A Tenda Vermelha

Anita Diamant · Capítulo 14 de 18

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A Tenda Vermelha

Terceira Parte

 

Egito

 

CAPÍTULO 1

 

Encontrava-me deitada sem sentidos nos braços de Nehesi, criado e guarda de Ra-nefer. Levou-me para o palácio, estava infestado de moscas atraidas pelo sangue de pais e filhos. Os meus demoníacos irmãos tinham levantado as facas mesmo contra o bebê de Ashnan, e a pobre mãe esvaíra-se em sangue ao tentar defendê-lo - deceparam-lhe o braço quando tentou bloquear a lâmina do machado. De todos os homens daquela casa, só Nehesi sobreviveu. Quando os gritos começaram, correu para os aposentos do rei, para proteger Ra-nefer de Levi e de um dos homens dele. Quando Nehesi chegou, a rainha levantava a adaga contra Levi. Ele feriu o meu irmão na coxa e matou logo o esbirro dele. Teve que arrancar a lâmina da rainha à força, para a impedir de a enterrar no próprio coração.

Nehesi levou-me a Ra-nefer, que estava sentada no pó do pátio, com a cabeça contra a parede, o cabelo todo empoeirado, as unhas empastadas de sangue. Só passados muitos anos percebi porque é que ela não me tinha deixado morrer, por que é que o assassínio daqueles que lhe eram queridos não a enchera de raiva contra mim, que tinha causado aquilo tudo. Mas Ra-nefer só se culpava a ela própria pela morte do marido e do filho, porque tinha desejado o nosso casamento e tinha feito sacrifícios para assegurar a nossa união. Fora ela quem mandara Shalem procurar-me no mercado, quem nos atirara para os braços um do outro, sem obstáculos. Tomou a culpa para si própria e nunca a pôs de lado. O outro motivo de compaixão de Ra-nefer para comigo era ainda mais forte do que o remorso. Ela tinha esperança de vir a ter um neto, alguém que lhe construísse o túmulo e que redimisse o desperdício da sua vida, alguém por quem viver. Eis a razão por que, momentos antes de fugir de Canaã, Ra-nefer acordou e enviou Nehesi à cidade chorosa para me procurar.

O servo obedeceu em silêncio, mas com medo. Ele conhecia a rainha melhor do que ninguém, melhor do que as criadas dela e, certamente, melhor do que o marido dela. Nehesi tinha vindo para Siquém com Ra-nefer, quando ela lá chegara como jovem e amedrontada noiva. E, quando ele me encontrou, pensou se deveria acrescentar mais dor à dor da sua senhora levando ainda mais tristeza para a presença dela. Eu estava deitada nos braços dele como um cadáver e, quando me mexi, foi para gritar e para arranhar a minha garganta até fazer sangue. Tiveram que me atar as mãos e amordaçar-me a boca, para que nos pudéssemos esgueirar da cidade sem sermos detectados, na escuridão da noite. Ra-nefer e Nehesi desenterraram vasos cheios de ouro e prata e foram-se embora sorrateiramente, comigo, para o porto de Joppa, onde contrataram um barco minóico para fazer a viagem até ao Egito. Durante a viagem, uma terrível tempestade rasgou as velas e quase virou o navio. Os marinheiros que me ouviam gritar e soluçar pensaram que eu estava possuída por um demônio que agitava as águas contra eles. Só a espada de Nehesi os impediu de me atirarem às ondas.

Eu não sabia de nada disto, enquanto estava deitada na escuridão, embrulhada, a suar, a tentar seguir o meu marido. Talvez fosse demasiado jovem para morrer de dor, ou talvez tivessem tomado conta de mim demasiado bem para que eu perecesse de tristeza. Ra-nefer nunca me deixou sozinha. Manteve os meus lábios úmidos e falou-me no tom calmante e de perdão total que as mães usam com os bebês irrequietos.

Ela encontrou uma causa para ter esperança. Uma lua nova chegou, enquanto eu estava deitada na minha própria escuridão, e nenhum sangue manchou os cobertores por baixo das minhas pernas. A minha barriga estava mole, os meus peitos queimavam, o meu hálito cheirava a cevada. Daí a uns dias, o meu sono tornou-se menos febril. Comecei a sorver uns golos do caldo que Ra-nefer me dava a comer, e apertava-lhe os dedos em sinal de gratidão muda.

No dia em que atracamos, a minha sogra veio ter comigo, pôs os dedos com firmeza sobre os meus lábios e falou com uma urgência que não tinha nada a ver com a minha saúde.

- Voltamos à terra da minha mãe e do meu pai - disse ela. - Ouve o que te digo, e obedece. Chamar-te-ei filha, em frente do meu irmão e da esposa dele - disse ela. - Dir-lhes-ei que tu serviste na minha casa e que o meu filho te tomou, a ti, uma virgem, com o meu consentimento. Direi que me ajudaste a escapar dos bárbaros. Tornar-te-ás minha nora e eu serei a tua senhora. Terás o teu filho nos meus joelhos e ele será um príncipe do Egito.

Os olhos dela encontraram os meus e exigiram compreensão. Ela era boa e eu amava-a, e, no entanto, algo parecia errado. Não consegui dar um nome ao meu medo, enquanto ela falava. Mais tarde, percebi que a minha nova mãe não tinha dito o nome do filho dela, meu marido, não dizendo nada sobre o assassínio dele, nem sobre os meus irmãos e as falácias deles. Nós nunca choramos nem lamentamos Shalem, nem ela me disse onde é que o meu amado estava enterrado. O horror devia permanecer indizível, a minha dor devia permanecer selada por trás dos meus lábios. Nunca mais falamos da nossa história partilhada, e eu fiquei atada ao vazio da história que ela contava. Quando pus o pé no Egito, estava grávida e tinha enviuvado. Vestia o linho branco das egípcias e, embora já não fosse uma donzela, andei de cabeça descoberta como as outras mulheres daquela terra. Carreguei um pequeno cesto de Ra-nefer, mas não trouxe nada de meu. Não tinha nem sequer um pedaço de lã tecido pelas minhas próprias mães, nem sequer o consolo da memória.

