A Tenda Vermelha

Anita Diamant · Capítulo 7 de 18

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A Tenda Vermelha

Capítulo 2

 

Nos dias seguintes à redenção de Ruti, Jacob começou a pensar seriamente em tirar-nos dali. À noite, com Lea ou com Raquel, falava do seu desejo de abandonar as tendas de Labão e voltar à terra de seu pai. Jacob disse a Bilhah que a sua irrequietude lhe consumia a paz e que dormia mal. Jacob encontrou Zilpa, numa noite em que a insônia os levou a ambos, separadamente, ao conforto sussurrante do grande terebinto que se erguia junto ao altar. Mesmo em noites paradas, sem ar, escondiam-se brisas entre as folhas largas e planas da árvore de Zilpa. Jacob disse à sua quarta esposa que o deus dele lhe tinha aparecido e que lhe tinha dito que era tempo de deixar a terra dos dois rios. Era tempo de levar as esposas, os filhos e a riqueza acumulados por suas mãos. Jacob disse a Zilpa que os seus sonhos se tinham tornado ferozes. Noite após noite, vozes de fogo chamavam-no de volta a Canaã, à terra do pai dele. Por muito ferozes que fossem os seus sonhos, eram alegres, também. Rebeca brilhava como o Sol e Isaac abençoava-o com um sorriso. Mesmo o irmão já não o ameaçava, mas aparecia como um enorme touro vermelho que convidava Jacob a montar-se nas costas dele. E parecia que Jacob já não tinha motivos para ter medo do seu irmão, pois os mercadores de Canaã tinham trazido notícias de que Esaú se tornara um próspero dono de rebanhos, e que tinha muitos filhos e a reputação de ser generoso.

No seu dia de recolhimento na tenda vermelha, as esposas de Jacob falaram entre si dos sonhos e dos planos do marido. Os olhos de Raquel brilharam antevendo a possibilidade de se mudarem para o Sul. Ela era a mais viajada de entre elas, tendo assistido a partos pelos montes, em Carchemish e, uma vez, na própria cidade de Haran.- Oh, ver grandes montanhas, e uma verdadeira cidade! - disse ela. -Mercados cheios de bons produtos e de frutas cujos nomes nós nem sequer conhecemos! Encontraremos caras dos quatro cantos. Ouviremos a música de pandeiretas de prata e de flautas douradas. Lea não estava tão ansiosa para descobrir novos mundos para além do vale que lhe tinha dado vida.

- Eu contento-me com as caras que vejo aqui à minha volta - disse ela -, mas gostaria muito de me ver livre do fedor de Labão. Iremos, é claro. Mas eu partirei com pena. Bilhah abanou a cabeça.- Sofrerei por deixar os ossos de Ada. Sentirei falta de ver o Sol nascer no lugar onde dei à luz o meu filho. Ficarei de luto pela passagem da nossa juventude. Mas estou preparada. E os nossos filhos estão loucos por se irem embora daqui.

Bilhah deu voz a uma verdade que não tinha sido dita. Não havia espaço suficiente para tantos filhos fazerem carreira em Haran, onde qualquer outeirinho já tinha sido reclamado havia gerações. Não havia terra no país das mães deles. Se a família não se fosse embora junta, as mulheres rapidamente ficariam com o coração partido, vendo os filhos virarem-se uns contra os outros ou desaparecerem em busca dos seus próprios caminhos.

A respiração de Zilpa começou a ficar cada vez mais alta e mais irregular, à medida que as irmãs viravam e apontavam o futuro.- Não posso ir - rebentou ela. - Não posso deixar a árvore sagrada, que é a fonte do meu poder. Ou a bamah, que está embebida nas minhas oferendas. Como é que os deuses saberão onde é que estou, se eu não estiver aqui para os servir? Quem é que os vai proteger? Irmãs, seremos acometidas por demônios - disse ela com os olhos muito abertos. - Esta árvore, este lugar, é aqui que ela está, a minha pequena deusa, Nanshe. As irmãs sentaram-se, para ouvir Zilpa dizer o nome da sua própria deidade, algo que só se fazia no leito de morte. A irmã delas sentia-se desesperançada e tinha a voz estrangulada de lágrimas enquanto dizia:- Vocês também, irmãs. Todos os vossos deuses nomeados residem aqui. Este é o lugar em que somos conhecidas, onde sabemos como servir. Será fatal irmo-nos embora. Eu sei que sim.

Fez-se silêncio, enquanto as outras olhavam fixamente para ela. Bilhah falou primeiro.

- Cada lugar tem os seus nomes sagrados, as suas árvores e elevações -disse ela, com voz calma de mãe que se dirige a uma criança assustada. -Haverá deuses para onde formos.

Mas Zilpa não era capaz de olhar Bilhah nos olhos, limitando-se a abanar a cabeça de um lado para o outro.

- Não - sussurrou ela.

Lea falou a seguir.

- Zilpa, nós somos a tua proteção. A tua família, as tuas irmãs, são a tua única segurança contra a fome, contra o frio, contra a loucura. Por vezes, pergunto-me se os deuses não serão sonhos e histórias que nos ajudam a passar noites frias e pensamentos negros. - Lea pegou na irmã pelos ombros. - É melhor depositares a tua confiança nas minhas mãos e nas mãos de Jacob, do que em histórias feitas de vento e de medo. Zilpa encolheu-se por baixo das mãos da irmã e virou-se.- Não - disse ela.

