A Tenda Vermelha

Anita Diamant · Capítulo 18 de 18

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A Tenda Vermelha

Capítulo 5

 

Voltar para casa, foi como renascer. Enterrei a cara no linho da cama e passei as mãos por cada peça de mobiliário, cada planta do jardim, deliciada por descobrir que as coisas estavam onde eu as tinha deixado. Kiya entrou e encontrou-me a abraçar um jarro de água. Mandei-a ir dizer a Meryt que estava em casa e, depois, fui, tão depressa quanto pude, à oficina de Benia.

O meu marido viu-me aproximar e correu para me receber. Parecia que tínhamos estado afastados durante anos, e não durante dias.- Estás tão magra, esposa - sussurrou ele enquanto me abraçava.- Fiquei doente, na cidade - expliquei. -Mas já estou outra vez saudável. Estudamos a cara um do outro.

- Aconteceu mais qualquer coisa - disse Benia, passando os dedos ao longo da minha testa, e lendo qualquer coisa dos choques dos últimos dias. - Voltaste para ficar, minha amada? - perguntou ele, e eu percebi a causa das sombras por baixo dos olhos dele.

Sosseguei-o com um beijo que nos fez ganhar um grande grito dos homens na oficina.

- Estarei em casa assim que puder - disse ele, beijando-me as mãos. Eu assenti, demasiado feliz para dizer mais.

Meryt estava à minha espera com pão quente e cerveja, quando cheguei a casa. Mas quando me viu gritou.

- O que é que te fizeram, irmã? Estás magra como um osso, e os teus olhos têm ar de teres chorado um rio.

Falei à minha amiga da febre e da discussão de Ra-mose com o seu senhor. Quando a minha amiga me ouviu dizer que ele tinha sido colocado no Norte, os olhos dela encheram-se de comiseração. Depois de termos comido o que Meryt tinha trazido, ordenou-me que me deitasse na cama e massageou-me os pés. Toda a dor das semanas anteriores se derreteu, quando me massageou os dedos dos pés e me embalou os calcanhares. Depois de eu estar em paz, e aquietada, pedi-lhe que se sentasse ao meu lado, peguei-lhe na mão, ainda quente e úmida de óleo, e contei-lhe o resto do que me tinha acontecido em Tebas, incluindo o ter descoberto que Zafenat Paneh-ah, o braço direito do rei, era o meu irmão José.

Meryt ouviu-me calada, observando a minha cara, enquanto eu contava a história das minhas mães e a história de Siquém e do assassínio de Shalem. A minha amiga não se mexeu e não deixou escapar um som, mas a cara dela revelava o trabalho do coração, mostrando-me horror, raiva, comiseração, compaixão.

Quando acabei, ela abanou a cabeça.

- Vejo por que é que não me disseste isto antes - disse ela com tristeza. -Gostava de ter podido ajudar-te a suportar esse fardo desde o início. Mas, agora, que confias o teu passado à minha guarda, ele está seguro. Sei que não precisas de nenhuma jura de mim, senão não me terias dito nada. Minha querida - disse ela, pondo a minha mão na cara dela - sinto-me muito honrada por ser o vaso em que despejas esta história de dor e de força. Durante todos estes anos, nenhuma filha me poderia ter feito mais feliz ou mais orgulhosa do que tu. Agora que sei quem tu és, e o que é que a vida te custou, só te respeito mais, por te poder contar entre aqueles que amo.

Depois de um confortável silêncio, Meryt juntou as coisas dela e preparou-se para se ir embora.

- Vou-me embora, para te dar tempo para te preparares para a chegada do Benia - disse ela, tomando as minhas duas mãos nas dela. Bênçãos de Isis. Bênçãos de Hathor. Bênçãos das mães da tua casa. Mas, antes de sair, a cara da minha amiga voltou a adquirir o seu sorriso endiabrado e, com um amigável olhar de soslaio, disse:- Venho visitar-te amanhã. Vê lá se consegues levantar-te tempo suficiente, entre hoje e amanhã, para me fazeres qualquer coisa para comer, para variar, hein?

Benia entrou a correr, pouco depois, e caímos na cama por fazer como amantes jovens, sem fôlego e apressados. Depois, enrodilhados na roupa um do outro, dormimos o sono faminto dos amantes reunidos. Acordei uma vez, durante a noite, estremunhada e a sorrir, a detestar fechar os olhos à alegria de estar em casa.