Houve muitas maravilhas para ver, na viagem para a grande cidade do Sul que era o lar do irmão de Ra-nefer. Passamos por cidades e pirâmides, pássaros e caçadores, palmeiras e flores, desertos e colinas arenosas, mas eu não vi nada disso. Os meus olhos ficavam, a maior parte das vezes, no próprio rio, e eu olhava fixamente para a água, deixando correr uma mão pela escuridão, que era à vez castanha, verde, preta, cinzenta e, uma vez, quando passamos por uma oficina de curtumes, da cor do sangue.

Nessa noite, acordei agarrada ao pescoço, a afogar-me em sangue, a gritar por Shalem, por ajuda, pela minha mãe, num pesadelo que me visitaria repetidamente. Primeiro, sentia o peso de Shalem contra as minhas costas, um maravilhoso peso que me reconfortava completamente. Mas depois sentia um calor no peito e nas mãos que não era natural e de repente descobria que a minha boca estava cheia do sangue de Shalem, que o meu nariz estava entupido com o cheiro poeirento da vida que escorria dele. Os meus olhos estavam turvos de sangue, eu esforçava-me para os abrir. Gritava sem respirar, embora não ouvisse nenhum som. Mesmo assim, continuava a gritar, com a esperança de que o meu coração e o meu estômago se levantassem de mim, no grito, e que eu também morresse.

Na quarta noite em que tive este sonho, precisamente quando o sangue começou a engolir-me e a minha boca se abriu para procurar a morte, recebi um choque que me fez recuperar os sentidos e que chegou através de uma dor penetrante que me deixou sem respiração. Sentei-me, e vi Nehesi acima de mim, com a ponta chata da sua larga espada encostada às solas dos meus pés, onde ele me tinha batido.- Já chega - silvou ele. - Ra-nefer não agüenta isto. Deixou-me, estava eu com os cabelos em pé, a tentar recuperar o fôlego. E, a partir daquela noite, acordava assim que sentia o calor a escorrer para os meus peitos. Ofegante e a suar, ficava deitada de costas e tentava não adormecer outra vez. Comecei a temer o pôr do Sol da mesma maneira que alguns homens temem a morte.

Durante o dia, o sol branqueava os meus medos. De manhã, antes de o calor descer, Ra-nefer sentava-se comigo e com Nehesi, e contava histórias alegres acerca da infância dela. Vimos um pato, e ela lembrou-se de expedições de caça com o pai e os irmãos dela, o mais velho dos quais seria o nosso refúgio. Quando era pequena tinham-lhe sido confiados os paus para atirar, que ela dava aos caçadores, prevendo as necessidades deles. Quando passamos por uma grande casa, Ra-nefer descreveu a casa do pai em Mênfis e os muitos jardins e lagos que havia no grande pátio dessa casa. O pai dela fora escriba dos sacerdotes de Ra, a vida tinha sido agradável para a família dele. Ra-nefer lembrava-se de cada criado e de cada escravo que a tinham servido quando era criança. Falava da sua própria mãe, Nebettany, que recordava como sendo bonita mas distante sempre perto dos seus frascos de kohl, sentindo-se mais feliz quando os criados lhe deitavam panela após panela de água perfumada sobre as costas na sua linda banheira. Mas Nebettany morrera de parto quando Ra-nefer ainda usava o caracol na testa que as meninas usam.

A minha sogra reviu a sua juventude com encantadores contos e histórias que iam até à precisa semana em que tinha deixado o Egito para se casar. Fizeram-se os preparativos e ela seguiu viagem juntamente com um grande dote. Ra-nefer conseguia lembrar-se das próprias quantidades de linho que enchia as arcas, das jóias que tinha nos dedos e no pescoço, dos barqueiros que a levaram para o mar. Inclinei-me para a frente, esperando conhecer algum pormenor da vida em Siquém, de ouvir a história do nascimento de Shalem ou um conto da meninice dele. Mas ela parou precisamente no ponto em que chegou ao palácio do marido, um olhar fixo e vazio substituiu a alegria dela. Não disse nada sobre Canaã, nem sobre o marido, nem sobre os bebês que lhe deu. Não disse o nome de Hamor uma vez que fosse, e era como se Shalem nunca tivesse nascido, nem me tivesse amado, nem se tivesse esvaído em sangue nos meus braços.

O silêncio de Ra-nefer latejava de dor, mas quando estendi a mão para tocar a dela, ela voltou a pôr um sorriso alegre e virou-se para palrar acerca da beleza das palmeiras ou da alta posição do irmão dela, que era escriba-chefe e supervisor dos sacerdotes de Ra. Voltei o meu olhar para a água e assim o mantive até chegarmos a Tebas. A grande cidade era deslumbrante, ao pôr do Sol. Para oeste, escarpas roxas continham um vale verde salpicado por templos pintados de cores vivas, com galhardetes verdes e dourados. Na margem leste, havia grandes casas, assim como templos e edifícios menores, caiados, todos a brilhar em tons de rosa e ouro à medida que o Sol começava a sua retirada por trás das escarpas ocidentais. Vi tendas brancas nos telhados e perguntei-me se uma raça separada de pessoas vivia acima dos cidadãos. As ruas que conduziam para longe do rio eram barulhentas e empoeiradas, passamos por elas rapidamente, procurando o nosso destino antes do cair da noite. O odor do lótus tornou-se mais forte, à medida que a luz desaparecia. Nebesi perguntou a um transeunte se ele sabia o caminho para a casa do escriba Nakht-ra. O homem apontou para um grande edifício que ficava à ilharga de um dos grandes templos da margem oriental.