Raquel ouviu a sensata blasfêmia de Lea maravilhada, e falou, escolhendo as palavras para pensamentos que só descobria à medida que lhes dava voz.

- Nunca poderemos responder ao teu medo com provas, Zilpa. Os deuses estão sempre silenciosos. Sei que as mulheres em trabalho de parto encontram força e conforto nos nomes dos seus deuses. Já as vi lutar para além de toda a esperança ao ouvirem o som de um encantamento. Já vi vidas serem poupadas no último momento, por nenhuma outra razão senão essa esperança. Mas sei, também, que os deuses não protegem mesmo as mais bondosas e as mais piedosas das mulheres de verem os seus corações partidos, ou da morte. Portanto, Bilhah tem razão. Levaremos Nanshe conosco - disse ela, nomeando a amada deusa de Zilpa, padroeira dos sonhos e dos cantores. - Também levaremos Gula - nomeando a deusa da cura, a quem Raquel fazia oferendas. E, então, enquanto a idéia crescia na sua cabeça, Raquel deixou-a sair: -Pegaremos em todos os teraphim das nossas tendas e levá-los-emos para Canaã, com o nosso marido e os nossos filhos. Certamente que não nos farão mal - continuou ela, ganhando balanço à medida que o plano se formava na sua cabeça. - Se eles estiverem à nossa guarda. Não farão a Labão qualquer bem - acrescentou ela astuciosamente. Bilhah e Lea riram-se nervosamente, com a idéia de Labão se ver desapossado das suas figuras sagradas. O velho consultava as estátuas quando tinha que fazer alguma escolha, acariciando as suas favoritas distraidamente durante horas. Lea dizia que elas o acalmavam, da mesma maneira que um peito cheio acalmava um bebê resmungão. Irem-se embora com os teraphim era incitar a ira de Labão. Mesmo assim, Raquel tinha um certo direito a eles. Em tempos remotos, quando a família vivia na cidade de Ur, era direito inquestionável da filha mais nova herdar todos os objetos sagrados. Esses costumes já não eram universalmente respeitados e Kemuel poderia reclamar os teraphim como parte dos direitos de nascença de um filho mais velho com a mesma autoridade.

As irmãs ficaram sentadas em silêncio, a considerar a arrojada idéia de Raquel. Por fim, Raquel falou.

- Levarei os teraphim e eles serão uma fonte de poder para nós. Serão um sinal dos nossos direitos de nascença. O nosso pai sofrerá tal como fez outros sofrer. Não falarei disto outra vez.

Zilpa limpou as lágrimas. Lea aclarou a garganta. Bilhah levantou-se. Tinha sido decidido.

Eu nem me atrevia a respirar. Receava ser expulsa da tenda,. caso elas dessem conta da minha presença. Fiquei sentada e quieta entre a mão direita da minha mãe e a mão esquerda de Bilhah, surpreendida com o que ouvia.

Raquel era leal a Gula, a curandeira. As oferendas de cereal de Bilhah eram feitas a Uttu, a fiandeira. Lea nutria particular afeição por Ninkasi, a cervejeira, que para levedar a cerveja usava uma cuba feita de lápis-lazúli cristalino e uma concha de prata e ouro. Eu pensava nos deuses e nas deusas como tias e tios mais avantajados do que os meus pais e capazes de viver dentro do chão ou acima da terra, se o quisessem. imaginava-os imortais, inodoros, eternamente felizes, fortes, e atentos a tudo quanto me acontecesse. Fiquei assustada, ao ouvir Lea, a mais sábia das mulheres, perguntar-se se estes poderosos amigos não seriam simples histórias destinadas a acalmar os pesadelos infantis. Tremi. A minha mãe pôs-me a mão na cara, para ver se eu tinha febre, mas o seu toque encontrou-me fresca. Mais tarde, nessa noite, acordei a gritar e a suar num terror de queda, mas ela veio ter comigo e deitou-se a meu lado, e o calor do corpo dela reconfortou-me. Segura, no conhecimento do amor dela, comecei a resvalar para o sono e, depois, acordei por um momento, ao pensar que tinha ouvido a voz de Raquel: “Lembra-te deste momento em que o corpo da tua mãe cura todos os problemas da tua alma.” Olhei em volta. mas a minha tia não estava à vista.

Deve ter sido um sonho.

Três dias mais tarde, Lea foi até à pastagem rochosa a oeste, para dizer a Jacob que as esposas estavam preparadas para o acompanharem à sua terra de origem. Eu seguia atrás dela, carregando um pouco de pão e cerveja para o meu pai. Não me agradava muito ter sido obrigada a fazer este serviço num dia quente.