Depois do meu regresso, nunca mais perdi inteiramente a minha veneração pelos prazeres normais. Levantava-me antes do Benia, para estudar a cara dele, e respirava silenciosas orações de agradecimento. Ao ir até à fonte, ou ao arrancar ervas daninhas no horto, era assoberbada pela percepção de que tinha passado um dia inteiro sem o peso do passado a esmagar-me o coração. O canto dos pássaros levava-me às lágrimas e, cada nascer do Sol, parecia um presente moldado para os meus olhos.

Quando a mensagem do vizir chegou à nossa porta, como eu sabia que chegaria um dia, congelei de horror, face à idéia de sair nem que fosse por um só dia, mas, para meu alívio, a carta não me chamava para a grande casa na margem oriental. O sonho de José tinha-se cumprido, nascera-lhe um segundo filho. Este veio tão rapidamente, no entanto, que As-naat não teve tempo de me mandar chamar, antes que aquele que se chamou Efraim tivesse encontrado o seu caminho para o mundo. Embora eu não lhe tivesse prestado qualquer serviço, Zafenat Paneh-ah enviou um presente de três peças de linho branco como a neve. Quando Benia me perguntou porque é que o presente era tão extravagante, eu contei-lhe tudo.

Era a terceira vez que dava voz a toda a história: primeiro a Werenro, depois a Meryt. Mas, daquela vez, o meu coração não bateu muito, nem os meus olhos se encheram, enquanto a contava. Era só uma história do passado longínquo. Depois de me ouvir até ao fim, Benia abraçou-me, para me reconfortar, e eu anichei-me na paz protetora das mãos de Benia e do coração dele, que batia.

Benia era o rochedo sobre o qual a minha vida se levantava com firmeza, e Meryt era o meu poço. Mas a minha amiga era mais velha do que eu uma geração, e a idade estava a fazer estragos. Os últimos dentes tinham-lhe caído da boca, algo por que ela afirmava estar grata.

- Acabou-se a dor - riu-se ela, baixinho. - Acabou-se a carne, - também disse ainda, com um triste encolher de ombros. Mas, a nora dela, Shif-ra, cortava em bocadinhos e fazia cada prato em purê, e a minha amiga manteve-se forte e continuou a desfrutar da sua cerveja e das suas piadas tanto quanto sempre o tinha feito. Assistiu a muitos partos comigo, deleitando-se com o sorriso dos recém-nascidos, chorando pelas mortes que se nos atravessavam no caminho. Partilhamos refeições sem conta, e eu sempre deixei a mesa dela a rir-me baixinho. Ambas sabíamos que os dias dela tinham conta certa, e dávamo-nos beijos de despedida de cada vez que nos separávamos. Não havia nada entre nós que tivesse sido deixado por dizer.

Veio a manhã em que Kiya apareceu à porta, para dizer que Meryt não se conseguia levantar da cama.

- Estou aqui, querida, irmã - disse eu, quando cheguei ao lado dela, mas a minha velha amiga já não me podia cumprimentar. Não se conseguia mexer de todo. O lado direito da cara dela tinha sofrido um colapso e a respiração era trabalhosa.

Respondeu ao aperto dos meus dedos na mão esquerda dela, e piscou os olhos para mim.

- Oh, irmã - disse eu, tentando não chorar. Mexeu-se um pouco e eu percebi que, embora estivesse a aproximar-se da morte, Meryt estava a tentar reconfortar-me. Isso não podia ser. Olhei-a nos olhos e consegui fazer um sorriso de parteira. Eu sabia qual era o meu papel. Sussurrei: Não temas, o momento está a chegar

Não temas, os teus ossos São fortes.

Não temas, a ajuda está por perto

Não temas, Anábis é um companheiro gentil.

Não temas, as mãos da parteira são espertas.

Não temas, a terra está por baixo de ti.

Não temas, mãezinha.

Não temas, mãe de todos nós.

Meryt relaxou e fechou os olhos, cercada de filhos e filhas, netos e netas. Deu um longo suspiro, que soou como o vento a passar pelas canas, e deixou-nos.

Juntei-me às mulheres, na aguda e penetrante canção de morte que alertou toda a vizinhança para a morte da amada parteira, mãe, e amiga. As crianças desataram a chorar, com aquele som, e os homens coçavam os olhos com punhos úmidos. Eu tinha o coração despedaçado, mas fora reconfortada por um dos últimos presentes de Meryt para mim, pois, no seu leito de morte, tornei-me num dos membros da família dela, que a chorava.