Uma rapariguinha nua abriu a grande porta polida e piscou os olhos aos três desconhecidos que tinha diante de si. Ra-nefer exigiu uma audiência com Nakht-ra, seu irmão. Mas a criança só olhava fixamente. Ela viu uma senhora egípcia que usava um vestido poeirento e que não tinha maquilhagem nem jóias, um grande guarda negro com uma adaga na cintura mas sem sapatos nos pés, e uma estrangeira num vestido que lhe caía mal, e que tinha a cabeça tão baixa que poderia estar a esconder um lábio leporino.

Como a criada não se mexeu, mesmo depois de Ra-nefer repetir o pedido, Nehesi empurrou a porta e passou do vestíbulo para uma grande sala. O senhor da casa estava a concluir os negócios do dia, com rolos no colo e assistentes aos pés. Olhou fixamente para Nehesi, surpreendido e não compreendendo o que se estava a passar, mas, quando viu Ra-nefer, Nakht-ra pôs-se de pé de um salto, espalhando papiros, enquanto se apressava para abraçar a irmã.

Conforme a envolveu nos braços, Ra-nefer começou a chorar - não lágrimas de alivio e de felicidade de uma mulher contente por se reunir à família, mas antes soluços crus de uma mãe cuja criança fora assassinada na cama. Ra-nefer uivou nos braços do seu perplexo irmão. Caiu de joelhos e gritou, dando voz a um coração destroçado.

O terrível som trouxe toda a casa de Nakht-ra à sala: cozinheiros e jardineiros, padeiros e crianças, e a dona da casa. Nakht-ra pegou na irmã e pô-la na sua própria cadeira, onde foi abanada e servida de água. Todos os olhos estavam fixos em Ra-nefer, que tomou a mão do irmão na sua e lhe contou os simples pormenores da sua história, tal como a tinha ensaiado para mim. Disse que a sua casa fora invadida por bárbaros, que lhe tinham roubado os haveres, que a família dela tinha sido chacinada, que toda a sua vida fora pilhada. Narrou a fuga e a tempestade no mar. Quando Nakht-ra lhe fez uma pergunta acerca do marido, ela respondeu: “Morto. E o meu filho!”, e desatou a chorar, mais uma vez. Com isto, as mulheres da casa começaram um agudo lamento de luto que subiu pela carne do meu pescoço como uma maldição. Mais uma vez, Ra-nefer foi abraçada pelo irmão, e mais uma vez se recompôs.

- Nehesi é o meu salvador - disse ela, dirigindo todos os olhos para onde ele estava, a meu lado. - Eu teria morrido, não fosse o braço forte e a esperteza dele, e o amparo que ele me deu. Trouxe-me para fora de Canaã, com esta rapariga, que era a consorte do meu filho e que carrega o meu neto no seu ventre. - Todos os olhos se viraram para a minha barriga, então, e as minhas mãos moveram-se, de motu proprio, para o lugar onde o bebê crescia.

Aquilo era um espetáculo mudo para mim. Eu só conhecia uma meia dúzia de palavras da língua deles, e essas tinha-as aprendido do meu amado na cama. Sabia as palavras para as partes do corpo, para nascer e pôr do Sol, para pão e vinho e água. Para amor. Mas os Egípcios são pessoas expressivas, quando falam, o que me permitiu seguir a história. Observei a cara de Ra-nefer e soube que o pai dela tinha morrido, que o irmão mais novo estava longe, que a amiga favorita (ou talvez a irmã) tinha morrido de parto, que Nakht-ra igualava o sucesso do pai.

Fiquei de pé junto à porta, segura e esquecida, até que tive um colapso. Acordei algum tempo depois, no escuro, numa pequena cama bem cheirosa, ao lado da cama em que Ra-nefer dormia suavemente. O resto da casa também parecia adormecida.

O silêncio era tão profundo que, se não tivesse caminhado pelas ruas barulhentas de uma cidade naquela mesma tarde, ter-me-ia julgado no meio de um prado deserto ou no topo de uma montanha. Um pássaro quebrou o silêncio, e pus-me à escuta, tentando decifrar a melodia da sua louca canção. Alguma vez tinha ouvido um pássaro cantar à noite? Não me conseguia lembrar. Por um momento, esqueci tudo, exceto o som do pássaro a cantar à meia lua, e quase sorri. O meu prazer acabou no momento seguinte, quando senti um leve toque nos dedos. Pus-me de pé de um salto, mas, lembrando-me da espada de Nehesi nos meus pés, sufoquei o meu grito. Uma pequena sombra movia-se em circulo, à minha volta. O pássaro ainda chilreava, mas agora parecia gozar com a alegria que eu tinha sentido um momento antes.

Observei, aterrorizada, a sombra a saltar para a cama de Ra-nefer e, depois, a parecer desaparecer. Doeram-me os olhos de tanto procurar no escuro, e dei por mim a chorar pela morte da minha boa senhora, pois era certo que a criatura a tinha morto. Torci as mãos e tive pena de mim mesma, sozinha e abandonada numa terra distante. Escapou-me um soluço, e Ra-nefer mexeu-se.

- O que é que foi, criança? - murmurou ela, meio a dormir.- Perigo - solucei.

Sentou-se direita, e a sombra saltou para baixo, na minha direção. Tapei a cabeça e dei um grito agudo.

Ra-nefer riu suavemente.

- Um gato - explicou ela. - É só o gato. Bastet reina sobre o coração da casa, aqui. Agora dorme - suspirou ela, e voltou-se de novo para a sua almofada.