Quando cheguei ao topo do outeiro que separava o nosso acampamento da pastagem, fui parada por uma cena perfeitamente maravilhosa. Muitas das ovelhas estavam pesadas, com cordeiros na barriga, e quase não se mexiam no calor crescente. O Sol levante invocava o cheiro do trevo. Só as abelhas zumbiam sob a resplandecente bandeira azul do céu. Parei, enquanto a minha mãe continuava e seguia adiante. O mundo parecia tão perfeito, tão completo, e no entanto tão pouco permanente, que eu quase chorei. Teria que descrever a Zilpa este sentimento e perguntar-lhe se ela sabia uma canção para ele. Mas, então, percebi que algo no universo se movera. Algo de importante mudara. Procurei no horizonte: o céu continuava claro, o trevo continuava pungente, as abelhas zumbiam.

Reparei que a minha mãe e o meu pai não estavam sozinhos. Lea estava em pé diante do marido. Ao lado dela estava Raquel. As duas mulheres tinham feito uma espécie de paz havia alguns anos: Não trabalhavam juntas nem se consultavam uma à outra. Não se sentavam perto uma da outra na tenda vermelha nem se dirigiam uma à outra diretamente. E nunca estavam na presença do marido ao mesmo tempo. E, no entanto, ali estavam os três, à vista de todos, a conversar como velhos amigos. As mulheres estavam de costas para mim. A conversa suspendeu-se, quando eu me aproximei. A minha mãe e a minha tia viraram-se de costas para Jacob e, ao verem-me, voltaram-se e retomaram as suas expressões solenes, com aquele sorriso falso que os adultos fazem quando querem esconder alguma coisa às crianças. Não devolvi o sorriso. Sabia que eles tinham estado a falar da partida. Pus a comida e a bebida da minha mãe aos pés dele e virei-me, para seguir Lea e Raquel de regresso às tendas, quando Jacob, meu pai, falou.- Dina - disse ele. Era a primeira vez que eu me recordava de ter ouvido o meu nome na boca dele. - Obrigado, rapariga. Que possas sempre ser um conforto para as tuas mães. Olhei para a cara dele e ele sorriu um sorriso verdadeiro para mim. Mas eu não sabia como sorrir ao meu pai nem como responder-lhe, por isso virei-me, para correr atrás da minha mãe e de Raquel, que já caminhavam direitas às tendas. Fiz a minha mão deslizar para a mão de Lea e olhei de relance para trás, para ver Jacob mais uma vez, mas ele já estava de costas para mim.

Jacob começou a negociar a nossa partida naquela noite. Ao cair da noite e durante muitas noites em seguida, as mulheres deitaram-se nas suas camas com o som das vozes altas dos homens a zoarem-lhes nos ouvidos. Labão estava perfeitamente disposto a ver Jacob partir com as filhas e os netos, que comiam muito e o respeitavam pouco. Mas o velho detestava a idéia de ver Jacob ir-se embora rico. Durante as longas noites de gritaria, Labão sentou-se entre os filhos dele, Kemuel e Beor. Os três beberam cerveja e vinho e bocejaram na cara de Jacob e deram por finda a conversa antes que se chegasse a qualquer acordo.

Jacob sentou-se entre os seus filhos mais velhos, Ruben e Simeão, e não tocou em qualquer bebida mais forte do que cerveja de cevada. Por trás dele estavam Levi e Judá, em pé. Os sete filhos mais novos mantinham-se fora da tenda, esforçando-se por ouvir o que lá se dizia. José contou-me o que ouviu e eu repeti tudo às minhas mães. Mas não contei a José as conversas murmuradas entre as mulheres. Não lhe contei que estavam a acumular pão duro, nem que tinham começado a coser ervas na bainha das roupas. E era suficientemente esperta para não deixar escapar uma palavra acerca do plano de Raquel para levar os teraphin. Noite após noite, Labão argumentou que não devia a Jacob mais do que os magros dotes dados a Lea e Raquel, o que privaria o nosso pai até das tendas que nos cobriam as cabeças. Então, numa grande demonstração de generosidade, ofereceu vinte cabeças de ovelhas e vinte cabras uma de cada por cada ano que Jacob o servira, proporcionando-lhe muito mais riquezas do que este alguma vez sonhara. Jacob, pela parte dele, reclamava os direitos de qualquer supervisor, ou seja um décimo dos rebanhos e o direito de escolher as cabeças de gado que levaria. Exigia os pertences pessoais das esposas dele, que se traduziam num bom monte de mós e fusos, teares e jarros, jóias e queijos. Lembrou a Labão que as tendas, os rebanhos e os trabalhadores a quem este devia dinheiro tinham sido adquiridos graças ao labor de Jacob. Ameaçou procurar justiça no tribunal de Haran, mas isso só fez Labão rir-se dele. Ele tinha jogado e bebido muito com os pais da cidade durante muitos anos, e não tinha dúvidas sobre o partido que tomariam. Uma noite, já tarde, depois de semanas de conversas infrutíferas, Jacob encontrou as palavras que comoveram o coração de Labão. O marido de Lea e Raquel, o pai dos filhos de Zilpa e Bilhah, olhou Labão nos olhos e disse-lhe que o deus dos pais dele não olharia com benevolência para quem intrujasse um dos ungidos da sua tribo. Jacob disse-lhe que o deus dele o visitara em sonhos e que lhe tinha dito que se fosse embora com as esposas e os filhos e com uma abundância dos rebanhos dele. O deus de Jacob tinha dito que quem tentasse contrariar Jacob sofreria no próprio corpo, nos seus rebanhos e nos seus filhos. Isto preocupou o velho, que tremia perante o poder de qualquer deus. Quando Jacob invocou o nome do deus dos pais dele, o sorriso escarninho caiu dos lábios de Labão. O sucesso de Jacob com os rebanhos, a saúde dos seus onze filhos, a lealdade dos trabalhadores e mesmo as extraordinárias capacidades dos seus cães tudo isso era sinal de que Jacob era abençoado pelos céus. Labão recordou todos os anos de excelentes sacrifícios que Jacob tinha feito ao seu deus e chegou à conclusão de que El devia estar muito satisfeito com tanta devoção. No dia seguinte, Labão fechou-se com os seus deuses lares e não foi visto até à noite, altura em que mandou chamar Jacob. No momento em que Jacob se viu frente ao sogro, percebeu que a sorte tinha mudado. Começou a negociar a sério.

