A Tenda Vermelha
Capítulo 4
Eu soube da mensagem de Ra-mose, antes mesmo de o mensageiro chegar à minha casa. Kiya correu até à minha porta, com a notícia de que um escriba tinha ido à casa de Menna procurar Den-ner, a parteira, e que aquele estava a caminho da porta da casa de Benia. Fiquei deliciada com a idéia de mais uma carta do meu filho. Já tinha passado mais de um ano desde a última, e imaginei-me a mostrar a Benia a própria escrita do meu filho na lousa de calcário, quando ele chegasse a casa, naquela noite.
Fiquei à porta, ansiosa por descobrir o conteúdo da carta. Mas, quando o homem virou a esquina, cercado por um grupo de criancinhas excitadas, percebi que o mensageiro trazia a sua própria mensagem. Ra-mose e eu olhamos fixamente um para o outro. Eu vi um homem que não conhecia a imagem de Nakht-ra, com a exceção dos olhos, que eram iguais aos do pai dele. Não vi nada de mim no príncipe do Egito que estava à minha frente, vestido de bom linho, com um peitoral de ouro a brilhar e sandálias novas nos pés cuidados.
Não sabia o que é que ele via, quando olhava para mim. Pareceu-me detectar desdém nos olhos dele, mas talvez isso fosse só o meu próprio medo. Perguntei-me se ele conseguiria ver que eu estava mais alta, agora que carregava menos dor às costas. O que quer que ele tenha visto ou pensado, éramos estranhos um para o outro.
- Desculpa-me os meus modos - disse eu. - Vem para dentro da casa de Benia e deixa-me dar-te cerveja fria e fruta. Eu sei que a viagem desde Tebas é poeirenta.
Ra-mose também recuperou, e disse:
- Perdoa-me, mãe. Já passou tanto tempo desde que vi pela última vez a tua amada cara. - As palavras eram frias, o abraço que me deu rápido e embaraçado. - Tomaria uma bebida de bom grado - disse ele, seguindo-me para dentro de casa.
Eu vi cada quarto através dos olhos dele, que estavam acostumados à beleza espaçosa de palácios e templos. A sala da frente, a minha sala, de que eu tanto gostava por causa da colorida pintura da parede, parecia subitamente pequena e vazia, e eu fiquei contente quando ele se apressou a passar por ela. A sala de Benia era maior e estava mobilada com peças que só se encontram em grandes casas e túmulos. A qualidade das cadeiras e da cama recolheu a aprovação dos olhos do meu filho, e eu deixei-o lá, para ir buscar comida e bebida. Kiya tinha-nos seguido lá para dentro e olhava fixamente para o homem tão bem vestido que estava na minha casa.
- Esta é a minha irmã? - perguntou Ra-mose, apontando para a criança silenciosa.
- Não - disse eu. - Esta é a sobrinha de uma amiga, e é como uma sobrinha para mim. - A minha resposta pareceu dar-lhe alivio. - Os deuses parecem ter ordenado que tu continues a ser o meu único filho -acrescentei. - Estou contente por te ver saudável e cheio de sucesso. Diz-me: já és casado? Já sou avó?
- Não - disse Ra-mose. - Os meus deveres mantêm-me demasiado ocupado para que possa constituir a minha própria família - disse ele, com um tenso abanar de mão. - Talvez um dia a minha situação melhore e eu te possa dar pequenitos para tu embalares nos teus joelhos. Mas isto não era mais do que conversa educada, que pairava no ar e cheirava a falsidade. O fosso entre nós era demasiado largo para qualquer tipo de familiaridade. Se e quando eu me tornasse avó, só conheceria os meus netos através de mensagens enviadas em lajes de calcário, que seriam deitadas fora, depois de lidas.- Má - disse ele, depois de beber da sua taça. - Estou aqui não só para meu próprio prazer. O meu senhor envia-me para vir buscar a melhor parteira do Egito para assistir ao parto da mulher dele. Não, é verdade -disse ele, desmentindo o meu encolher de ombros. - Não digas nada que diminua a tua reputação, pois ninguém tomou o teu lugar em Tebas. A senhora do meu senhor teve dois abortos e quase morreu, por causa de um nado morto. Os físicos e necromantes não conseguiram fazer nada por ela e, agora, as parteiras têm medo de assistir uma princesa que teve tão pouca sorte no leito do parto. A própria mãe dela já morreu, e ela tem medo. O meu senhor adora a mulher e anseia por ter filhos dela. As-naat ouviu as criadas dela falar das tuas capacidades e pediu ao marido que procurasse a mulher nascida no estrangeiro com as mãos de ouro, que em tempos serviu as mulheres de Tebas. O meu senhor, que confia em mim para todas as coisas, incumbiu-me, também, desta questão -disse Ra-mose, com a boca a tornar-se mais pequena e mais apertada, a cada menção que fazia ao seu senhor. - Imagina a minha surpresa, quando eu soube que ele não procurava mais do que a minha própria mãe. Ficou subitamente impressionado com a minha linhagem, quando soube que eras compatriota dele - acrescentou Ra-mose com ironia. - O vizir mandou-me pôr de lado assuntos de Estado para vir até ao Vale dos Reis e acompanhar-te a casa dele. Ordenou-me que não voltasse sem ti.- Não gostas desse homem - disse eu brandamente.- Zafenat Paneh-ah é vizir em Tebas por desejo do rei - disse o meu filho, em tom formal, mas de maldição. - Dizem que ele é um grande adivinho, que vê o futuro e que lê sonhos como um mestre escriba que lê atentamente os hieróglifos de um aluno. Mas é iletrado - disse Ra-mose com amargura. - Não consegue fazer contas ou escrever ou ler, que é a razão pela qual o rei me nomeou, a mim, o melhor aluno de Kar, o braço direito dele. E é aí que eu estou agora, sem mulher, sem filhos, subalterno de um bárbaro.