Deitei-me, mas os meus olhos não se fecharam outra vez, naquela noite. Daí a nada a luz começou a filtrar-se pelas janelas que faziam um friso na parede, junto ao teto. À medida que a luz do Sol enchia o quarto, estudei as paredes caiadas, vi uma aranha a tecer uma teia no canto. Olhei para teraphini que não me eram familiares, aconchegados em nichos à volta das paredes, e estendi a mão para tocar na bela perna da cama da minha senhora, esculpida à semelhança da pata gigantesca de uma besta. Inalei o aroma da minha cama - feno adoçado pelo odor de uma flor que não me era familiar. O quarto parecia cheio de cestos elaborados e tapetes entrançados. Uma coleção de frascos estava dentro de uma caixa marchetada, ao lado de uma grande pilha de panos dobrados, que mais tarde vim a saber que eram toalhas de banho. Cada superfície estava tingida ou pintada de cores vivas. Eu não tinha lugar, entre todas aquelas coisas maravilhosas, e no entanto esta era a minha única casa.

Mal me dei conta da criança dentro de mim, naquelas primeiras semanas. O meu corpo não parecia nada diferente, e estava tão ocupada com o meu novo ambiente, que não me apercebi do progresso da Lua, que as mulheres egípcias marcavam com pouca cerimônia e nenhuma separação. Fiquei ao lado de Ra-nefer, que passou os seus primeiros dias a descansar no jardim e a servir de intérprete, quando eu não compreendia as poucas palavras que me eram dirigidas. Não fui mal tratada. Toda a gente na casa de Nakht-ra era boa, até a esposa dele, Herya, que subitamente se via obrigada a partilhar a casa com uma irmã há muito esquecida e com os dois estranhos que eram servos dela. Nehesi sabia como fazer-se útil e Nakht-ra rapidamente o mandou levar mensagens entre a casa, o templo e as sepulturas que estavam a ser construídas no vale ocidental.

Eu não era bem uma criada e não era bem uma sobrinha, apenas uma estrangeira sem língua e aparentemente inútil. A dona da casa dava-me palmadinhas, quando me via, mais ou menos como a um gato, mas desandava logo para não ter de falar. Os criados também não sabiam o que pensar de mim. Mostraram-me como se fiava linho, para que eu pudesse ajudar no trabalho da casa, mas as minhas mãos eram lentas a aprender e, uma vez que eu não podia coscuvilhar com eles na cozinha, deixavam-me só.

A minha principal ocupação era dar assistência a Ra-nefer, mas ela preferia a solidão, pelo que encontrei outras tarefas com que ocupar os meus dias. Fui atraída especialmente pelas escadas da casa, e pegava em qualquer desculpa para andar para cima e para baixo, observando o modo como o quarto mudava, a cada passo. Assumi a tarefa de varrer os quartos, à noite, e de os lavar, de manhã, e assumi um orgulho descuidado na manutenção dos mesmos.

Sempre que podia, subia as escadas todas, até ao telhado, onde uma brisa do norte vinda do rio poderia levantar a tenda que estava pendurada para dar sombra. A maior parte das pessoas da casa dormia ali em cima, nas noites quentes, embora eu nunca me juntasse a eles, temendo levar o meu pesadelo para o meio deles.

Do telhado, eu olhava fixamente para o Sol, que se refletia no rio, e para a graciosidade dos barcos que velejavam lá em baixo. Lembrei-me da primeira grande água que tinha visto, quando era menina, quando a minha família tinha atravessado de Haran para o Sul. Pensei no rio em que José e eu tínhamos sido atacados por um poder invisível, de que tínhamos sido salvos pelo amor das nossas mães. Quando me lembrei da promessa de Shalem de que me ensinaria a nadar, a minha garganta fechou-se em agonia. Mas mantive os olhos muito abertos, como tinha feito em Mamre, e olhei fixamente para o horizonte, para não soluçar e para não cair da açoteia abaixo.

Os dias passaram num nevoeiro de novos hábitos e novas vistas, mas as noites eram sempre as mesmas. Lutei contra os sonhos que me deixavam encharcada em suor, molhando a cama tal como o sangue de Shalem tinha encharcado a nossa, que me deixavam a arfar e receosa de emitir qualquer som. De manhã doíam-me os olhos e a minha cabeça latejava. Ra-nefer inquietava-se comigo, e aconselhou-se com a cunhada. Ordenaram-me que descansasse durante a tarde. Ataram-me um cordão vermelho à volta da cintura. Fizeram-me beber leite de cabra misturado com uma poção amarela que me manchava a língua. À medida que a minha barriga começou a inchar, as mulheres da casa desfizeram-se em cuidados comigo. Já passara muito tempo desde a última vez que tinha havido um bebê na família de Nakht-ra, e elas estavam ávidas de uma criança. Serviram-me comidas fantásticas, tão exóticas, para mim, como as flores do jardim que ficava por trás da casa, permanentemente florido. Comi melões de polpa cor de laranja e melões de polpa cor-de-rosa, e havia sempre tâmaras em abundância. Nos muitos dias de festa dedicados aos deuses ou aos dias da família, havia ganso temperado com alho, ou peixe em molho de mel. Mas o melhor de tudo eram os pepinos, a mais deliciosa comida que eu podia imaginar, verde e doce. Mesmo sob o calor do sol, um pepino beijava a língua com a frescura da Lua. Era capaz de comê-los infindavelmente e nunca ficar cheia ou maldisposta. A minha mãe adoraria este fruto, pensei eu, quando pela primeira vez dei uma mordidela no coração aquoso daquele fruto. Foi o meu primeiro pensamento sobre Lea em mais de um mês. A minha mãe não sabia que eu estava grávida. As minhas tias nem sequer sabiam que eu estava viva. Estremeci de solidão.