- Meu pai - disse ele, com falso mel na voz , - porque foste bom para mim, só quero levar os animais que são malhados e às pintas, aqueles cuja lã e cuja pele me darão menos dinheiro no mercado. Ficarás com os puro-sangue dos rebanhos. Sairei de tua casa pobre, mas grato.

Labão sentiu que havia truque na oferta de Jacob, mas não conseguiu adivinhar onde estava o benefício. Toda a gente sabia que os animais mais escuros não produziam lã de que se pudesse fazer fio branco, nem as respectivas peles ficavam uniformemente curtidas. O que Labão não sabia era que os animais “mais pobres” eram mais robustos e saudáveis do que os animais que davam a lã e as peles mais bonitas. As ovelhas malhadas tinham gêmeos as maioria das vezes e a maior parte das suas crias eram fêmeas, o que significava mais queijo. O pêlo das cabras malhadas era particularmente oleoso, por isso produzia corda mais forte. Mas estes eram os segredos de Jacob, aprendidos durante os anos que passara com os rebanhos. Era um conhecimento negado à preguiça de Labão.

Labão disse:

- Assim seja - e os homens beberam vinho para selar o acordo. Jacob ir-se-ia embora com as suas mulheres e os seus filhos, com os rebanhos malhados e às pintas, que não ascendiam a mais de sessenta cabras e sessenta ovelhas. Jacob poderia ter levado mais gado, mas trocou-o por dois trabalhadores e suas mulheres. Em troca de um burro e de um boi antiquíssimo, Jacob concordou em deixar dois dos cães, incluindo o melhor dos cães pastores.

Todos os bens caseiros de Lea e Raquel eram para Jacob levar, tal como as roupas e jóias que Zilpa e Bilhah usavam. Jacob reclamou as capas e as lanças dos seus filhos, dois teares e vinte e quatro minas de lã, seis cestos de cereais, doze jarros de azeite, dez odres de vinho, e odres de água, um para cada pessoa. Mas esta foi apenas a contagem oficial, que não tomou em linha de conta a esperteza das minhas mães. Eles decidiram a data da nossa partida: daí a três meses. Embora parecesse uma eternidade quando foi anunciada, as semanas passaram depressa. As minhas mães começaram a recolher, a deitar fora, a empacotar, a escolher, a trocar, a lavar. Conceberam sandálias para a viagem e cozeram vários pães duros. Esconderam as suas melhores jóias no fundo dos cestos de cereais, para o caso de sermos abordados por ladrões, na estrada. Rasparam os montes à cata de ervas para encher as bolsas.

Se tivessem escolhido fazê-lo, as minhas mães poderiam ter levado todo o horto. Poderiam ter levado cada bolbo de cebola, ter desenterrado cada um dos armazenamentos de cereais que estavam enterrados e ter esvaziado todas as colméias existentes a curta distância. Mas levaram apenas aquilo que consideravam ser seu de direito, e nada mais. Fizeram isto, não por respeito por Labão, mas pelo respeito que tinham pelas mulheres dos trabalhadores e pelas crianças delas que ficariam para trás. Mandada a ir buscar coisas e a carregar outras, também eu trabalhei muito. Ninguém me mimava ou se preocupava muito com o meu cabelo. Ninguém me sorria ou elogiava a minha fiação. Senti que abusavam de mim e que me ignoravam, mas ninguém se apercebia de nada, quando eu ficava a remoer o assunto, pelo que deixei de sentir pena de mim própria e fiz o que me mandavam fazer.

Poderia ter sido uma época alegre, se não fosse pela Ruti, que, nas últimas semanas da nossa preparação, perdeu todo o ânimo. Começou a sentar-se no pó em frente à tenda de Lea, uma imagem fúnebre do desespero que forçava toda a gente a rodear o corpo dela. Lea agachou-se e tentou persuadir Ruti a sair dali, a ir para dentro da tenda e comer qualquer coisa, a reconfortar-se. Mas nada neste mundo podia confortar Ruti. Lea condoía-se da pobre mulher, que não era mais velha do que ela própria, mas cujos dentes já tinham desaparecido e que se arrastava como uma velha. Porém, não havia nada a fazer e, depois de várias tentativas de a fazer tentar sair da infelicidade em que se achava, a minha mãe levantou-se e continuou a fazer o que tinha a fazer. Na noite anterior à última lua nova que passamos na terra dos dois rios, as esposas de Jacob juntaram-se silenciosamente na tenda vermelha. As irmãs sentaram-se, deixando os bolos de três cantos intactos, no cesto que estava diante delas. Bilhah disse:

- A Ruti vai morrer, agora. - As palavras dela pairaram no ar, incontestadas e verdadeiras. - Um dia, Labão vai bater-lhe de mais, ou ela vai simplesmente definhar de mágoa.