Fiquei muito direita, quando ouvi aquela palavra. Ra-mose notou a minha reação, e enrubesceu de vergonha.
- Oh, Mãe, tu não - disse ele rapidamente. - Tu não és como os outros, senão o meu pai e a minha avó nunca te teriam escolhido. Tu és boa -disse ele. - Não há mãe nenhuma no Egito que seja melhor do que tu. - A lisonja dele fez-me sorrir, contra a minha própria vontade. Abraçou-me e, por um momento, voltei a ter o rapaz carinhoso que tinha sido meu filho.
Bebemos a nossa cerveja em silêncio, durante um momento, e depois eu disse:
- É claro que te acompanharei a Tebas. Se o vizir do rei te comanda que me leves, irei. Mas, primeiro, tenho que falar com a minha amiga, Meryt, que é o meu braço direito na câmara de parto, e que deve vir comigo. Tenho de falar com o meu marido, Benia, o mestre carpinteiro, para que ele saiba onde é que eu vou e quando deverei voltar. Ra-mose comprimiu os lábios outra vez.
- Não há tempo para isso, Má. Temos que ir embora agora, pois a senhora está em trabalho de parto, e o meu senhor espera-me a qualquer hora. Manda ali a rapariga informar os outros. Eu não me posso demorar.
- Temo que tenhas que te demorar - disse eu, e saí da sala. Ra-mose seguiu-me até à cozinha e agarrou-me pelo cotovelo, como um senhor que está prestes a bater numa criada desobediente. Afastei-me e olhei para a cara dele.
- Nakht-ra preferiria morrer a tratar um parente, quanto mais uma mãe, desta maneira. É assim que honras a memória do único pai que alguma vez conheceste? Eu lembro-me dele como um homem nobre, a quem tu deves tudo, e cujo nome tu desonras.
Ra-mose parou e deixou cair a cabeça. A ambição e o medo dele estavam em conflito, e a sua cara mostrava a divisão que lhe ia na alma. Caiu no chão e fez uma vênia profunda, ficando com a testa a meus pés.- Eu perdoo-te - disse eu. - Não vou demorar muito a preparar-me, e encontraremos a minha amiga e o meu marido no caminho para Tebas. Ra-mose levantou-se outra vez do chão e esperou lá fora enquanto eu me preparava para uma viagem que detestava fazer. Enquanto juntava o meu estojo e umas poucas ervas, sorri, face ao meu próprio descaramento: envergonhar o meu poderoso filho por causa da falta de educação dele, insistindo nas minhas despedidas. Onde é que estava a mulher dócil que tinha vivido na casa de Nakht-ra todos aqueles anos? Meryt estava à minha espera, à porta da casa do filho, faminta por noticias. Os olhos dela abriram-se muito, quando eu a apresentei a Ra-mose, que ela não via desde que ele era um rapaz. Ela cobriu a boca de espanto, quando ouviu o convite para assistir a mulher do vizir do rei, mas Meryt não me podia acompanhar.
Havia três mulheres na cidade que deviam estar a dar à luz a qualquer momento, e uma delas era uma parente, a filha do irmão de Shif-ra. Abraçamo-nos e ela desejou-me que eu tivesse o toque de Isis e a sorte de Bes. Ficou à porta e acenou alegremente.
- Traz-me de volta umas boas histórias - gritou ela, e o seu riso seguiu-me pela rua abaixo.