Herya viu os meus ombros a tremer e, pegando-me na mão, levou-me até ao vestíbulo da porta da frente. Paramos no nicho da parede e ela fez um gesto para me dar a entender que retirasse a pequena deusa. Era um cavalo-marinho que estava em pé, apoiando a cauda, com uma enorme barriga e uma enorme boca sorridente. “Taweret”, disse ela, tocando a figura de barro e, depois, movendo a mão para a minha barriga. Franzi o sobrolho. Ela agachou-se, como uma mulher em trabalho de parto, e pôs a figura entre as pernas e, em pantomima, mostrou-me que Taweret iria assegurar um trabalho de parto fácil.

A dona da casa pensou que eu tinha medo de dar à luz. Assenti com a cabeça e sorri. Ela disse: “Rapaz”, e deu-me palmadinhas na barriga outra vez.

Assenti. Sabia que estava a carregar um filho. “Rapaz”, disse eu, na língua da casa.

Herya fechou as minhas mãos em volta da estátua, indicando que eu devia ficar com ela, e beijou-me as faces. Por um momento, o gargarejo rouco do riso de Inna soou tão alto aos meus ouvidos que eu pensei que a velha parteira estava naquela sala comigo, a rir-se a bandeiras despregadas acerca da sua profecia de que Taweret me tomaria para si. Na semana seguinte, senti um esvoaçar, como da asa de um pássaro, debaixo do meu coração. Fiquei surpreendidissima com o meu amor pela vida que carregava. Comecei a murmurar ao meu filho por nascer enquanto estava deitada na minha cama, trauteei-lhe as canções da minha infância enquanto varria e fiava. Pensava no meu bebê enquanto penteava o cabelo e enquanto comia, de manhã e à noite. Os sonhos sangrentos sobre Shalem foram substituídos por um sonho acerca do filho dele, a quem eu chamei Bar-Shalem. No sonho, o meu filho não era um bebê, mas uma pequena cópia do pai dele, aconchegado nos meus braços, contando-me histórias acerca da sua infância no palácio, acerca das maravilhas do rio, acerca da vida no outro lado desta vida. Nesse sonho, o meu amado protegia-me e lutava contra um crocodilo faminto que tinha vindo por mim e pelo rapaz, afastando-o. Eu detestava acordar, e comecei a dormir até mais e mais tarde só para permanecer dentro deste sonho. Ra-nefer permitia-me a minha cama e tudo o resto. Antes de dormirmos, ela e eu observávamos a minha barriga a rolar e a tremer.

- Ele é forte - regozijava-se ela.

- Que ele seja forte - rezava eu.

Eu não estava preparada, quando chegou a minha hora. Confiante em tudo quanto aprendera de Raquel e Inna, não tinha preocupações em dar à luz. Tinha testemunhado a chegada de muitos bebês saudáveis e a coragem de muitas mães capazes: imaginei que nada tinha a temer. Quando a primeira verdadeira dor me agarrou a barriga e me roubou o fôlego, lembrei-me das mulheres que tinham desmaiado, das mulheres que tinham gritado e implorado a morte. Lembrei-me de uma mulher que morreu com os olhos muito abertos de terror e de outra que morreu numa torrente de sangue, com os olhos encovados de exaustão. Soltou-se um soluço da minha boca, quando as águas me rebentaram e correram pelas minhas pernas abaixo. “Mãe”, gritei, sentindo a ausência de quatro caras amadas, quatro pares de mãos ternas. Quão longe estavam elas. Quão só estava eu. Como eu desejava ouvir as vozes delas a dizerem-me palavras de reconforto na minha própria língua. Porque é que ninguém me tinha dito que o meu corpo se tornaria um campo de batalha, um sacrifício, um teste? Porque é que eu não sabia que dar à luz é o pináculo onde as mulheres descobrem a coragem de se tornarem mães? Mas é claro que não há maneira de dizer isto, ou de o ouvir. Até se ser a mulher nos tijolos, não se tem idéia de como a morte está no canto da sala pronta para cumprir o seu papel. Até se ser a mulher nos tijolos, não se sabe o poder que se levanta das outras mulheres - mesmo desconhecidas que falam numa língua desconhecida, invocando nomes de deusas que não nos são familiares.

Ra-nefer ficou de pé atrás de mim, com o meu peso nos joelhos, elogiando a minha coragem. Herya, a dona da casa, segurou-me o braço direito, murmurando orações a Taweret, Isis e Bes, o feio deus anão que adorava bebês. A cozinheira, do meu lado esquerdo, abanava um pau vergado (com cenas de partos esculpidas) por sobre a minha cabeça, para aliviar a dor. Acocorada à minha frente, para apanhar o bebê, estava uma parteira chamada Meryt. Era-me desconhecida, mas as mãos dela eram tão seguras e ternas como eu imaginava que as de Inna deviam ter sido. Soprou para a minha cara, para que eu não pudesse suster a respiração quando as dores vinham, e até me fez rir um pouco e soprar de volta para ela.

As quatro mulheres palravam por sobre a minha cabeça, quando as dores enfraqueciam, e arrulhavam palavras de encorajamento, quando as dores voltavam. Puseram sumo de fruta na minha boca e limparam-me com toalhas perfumadas com um cheiro agradável. Meryt massajou-me as pernas. Os olhos de Ra-nefer brilhavam com lágrimas. Chorei, e gritei. Desisti de toda a esperança e rezei. Vomitei, e os meus joelhos tremiam. Mas, muito embora os sobrolhos delas se franzissem em resposta às minhas dores, nenhuma parecia preocupada ou ansiosa. Portanto, continuei a lutar, sossegada.

Depois, comecei a fazer força, porque não havia mais nada a fazer. Fiz força e fiz força, até que pensei que iria desmaiar. Fiz força até que o bebê não veio. O tempo passou. Mais força. Nenhum progresso. Meryt olhou para Ra-nefer e eu vi-as trocar um olhar de relance que tinha visto passar entre Raquel e Inna em momentos como este, quando a comum passagem de vida para vida se tornava uma luta entre vida e morte, e senti a sombra no canto da sala inclinar-se para mim e para o meu filho.

