A Tenda Vermelha

Anita Diamant · Capítulo 6 de 18

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A Tenda Vermelha

Segunda Parte

 

A Minha História

 

CAPÍTULO 1

 

Não estou certa de as minhas primeiras recordações serem realmente minhas, porque, quando penso nelas, sinto o hálito da minha mãe em cada palavra. Mas lembro-me do sabor da água do nosso poço, brilhante e fria contra os meus dentes de leite. E tenho a certeza de que fui apanhada por braços de cada vez que tropecei, pois não me lembro de alguma vez no início da minha vida me ter sentido sozinha ou de ter tido medo.

Como todas as crianças amadas, sabia que era a pessoa mais importante do mundo da minha mãe. E, mais ainda, não apenas para a minha mãe, Lea, mas também para as minhas tias-mães. Embora adorassem os filhos delas, era a mim que vestiam e afagavam enquanto os rapazes lutavam na poeira. Era eu que continuava a ir para a tenda vermelha com elas muito depois de ter sido desmamada.

Enquanto fui bebê, José era o meu constante companheiro. Primeiro, foi meu irmão de leite e, mais tarde, o meu mais verdadeiro amigo. Aos oito meses, ele levantou-se e andou até mim, que estava no meu lugar favorito à frente da tenda da minha mãe. Embora fosse muitos meses mais velha, ainda me agüentava mal nas pernas, provavelmente porque as minhas tias gostavam de andar comigo ao colo. José estendeu as duas mãos para mim, e eu levantei-me. A minha mãe dizia que, por recompensa por ele me ter ensinado a andar, eu o tinha ensinado a falar. José gostava de dizer às pessoas que a primeira palavra dele tinha sido “Dina”, embora Raquel me assegurasse que tinha sido a palavra para Mamã. Ema.

Ninguém imaginava que Raquel viesse a ter outra criança, depois do que padecera com José, portanto, ele e eu recebemos o tratamento que é dado aos últimos frutos de uma esposa principal. De acordo com o costume ancestral, a criança mais nova herdava a bênção da mãe e, de uma maneira ou de outra, os pais normalmente seguiam a escolha delas. Mas José e eu fomos tratados com especial carinho e fomos mimados também porque éramos os bebês - os últimos filhos das nossas mães e a alegria do nosso pai. E também éramos as vítimas dos nossos irmãos mais velhos.

A idade criou duas tribos separadas entre os filhos de Jacob. Ruben, Simeão, Levi e Judá eram quase homens, quando eu aprendi os nomes deles. Estavam freqüentemente ausentes, cuidando dos rebanhos com o nosso pai e, enquanto grupo, não tinham grande utilidade para nós, os pequenos. Ruben era, por natureza, amável com as crianças, mas nós evitávamos Simeão e Levi, que se riam de nós e gozavam com Tali e Issa, os gêmeos. “Como é que vocês sabem qual de vós é quem?” zombava Levi. Simeão era ainda pior: “Se um de vós morrer, a nossa mãe não vai chorar, porque tem outro exatamente igual.” Isto fazia sempre o Tali chorar.

Parecia-me ver saudade no modo como Judá observava os nossos jogos. Ele era demasiado velho para brincar conosco, mas, sendo o mais jovem dos irmãos mais velhos, era o menos considerado e sofria por isso. Judá andava freqüentemente comigo às costas e chamava-me Ahatti, irmãzinha. Eu pensava nele como o meu campeão entre os rapazes grandes.

