem.
Sempre que ela falava comigo, os meus olhos picavam com lágrimas, a minha garganta fechava-se de vergonha e raiva e eu dava pontapés no pó.
- O que é que se passa? - perguntava ela três vezes por dia. - O que é que se passa contigo?
Não se passava nada de errado comigo, pensava eu. Era Lea que se tornara impaciente e amarga e insuportável. Não se sabe Como, ela tinha envelhecido anos durante os meses da minha ausência. As linhas profundas da testa dela muitas vezes estavam empasteladas com pó e a porcaria que trazia debaixo das unhas enojava-me. É claro que nunca pude dar voz a tal desrespeito, portanto, evitava a minha mãe e escapava para a calma do tear de Zilpa e para a amabilidade da voz de Bilhah. Até comecei a dormir na tenda de Raquel, o que deve ter causado alguma dor a Lea. Inna (que eu percebia agora que era pelo menos tão velha quanto a própria avó) ralhava-me por eu estar a causar tal tristeza à minha mãe. Mas eu era demasiado jovem para perceber que as mudanças eram minhas e não da minha mãe.
Após algumas semanas, fui-me, mais uma vez, acostumando ao som e ao cheiro diários dos homens, e dei por mim fascinada por eles. Olhava fixamente para os pequeninos rebentos dos bebês que corriam por ali nus e espiava os cães a acasalar. Dava voltas no meu cobertor, deixava as minhas mãos vaguear por sobre o meu peito e entre as minhas pernas, e interrogava-me.
Uma noite, Inna apanhou-me ao lado da tenda de Judá, onde ele e Shua estavam a fazer outro bebê. A parteira agarrou-me pela orelha e levou-me embora dali.
- Já não tarda muito, rapariga - disse-me ela, com um olhar de soslaio. -O teu tempo está a chegar.
Eu fiquei mortificada e aterrorizada, ao pensar que Inna poderia contar à minha mãe onde é que me tinha encontrado. Mesmo assim, não conseguia parar de pensar no mistério de homens e mulheres.
Durante as noites em que eu era consumida pela curiosidade e pelo desejo, o meu pai e os filhos dele estavam imersos em conversa. Os rebanhos brevemente seriam demasiado numerosos para as terras que tínhamos à nossa disposição e os meus irmãos queriam maiores perspectivas de vida para si próprios e para os filhos deles. Jacob tinha começado a sonhar, outra vez, desta feita, com uma cidade murada e um conhecido vale na encosta entre duas montanhas. Nos sonhos dele, já estávamos em Siquem, onde o avô dele tinha derramado vinho sobre uma pilha de pedras e lhe tinha chamado um altar sagrado. Os meus irmãos gostavam daquele sonho. Eles faziam negócio na cidade e voltavam às suas tendas cheios de histórias do mercado, onde lá chegado obtinham bons preços. O rei de Siquém, Hamor, era pacífico e acolhia tribos que desejassem fazer a terra florescer. Simeão e Levi falaram ao vizir de Hamor em nome do meu pai e voltaram a Jacob, todos orgulhosos, por causa do acordo que tinham feito para terem uma parcela de terra de bom tamanho e com um poço. Portanto, as tendas foram desmontadas e os rebanhos juntos, e nós viajamos a curta distância até ao local que o rei tinha dito que podia ser nosso. As minhas mães afirmaram estar satisfeitas com o vale. - As montanhas são onde o céu encontra a terra - disse Zilpa, satisfeita por ir encontrar inspiração.
- As montanhas vão proteger-nos contra os maus ventos - disse Lea, com razão.
- Tenho de encontrar uma ervanária local que nos mostre o que estes montes têm para oferecer - disse Raquel a Inna. Só Bilhah parecia infeliz, na sombra de Ebal, que era o nome da montanha em cuja encosta montamos as nossas tendas.- É tudo tão grande, aqui - suspirou ela. - Sinto-me perdida. Construímos fornos e plantamos sementes. Os rebanhos multiplicaram-se, mais três dos meus irmãos tomaram mulheres, Jovens raparigas que não provocaram quaisquer objeções por parte das minhas mães. Elas eram de Canaã e não conheciam nada dos costumes de Haran, onde as mães são homenageadas pela força, assim como pela beleza. E, embora as minhas novas irmãs entrassem na tenda vermelha para agradar a Lea, nunca riram conosco. Elas observavam o nosso sacrifício à Rainha do Céu sem interesse e recusaram-se a aprender a fazê-lo.- Os sacrifícios são para os homens - disseram elas, e comeram os seus doces. Apesar disso, as noivas dos meus irmãos eram boas trabalhadoras, e férteis. Adquiri muitas sobrinhas e sobrinhos em Siquém, e a família de Jacob prosperou.