- Não - gritei, primeiro na língua materna. - Não - disse eu, na língua das mulheres que estavam à minha volta. - Mãe - disse eu a Ra-nefer -, traz-me um espelho para que eu própria possa ver.

Trouxeram-me um espelho e uma lâmpada, que me mostravam a minha própria pele esticada.

- Mete a mão - disse eu a Meryt, lembrando-me da prática de Inna. -Tenho medo de que ele esteja virado para o outro lado. Mete a mão e vira-lhe a cara, o ombro.

Meryt tentou fazer o que eu lhe pedia, mas as mãos dela eram demasiado grandes. A minha pele estava demasiado apertada. O meu filho era demasiado grande.

- Traz uma faca - disse eu, quase a gritar. - Ele precisa de uma porta mais larga.

Ra-nefer traduziu, e Herya respondeu-lhe num grave sussurro.- Não há nenhum cirurgião cá em casa, filha - explicou-me, por sua vez, Ra-nefer. - Vamos mandar chamar um agora, mas… As palavras vieram-me de longe. Tudo o que eu queria fazer era esvaziar-me daquele bloco de pedra, expulsar a agonia e dormir, ou até morrer. O meu corpo gritava para que eu fizesse força, mas quando a sombra no canto do quarto fez um sinal de assentimento, eu recusei-me a obedecer.

- Fá-lo tu - disse eu a Meryt. - Pega numa faca e abre o caminho para ele. Por favor - implorei eu, e ela olhou para mim com pena e incompreensão. - Uma faca. Mãe! - gritei, desesperada. - Raquel, onde é que estás? Inna, o que é que eu faço?

Ra-nefer chamou alguém, e foi trazida uma faca. Meryt pegou nela cheia de medo. Enquanto eu gritava e lutava para não fazer força, ela pôs a lâmina contra a minha pele e abriu a porta, da frente para trás, tal como eu tinha visto fazer antes. Ela meteu a mão para mover o ombro do bebê. A dor cegava, como se eu me tivesse sentado sobre o próprio Sol. Num instante, o bebê saiu. Mas, em vez de um grito de alegria, foi recebido com silêncio: tinha o cordão enrolado à volta do pescoço, os lábios dele estavam azuis.

Meryt apressou-se. Cortou o cordão do pescoço e pegou nas canas dela, chupando-lhe a morte da boca, soprando-lhe vida nas narinas. Eu estava a gritar, a soluçar, a tremer. Herya abraçou-me, enquanto todas observamos o trabalho da parteira.

A sombra da cabeça de cão da morte andou em frente, mas, então, o bebê tossiu e, com um grito zangado, baniu todas as dúvidas. O canto escuro ficou mais claro. A morte não se demora onde é derrotada. As vozes de quatro mulheres ecoaram à minha volta, palrando, rindo, altas. Eu cai na cama e não soube de mais nada.

Acordei na escuridão. Uma única lâmpada tremeluzia ao meu lado. O chão tinha sido lavado, e até o meu cabelo cheirava a limpo. A rapariga que ficara a tomar conta de mim viu os meus olhos a abrirem-se e correu para ir buscar Meryt, que trazia nas mãos uma trouxa de linho.- O teu filho - disse ela.

- O meu filho - respondi eu, confusa, tomando-o nos braços. Tal como não há aviso para o parto, não há preparação para a visão de uma primeira criança. Estudei a cara, os dedos, as dobras das pequenas pernas sem ossos, as volutas das orelhas, os pequenos mamilos no peito dele. Sustive a respiração quando ele suspirou, ri quando ele bocejou, interroguei-me acerca do modo como ele me agarrava o polegar. Devia haver uma canção para as mulheres cantarem neste momento, ou uma oração para recitar. Mas talvez não haja nenhuma porque não há palavras suficientemente fortes para descrever este momento. Tal como cada mãe depois da primeira mãe, eu sentia-me vencida e vazia, exultante e devastada. Tinha feito a travessia desde a meninice. Vi-me a mim própria bebê, nos braços da minha mãe, e tive uma visão momentânea da minha própria morte. Chorei, sem saber se me regozijava ou se me condoía. As minhas mães e as mães delas estavam comigo, enquanto eu segurava o meu bebê.

- Bar-Shalem - murmurei. Ele tomou o meu peito e mamou durante o sono. - Sortudo - disse eu, vencida. - Dois prazeres de uma vez só. Ambos dormimos debaixo do olhar vigilante da parteira egípcia, que eu sabia que iria amar para sempre, mesmo que nunca mais voltasse a ver a cara dela. No meu sonho daquela noite, Raquel dava-me um par de tijolos dourados e Inna presenteava-me com uma cana de prata. Eu aceitava os presentes delas com solenidade, orgulhosa, com Meryt ao meu lado.

Quando acordei, o meu filho tinha desaparecido. Assustada, tentei levantar-me, mas a dor manteve-me colada à cama. Gritei, e Meryt veio, com enchimento macio e unguentos para as minhas feridas.- O meu filho - disse eu, na língua dela.

Ela olhou para mim com ternura e respondeu:

- O bebê está com a mãe dele.

Pensei que não a tinha percebido bem. Talvez não tivesse usado as palavras certas. Perguntei outra vez, falando lentamente, mas ela tocou-me, com pena, e abanou a cabeça, dizendo não.- O bebê está com a mãe dele, a senhora.

Ainda confusa, gritei:

- Ra-nefer, Ra-nefer. Eles levaram o meu rapazinho. Mãe, ajuda-me. Ela veio, trazendo o bebê, que estava embrulhado num bom cobertor de linho branco debruado a fio de ouro.