Benia não se separou de mim com riso. Ele e o meu filho olharam um para o outro com frieza, Benia mergulhou a cabeça em reconhecimento da posição do escriba e Ra-mose fez um sinal de assentimento face à autoridade do carpinteiro sobre uma tão importante oficina. Não havia maneira de eu e o meu marido nos despedirmos convenientemente um do outro. Trocamos os nossos votos de despedida com os olhos. Eu voltaria. Ele não ficaria satisfeito até que eu voltasse. Ra-mose e eu saímos do vale, dizendo pouco um ao outro. Antes de iniciarmos a descida do vale para a margem do rio, pus a minha mão no braço dele, fazendo-lhe sinal para que parasse. Voltando-me para olhar para casa, deixei cair uma trança de arruda e um pedaço de pão do meu forno, para assegurar um rápido retorno.
Já era escuro, quando chegamos ao rio, mas não precisávamos de esperar pelo barco da manhã. A barca do rei, iluminada por uma centena de lâmpadas, estava à nossa espera. Muitos remos remaram e daí a nada estávamos a andar à pressa pelas ruas adormecidas da cidade e a entrar no grande palácio, onde Ra-mose me deixou à porta dos aposentos das mulheres. Fui levada a uma câmara onde uma mulher jovem e pálida estava empoleirada na sua grande cama, sozinha.- Tu és Den-ner? - perguntou ela.
- Sim, As-naat - respondi eu suavemente, pousando os meus tijolos no chão. - Deixa-me ver o que é que os deuses nos reservaram.- Temo que este também esteja morto - sussurrou ela. - Se assim for, deixa-me morrer com ele.
Encostei o meu ouvido à barriga dela e toquei-lhe no ventre.- Este bebê está vivo - disse eu. - Não temas. Está apenas a descansar para a viagem.
Ao amanhecer, as dores dela tornaram-se sérias. As-naat tentou manter-se calada, como é suposto uma senhora da realeza fazer, mas a natureza tinha feito dela o tipo que grita muito, pelo que rapidamente encheu o ar com rugidos, a cada dor.
Pedi água limpa para lavar a cara da mãe, pedi palha fresca, pedi cones de lótus para refrescar o quarto, e cinco criadas, que se juntaram em volta da patroa para a encorajarem. Às vezes é mais fácil para as mulheres pobres, pensei eu. Mesmo as que não têm família vivem tão perto dos vizinhos, que os gritos de uma mãe em trabalho de parto fazem sair as outras mulheres, como gansos a responder ao chamamento de um líder em fuga. Mas os ricos estão rodeados de criadas, que têm demasiado medo das suas senhoras para agirem como irmãs. As-naat não teve um parto fácil, mas não foi, nem de perto, o pior parto que eu tivesse visto. Ela fez força durante longas horas, apoiada por mulheres que se tornaram irmãs dela, pelo menos durante aquele dia. Logo depois do pôr do Sol, fez aparecer um filho magricela mas saudável, que rugiu pelo peito dela, assim que o agarraram direito. As-naat beijou-me as mãos, cobrindo-as de lágrimas de alegria, e mandou uma das criadas dela dizer a Zafenat Paneh-ah que ele era pai de um filho perfeito. Fui levada para um quarto silencioso, onde cai num sono escuro e sem sonhos.
Acordei na manhã seguinte encharcada em suor, com a cabeça a latejar e a garganta em fogo. Estendida na minha pequena cama, semicerrei os olhos, por causa da luz que entrava pelas janelas altas, e tentei lembrar-me da última vez que tinha estado doente. A minha cabeça martelava, e fechei os olhos de novo. Quando eles se abriram outra vez, a luz escoava-se do quarto.
Uma rapariga que estava sentada ao pé da parede apercebeu-se de que eu tinha aberto os olhos e trouxe-me de beber, e pôs-me uma toalha fria na testa. Passaram-se dois dias, ou talvez tivessem sido três, num nevoeiro de sono febril e de compressas. Quando a minha cabeça finalmente esfriou e a dor desapareceu, descobri que estava demasiado fraca para me levantar.
Por essa altura, tinha-me sido mandada uma mulher chamada Shery para tomar conta de mim. Olhei-a fixamente, de boca aberta, quando ela se apresentou, pois o nome dela, que significa “pequenina”, era um bocado estranho na mulher mais gorda que eu alguma vez tinha visto. Shery lavou o cheiro azedo do meu corpo e trouxe-me caldo e fruta, e ofereceu-se para me ir buscar qualquer outra coisa que eu desejasse. Nunca tinha sido tratada assim e, embora não me agradasse o fato de ela pairar por perto de mim, senti-me grata pela ajuda que me dava. Após alguns dias, retomei forças e pedi a Shery que me desse noticias do bebê que eu tinha ajudado a nascer. Ficou deleitada com a minha pergunta e assentou o peso dela sobre um banco, pois Shery adorava ter público.
O bebê estava bem, relatou ela.