Zilpa suspirou no silêncio, Lea limpou as lágrimas. Raquel fixou os olhos nas mãos. A minha mãe puxou-me para o colo dela, um lugar para o qual eu já era demasiado grande. Mas eu fiquei lá sentada, deixei-a tratar-me como um bebê, desfrutei as carícias desatentas dela. As mulheres queimaram uma porção do seu bolo lunar como oferenda, tal como faziam a cada lua nova, tal como faziam a cada sétimo dia. Mas não cantaram nenhuma canção de ação de graças nem dançaram. No dia seguinte, as mulheres dos trabalhadores juntaram-se às mulheres de Jacob, mas daquela vez tudo se passou como se tratasse de um funeral e não como se fosse uma festa. Ninguém pediu à mulher grávida que falasse dos sintomas dela. Ninguém falou das façanhas do filho. As mulheres não entrançaram o cabelo umas às outras nem massagearam os pés umas das outras com óleo. Os bolos doces permaneceram intactos, a não ser pelos bebês que andavam dentro e fora, procurando os peitos e os colos das mães.

e todas as mulheres, só Zibatu e Uzna é que iriam para Canaã com as minhas mães. As outras ficariam para trás com os seus maridos. Era o fim de uma longa irmandade. Elas tinham segurado as pernas umas das outras nos partos, tinham dado de mamar aos bebês umas das outras. Tinham rido no horto e cantado harmonias à lua nova. Mas esses dias estavam a acabar, e cada mulher se sentava com as suas próprias recordações, a sua própria perda. Pela primeira vez, a tenda vermelha transformou-se num lugar triste, e eu fui sentar-me lá fora até estar suficientemente cansada para ir dormir.

Ruti não apareceu na tenda. Passou a manhã, e a noite, e ela sem vir. Quando o Sol se levantou no segundo dia, a minha mãe mandou-me procurá-la. Perguntei a José se a mulher do nosso avô tinha feito pão nessa manhã. Perguntei a Judá se tinha visto Ruti em qualquer lugar. Perguntei por ela aos meus irmãos e às filhas das mulheres dos trabalhadores, mas ninguém se lembrava de ter visto Ruti. Ninguém se conseguia lembrar. Por essa altura, a infelicidade tinha-a tornado quase invisível.

Fui ao topo do monte em que fora tão feliz há uns meses, mas, agora, o céu estava mortiço e a terra parecia cinzenta. Perscrutei o horizonte, mas não vi ninguém. Fui até ao poço, mas estava sozinha. Trepei aos ramos mais baixos de uma árvore, no limite da pastagem mais próxima das tendas, mas não vi Ruti.

Quando regressava para dizer à minha mãe que era impossível descobrir Ruti em lado algum, encontrei-a. Estava deitada num dos lados de um wadi seco, lugar desolado onde os cordeiros tresmalhados por vezes iam ter e partiam as pernas. A princípio, pensei que Ruti estava a dormir de barriga para o ar, deitada na encosta íngreme. À medida que me ia aproximando, percebi que tinha os olhos abertos, pelo que a chamei, mas ela não me deu troco.

Só então reparei que ela estava de boca aberta, com os cantos dos olhos cobertos de moscas, e depois vi o pulso, negro de sangue. Os pássaros que comem cadáveres voavam em círculos por cima dela. Eu nunca tinha visto um cadáver. Os meus olhos encheram-se da cara de Ruti, que já não era a cara de Ruti, mas um pedaço de ardósia azul com traços de uma cara que eu recordava. Ela não parecia triste. Não parecia sofrida. Não tinha ar de coisa alguma, a não ser o de estar vazia. Olhei fixamente, tentando perceber para onde é que a Ruti tinha ido. E, embora não me apercebesse disso, estava a suster a respiração. Poderia nunca me ter mexido daquele lugar, se o José não tivesse aparecido por trás de mim. Raquel também o tinha mandado procurar Ruti. Ele passou por mim e agachou-se ao lado do corpo. Soprou levemente sobre os olhos fixos dela, tocou-lhe a cara com o dedo e, depois, pôs a mão direita sobre os olhos para os fechar. Fiquei surpreendida com a coragem e a calma do meu irmão. Mas, então, José estremeceu e deu um salto para trás, como se tivesse sido mordido por uma cobra. Correu até ao fundo do wadi, até ao lugar onde a água correra, em tempos, e onde devem ter crescido flores. Caindo de joelhos, José vomitou no leito seco. Com grandes soluços, ajoelhou-se e vomitou e tossiu. Quando fui ter com ele, ele pôs-se de pé a cambalear e fez um gesto para eu me manter afastada.- Volta para trás e vai dizer-lhes - murmurei eu. - Eu fico aqui e mantenho os abutres longe dela.