Na verdade, fui tratada como a mais velha das parentes femininas e foi-me dada a honra de lhe lavar os mirrados braços e pernas. Embrulhei-a no bom linho do Egito que era meu e que eu podia dar. Arranjei os membros dela na posição agachada de um bebê que está prestes a entrar no mundo e sentei-me com ela durante a noite. À alvorada, levamo-la para descansar, numa gruta que se abria sobre os túmulos dos reis e das rainhas. Os filhos dela enterraram-na com os colares e os anéis que lhe pertenciam. As filhas dela enterraram-na com o fuso, a taça de alabastro e outras coisas pertences que ela adorava. Mas o estojo de parteira não tinha lugar na outra vida, e passou para a guarda de Shif-ra, que segurou as ferramentas de Meryt com veneração, como se fossem feitas de ouro.

Enterramos Meryt com canções e lágrimas e, no caminho para casa, rimo-nos em honra dela, recordando o que ela se deleitava com surpresas, piadas, comida, e todos os prazeres da carne. Eu tinha esperança em que ela continuasse a desfrutar desses prazeres na outra vida, que ela acreditava ser muito parecida com este mundo, só que sem morte, e eterna.

Naquela noite, sonhei com Meryt e acordei a rir, com alguma coisa que ela tinha dito. Na noite seguinte, sonhei com Bilhah, acordando com lágrimas na cara, que sabiam a especiarias que a minha tia usava nos cozinhados dela. Uma noite mais tarde, Zilpa recebeu-me, e nós voamos pelo céu noturno transformadas num par de falcões fêmeas. Quando o Sol se pôs mais uma vez, eu sabia que iria encontrar-me com Raquel, em sonhos. Ela estava tão bonita quanto eu a recordava. Corremos pelo meio de uma chuva quente, que me lavou completamente, como a um bebê, e acordei a cheirar como se me tivesse banhado em água de um poço.

Ansiosamente aguardei o meu sonho com Lea, mas ela não veio na noite seguinte, nem na noite que se seguiu a essa. Só na escuridão da lua nova é que fui visitada pela mãe da minha carne. Foi a primeira vez que o meu corpo não deu o que era devido à lua. Eu tinha passado o tempo de dar vida, e a minha mãe, que tinha carregado tantas crianças, veio reconfortar-me.

- Tu, agora, és a mais velha - disse suavemente. - Tu és a avó, que dá voz à sabedoria. Honra te seja feita - disse a minha mãe Lea, curvando a testa até ao chão perante mim, pedindo perdão. Levantei-a, e ela transformou-se num bebê embrulhado em panos. Segurando-a nos meus braços, implorei o perdão dela, por alguma vez ter duvidado do seu amor por mim, e senti o seu perdão em todo o meu coração. Fui ao túmulo de Meryt, na manhã que se seguiu ao sonho com Lea, e derramei vinho, agradecendo-lhe por ter mandado as minhas mães de volta para mim. Com Mervt morta, eu era a mulher sábia, a mãe, a avó, e, mesmo, a bisavó daqueles que me rodeavam. Shif-ra (que se tornara avó recentemente) e Kiya (prestes a casar-se) davam-me assistência, onde quer que eu fosse colocar os tijolos. Elas aprenderam o que eu tinha a ensinar e, passado pouco tempo, foram sozinhas salvar as mulheres do medo e da solidão do parto. As minhas aprendizas tornaram-se minha irmã e minha filha. Nelas, encontrei água nova no poço que eu julguei para sempre seco, após a morte de Meryt.

Passaram-se meses, e anos. Os meus dias eram ocupados, as minhas noites pacíficas. Mas não há paz duradoura, antes do túmulo, e, uma noite, depois de Benia e eu termos ido para a cama, José apareceu-nos portas adentro.

A visão dele, ali, vestido com uma longa capa negra que o transformava numa sombra, era tão estranha, que eu pensei que ele fizesse parte de um sonho. Mas o tom de voz do meu marido acordou-me para aquele momento, subitamente escuro e perigoso.

- Quem é que entra na minha casa sem bater? - rosnou ele, como um cão que sente o perigo, pois o homem que ali estava não era, obviamente, um pai preocupado, à procura da parteira.

- É José - sussurrei eu.

Acendi lâmpadas e Benia ofereceu ao meu irmão a melhor cadeira que tínhamos. Mas José insistiu em seguir-me até a cozinha, onde eu lhe servi uma taça de cerveja, que ficou por tocar.

O silêncio era espesso e rígido. As mãos do Benia estavam fechadas, pois receoso de que eu estivesse prestes a ser-lhe tirada, o maxilar dele estava trancado, pois não tinha a certeza de como deveria falar ao nobre que ali estava empoleirado num banco, na cozinha dele. José fez-me olhares fugidios, cheios de urgência tácita, pois não tinha vontade de falar em frente de Benia. Eu olhei de uma cara para a outra e apercebi-me de quão velhos tínhamos ficado.