Havia paz nas nossas tendas, com a exceção de Simeão e Levi, que viviam nas margens cada vez mais longínquas do seu próprio descontentamento. O poço, que tinha feito a terra parecer um bom prêmio, revelou ser uma antiquíssima e arruinada pilha de pedras, que secou pouco depois da nossa chegada. Os meus irmãos cavaram outro, um trabalho de quebrar costas que falhou, no primeiro lugar que eles experimentaram. Simeão e Levi tinham a certeza de que Hamor os tinha burlado de propósito, e alimentaram-se da raiva um do outro acerca daquilo a que eles chamavam a sua humilhação. Pela altura em que o segundo poço estava a dar água, o ressentimento já fazia parte deles tanto como os seus próprios nomes. Eu dava graças por o meu caminho raramente cruzar o deles. Eles assustavam-me, com os seus olhares negros e as longas facas sempre penduradas ao cinto.
Quando o ar ficou doce com a Primavera e as ovelhas prenhas de cordeiros, o meu mês chegou. Ao anoitecer da primeira noite de escuridão, estava eu acocorada para me aliviar, quando dei conta da mancha de sujidade na minha coxa. Demorei alguns momentos até perceber o que via. Era castanho, em vez de vermelho. Não era suposto ser vermelho? Não deveria sentir uma dor na barriga? Talvez estivesse enganada, e estivesse a sangrar da perna, mas não conseguia encontrar nenhum arranhão.
Parecia que eu tinha estado à espera da idade adulta desde sempre, e, no entanto, não me pus de pé num salto para ir contar às minhas mães. Fiquei onde estava, apoiada nos quadris, escondida por ramos, pensando: a minha infância acabou. Vou usar um avental e cobrir a cabeça. Já não vou ter que carregar e ir buscar coisas durante a lua nova, em vez disso, vou sentar-me com o resto das mulheres, até estar grávida. Vou preguiçar com as minhas mães e as minhas irmãs na sombra corada da tenda vermelha durante três dias e três noites, até à primeira visão da deusa em crescente. O meu sangue fluirá na palha fresca, enchendo o ar com o cheiro salgado das mulheres.
Durante um momento, considerei a idéia de manter segredo e continuar a ser rapariga, mas o pensamento passou rapidamente. Só podia ser o que era. E era uma mulher.
Levantei-me, com os dedos manchados dos primeiros sinais da minha maturidade, e apercebi-me de que, de fato, havia uma dor difusa nas minhas entranhas. Com um novo orgulho, fui para dentro da tenda, sabendo que os meus peitos a inchar deixariam de ser motivo de piada entre as mulheres. Agora, seria bem-vinda dentro de qualquer tenda em que Raquel e Inna assistissem a um parto. Agora, poderia derramar o vinho e fazer oferendas de pão na lua nova e em breve saberia os segredos que passam entre homens e mulheres. Entrei na tenda vermelha sem a água que me tinham mandado buscar. Mas antes que a minha mãe pudesse abrir a boca para me ralhar, levantei os meus dedos sujos.
- Também não me é permitido carregar nada, mãe.- Oh, oh, oh! - disse Lea, que, por uma vez, não tinha palavras. Beijou-me em ambas as faces, e as minhas tias juntaram-se à minha volta e, à vez, acolheram-me com mais beijos. As minhas cunhadas bateram palmas, toda a gente começou a falar ao mesmo tempo. Inna correu lá para dentro, para descobrir a razão de tanto barulho, e eu vi-me cercada de caras sorridentes.
Estava quase escuro e a minha cerimônia começou quase antes de eu conseguir perceber o que se passava. Inna trouxe uma taça de metal polido cheia de vinho fortificado, tão escuro e doce que eu mal provei o poder dele. Mas, rapidamente a minha cabeça começou a flutuar. Ao contrário de uma noiva, pintaram uma linha vermelha dos meus pés ao meu sexo, e, a partir das minhas mãos, fizeram um padrão de bolinhas que conduzia ao meu umbigo.