A principio, Zebulon era o líder dos menores, e poderia ter-se tornado um tiranozinho. se nós não o tivéssemos adorado e não lhe obedecêssemos de livre vontade. Dan era o lugar-tenente dele - leal e doce. Tal como seria de esperar de um filho de Bilhah. Gad e Aser eram loucos, teimosos e difíceis companheiros de brincadeiras, mas eram uns mimos tão maravilhosos - gozando com Labão, por causa do andar pesado e da fala entaramelada pela bebida que ele tinha, com uma acuidade malvada -, que lhes perdoávamos tudo em troco de uma representação. Naftali, a quem nunca chamavam mais do que Tali, e Issacar, ou Issa, tentaram mandar em mim e em José, porque eram quase dois anos mais velhos. Chamavam-nos bebês, mas, um minuto mais tarde, juntavam-se a nós no chão, atirando um seixo ao ar para ver quantas mais pedras é que conseguíamos apanhar com a mesma mão. Era a nossa brincadeira favorita, até eu ter conseguido apanhar dez pedras contra as cinco deles. Foi então que os meus irmãos declararam que aquela era uma brincadeira de meninas e nunca mais brincaram àquilo.

No nosso sexto ano, José e eu tínhamos tomado conta do bando dos menores, porque éramos os melhores a inventar histórias. Os nossos irmãos carregavam-nos do poço à tenda da minha mãe e faziam-me grandes vênias a mim, sua rainha. Faziam de conta que morriam, quando José, o rei deles, lhes apontava um dedo. Mandávamo-los lutar contra demônios e trazerem-nos grandes riquezas. Coroavam-nos as cabeças com coroas de ervas daninhas e beijavam-nos as mãos. Lembro-me do dia em que essa brincadeira acabou. Tali e Issa estavam a fazer o que lhes tinha pedido: empilhar pequenas pedras como um altar em minha honra. Dan e Zebulon estavam a abanar folhas para nos refrescar. Gad e Aser estavam a dançar diante de nós. E, então, os nossos irmãos mais velhos por acaso passaram por ali. Ruben e Judá sorriram e continuaram, mas Simeão e Levi pararam e riram-se.

- Olhem como os bebês levam os rapazes mais velhos agarrados pelo nariz. Esperem até contarmos ao nosso pai que Zebulon e Dan são burricos para os rabos ao léu. Ele vai fazê-los esperar mais dois anos, antes de os deixar subir às pastagens mais altas conosco - e não pararam de gozar até José e eu ficarmos sozinhos. Abandonados pelos nossos companheiros de brincadeiras, que subitamente se viram através dos olhos frios dos irmãos deles.

Depois disso, Zebulon e Dan recusaram-se a fiar mais para as nossas mães, e, depois de muito implorarem, foi-lhes permitido seguirem os irmãos mais velhos para os montes. Os dois pares de gêmeos - quando não estavam a arrancar ervas daninhas do horto ou a ajudar nos teares -brincavam entre eles, e os quatro transformaram-se numa tribo à parte, dedicada a jogos de caça e a competições de luta.

José e eu viramo-nos cada vez mais um para o outro, mas nada era tão divertido só com nós dois. Nenhum dos dois dobrava o joelho perante o outro só por causa de uma história, e José tinha que lutar contra o gozo dos nossos irmãos, que faziam pouco dele pelo simples fato de ele brincar comigo. Havia muito poucas raparigas no nosso acampamento -as mulheres diziam, como piada, que Jacob tinha envenenado o poço contra elas. Tentei fazer amigas entre as poucas filhas das mulheres dos trabalhadores, mas era ou demasiado jovem ou demasiado crescida para as brincadeiras delas e, portanto, a partir do momento em que consegui carregar um jarro de água do poço, comecei a pensar em mim como pertencendo ao círculo da minha mãe.

Não é que as crianças fossem deixadas ao abandono dos seus jogos. Assim que crescíamos o suficiente para carregar uns pedaços de madeira, mandavam-nos arrancar ervas daninhas do horto, carregar água, cardar lã e fiar. Lembro-me de ser admoestada por causa da minha falta de jeito, por deixar a minha lã encher-se de ouriços, e pela falta de uniformidade do fio que eu fazia.