Por fim, eu disse ao José:

- Benia é teu irmão, agora. Diz ao que vieste.

- É o papá - disse ele, usando uma palavra de bebê que eu não ouvia desde Canaã. - Está a morrer, e nós temos de ir ter com ele. Benia fungou de nojo.

- Como é que te atreves? - disse José, pondo-se de pé de um salto, e pondo a mão na adaga que trazia à cintura.

- Como é que tu te atreves? - respondeu Benia com igual paixão, aproximando-se. - Porque é que a minha mulher deve ir chorar ao lado da cama onde está deitado um pai que assassinou a felicidade dela e a própria honra dele? Um pai que te mandou para as facas longas de homens que eram conhecidos pela crueldade deles?- Conheces a história, então - disse José, subitamente derrotado. Sentou-se, pousou a cabeça nas mãos e gemeu. - Eles mandaram-me palavra do Norte, onde os meus irmãos e os filhos dele cuidam dos rebanhos do Egito. Judá diz que o nosso pai não chegará ao fim desta estação e que Jacob deseja dar a bênção dele aos meus filhos. Eu não quero ir - disse José, olhando para mim como se eu tivesse alguma resposta para ele. -Pensei que tinha acabado o meu dever lá. Pensei que até tinha perdoado ao meu pai, embora não sem que eles pagassem um preço. Quando eles vieram à minha casa, a morrer de fome e à procura de refúgio, eu revirei a faca na ferida. Acusei-os de roubo e forcei-os a rastejarem perante o poderoso Zafenat Paneh-ah. Vi Levi e Simeão porem as testas no chão a meus pés, e tremerem. Regozijei-me com a humilhação deles e mandei-os de volta a Jacob, exigindo que fosse mandado o Benjamim. Castiguei o nosso pai por escolher favoritos. Também castiguei os meus irmãos, e fiz com que eles temessem pela vida. Agora, o velho quer pôr as mãos nas cabeças dos meus rapazes, para lhes transmitir a bênção. Não os filhos de Ruben ou de Judá, que o sustentaram estes anos todos, e que lhe aturaram as disposições e os caprichos. Nem mesmo os filhos de Benjamim, o último filho. Eu conheço o coração de Jacob. Ele quer reparar os males do passado, ao abençoar os meus filhos. Mas eu temo por eles, com tal direito de primogenitura. Eles herdarão memórias atormentadoras, e sonhos estranhos. Acabarão por odiar o meu nome. José continuou a queixar-se, enquanto eu e Benia escutávamos. As dores do passado agarravam-se a ele, apanhadas nas dobras da sua longa capa negra. Esbracejou como um cordeiro que se está a afogar.

Enquanto falava de anos fartos e de anos magros, de solidão e de noites passadas em claro, do modo como a vida o tinha tratado de forma tão cruel, eu procurei o irmão de que me lembrava, o companheiro de brincadeiras que escutava as palavras das mulheres com respeito e que, em tempos, olhava para mim como amiga dele. Mas não vi nada daquele rapaz no homem absorto em si próprio que estava perante mim, cuja disposição e cuja voz pareciam mudar de momento a infeliz momento.- Sou um fraco - disse José. - A minha raiva não diminuiu, e não sinto, no meu coração, pena de Jacob, que se tornou cego, como o pai dele antes dele. E, no entanto, não lhe consigo dizer que não.- As mensagens perdem-se - disse eu com suavidade. - Os mensageiros por vezes são assaltados na estrada.

- Não - disse José. - Essa mentira acabaria por me matar. Se eu não for, ele vai assombrar-me para sempre. Eu irei, e tu irás comigo - disse José, subitamente falando alto, um homem habituado ao poder. Não tentei esconder o meu nojo, face ao tom de voz dele e, quando viu o meu desprezo, deixou cair a cabeça de vergonha. E, então, o meu irmão curvou-se e pôs a testa no chão de terra da cozinha de um carpinteiro, e pediu-me desculpa, e ao Benia também.