Arrependi-me das minhas palavras no momento em que saíram da minha boca. José não se deu ao trabalho de responder, mas desatou a correr como se fosse perseguido por um lobo.

Virei-me de costas para o corpo, mas não conseguia abstrair-me do som das moscas no pulso dela e da faca ensangüentada a seu lado. Os abutres batiam as asas e gritavam. O vento passava pela minha túnica e eu tremia.

Fui até ao cimo do wadi e tentei ter bons pensamentos acerca da Ruti. Mas apenas conseguia pensar no medo expresso nos olhos dela, na poeira no cabelo dela, no cheiro azedo do corpo dela, nela agachada e vencida. Tinha sido uma mulher, da mesma maneira que a minha mãe era uma mulher, e no entanto era uma criatura completamente diferente da minha mãe. Eu não percebia a bondade de Lea para com Ruti. No fundo, eu partilhava o desdém dos filhos dela por ela. Porque se submetia ela a Labão? Porque não exigia o respeito dos filhos? Como é que tinha encontrado coragem para se matar, quando não tinha tido coragem para viver? Tive vergonha da frieza do meu coração, pois sabia que Bilhah teria chorado ao ver Ruti ali deitada, e que Lea poria cinzas no seu próprio cabelo, quando soubesse o que tinha acontecido.

Mas quanto mais tempo ficava ali, mais odiava a Ruti pela sua fraqueza, por me obrigar a ficar ali a guardá-la. Parecia que ninguém me vinha buscar, e comecei a tremer. Talvez Ruti se levantasse e me atacasse com a sua faca, como castigo pela crueldade dos meus pensamentos. Talvez os deuses do mundo inferior viessem buscá-la e me levassem a mim, também. Comecei a chorar, desejando que a minha mãe viesse e me salvasse. Chamei o nome de cada uma das minhas tias. Chamei José e Ruben e Judá. Mas parecia que eles me tinham esquecido. Quando vi os vultos de duas pessoas que atravessavam o prado, estava doente de preocupação. Mas não havia ninguém para me reconfortar. As mulheres tinham permanecido na tenda. Só os horríveis filhos de Ruti tinham vindo. Atiraram um cobertor sobre a cara da mãe sem ao menos soltarem um suspiro. Beor lançou o pequeno fardo que era Ruti sobre os seus ombros, como se estivesse a carregar um cabrito tresmalhado. Segui-o sozinha. Kemuel não prestou qualquer atenção à sua pobre mãe morta e caçou um coelho no caminho de volta. “Ha, ha!” gritou ele, quando a sua seta acertou o alvo.

Só quando vi a tenda vermelha na orla do acampamento é que as lágrimas me começaram a correr pela cara abaixo outra vez, e corri para as minhas mães. Lea observou atentamente a minha cara, e cobriu-a de beijos. Raquel abraçou-me com força na cama bem-cheirosa dela. Zilpa cantou-me uma canção de embalar sobre chuvas abundantes e colheitas luxuriantes, enquanto Bilhah me massageou os pés até eu adormecer. Não acordei senão na noite seguinte, e, por essa altura, Ruti já estava na terra. Fomo-nos embora alguns dias mais tarde.

O meu pai e os meus irmãos mais velhos, todos os trabalhadores e os filhos de Labão foram para os pastos mais distantes para separar o gado malhado e pintado que agora pertencia a Jacob. De todos os homens, só Labão ficou no acampamento, contando jarros à medida que estes eram cheios, desarrumando artigos de lã arrumados, para verificar que não levávamos nada que ele não tivesse acordado que levássemos.- É um direito meu - ladrava ele, sem se desculpar. Labão acabou por se cansar de espiar os trabalhos das filhas e decidiu ir a Haran “em negócios”. Lea escarneceu do anúncio.- O velho vai jogar e beber e gabar-se aos outros idiotas preguiçosos de se ter finalmente livrado do genro ganancioso e das filhas ingratas -disse-me ela, enquanto cozinhávamos uma refeição para ele levar na viagem. Beor acompanhou Labão, que fez grande encenação para deixar Kemuel no comando. - Ele tem a minha autoridade em todas as coisas -disse Labão às esposas e aos filhos mais novos de Jacob, que reuniu para assistirem à sua partida.

Mal Labão desaparecera por trás do monte, já Kemuel exigia que Raquel, ela mesma, lhe trouxesse vinho forte.

- Não me mandem uma rapariga feia para me servir - gritou ele. - Quero a minha irmã.

Raquel não colocou qualquer objeção a servi-lo, uma vez que aquilo lhe dava a oportunidade de lhe pôr na taça uma erva que apressa o sono.- Bebe bem, irmão - disse ela docemente, enquanto ele engolia a primeira taça. - Toma outra.

Uma hora depois da partida de Labão já ele estava a ressonar. De cada vez que acordava, Raquel ia à tenda dele com a sua poção, sentava-se com ele, fingia-se interessada nas rudes tentativas de sedução e enchia-lhe a taça de tal maneira e tantas vezes, que ele perdeu todo aquele dia e também o seguinte.