- Ele está faminto, e quase que gastou os mamilos da mãe, com a alimentação constante - disse Shery, com um sorriso malvado. Tivera pena da falta de filhos da sua senhora, mas achava que As-naat não passava de uma menina arrogante. - A maternidade vai-lhe ensinar tudo- confidenciou-me a minha nova amiga. - O pai deu ao rapaz o nome de Menashe, um nome horrível, que deve querer dizer qualquer coisa boa, na língua materna dele. Menashe. Soa a mastigar, não é assim? Mas tu tambem és de Canaã, não é assim?
Eu encolhi os ombros.
- Já foi há tanto tempo - disse eu. - Por favor, continua com a história, Shery. É quase mágico, o modo como as tuas palavras me fazem esquecer as minhas dores.
Olhou para mim com um ar perspicaz, para me fazer saber que a lisonja não conseguia esconder as minhas reticências. Mas continuou, de qualquer maneira.
- Zafenat Paneh-ah é, verdadeiramente, um arrogante filho da puta -disse ela, fazendo prova de confiança em mim, ao chamar nomes ao senhor dela. - Gosta de falar do baixo início de vida dele, como se isso fizesse ainda mais grandiosa a poderosa posição a que ascendeu. Mas isso não é grande coisa, no Egito. Muitos grandes homens (estadistas e artesãos, guerreiros e artistas) nascem nas camadas mais baixas. É o caso do teu próprio marido, hem, Den-ner? - perguntou ela, dando-me a perceber que a minha história não lhe era completamente desconhecida. Mas eu só sorri. - O cananita é muito bonito, não há dúvidas quanto a isso. As mulheres desfalecem ao vê-lo, ou, pelo menos, desfaleciam, quando ele era mais jovem. Os homens também são atraidos por ele, e não só aqueles que preferem rapazes. É claro que essa beleza não lhe serviu de muito, quando ele era jovem. Os próprios irmãos odiavam-no tanto, que o venderam a um grupo de mercadores de escravos, imaginas um egípcio a fazer tal coisa? Todos os dias agradeço aos deuses ter nascido no vale do grande rio.
- Sem dúvida - disse eu, medindo a largura dela, pois não havia outra terra que pudesse alimentar tal excesso. Shery percebeu o que eu queria dizer, e agarrou a sua parte do meio com ambas as mãos. - Ha, ha, sou uma criatura de proporções espantosas, não sou? O rei beliscou-me, uma vez, e disse que só os anões lhe agradam mais do que a visão de alguém grande e redondo, como eu. Nem imaginas a quantidade de homens que acham isto desejável - disse Shery. - Na minha juventude - começou ela a contar num sussurro conspiratório - dei prazer ao velho rei, até que a mulher dele ficou com ciúmes e fez com que me recambiassem para Tebas. Mas isso - piscou ela o olho é outra história, para outro momento. Tu queres a história desta casa, que já é suficientemente suculenta -confidenciou ela. - Zafenat Paneh-ah foi vendido como escravo, tal como eu disse, e os seus novos senhores eram porcos, os cananitas dos cananitas. Não tenho dúvidas de que ele foi espancado e violado e forçado a fazer o trabalho mais sujo. É claro que sua majestade não fala disso, hoje em dia. Zafenat Paneh-ah só recentemente adquiriu esse nome. “O Deus Fala e Ele Vive”, realmente.! Costumavam chamar-lhe Pau, pois quando ele veio para o Egito era tão magricela quanto o filho recém-nascido. Quando os donos dele vieram para Tebas, foi vendido a Pu-ti-far, um guarda do palácio com dedos pegajosos, que vivia numa grande casa nos arredores da cidade. E porque Pau era mais esperto do que o seu senhor, foi posto a cuidar do jardim e, depois, foi-lhe dada a supervisão da prensagem do vinho. Por fim, foi posto acima dos outros criados da casa, pois Pu-ti-far amava o rapaz cananita, e usava-o para seu próprio prazer. Mas, a mulher de Pu-ti-far, uma grande beldade chamada Nebetper, também olhava para ele com desejo, e os dois tornaram-se amantes mesmo debaixo do nariz do senhor. Até há alguma coscuvilhice à volta de quem é que foi o pai da última filha dela. De qualquer forma, Pu-ti-far acabou por os descobrir na cama juntos, e já não podia fazer de conta que não sabia do que se passava. Portanto, fazendo um grande espetáculo da sua raiva e da sua vingança, mandou o Pau para a prisão.