Lea era a melhor das mães, mas não a melhor professora. Aprendia as técnicas com tal facilidade, que não conseguia perceber como é que mesmo uma criança, por pequena que fosse, não conseguia fazer bem algo tão simples como enrolar a lá para produzir linha. Ela perdia freqüentemente a paciência comigo. “Como é que a filha de Lea pode ter dedos tão desastrados?”, disse-me ela um dia, olhando para o emaranhado que eu tinha feito com o meu trabalho. Odiei-a por aquelas palavras. Pela primeira vez na minha vida, odiei a minha mãe. A minha cara foi ficando quente, à medida que as lágrimas me vinham aos olhos, e atirei com tudo o que tinha fiado durante aquele dia para o chão. Foi um terrível ato de desperdício e de desrespeito, e acho que nenhuma de nós conseguia acreditar que eu tivesse feito aquilo. Num instante, o cortante bater da mão dela contra a minha cara estalou no ar. Fiquei muito mais chocada do que magoada. Embora a minha mãe batesse aos meus irmãos de vez em quando, era a primeira vez que ela me batia.

Fiquei ali parada durante um longo momento, a ver a cara dela a contorcer-se de dor pelo que tinha feito. Sem uma palavra, virei-me e corri de encontro ao colo de Bilhah, onde chorei e gemi contra o grande mal que me tinha sido feito. Disse à minha tia tudo o que me pesava no coração. Chorei por causa dos meus dedos inúteis, que nunca fariam com que a lã rodasse uniformemente, ou com que o fuso caísse e se virasse suavemente. Tinha medo de ter envergonhado a minha mãe por ser tão trapalhona. E tinha vergonha do ódio que subitamente sentia por aquela que amava tão completamente.

Bilhah acariciou-me o cabelo até eu parar de chorar e deu-me a comer um pedaço de pão molhado em vinho doce.

- Agora vou mostrar-te o segredo do fuso - disse ela, enquanto pousava um dedo nos meus lábios. - É uma coisa que a tua avó me ensinou, e agora chegou a minha vez de te mostrar.

Bilhah pôs-me no colo dela, para o qual eu era quase grande de mais. Os braços dela quase não eram suficientemente compridos para passarem à volta do meu corpo, mas lá estava eu sentada, mais uma vez bebê, abraçada em segurança, enquanto Bilhah murmurava a história de Uttu ao meu ouvido.

Há muito tempo, ainda as mulheres não sabiam como transformar lã em fio e fio em pano, as pessoas andavam nuas pela terra. Abrasavam de dia e tremiam de frio à noite, e os bebês pereciam. Mas Uttu ouviu as mães que choravam, e teve pena delas. Uttu era a filha de Namia, deus da Lua, e de Ninhursag, a mãe das planícies. Uttu perguntou ao pai se poderia ensinar as mulheres a fiar e a tecer para que os bebês delas pudessem viver

Nanna escarneceu dela, dizendo que as mulheres eram demasiado estúpidas para se lembrarem da ordem de cortar, lavar e pentear a lã, da construção de teares, da construção da trama e da teia. É que os dedos delas eram demasiado grossos para dominarem a arte de fiar. Mas, porque Nanna amava a filha, deixou-a ir

Uttu foi primeiro ao Leste, à terra do Rio Verde, mas aí as mulheres não queriam pôr de lado os seus tambores e as suas flautas para ouvir a deusa.

Uttu foi para o Sul, mas chegou a meio de uma terrível seca, quando o Sol tinha roubado as mulheres das recordações delas. “Não precisamos de mais nada senão de chuva”, disseram elas, esquecidas dos meses em que as crianças tinham morrido de frio. “Dá-nos chuva ou vai-te embora.”

Uttu viajou para Norte, onde as mulheres vestidas de peles eram tão aguerridas que tinham arrancado um seio para ficarem prontas para a infindável caçada. Essas mulheres eram demasiado impetuosas para as lentas artes do fio e do tear

Uttu foi ao Leste, onde o Sol se levanta, mas descobriu que os homens tinham roubado a língua das mulheres, e que elas não podiam responder por si próprias.

Uma vez que Uttu não sabia falar com os homens, chegou a Ur que é o ventre do mundo, onde conheceu a mulher chamada Enhenduanna, que desejava aprender.