- Minha filha - disse Ra-nefer, em pé diante de mim -, foste muito bem. Na realidade, foste magnífica, e todas as mulheres de Tebas conhecerão a tua coragem. Quanto a mim, ficar-te-ei grata para sempre. O filho que tu deste à luz nos meus joelhos será um príncipe do Egito. Será criado como sobrinho do grande escriba Nakht-ra, e neto de Paser, o escriba dos dois remos e guardião do livro de contas do próprio rei. Ela olhou para a minha cara confusa e acossada e tentou sossegar-me, ao mesmo tempo que me abatia.

- Eu sou a mãe dele, no Egito. Tu serás a ama dele e ele saberá que tu lhe deste a vida. Cuidar dele será a tua bênção, mas ele chamar-nos-á às duas Mãe, e ficará aqui até estar preparado para ir para a escola. E, por isto, podes ficar grata. Pois este é o meu filho, Ra-mose, filho de Ra, que tu carregaste para mim e para a minha família. Ele construirá o meu túmulo e inscreverá o teu nome nele. Será um príncipe do Egito. Ela passou-me o bebê, que tinha começado a chorar, e voltou-se para nos deixar.

- Bar-Shalem - murmurei eu no ouvido dele. Ra-nefer ouviu e parou. Sem se virar para olhar para mim, disse:

- Se o chamares por esse nome outra vez, mando-te pôr fora desta casa, ponho-te na rua. Se não seguires as minhas instruções nesta matéria e em todas as questões que tenham a ver com a educação do nosso filho, perdê-lo-ás. Deves compreender isto cabalmente. - Depois virou-se, e eu vi que as faces dela estavam molhadas. -A minha única vida é aqui, ao pé do rio - disse ela, com a voz pesada de lágrimas. - A má sorte, a coisa maléfica que me roubou o meu ka e que o atirou para entre os animais selvagens do deserto ocidental, finalmente acabou. Reuni-me à minha família, à Humanidade, ao serviço de Ra. Consultei os sacerdotes que o meu irmão serve, e, a eles, parece-lhes que o teu ka, o teu espírito, deve pertencer aqui, também, caso contrário não poderias ter sobrevivido à tua doença, ou à viagem, ou a este parto. - Ra-nefer olhou para o bebê que estava no meu peito e, com infinita ternura, disse: - Ele será protegido contra maus ventos, malfeitores, e negadores. Ele será um príncipe do Egito. - E, depois, num murmúrio que não escondia nada do que ela tinha resolvido: - Farás o que te digo.

A princípio, as palavras de Ra-nefer pouco significado tiveram para mim. Tinha o cuidado de nunca chamar Bar-Shalem ao meu filho quando estivesse mais alguém no quarto, mas, de outra forma, eu era a mãe dele. Ra-mose ficou comigo dia e noite, para que eu pudesse dar-lhe de mamar de cada vez que ele chorasse. Dormia ao meu lado e eu andava com ele ao colo e brincava com ele e memorizava cada uma das disposições e dos traços dele.

Durante três meses, vivemos no quarto de Ra-nefer. O meu filho cresceu de hora a hora, tornando-se gordo, e luzidio, o melhor bebê jamais nascido. Sob os bons cuidados de Meryt, eu sarei completamente. Durante o calor da tarde, Ra-nefer tomava conta dele para que eu pudesse tomar banho e dormir.

Os dias passaram sem forma nem trabalho, sem memória. O bebê que estava no meu peito era o centro do universo. Eu era a completa fonte da felicidade dele e, durante umas poucas semanas, a deusa e eu fomos uma e a mesma pessoa.

No inicio do seu quarto mês, a família juntou-se na grande sala onde Nakht-ra se sentava entre os assistentes. As mulheres juntaram-se ao longo das paredes, enquanto os homens se juntaram à volta do bebê e puseram as ferramentas do escriba nas pequenas mãos dele. Os seus dedos enrolaram-se em volta de pincéis de cana novos, e ele agarrou um prato circular em cima do qual as tintas eram misturadas. Abanou um pedaço de papiro com ambas as mãos, como se fosse um leque, o que deliciou Nakht-ra, que afirmou que ele tinha nascido para aquela profissão. E assim foi o meu filho acolhido no mundo dos homens. Só então me lembrei do oitavo dia, quando os rapazes recém-nascidos da minha família eram circuncidados e as mães pela primeira vez se amedrontavam na tenda vermelha, enquanto as mulheres mais velhas as sossegavam. O meu coração partiu-se em dois bocados, com metade dele a chorar por o deus do meu pai não ser capaz de reconhecer este rapaz, nem o meu irmão José, ou mesmo as avós dele. E, no entanto, estava ferozmente orgulhosa do fato de o sexo do meu filho vir a permanecer inteiro, pois por que é que ele deveria ter uma cicatriz que trazia à memória a morte do próprio pai dele? Porque havia ele de sacrificar o prepúcio a um deus em cujo nome eu tinha sido feita viúva e o meu filho se tinha tornado órfão?

Naquela noite houve banquete. Eu sentei-me no chão, ao lado de Ra-nefer, que ficou com o meu bebê ao colo e lhe pôs repetidamente purê de melão nos lábios, e lhe fez cócegas com penas e o acariciou, para que ele sorrisse aos convidados que tinham comparecido a celebrar a chegada de um novo filho à casa de Nakht-ra.

Foram trazidas comida e bebidas em quantidades que eu não conseguia calcular: peixe e caça, fruta e doces tão ricos que arrepiavam os dentes, vinho e cerveja em abundância. Músicos tocavam gaitas e sistrums, instrumentos com martelos que tilintam com um som que apenas se assemelha ao da água a cair. Houve canções parvas, canções de amor e canções aos deuses. Quando os sistrunis apareceram, entraram as dançarinas, revoluteando e saltando.