Nesta fase dos acontecimentos já eu tinha perdido o interesse na história de Shery, que aparentemente não tinha fim. Queria dormir, mas não havia maneira de calar a mulher, que não viu a minha insinuação, quando eu bocejei, ou mesmo quando fechei os olhos.- A prisão tebana não é para rir disse ela, num tom sombrio. E um buraco hediondo, onde os homens morrem assassinados e de desespero, tanto quanto de febre. Está cheio de loucos e de assassinos. Mas o diretor começou a ter pena do seu belo prisioneiro, que não era nem odioso, nem louco. Pouco tempo depois, começou a tomar as suas refeições com o cananita, que, por essa altura, já falava bem egípcio. O diretor era um solteirão e não tinha filhos, e tratava o Pau como a um filho. À medida que os anos passaram, ele deu ao Pau a responsabilidade pelos companheiros dele, até que, por fim, era ele que determinava qual era o homem que dormia ao pé de uma janela e qual é que era acorrentado perto da latrina, pelo que os prisioneiros faziam o que podiam para o subornar e lhe agradarem. Digo-te, Den-ner - disse Sherv, abanando a cabeça de admiração - onde quer que este homem vá, o poder parece passar para as mãos dele. Entretanto, o velho rei morreu, e o novo rei tinha o hábito de punir pequenos delitos contra ele mandando as pessoas para a cadeia. Se não lhe agradasse a textura do seu pão ao jantar, podia mandar o padeiro para a prisão por uma semana, ou mais. Os portadores das taças, os criados que serviam o vinho, os fazedores de sandálias, até os capitães da guarda eram mandados definhar naquele lugar, onde conheciam o Pau. Toda a gente ficava impressionada com o porte principesco dele e com a habilidade que ele tinha para interpretar sonhos e adivinhar o futuro. Ele disse a um pobre bêbado que este não veria o fim daquela semana e, quando o encontraram morto (e não tinha sido assassinado, atenção, tinha simplesmente sucumbido a tantos anos de bebida forte), os prisioneiros proclamaram-no como oráculo. Quando um portador de taças voltou da prisão com a história de um carcereiro que via o futuro, o rei mandou chamar o Pau e pô-lo a interpretar uma série de sonhos que o incomodavam havia meses. Não era um sonho difícil de interpretar, se queres saber a minha opinião - disse Shery. Peixe gordo a ser devorado por peixe espinhoso, vacas gordas a serem pisadas por vacas magras e, depois, sete espigas de trigo que eram abatidas, deixando sete espigas mortas. Qualquer mago meio tolo que tire pássaros de debaixo de cestos, no mercado, podia ter interpretado aquele sonho - disse Shery, com um desagradável risinho escarninho. -Mas os sonhos assombravam e amedrontavam o idiota do rei, e acalmou-o ouvir dizer que tinha sete anos para se preparar para a fome que aí vinha. E, por isso, ele fez o carcereiro ascender, um traidorzinho nascido no estrangeiro e iletrado tornou-se no primeiro dos comandantes dele. Imagino que o teu filho já te disse que este Zafenat Paneh-ah é completamente dependente de Ra-mose. E agora que Zafenat é não só vizir mas também pai, não haverá maneira de lhe quebrar o orgulho -fumegou Shery, azafamando-se à volta do quarto e preparando-me a cama, pois tinha falado durante todo o resto da tarde. - E ontem -resmungou ela, falando sozinha, - por aquela altura esse louco exigiu que o filho dele fosse circuncidado. Não quando estiver à porta da idade adulta, e for capaz de aguentar tal coisa. Não como as pessoas civilizadas, mas agora. Imediatamente! Consegues imaginar alguém a querer fazer isso a um bebê pequenino? Só prova quem nasça bárbaro nunca há de mudar. As-naat gritou e comportou-se como uma gata estripada, quando ouviu a ordem. E eu não a posso censurar por isso.- José - sussurrei eu, horrorizada e não acreditando no que ouvia. Shery deitou um olhar na minha direção.
- O quê? - disse ela. - O que é que disseste, Den-ner? Mas eu fechei os olhos, sentindo-me subitamente incapaz de respirar. Percebi, ao mesmo tempo, porque é que tinha sido chamada a Tebas e porque é que a Shery me tinha contado a infindável história do vizir. Mas, com certeza, que não podia ser verdade. Era a febre que enfraquecia a razão. Tonta e enfraquecida, deitei-me na cama, a ofegar. Shery percebeu que havia algo de errado comigo.- Den-ner - disse ela. - Não estás bem? Precisas de alguma coisa? Talvez já estejas preparada para comer alguma coisa sólida, agora. Mas aqui vem uma coisa que te vai alegrar - disse ela, olhando para cima, ao ouvir o som de passos. - O teu filho vem visitar-te. Aqui está Ra-mose. Vou trazer-vos a ambos alguma coisa para se refrescarem - murmurou ela suavemente, e deixou-me com o meu filho.
- Mãe? - disse ele, com um tom formal e com uma rígida vênia. Mas, quando viu a minha cara, assustou-se. - Má? O que é que foi? Disseram-me que tinhas melhorado muito e que te podia ver, hoje - disse ele, com dúvidas. - Mas, talvez este não seja o melhor momento.