Enquanto Kemuel ressonava, os homens voltaram, trazendo os rebanhos para a pastagem mais próxima, logo a seguir à colina ao lado das tendas, o que fez com que as últimas horas da nossa preparação se enchessem de balidos, poeira e cheiros de animais. Essas horas também foram preenchidas pelo desacostumado barulho de tantos homens entre nós. Em dias normais, as tendas só eram ocupadas pelas mulheres e crianças. Um homem doente ou fraco poderia ficar deitado na sua cama ou sentado ao sol enquanto o trabalho de lá, de pão e de cerveja progredia à volta dele, mas, tal homem, permaneceria embaraçado e à margem. Nós tínhamos toda uma multidão de homens saudáveis com muito pouco que fazer.

- Que maçada - disse a minha mãe da incontornável presença dos meus irmãos.

- Eles estão sempre com fome - resmungou Bilhah (que nunca resmungava), depois de ter mandado Ruben embora, pela segunda vez naquela manhã, com uma tigela de lentilhas e de cebolas. De poucos em poucos minutos, Bilhah ou Lea tinham que fazer uma pausa nos seus afazeres para aquecerem as pedras do pão.

A presença dos homens acarretava outra dificuldade mais subtil. As tendas eram o domínio de Lea e, muito embora só ela soubesse o que era necessário ser feito, não dava ordens com o marido ao lado. Portanto, ficava de pé atrás de Jacob e perguntava suavemente: “O meu marido está pronto para desmantelar o tear grande e pô-lo na carroça?”, e ele dirigia os filhos na realização das tarefas necessárias. E assim foi, até tudo estar pronto.

Durante as semanas de preparação, e especialmente depois de Labão ter partido para Haran, mantive-me junto da minha tia Raquel. Encontrava razões para a seguir de uma tarefa para a outra, oferecendo-me para carregar coisas para ela, pedindo-lhe conselhos sobre os meus deveres. Ficava ao lado dela até ao cair da noite, chegando mesmo a adormecer nos cobertores dela, e acordava de manhã para me encontrar coberta pela sua bem-cheirosa capa. Tentei ser cuidadosa, mas ela sabia que eu a estava a observar.

Na noite anterior à nossa partida, Raquel olhou-me nos olhos, que eu mantinha fixos em cada movimento seu. A princípio, ela arregalou os olhos, mas depois olhou-me de uma maneira que queria dizer que eu tinha triunfado: podia segui-la. Fomos à bamah, onde Zilpa estava deitada de barriga para baixo ao lado do altar, murmurando aos deuses e às deusas que estávamos prestes a abandonar. Ela olhou para cima, enquanto nós nos sentávamos entre as raízes da grande árvore que aí havia, mas nem sequer tenho a certeza de que Zilpa me tenha visto sentar-me entre os joelhos de Raquel. Enquanto esperávamos, a minha tia entrançou-me o cabelo e falou-me das propriedades curativas das ervas comuns (sementes de coentros para a dor de barriga, cominhos para as feridas). Há muito tempo que ela tinha decidido que eu deveria aprender tudo quanto Inna lhe tinha ensinado.

Estivemos ali sentadas no colo da árvore até que Zilpa se levantou, suspirou e se foi embora. Ficamos sentadas até os sons das tendas desaparecerem e as últimas lâmpadas se apagarem. Ficamos ali até a Lua, que estava a meio caminho da completude, estar alçada sobre os ramos que nos cobriam, e até o único som ser o ocasional balido de uma ovelha.

Então, Raquel levantou-se, e eu segui-a, enquanto ela caminhava levemente até à tenda de Labão. Nem a minha tia deu sinais de estar consciente da minha presença, nem eu tive a certeza de que ela soubesse que eu estava atrás dela, até que ela segurou na aba aberta da tenda para eu passar para um lugar onde nunca tinha estado e onde não desejava ir. Estava escuro como num poço seco, na tenda do meu avô, e o ar era fétido e bafiento. Raquel, que ali tinha estado para repetidamente levar bebida a Kemuel, passou pelo corpo ressonante dele diretamente para o canto da tenda em que um rústico banco de madeira servia de altar. Os teraphim estavam dispostos em duas filas. Raquel agarrou-os sem hesitar e deixou-os cair, um por um, no pano que trazia atado em volta da cintura, como se estivesse a colher cebolas. Quando o último dos ídolos caiu no avental dela, voltou-se, caminhou ao longo da tenda sem um olhar para Kemuel - que gemeu no sono, quando ela passou por ele -, e silenciosamente segurou a aba aberta da tenda para que eu passasse. Saímos dali para o silêncio. O meu coração batia forte nos meus ouvidos, e eu respirei fundo para me livrar do mau cheiro da tenda, mas Raquel não fez qualquer pausa. Caminhou rapidamente até à tenda dela, onde Bilhah dormia. Ouvi a minha tia remexer nos cobertores, mas estava demasiado escuro para ver onde ela escondia os ídolos. Depois, Raquel deitou-se e eu não ouvi mais nada.