Puseram-me kohl nos olhos (“Para que possas ver longe”, disse Lea), e perfumaram-me a cabeça e os sovacos (“Para que caminhes entre flores”, disse Raquel). Removeram-me as braceletes e tiraram-me o vestido. Deve ter sido o vinho que me impediu de perguntar porque é que tinham tido tanto cuidado com a tinta e o perfume e, no entanto, me vestiam no rude vestido caseiro usado para as mulheres no parto, utilizado como mortalha para a placenta, depois de o bebê vir. Elas foram tão amáveis para mim, tão engraçadas, tão doces. Não deixavam alimentar-me a mim mesma, em vez disso usavam os dedos para me encherem a boca com pedaços de eleição. Massagearam-me o pescoço e as costas até eu ficar tão flexível como um gato. Cantaram todas as canções conhecidas entre nós. A minha mãe mantinha a minha taça de vinho cheia e levava-a aos meus lábios com tanta freqüência que me era difícil falar, e as vozes à minha volta fundiam-se num cantarolar alto e feliz.
A esposa de Zebulon, Ahavah, dançou com a sua barriga grávida ao som do bater de palmas. Ri até me doerem as ilhargas. Sorri até me doer a cara. Era bom ser uma mulher!
Depois, Raquel pôs os teraphim à vista e toda a gente se calou. Os deuses lares tinham estado escondidos até àquele momento. Embora fosse uma rapariguinha da última vez que os tinha visto, lembrava-me deles como de velhos amigos: a mãe grávida, a deusa que usava cobras no cabelo, aquele que era ao mesmo tempo masculino e feminino, o austero pequeno carneiro. Raquel dispô-los cuidadosamente e escolheu a deusa que usava a forma de uma rã sorridente, protegendo na boca larga os seus próprios ovos, com as pernas abertas num triângulo em forma de adaga, prontas para pôr mais um milhar de ovos. Raquel esfregou a figura de obsidiana com azeite, até a criatura brilhar e escorrer, à luz das lâmpadas. Olhei fixamente para a cara tonta da rã e dei umas gargalhadazinhas, mas ninguém se riu comigo.
No momento seguinte encontrei-me lá fora com a minha mãe e as minhas tias. Estávamos no canteiro de trigo no coração do horto, um lugar escondido, onde crescia cereal destinado ao sacrifício. O solo fora lavrado, em preparação para a sementeira que seria feita depois do retorno da Lua, e eu estava nua, deitada de cara para baixo na terra fresca. Tremi. A minha mãe pôs-me a cara encostada ao chão e soltou-me o cabelo em volta de mim. Dispôs-me de braços abertos, “para abraçar a terra”, murmurou ela. Dobrou-me os joelhos e puxou-me as solas dos pés até se tocarem, “para dar o primeiro sangue de volta à terra”, disse Lea. Eu sentia o ar da noite no meu sexo, e era estranho e maravilhoso estar tão aberta sob o céu.
As minhas mães juntaram-se em volta: Lea acima de mim, Bilhah à minha mão esquerda, a mão de Zilpa na parte de trás das minhas pernas. Eu estava a sorrir como a rã, meia a dormir, apaixonada por todas elas. A voz de Raquel, atrás de mim, quebrou o silêncio.- Mãe! Innana! Rainha da Noite! Aceita a oferenda de sangue da tua filha, em nome da mãe dela, em teu nome. No seu sangue, possa ela viver, no seu sangue, possa ela dar vida.
Não doeu. O azeite facilitou a entrada, e o triângulo estreito encaixou perfeitamente, quando entrou em mim. Eu estava virada para Oeste, enquanto a pequena deusa estava virada para leste, quando quebrou o fecho do meu ventre. Quando gritei, não foi tanto de dor como de surpresa e talvez mesmo de prazer, pois parecia-me que a própria Rainha estava deitada em cima de mim, com Dumuzi, o seu consorte, por baixo de mim. Eu era como um pedaço de pano, apanhado no meio do amor que eles faziam, aquecido pela grande paixão.
As minhas mães gemeram suavemente, em jeito de compaixão. Se pudesse ter falado, tê-las-ia assegurado de que estava perfeitamente feliz. Pois todas as estrelas do céu da noite tinham entrado no meu ventre. Na mais suave e mais louca noite desde a separação da terra e da água, da terra e do céu, eu estava deitada a ofegar como um cão, e senti-me a revolutear através dos céus. E, quando comecei a cair, não tive medo.