Uttu sentou Enhenduanna no colo e envolveu os pequenos braços de Enhenduanna nos seus longos braços e pousou as suas mãos de ouro nas mãos de barro de Eiihenduanna, e guiou a mão esquerda desta assim como a mão direita.

Uttu fez cair um fuso feito de lápis-lazúli, que rodava como uma grande bola azul flutuando no céu dourado, e fiava fio feito de luz do Sol. Enhenduanna adormeceu no colo de Uttu.

Enquanto Enhenduanna dormia, fiava sem ver ou saber sem esforço nem fadiga. Fiou até haver fio suficiente para encher todo o armazém do grande deus Nanna. Ele ficou tão contente, que permitiu que Uttu ensinasse às filhas de Enhenduanna o modo de fazer cerâmica e bronze, música e vinho.

Desde então, as pessoas puderam deixar de comer erva e de beber água, e puderam comer pão e beber cerveja, em vez disso. E os bebês delas, embrulhados em cobertores de lã, já não morriam, mas podiam crescer para oferecerem sacrifícios aos deuses.

Enquanto Bilhah me contava a história de Uttu, pôs as leves e ágeis mãos dela à volta das minhas desastradas. Senti o suave e argiloso cheiro almiscarado da minha tia mais nova e ouvi a doce e líquida voz dela e esqueci toda a dor do meu coração. E, quando a história dela acabou, mostrou-me que o fio no meu fuso era tão uniforme e forte quanto o próprio trabalho manual de Lea.

Dei a Bilhah cem beijos e corri a mostrar à minha mãe aquilo que tinha feito. Ela abraçou-me como se eu tivesse voltado dos mortos. Não houve mais estalos, depois disso. Até comecei a gostar da tarefa de rolar nuvens de lá desordenada em fios bons e fortes, que se transformavam nas roupas, nos cobertores e nos bens de comércio da minha família. Aprendi a gostar da maneira como a minha mente vagueava para onde quer que fosse, enquanto as minhas mãos seguiam o seu próprio curso. Mesmo quando já era velha, e fiava linho em vez de lã, lembrava-me do perfume da minha tia, e do modo como ela pronunciava o nome da deusa, Uttu.

Contei a José a história de Uttu, a fiandeira. Contei-lhe a história da viagem da grande deusa Innana à terra dos mortos e do casamento dela com o rei-pastor, Dumuzi, cujo amor por ela assegurava abundância de tâmaras, de vinho e de chuva. Aquelas histórias ouvira-as eu na tenda vermelha, contadas e recontadas pelas minhas mães e pela ocasional esposa de um mercador, que chamava as deusas e os deuses por nomes que não me eram familiares e que, por vezes, forneciam diferentes finais para histórias antigas.

José, por seu turno, contou-me a história em que Isaac era atado, e o milagre da sua libertação e dos encontros do nosso bisavô Abraão com os mensageiros dos deuses. Ele contou-me que o nosso pai, Jacob, falava com o El dos pais dele mesmo quando não fazia nenhum sacrifício. O nosso pai dizia que o deus informe e sem cara que não tinha outro nome senão deus, vinha visitá-lo à noite, nos seus sonhos, e de dia, apenas quando ele estava só, e que Jacob tinha a certeza que o futuro dos seus filhos seria abençoado por Ele.

José descreveu-me o maravilhoso bosque de terebintos em Mamre, onde a nossa bisavó falava com os seus deuses todas as noites e onde, um dia, o nosso pai nos levaria para derramarmos libações em nome de Sarai. Estas eram as histórias que José ouvia de Jacob, sentado entre os nossos irmãos, enquanto as ovelhas e as cabras pastavam. Eu achava que as histórias das mulheres eram mais bonitas, mas José preferia as histórias do nosso pai.