Virei a cara para a parede e abanei a mão, para que ele saísse do quarto. Ouvi a Shery a sair com ele e a murmurar uma explicação. Os passos apressados dele a afastarem-se, à distância, foram a última coisa de que tive conhecimento, antes de adormecer.
Shery tinha falado a Ra-mose da nossa conversa, e repetiu a palavra que eu tinha dito antes de voltar a cair numa febril escuridão mental. E, assim, o meu filho tomou “José” na boca dele e, sem se fazer anunciar, foi à sala grande, onde o vizir do Egito estava sentado sozinho, a sussurrar palavras reconfortantes ao seu filho primogênito, que tinha sido circuncidado naquele dia.
- José - disse Ra-mose, atirando o nome contra ele, como um desafio. E aquele que era conhecido como Zaphenat Paneh-ah, tremeu.- Conheces uma mulher chamada Den-ner? - perguntou ele. Durante um momento, Zafenat Paneh-ah não disse nada e, depois, perguntou:
- Dina? - O senhor olhou o seu escriba nos olhos. - Tive uma irmã chamada Dina, mas ela morreu há muito tempo. Como é que te chegou o nome dela? O que é que sabes de José? - perguntou ele, em tom de comando.
- Dir-te-ei o que há para dizer, depois de descreveres a morte dela - disse Ra-mose. - Mas só então.
A ameaça presente na voz dele inflamou José. Mas, muito embora estivesse sentado num trono com o seu filho saudável nos braços, e houvesse guardas prontos a fazer o que lhes pedisse, sentiu-se compelido a responder. Tinha passado uma vida inteira, desde a última vez em que ele ouvira o seu próprio nome, vinte anos, desde a última vez em que ele dissera o nome da irmã em voz alta. E, portanto, ele começou. Numa voz calma, que fez com que Ra-mose se chegasse mais perto do trono, disse-lhe que Dina tinha ido ao palácio de Siquém com a mãe dele, Raquel, a parteira, para cuidar de um parto que havia naquela casa.
- Um príncipe da cidade reclamou-a como noiva dele - disse José, e Ra-mose ficou a saber como Jacob tinha rejeitado o belo preço de noiva e como, finalmente, o aceitara apenas nas mais cruéis condições. Ra-mose estremeceu, ao saber o nome do seu pai dos lábios de José, mas, no momento seguinte, soube que os meus irmãos, os seus próprios tios, tinham morto Shalem cruelmente, na própria cama dele. Ra-mose mordeu a língua, para não gritar.
José afirmou a repugnância que sentia pelo crime, e proclamou a sua própria inocência.
- Dois dos meus irmãos ensangüentaram as mãos - disse ele, mas admitiu que talvez quatro deles devessem ter tido um papel qualquer no assassínio. - Todos nós fomos punidos. Ela amaldiçoou-nos a todos. Alguns dos meus irmãos ficaram doentes, outros viram os filhos deles morrer. O meu pai perdeu toda a esperança e eu fui vendido como escravo. Eu costumava culpar a minha irmã pelos meus infortúnios, mas já não o faço. Se soubesse onde é que ela está enterrada, iria derramar libações e construir uma estela à memória dela. Eu, pelo menos, sobrevivi à vilania dos meus irmãos e, com o nascimento deste filho, o deus do meu pai mostra-me que eu não morrerei esquecido. Mas o nome da minha irmã foi apagado, como se ela nunca tivesse respirado. Ela era minha irmã de leite - disse José, abanando a cabeça. - É estranho falar dela, agora que sou pai. Talvez dê um nome em honra dela ao meu próximo filho - e calou-se.
- E o que é José? - perguntou Ra-mose.
- José é o nome que a minha mãe me deu - disse, calmamente, Zafenat Paneh-ah.
Ra-mose virou-se para se ir embora, mas o vizir chamou-o de volta.- Espera! Temos um acordo. Diz-me como é que soubeste o meu nome e o nome da minha irmã.
Ra-mose parou e, sem se virar para ele, disse:
- Ela não está morta.
As palavras pairaram no ar.
- Ela está aqui, no teu palácio. Na verdade, foste tu que pediste que ela fosse trazida aqui. Den-ner, a parteira, aquela que ajudou o teu filho a nascer, é a tua irmã, Dina. A minha mãe.
Os olhos de José abriram-se de espanto, e ele sorriu como uma criança feliz. Mas Ra-mose cuspiu aos pés dele.