O céu estava rosa, quando abri os olhos. Inna estava agachada ao meu lado, observando a minha cara. Eu estava deitada de costas, com os braços e as pernas muito abertos, como os raios de uma roda, com a minha nudez coberta pelo melhor cobertor da minha mãe. A parteira ajudou-me a levantar e conduziu-me de volta a um suave canto da tenda vermelha, onde as outras mulheres ainda dormiam.- Sonhaste? - perguntou ela. Quando assenti com a cabeça, ela aproximou-se e disse: - Que forma é que ela tomou? Estranhamente, eu sabia o que é que ela queria saber, mas não sabia o que chamar à criatura que tinha sorrido para mim. Nunca tinha visto nada como ela, enorme, negra, um sorriso cheio de dentes, com pele parecida com cabedal. Tentei descrever o animal a Inna, que parecia intrigada. Depois perguntou:
- Ela estava na água? - Eu disse que sim, e Inna sorriu.- Eu disse-te que a água era o teu destino. Essa é uma Deusa muito velha, Taweret, uma deusa egípcia que vive no rio e que ri com uma grande boca. Ela dá o leite às mães e protege todas as crianças. A minha velha amiga beijou-me as faces e depois beliscou-as suavemente. É tudo o que eu sei de Taweret, mas, em todos os meus anos de vida, nunca conheci mulher que tivesse sonhado com ela. Deve ser um sinal de sorte, pequenina. Agora dorme. Os meus olhos não se abriram até à noite, e sonhei o dia inteiro com uma lua dourada que crescia entre as minhas pernas. E, de manhã, foi-me dada a honra de ser a primeira a sair, para acolher a primeira luz do dia da nova Lua.
Quando Lea foi dizer a Jacob que a filha dele se tinha tornado adulta, ficou a saber que ele já sabia. Inbu tinha falado sobre isso a Levi, que tinha murmurado ao pai dele sobre “abominações”. A mulher cananita tinha ficado chocada com o ritual que me tinha levado à antiquíssima aliança da terra, do sangue e do céu. A família de Inbu não sabia nada da cerimônia para abrir o ventre. De fato, quando ela casou com o meu irmão, a mãe dela correu para dentro da tenda para pegar no cobertor manchado de sangue da noite de núpcias dela, em caso de Jacob (que tinha pago o total preço da noiva) quisesse prova da virgindade dela. Como se o meu pai quisesse olhar para o sangue de uma mulher.
Mas agora Inbu tinha contado a Levi o sacrifício no jardim (ou, pelo menos, a parte que tinha adivinhado) e ele foi ter com o nosso pai, Jacob. Os homens não sabiam nada da tenda vermelha ou das cerimônias e sacrifícios que nela aconteciam. Jacob não ficou satisfeito, ao saber daquilo. As esposas dele Cumpriam as suas obrigações para com ele e para com o deus dele, ele não tinha discussões com elas ou com as deusas delas. Mas já não podia fazer de conta que os teraphim de Labão não estavam na casa dele e não podia suportar a presença de bens que ele tinha abjurado.
Portanto, Jacob chamou Raquel à sua presença e ordenou-lhe que trouxesse os deuses lares que tinha tirado a Labão. Levou-os a todos para um lugar desconhecido e despedaçou-os, um por um, com uma pedra. Depois enterrou-os em segredo, para que ninguém pudesse derramar libações sobre eles.
Ahavah abortou na semana seguinte, o que Zilpa chamou um castigo e um presságio de coisas piores ainda por vir. Lea não estava assim tão preocupada com os teraphin.
- Estiveram escondidos num cesto durante anos e daí não nos veio mal algum. O problema é com as esposas dos meus filhos, que não seguem os nossos costumes. Temos que as fazer aprender. Temos que as fazer nossas próprias filhas.
Por conseguinte, a minha mãe tomou Ahavah no coração dela, e a Shua de Judá. Nos anos que se seguiram, ela também tentou ensinar a noiva de Issacar, Hesia, e a Oreet de Gad. Mas elas não podiam abandonar os costumes das próprias mães.
A traição de Inbu deixou uma marca profunda, uma divisão que nunca foi curada. As mulheres de Levi e Simeão nunca mais vieram à tenda vermelha, em vez disso quedaram-se sob os seus próprios tctos na lua nova e retiveram consigo as filhas. E Jacob começou a franzir o sobrolho à tenda vermelha.
A cada lua nova, eu tomava o meu lugar na tenda vermelha e aprendia das minhas mães o modo de impedir que os meus pés tocassem diretamente na terra, e como me sentar confortavelmente num trapo sobre palha. Os meus dias moldaram-se segundo o crescimento e o minguar da Lua. O tempo desenrolava-se ao ritmo das minhas entranhas, do inchar dos meus peitos, da dolorosa espera do alívio, dos três dias calmos de separação e pausa.
Embora tivesse deixado de adorar as minhas mães como criaturas perfeitas, ansiava por aqueles dias com elas e com as outras mulheres que sangravam. Uma vez, quando aconteceu que só as minhas mães e eu estávamos sentadas na tenda, Raquel comentou que era como nos velhos tempos, em Haran. Mas Lea disse:
- Não é nada o mesmo. Agora há muitas mulheres para nos servir e a minha filha senta-se na palha conosco.