As nossas conversas não eram assim tão sublimes. Partilhamos o segredo do sexo e da procriação e rimos, espantados, ao imaginar os nossos pais a comportarem-se como os cães na poeira. Coscuvilhávamos infinitamente acerca dos nossos irmãos, observando atentamente a rivalidade entre Simeão e Levi, que podia ascender à troca de golpes por coisa tão trivial como a colocação de um cajado contra uma árvore. Também havia rivalidade permanente entre Judá e Zebulon, os dois bois entre os irmãos, mas a deles era uma batalha bem disposta para ver qual deles era o mais forte, e cada um deles aplaudia a capacidade do irmão de levantar grandes rochas e carregar ovelhas adultas através de um prado.

José e eu observávamos tudo, à medida que os filhos de Zilpah se tornaram os campeões da minha mãe, porque Gad e Aser ficavam embaraçados com as excentricidades da própria mãe. A incapacidade dela de fazer pão decente levou-os à tenda de Lea. Eles não percebiam nem davam valor à habilidade de Zilpah com o tear e, é claro, não tinham maneira de conhecer o talento dela para contar histórias. Portanto, carregavam os seus pequenos troféus - flores, pedras de cores vivas, os restos de um ninho de pássaro - para o colo da minha mãe. Ela despenteava-lhes o cabelo com a mão e dava-lhes de comer, e eles pavoneavam-se como pequenos heróis.

Por outro lado, Tali e Issa, os gêmeos do próprio ventre de Lea, não gostavam assim tanto dela. Detestavam parecer-se tanto um com o outro e culpavam a mãe. Faziam tudo o que podiam para se distinguirem um do outro e quase nunca eram vistos juntos. Tali tornou-se muito amigo do Dan de Bilhah, e os dois gostavam de dormir lado a lado na tetija de Bilhah, suspensos das palavras do irmão mais velho, Ruben, que também era atraído pela paz e pelo silêncio que rodeavam a minha tia. Lea tentou reconquistar Tali e Issa à custa de doces e pão extra, mas estava demasiado ocupada com o trabalho da sua família para desejar ardentemente as atenções de dois dos seus muitos filhos. E não sofria por falta de amor. Quando eu a apanhava a ver um dos seus rapazes a caminhar em direção à tenda de outra mãe, ao anoitecer, puxava-lhe a mão. Então, ela levantava-me, para que os nossos olhos se encontrassem, e beijava-me numa face, e depois na outra, e depois na ponta do nariz. Isto fazia-me sempre rir, o que, por sua vez, trazia sempre um sorriso quente à cara da minha mãe. Um dos meus grandes segredos era saber que tinha o poder de a fazer sorrir. O meu mundo estava cheio de mães e irmãos, de trabalho e de jogos, de luas novas e boa comida. Os montes distantes seguravam a minha vida numa taça cheia de tudo aquilo que eu poderia querer. Eu era ainda criança quando o meu pai nos levou para fora da terra dos dois rios, em direção ao sul, para o país onde ele tinha nascido. Jovem como era, percebi porque é que íamos. Sentia o muro quente de raiva que se erguia entre o meu pai e o meu avô. Quase conseguia ver o braseiro entre eles, nas raras ocasiões em que se sentavam juntos. Labão alimentava ressentimentos contra o meu pai, por causa do sucesso com os rebanhos, e por causa dos seus filhos, que eram tantos e mais hábeis do que os dois rapazes dele. Labão detestava o fato de dever o seu sucesso ao marido das suas filhas. Amargava-lhe a boca, de cada vez que o nome de Jacob era mencionado.

Quanto ao meu pai, embora fosse ele que fizesse os rebanhos multiplicarem-se, o acampamento encher-se de trabalhadores e os mercadores passarem pelas nossas tendas, nunca fôra mais do que um servo de Labão. O seu salário era escasso, mas era poupado, e esperto, no tocante ao seu pequeno armazenamento de bens, e tinha tido muito cuidado com o crescimento do seu próprio pequeno rebanho de cabras malhadas e de ovelhas cinzentas.