Quis abaná-la, exigir-lhe que me mostrasse os tesouros. Queria que ela me abraçasse, que me dissesse o quanto me portara bem ao manter-me quieta. Mas fiquei calada. Deitei-me com o coração a bater muito rápido, pensando que Kemuel irromperia pela tenda dentro e nos mataria a todas. Perguntei-me se os teraphim ganhariam vida e nos lançariam terríveis feitiços por os incomodarmos. Tinha a certeza de que a manhã nunca mais chegaria, e tremia no meu cobertor, embora a noite não estivesse fria. Por fim, os meus olhos fecharam-se, num sono sem sonhos.

Acordei com um grande barulho de vozes no exterior da tenda. Raquel e Bilhah já lá não estavam, e eu estava sozinha com dois montes de cobertores muito bem dobrados. Ela tinha-os levado com ela, percebi. Raquel tinha levado os ídolos sem mim. Depois de toda a minha cuidada observação e perseguição, tinha perdido aquele momento. Corri para fora, para ver os meus irmãos a enrolarem as peles de cabra que tinham sido a tenda de meu pai. à minha volta, as tendas estavam no chão, as estacas tinham sido reunidas, as cordas tinham sido enroladas. O meu lar tinha sido desmantelado. Íamos embora.

Jacob tinha-se levantado à alvorada e tinha feito um sacrifício de cereal, de vinho e de óleo, para a viagem. Os rebanhos, sentindo mudança, baliam e levantavam poeira. Os cães não paravam de ladrar. Metade das tendas estava no chão, deixando o campo com um ar tosco e desolado, como se um grande vento tivesse levado metade do mundo. Tomamos uma refeição matinal salgada pelas lágrimas daqueles que não nos acompanhariam. As mulheres guardaram as últimas tigelas e ficaram de pé, com as mãos vazias. Não havia mais nada a fazer, mas Jacob não dava o sinal de partida. Labão não voltara de Haran, como tinha prometido.

O Sol começou a levantar-se, havia muito que nos deveríamos ter ido embora, mas Jacob permanecia em pé, sozinho, no topo da elevação que dava sobre a estrada para Haran, piscando os olhos à procura de um sinal de Labão. Os filhos de Jacob murmuraram entre si. Zilpa foi até à bamah, onde rasgou a túnica e pôs cinzas no cabelo. Começou a ficar calor, a fazer-se silêncio, e até os rebanhos se aquietaram. Então, Raquel passou por Ruben e Simeão, Levi e Judá, que estavam no sopé da colina onde Jacob se mantinha de vigia, aproximou-se do marido, e disse:

- Vamos. Kemuel disse-me que o pai dele voltará com lanças e cavaleiros, para nos impedir a partida. Ele foi dizer aos juizes de Haran que és um ladrão. Não devemos esperar.

Jacob ouviu, e depois respondeu:

- O teu pai teme demasiado o meu deus para fazer coisa tão temerária. E Kemuel é parvo.

Raquel curvou a cabeça e disse:

- O meu marido poderá saber mais do que eu, mas os rebanhos estão prontos e os nossos bens empacotados. Os nossos pés estão calçados e estamos aqui sem nada que fazer. Não nos vamos embora a coberto da escuridão da noite. Não levamos senão aquilo que é nosso. Esta é a estação certa. Se esperarmos muito mais, a Lua vai começar a minguar, e uma Lua a escurecer não é propícia à viagem.

Raquel não disse mais do que a verdade, e Jacob não tinha qualquer desejo de ver Labão outra vez. Na realidade, ele estava furioso com o velho, por ele o estar a fazer esperar, por o fazer ir embora como um ladrão, sem se despedir como devia ser do avô dos filhos dele.

As palavras de Raquel iam ao encontro das intenções de Jacob, depois de ela o deixar, ele deu ordem de partida. Impacientes por se meterem a caminho, os filhos de Jacob gritaram de felicidade, mas um lamento levantou-se entre as mulheres que iam ficar para trás. O meu pai fez-nos sinal para que o seguíssemos. Conduziu-nos primeiro a bamah, onde cada um de nós pôs uma pedra no altar. Os homens apanharam uma qualquer das pequenas pedras que estavam a seus pés, para deixarem como despedida. Lea e Raquel procuraram pedras ao pé do terebinto próximo, que lhes tinha dado anos de sombra e conforto. Não se disse uma palavra. As pedras fariam testemunho de nós, embora Bilhah tenha beijado a sua antes de a pôr em cima das outras. Só Zilpa e eu estávamos preparadas para aquele momento. Semanas antes, a minha sofredora tia tinha-me levado ao wadi onde Ruti morrera, mostrando-me um lugar no fundo da ravina, cheio de pedras lisas e ovais. Ela escolheu uma pedra branca muito pequenina. Do tamanho da unha do dedo polegar dela. Eu levei uma vermelha, com veios pretos, quase tão grande quanto o meu punho. Ela guardou-a para mim, e pô-la na palma da minha mão enquanto caminhamos pela última vez até ao lugar sagrado da minha família.

Depois, Jacob conduziu a família por sobre a colina, onde os homens dele esperavam com os rebanhos. As minhas mães não olharam para trás, nem mesmo Zilpa, cujos olhos estavam vermelhos, mas secos.