Os toucados dados a cada convidado à porta eram cones de cera perfumada, que derretia em rios de lótus e lírios à medida que a noite minguava. O meu bebê estava pegajoso de perfume, quando o levantei, completamente a dormir, do colo de Ra-nefer, e o aroma agarrou-se ao cabelo escuro dele durante dias.

Entre as muitas maravilhas do meu primeiro banquete, estava o modo como as mulheres comiam em conjunto com os homens. Maridos e mulheres sentaram-se lado a lado durante toda a refeição e falaram uns com os outros. Vi uma mulher a pôr a mão no braço do marido e um homem que beijou os dedos da mão cheia de jóias da companheira. Era impossível pensar nos meus próprios pais a comerem uma refeição na companhia um do outro, quanto mais a tocarem-se perante outros. Mas isto era o Egito, eu é que era a estranha.

Aquela noite marcou o fim da minha reclusão. A minha ferida tinha sarado, a criança era saudável, pelo que fomos mandados para o horto, onde a porcaria dele não sujava o chão e os seus balbucios não perturbavam o trabalho dos escribas. Portanto, os meus dias eram passados no exterior. Enquanto o meu filho fazia uma sesta nos canteiros de flores, eu arrancava as ervas daninhas e colhia o que quer que a cozinheira precisasse, e assim fiquei a conhecer as flores e os frutos daquela terra. Quando ele acordava, era recebido pelas canções de pássaros egípcios, e abria os olhos deliciados enquanto eles levantavam vôo.

O horto tornou-se a minha casa e o tutor do meu filho. Ra-mose deu os primeiros passos à beira de um grande lago povoado de peixes e aves que ele observava maravilhado, de boca aberta. As primeiras palavras dele (depois de “Má”) foram “pato” e “lótus”.

A avó trazia-lhe bons brinquedos. Ela surpreendia-o quase todos os dias com uma bola ou um pião ou um pau de caça em miniatura. Uma vez, ela presenteou-o com um gato de madeira cuja boca abria e fechava puxando um cordel. Esta maravilha não me deliciou a mim menos do que ao bebê. O meu filho amava Ra-nefer e, quando a via aproximar-se, dava uns passinhos vacilantes para a receber com um abraço. Eu não era infeliz no horto. Ra-mose, saudável e solar, dava-me um objetivo e um estatuto, uma vez que toda a gente da casa o adorava e me dava o crédito pelas maneiras afáveis e pelo temperamento agradável que ele tinha.

Todos os dias eu beijava os meus dedos e tocava a estátua de Isis, dando graças que seriam distribuídas pela multiplicidade de deuses e deusas do Egito cujas histórias eu não sabia, como forma de mostrar a minha gratidão pela dádiva do meu filho. Dava graças de cada vez que o meu filho me abraçava e, a cada sétimo dia, partia um pedaço de pão e dava-o a comer aos patos e aos peixes, em memória do sacrifício das minhas mães à Rainha do Céu, e em prece pela saúde continuada do meu Ra-mose.

Os dias passavam docemente, somaram-se em meses consumidos pelas infindáveis tarefas de amar uma criança. Eu não tinha tempo livre para olhar para trás, nem necessidade de futuro.

Teria ficado para sempre dentro do horto da infância de Ra-mose, mas o tempo é o inimigo das mães. Sem que eu desse conta, o meu bebê que caminhava e segurava a mão tinha desaparecido, para dar lugar a um rapaz que corria. Uma vez desmamado, perdi a modéstia de Canaã e passei a usar uma combinação de linho muito fino, tal como as outras mulheres egípcias. O cabelo de Ra-mose foi rapado e foi-lhe dada a forma de um caracol lateral entrançado, que todas as crianças egípcias usavam.

O meu filho tornou-se forte e musculoso, brincando às lutas com Nakht-ra, seu tio, a quem ele chamava Ba. Eles adoravam-se um ao outro, e Ra-mose acompanhava-o nas expedições de caça aos patos. Nadava como um peixe, segundo Ra-nefer. Embora eu nunca deixasse a casa e os jardins, ela ia na barca. Quando tinha apenas sete anos, o meu filho conseguia vencer o seu tio no senet e até nos vinte quadrados, que eram complicados jogos de tabuleiro que requeriam estratégia e lógica. Desde o momento em que ele conseguira segurar um pau, Nakht-ra mostrara ao meu filho como fazer imagens em pedaços de pedra partida, como um jogo, a princípio, e, depois, de professor para aluno. À medida que ia crescendo, Ra-mose passava mais tempo dentro de casa, observando Nakht-ra a trabalhar, praticando as suas letras, tomando a refeição da noite com a avó. Uma manhã, enquanto tomava o café da manhã comigo na cozinha, vi-o a ficar muito direito e a corar, quando eu parti um figo ao meio com os dentes, e lhe dei metade. O meu filho não me disse nada que me causasse dor - mas Ra-mose deixou de comer comigo, depois disso, e começou a dormir no telhado da casa, deixando-me sozinha na minha pequena cama no jardim, perguntando-me para onde é que tinham ido oito anos.

Aos nove, Ra-mose chegou à idade em que os rapazes atavam a sua primeira faixa, pondo fim aos dias de nudez. Era tempo de ele ir para a escola e de se tornar escriba. Nakht-ra decidiu que os professores locais não eram suficientemente bons para o seu sobrinho, por isso mandou-o para a grande academia de Mênfis, onde os filhos dos mais poderosos escribas recebiam educação e comissões de trabalho, e onde o próprio Nakbt-ra fora ensinado. Ele explicou-me tudo isto no jardim, uma manhã. Falou com amabilidade e compaixão, pois sabia o quanto me doeria a partida de Ra-mose.