Jacob detestava a preguiça de Labão, a maneira como ele e respectivos filhos desperdiçavam o fruto do trabalho do próprio Jacob. Quando o rapaz mais velho, Kemuel, abandonou o seu posto de guardador das cabras que estavam no cio, uma Primavera, as melhores delas morreram, devido à batalha entre os machos mais fortes. Quando Beor bebeu demasiado vinho e adormeceu, um falcão levou um cabrito que Jacob tinha marcado para o sacrifício.

O pior foi quando Labão perdeu os dois melhores cães de Jacob - o mais esperto e preferido de Jacob. O velho tinha ido numa viagem comercial de três dias a Carchemish e, sem pedir, tinha levado os cães para tomar conta de um rebanho tão pequeno que até um rapaz teria conseguido conduzi-lo sozinho.

Enquanto Labão esteve na cidade, vendeu ambos os cães por uma ninharia que depois perdeu, num jogo de azar. A perda dos seus cães enraiveceu o meu pai. Na noite em que Labão voltou ao acampamento, ouvi os gritos e os palavrões deles enquanto adormecia. Depois, a expressão carrancuda na cara do meu pai tornou-se impenetrável. Os punhos dele só se abriram depois de ele ir ter com Lea e lhe contar os pormenores da mais recente afronta.

A minha mãe e as minhas tias não sentiam senão compaixão por Jacob. A lealdade delas para com Labão nunca tinha sido forte e, à medida que os anos passavam, elas empilhavam razões para o desprezar - preguiça, desonestidade, a arrogância dos estúpidos filhos dele e o tratamento que dava a Ruti, que só piorara à medida do correr dos anos. Uns dias depois da discussão por causa dos cães, Ruti veio ter com a minha mãe e atirou-se ao chão. “Estou perdida”, chorou ela, feita triste poça de mulher no pó. O cabelo dela estava solto e coberto de cinzas, como se tivesse acabado de enterrar a própria mãe. Labão tinha perdido mais do que as suas moedas, naquele jogo em Carchemish. Também tinha apostado Ruti, e, agora, chegara um mercador para a reclamar como sua escrava. Labão estava sentado na sua tenda e recusava-se a sair e reconhecer o que tinha feito à mãe dos seus filhos, mas o mercador detinha o cajado de Labão como prova e o seu supervisor como testemunha. Ruti pôs a testa no chão e implorou ajuda a Lea.

Lea ouviu-a e, depois, virou-se para cuspir no nome do pai dela- O traseiro de um burro tem mais mérito do que Labão - disse ela. - O meu pai é uma cobra. É as vísceras putrefatas de uma cobra. Lea pousou o jarro de leite que estava a transformar em coalhada e, com passos pesados, marchou para a pastagem próxima, onde o meu pai ainda estava a ruminar a história dos cães. A minha mãe estava tão embrenhada nos seus pensamentos que nem pareceu notar que eu a seguia.

As faces de Lea ficaram vermelhas, enquanto se aproximava do marido. E, então, fez algo de extraordinário. Lea ajoelhou-se e, pegando na mão de Jacob, beijou-lhe os dedos. Ver a minha mãe a submeter-se daquela maneira era como ver uma ovelha a caçar um chacal, ou um homem a dar de mamar a um bebê. A minha mãe, que nunca hesitava nas palavras, quase gaguejava enquanto falava.

- Esposo, pai dos meus filhos, amado amigo - disse ela.- Venho apresentar-te um caso sem mérito, por pura pena. Esposo - murmurou ela - Jacob, sabes que ponho a minha vida apenas à tua guarda, e que o nome do meu pai é uma abominação para mim. Mesmo assim, venho pedir-te que redimas a mulher do meu pai da escravatura a que ele a vendeu. Um homem de Carchemish veio reclamar Ruti, que Labão apostou no seu jogo de azar, como se ela fosse um animal do rebanho dele ou uma estranha entre nós, e não a mãe dos filhos dele. Peço-te que a trates melhor do que o próprio marido dela. Peço-te que atues como o pai.