- Queres que te chame tio? - sibilou ele. - Odiei-te desde o principio. Roubaste-me uma posição que é minha por direito e promoves-te aos olhos do rei por causa das minhas capacidades. Agora, vejo que tu arrasaste a minha vida desde que eu nasci! Assassinaste o meu pai na primavera da vida dele. Tu e os teus irmãos bárbaros também assassinaram o meu avô, que, embora fosse cananita, agiu honradamente. Arrancaste o coração da minha avó. Traíste a tua irmã, enviuvaste a minha mãe, e fizeste de mim um órfão e um proscrito. Quando eu era rapaz, a criada da minha avó disse-me que, quando eu finalmente encontrasse os assassinos do meu pai, os nomes deles iriam rasgar-me a alma em pedaços. As palavras dela eram verdadeiras. Tu és meu tio. Oh deuses, que pesadelo - gritou Ra-mose. - Um assassino e um mentiroso. Como é que te atreves a dizer que estás inocente dessa abominação? Talvez não tenhas erguido tu próprio nenhuma espada, mas não fizeste nada para os impedir. Deves ter sabido alguma coisa da conspiração, tu, e o teu pai, e o resto da tua semente. Vejo o sangue do meu pai nas tuas mãos. A tua culpa ainda está nos teus olhos.
José desviou os olhos.
- Não me resta fazer mais nada senão matar-te, ou morrer cobarde. Se eu não vingar o meu pai, serei indigno desta vida, quanto mais da outra. A voz de Ra-mose, levantada em ódio, alertou os guardas, que o subjugaram e o levaram, enquanto Menashe berrava nos braços do pai. Quando eu, finalmente, acordei, Shery estava sentada ao meu lado, com uma cara preocupada.
- O que é que foi - perguntei.
- Oh, senhora - disse ela, com uma grande pressa de me contar tudo o que sabia -, tenho más noticias. O teu filho e o vizir discutiram e Ra-mose está debaixo de guarda nos aposentos dele. Diz-se que o senhor está furioso e dizem que o jovem escriba corre sério perigo. Não sei qual foi a causa da discussão deles, ainda não, pelo menos. Mas, quando souber qual foi, digo-te imediatamente.
Levantei-me, cambaleante mas determinada.
- Shery - ordenei eu. - Ouve-me, pois eu não irei discutir, nem me irei repetir. Tenho de falar com o senhor da casa. Vai e anuncia-me. A criada fez uma vênia a partir da cintura, mas, com uma voz baixinha, disse:
- Não podes ir ter com Zafenat Paneh-ah com o ar com que estás. Deixa-me dar-te um banho e arranjar-te o cabelo. Põe um vestido lavado, para que possas argumentar como uma senhora, e não como uma mendiga. Abanei a cabeça, em sinal de assentimento, subitamente assustada com a cena que se seguiria. Que palavras é que eu poderia usar com um irmão que não via há tantos anos? Agachei-me na banheira, enquanto Shery despejava água fria em cima de mim, e encostei-me para trás, enquanto ela me penteava e me arranjava o cabelo. Sentia-me como uma escrava prestes a ser exibida perante uma galeria de compradores. Quando fiquei pronta, Shery conduziu-me à porta da sala de Zafenat Paneh-ah, onde ele estava sentado com a cabeça nas mãos.- Den-ner, a parteira, pede uma audiência - disse ela. O vizir levantou-se e acenou para que eu entrasse.- Deixem-nos - rosnou ele. Shery e todos os criados desapareceram. Estávamos sozinhos. Nenhum de nós se mexeu. Ficamos nos nossos lugares, em lados opostos da sala, e olhamos fixamente um para o outro. Embora os anos lhe tivessem custado as faces sedosas e alguns dos dentes, José ainda era bonito de cara, e forte, ainda era o filho de Raquel.- Dina - disse ele. - Ahatti, irmãzinha - disse ele, na língua da nossa juventude. - A tumba libertou-te.
- Sim, José - disse eu. - Estou viva, e espantada por estar na tua presença. Mas, a única razão pela qual venho ter contigo, é para te perguntar o que é feito do meu filho.
- O teu filho sabe a história da morte do pai dele e ameaça a minha vida- disse José, com rigidez. - Considera-me responsável pelos pecados dos meus irmãos. Só a ameaça que ele me fez bastava para causar a sua execução, mas, porque ele é teu filho, vou só mandá-lo para longe. Não sofrerá qualquer espécie de mal. Prometo - disse José amavelmente. -Recomendei que o rei o encarregasse de uma prefeitura no Norte, onde ele não ocupará o segundo lugar de ninguém. Com o tempo, apaixonar-se-á pelo mar (apaixonam-se todos) e construirá uma vida temperada com o ar salgado e a água salgada, e não desejará nenhuma outra. Tens que lhe dizer que faça o que eu digo e que esqueça essa conversa de vingança - disse José. - Tens que fazer isso agora, esta noite. Se ele levantar a mão contra mim, se ele sequer me ameaçar na presença da minha guarda, terá que morrer.