Bilhah viu que as palavras da minha mãe tinham magoado o coração de Raquel, pois esta continuava a desejar uma rapariga e não tinha ainda perdido a esperança. A minha amável tia disse:- Ah, mas, Lea, é realmente agradável com nós as cinco, outra vez. Como Ada teria sorrido.
O nome da minha avó produziu o seu habitual feitiço e as irmãs relaxaram, em memória dela. Mas o mal tinha sido feito: a velha frieza entre Lea e Raquel regressou aos aposentos das mulheres.
Não muito tempo depois de nos termos estabelecido na sombra de Ebal, Inna e Raquel ajudaram a nascer um bebê de grande traseiro a uma das nossas servas. A mãe viveu, algo raramente visto naquele lugar, com bebês que vinham de pés virados para baixo. Pouco depois, as mulheres dos montes, e mesmo de lá longe, no vale, começaram a chamá-las, aos primeiros sinais de um parto difícil. Corria o rumor de que Inna e Raquel- mas especialmente Raquel, que era parente do mesmo sangue da linhagem de Mamre - possuiam poderes para apaziguar Lamashtu e Lillake, antiquíssimos demônios que se dizia sedentos de sangue recém-nascido e que eram muito temidos pelo povo local. Saí muitas vezes com a minha tia e com a velha parteira, a quem era mais fácil apoiar-se no cajado sem um saco ao ombro. O povo dos montes ficou chocado por elas levarem uma rapariga solteira como eu a visitar mulheres parturientes. Mas no vale não pareciam preocupar-se, e as mães que o eram pela primeira vez - algumas mais novas do que eu -pediam que fosse eu a pegar-lhes nas mãos e a olhar nos olhos delas, quando as dores começavam a oprimir.
Embora eu estivesse certa de que as minhas professoras sabiam tudo acerca de ajudar bebês a nascer, Raquel e Inna tentavam aprender o que calhasse das mulheres que estavam onde quer que fossem. Ficaram satisfeitas por descobrirem uma menta especialmente doce que crescia nos montes. Esta planta acalmava o estômago rapidamente e era uma bênção para as que sofriam de inchaços e vômitos durante a gravidez. Mas quando Inna viu como algumas das mulheres dos montes pintavam o corpo das mães com espirais amarelas “para enganar os demônios”, torceu o lábio e murmurou que aquilo só servia para irritar a pele. Houve um grande presente que as minhas professoras aprenderam das mulheres do vale de Siquém. Não era uma erva nem um instrumento, mas uma canção de parto, o bálsamo mais calmante que Inna ou Raquel jamais tinham usado. Fazia as mulheres em trabalho de parto respirar mais facilmente, e fazia a pele esticar, em vez de rasgar. Acalmava as piores dores. As que morriam - pois, mesmo com uma parteira tão capaz como Inna, algumas morriam -, mesmo essas, sorriam ao fecharem os olhos para sempre, sem medo.
Cantávamos:
Não temas, o momento está a chegar
Não temas, os teus ossos são fortes
Não temas, a ajuda está por perto
Não temas, gula está perto
Não temas, o bebê está à porta
Não temas, ele viverá para te honrar
Não temas, as mãos da parteira são capazes
Não temas, a terra está por baixo de ti
Não temas, temos água e sal
Não temas, mãezinha
Não temas, mãe de todos nós.
Inna adorava aquela canção, especialmente quando as mulheres da casa conseguiam juntar-lhe harmonias e tornar a magia ainda maior. Ela estava pasmada de ter aprendido coisa tão poderosa tão tarde na vida.- Mesmo a mais velha de nós - disse ela, abanando um dedo ossudo para mim -, até nós, velhas encarquilhadas, podemos aprender truques novos aqui e ali.
A nossa amada amiga Inna estava a envelhecer, e chegou o tempo em que ficou demasiado rígida para sair de noite, ou para agüentar caminhos íngremes, pelo que Raquel me levava com ela e eu comecei a aprender com as minhas mãos, assim como com os meus olhos.
Uma vez, quando fomos chamadas para ajudar uma jovem mãe a dar à luz o seu segundo filho - um parto fácil, de uma mulher doce, que sorria, ao mesmo tempo que estava em trabalho de parto -, a minha tia deixou-me pôr os tijolos e atar o cordão. No caminho para casa, Raquel deu-me palmadinhas no ombro e disse-me que eu seria uma boa parteira. Quando acrescentou que a minha voz ficava bem na canção da mãe destemida, senti-me mais orgulhosa do que nunca.