Jacob franziu o sobrolho, ao ouvir o pedido da sua esposa, embora no fundo lhe deva ter agradado o fato de ela se ter dirigido a ele não só como marido dela, mas também como líder da família. Levantou-se frente à Lea, cuja cabeça estava curvada, e olhou para ela de cima com ternura.

- Esposa - disse ele, pegando-lhe nas mãos para a levantar, os olhos deles encontraram-se, e ela sorriu.

Fiquei chocada. Tinha vindo para ver o desenrolar da história de Ruti, mas descobrira uma coisa completamente diferente. Vi o cio entre a minha mãe e o marido dela. Vi que Jacob podia causar o brilho de assentimento e de felicidade que pensava que só eu podia invocar em Lea.

Os meus olhos abriram-se, pela primeira vez, para o fato de o meu pai ser um homem. Vi que ele não era apenas alto, mas que também tinha ombros largos e uma cintura estreita. Embora por essa altura ele já devesse ter passado o seu quadragésimo verão, as costas dele estavam direitas, e ele ainda tinha a maior parte dos dentes e uma vista clara. O meu pai era muito bonito, percebi eu. O meu pai estava à altura da minha mãe.

No entanto, não encontrei consolação nesta descoberta. Enquanto se dirigiam de volta às tendas, Lea e Jacob iam lado a lado, de cabeças quase juntas enquanto ela murmurava o resgate que Jacob podia recolher por entre as esposas para redimir Ruti: mel e ervas, uma pilha de pulseiras de cobre, um rolo de linho e dois rolos de lá. Ele ouviu em silêncio, acenando com a cabeça de tempos a tempos. Não havia espaço para mim entre eles, não havia necessidade de mim. Os olhos da minha mãe estavam cheios de Jacob. Eu não tinha para ela a importância que ela tinha para mim. Eu queria chorar, mas percebi que era demasiado crescida para isso. Em breve seria uma mulher e teria que aprender a viver de coração dividido.

Completamente infeliz, segui os meus pais, enquanto eles iam entrando no círculo de tendas. Lea calou-se e retomou o seu lugar atrás do marido. Foi buscar um jarro da sua cerveja mais forte, para ajudar Jacob a amolecer o resoluto mercador. Mas o homem tinha visto que, embora estivesse desgastada e fosse feia, a mulher de Labão não tinha lábio leporino nem era coxa, ao contrário do que o preço dela o levara a supor. E ele era suficientemente perspicaz para perceber que a sua chegada tinha causado agitação. Pressentiu a sua vantagem, donde resultou que foram precisos todos os tesouros das mulheres e um dos cachorros de Jacob para que o mercador perdoasse a dívida e partisse sem Ruti. Pouco depois, todas as mulheres do acampamento sabiam o que tinha acontecido e, nas semanas seguintes, Jacob comeu como um príncipe. Labão nunca falou do modo como Jacob tinha resgatado a mulher dele. Só se tornou mais sujo no uso que fazia de Ruti, cujos olhos pareciam permanentemente negros, depois daquilo. Os filhos dela, seguindo o padrão de comportamento do pai, não demonstravam qualquer respeito pela mãe. Não carregavam água para as panelas dela e não lhe traziam carne das caçadas deles. Ela arrastava-se em volta dos homens dela, silenciosa e serviçal.

Entre as mulheres, Ruti só falava da bondade da minha mãe. Tornou-se a sombra de Lea, beijando-lhe as mãos e a bainha do vestido, sentando-se tão perto da sua salvadora quanto podia. A presença daquela mulher esfarrapada não agradava a Lea, que ocasionalmente perdia a paciência.- Vai para a tua tenda - dizia ela, quando Ruti estorvava. Mas Lea arrependia-se sempre de ralhar a Ruti, que bajulava até as palavras iradas da minha mãe. Depois de a mandar embora, Lea procurava-a, sentava-se ao lado da pobre alma desgastada, permitia ser beijada e agradecida, uma e outra vez.