- Duvido que o meu filho escute as minhas palavras - disse eu tristemente. - Ele odeia-me, pois eu sou a causa da infelicidade dele.- Disparate - disse José, com a suprema autoconfiança que fazia os nossos irmãos terem tantos ciúmes dele. - Os homens do Egito honram as suas mães como nenhuns outros homens no mundo.- Tu não sabes - disse eu. - Ele chamava mãe à avó. Eu não era mais do que a ama dele.
- Não, Dina - disse José. - Ele sofre demais, para que seja essa a verdade. Irá ouvir-te, e terá que ir.
Olhei para o meu irmão e vi um homem que não conhecia.
- Farei como dizes, senhor - disse eu, com a voz de uma boa criada. -Mas não me peças mais nada. Deixa-me sair deste lugar, pois ele é um túmulo para mim. Ver-te, é como entrar no passado, onde está a minha tristeza. E, agora, por causa de ti, perco toda a esperança no meu filho. José assentiu.
- Eu compreendo, Ahatti, e será como dizes, exceto numa questão. Quando a minha mulher for para os tijolos outra vez (e eu já sonhei com um segundo filho), terás que vir assisti-la. Poderás vir sem me veres, se quiseres, e serás paga. Na verdade, serás paga com terra, se quiseres, tu e o carpinteiro.
Controlei-me, face à sugestão de que era pobre, e anunciei:- O meu marido, Benia, é um mestre artesão no Vale dos Reis.- Benia? - perguntou ele, e a cara de José caiu de arrependimento. Esse era o nome pelo qual o nosso irmão Benjamim (o último filho da minha mãe, que morreu ao dar-lhe vida) era chamado, em criança. Eu costumava odiar o Benia por a ter morto, mas, agora, acho que daria metade do que é meu, só para pegar na mão dele.- Não tenho qualquer desejo de o ver - disse eu, surpreendendo-nos a ambos com a raiva que havia na minha voz. - Já não pertenço a esse mundo. Se as minhas mães morreram, então sou órfã. Os meus irmãos não significam mais para mim do que o gado da nossa juventude. Tu e eu fomos familiares, quando éramos crianças, quando nos conhecíamos suficientemente bem para partilharmos o que ia nos nossos corações. Mas isso foi noutra vida.
A grande sala estava em silêncio, com cada um de nós perdido em recordações.
- Vou ter com o meu filho - disse eu, por fim. - Depois, ir-me-ei embora.- Vai em paz - disse José.
Ra-mose estava deitado de barriga para baixo, nos seus belos aposentos. O meu filho não se mexeu, nem falou, nem demonstrou qualquer sinal de reconhecimento. Eu falei para as costas dele. As janelas dele abriam-se sobre o rio, que brilhava ao luar.
- O teu pai adorava o rio - disse eu, lutando contra as lágrimas. - E tu adorarás o mar. Não te vou ver outra vez, Ra-mose, e não haverá qualquer outra oportunidade de te dizer estas palavras outra vez. Ouve a tua mãe, que vem para te dizer adeus. Não te peço que perdoes os meus irmãos. Eu nunca o fiz. Nunca o farei. Só peço que me perdoes a mim a má sorte de ter sido irmã deles. Perdoa-me, por nunca te ter falado do teu pai. Foi por ordem da tua avó, pois ela pensava que o segredo era a única maneira de te poupar a agonia que agora te abate. Ela sabia que o passado podia ameaçar o teu futuro, e temos que te continuar a proteger contra os acidentes do teu nascimento. A verdadeira história da tua família ainda só é conhecida de ti, de mim, e de Zafenat Paneh-ah. Não há qualquer necessidade de a contar a mais ninguém. Mas, agora que partilhamos este segredo, vou-te contar mais uma coisa. Ra-mose, o teu pai chamava-se Shalem, e era tão belo quanto o pôr do Sol que lhe dava o nome. Escolhemo-nos um ao outro, para nos amarmos. O nome que eu te dei, quando estavas no meu peito, foi .Bar-Shalem, filho do pôr do Sol, e o teu pai vivia em ti. A tua avó chamou-te Ra-mose, fazendo de ti um filho do Egito e do deus Sol. Em qualquer uma das línguas, e em qualquer um dos dois países, és abençoado pelo grande poder dos céus. O teu futuro está escrito na tua cara e eu rezo para que tenhas a plenitude de anos que foi negada ao teu pai. Que possas encontrar contentamento. Lembrar-me-ei de ti de manhã e ao fim da tarde, todos os dias, até que feche os meus olhos para sempre. Perdoo-te todos os pensamentos desagradáveis que tiveres acerca de mim e as maldições que possas atirar ao meu nome. E, quando finalmente me perdoares, proibo-te de sofreres um só momento de culpa em meu nome. Peço só que lembres a minha bênção a derramar-se sobre ti, Bar-Shalem Ra-mose.
O meu filho não se mexeu do seu leito, nem disse uma palavra, e eu retirei-me, com o coração despedaçado, mas livre.