- Perdoa-me, irmã. Perdoa-me, irmão. Não quero ver o meu pai a morrer. Não quero vê-lo de todo. E, no entanto, não consigo desobedecer-lhe. É verdade que te posso obrigar a ires comigo, por nenhuma outra razão que não seja segurares-me a mão. Mas também tu prosperarás nisto. Levantou-se e reassumiu o comportamento de Zafenat Paneh-ah - Vocês serão os meus convidados - disse suavemente. - O mestre carpinteiro irá fazer negócios para o rei. Eu vou comprar madeira no Norte e necessito dos serviços de um artista que saiba escolher a melhor madeira. Irás ao mercado de Mênfis e verás a oliveira, o carvalho, e o pinho em abundância, escolhendo só aquilo que ficar bem na casa e no túmulo do rei. Trarás honra à tua profissão, e ao teu próprio nome. As palavras dele eram sedutoras, mas Benia só olhou para mim. Depois, José aproximou a cara dele da minha, e disse com suavidade:- Ahatti, esta é a tua última oportunidade de veres os frutos dos ventres das tuas mães, os netos e as netas delas. Pois aqueles não são só os filhos de Jacob, também são os filhos de Lea, Raquel, Zilpa e Bilhah. Tu és a única tia do sangue das mães deles, e as nossas mães desejariam que tu visses as netas delas. Afinal, tu és a única filha, aquela que elas amavam. O meu irmão conseguia convencer qualquer um, e falou até o Sol se levantar e Benia e eu estarmos exaustos. Embora nunca tivéssemos dito que sim, não havia maneira de dizer não a Zafenat Paneh-ah, o vizir do rei, tal como não havia maneira de dizer não a José, filho de Raquel, neto de Rebeca.

Fomos embora com ele, de manhã. No rio, acolheu-nos uma barca de luxo inultrapassável, cheia de cadeiras e de camas, pratos e taças pintados, vinho doce e cerveja fresca. Havia flores e frutos por todo o lado. Benia ficou atordoado com tanta riqueza, e nenhum de nós conseguia olhar para as caras dos escravos nus que nos serviam da mesma forma servil com que serviam Zafenat, e os dois filhos dele, e o nobre séquito.

Os rapazes já eram suficientemente crescidos para deixarem crescer o cabelo, e eram bons rapazes, curiosos acerca dos convidados do pai, mas suficientemente educados para não fazerem perguntas. Benia deleitou-os esculpindo pequenas criaturas em madeira, a cada qual deu seu nome. Apanhou-me a observá-lo, e o seu sorriso triste disse-me que tinha feito o mesmo para os filhos dele, que tinham morrido havia muito tempo. As-naat não veio conosco e José nunca disse uma palavra acerca da mulher. O meu irmão era assistido por uma jovem guarda, todos eles tão bonitos quanto ele fora na juventude, e eu via-o freqüentemente a olhar fixamente para os belos companheiros dele com desejo. Ele e eu mal falamos um com o outro, na viagem para Norte. Tomamos as nossas refeições separadamente, e ninguém suspeitou que a mulher do carpinteiro tinha alguma coisa a dizer ao poderoso vizir. Quando, de fato, trocávamos palavra (para dizermos bom dia ou para fazermos algum comentário acerca das crianças), nunca falamos na nossa língua materna. Isso poderia ter chamado a atenção para o fato de ele ter nascido no estrangeiro, questão sensível para muitos dos que estavam ao serviço do rei.

José manteve-se distante, na proa da barca, debaixo de um toldo brilhante, embrulhado na sua capa escura. Se eu tivesse estado sozinha, poder-me-ia ter sentado como ele, revivendo a viagem que me tinha trazido à casa de Nakht-ra, onde me tinha tornado mãe, lembrando, também, a perda do meu filho. Se não fosse o Benia, teria pensado no iminente encontro com os meus irmãos e teria aberto as velhas feridas no meu coração.

Mas Benia estava sempre por perto, e o meu marido era cativado pelas vistas de uma viagem que era, para ele, a dádiva de uma vida extra. Dirigiu os meus olhos para as velas no rio ou, quando o ar estava parado, para a harmonia dos remos dos remadores. Nada lhe escapava à atenção, apontava os horizontes e as árvores, as aves em vôo, os homens que aravam os campos, as flores silvestres, um campo de papiro que parecia um campo de cobre ao pôr do Sol. Quando passamos por cardume de cavalos-marinhos, a excitação dele só foi igualada pela dos rapazes de José, que se amontoaram ao lado dele, para verem os filhos de Taweret a chapinhar.

No terceiro dia da nossa viagem pus de lado o meu fuso e fiquei sentada em silêncio, a ver a água a bater nas margens, com a cabeça tão calma e tão vazia de palavras como a superfície do rio. Inalei o cheiro argiloso do rio e ouvi o som da água no casco, que era como uma brisa constante. Deixei os meus dedos arrastarem-se pela água, vendo-os ficar enrugados e brancos.

- Estás a sorrir! - disse o Benia, apanhando-me de surpresa.- Quando eu era criança disseram-me que só encontraria contentamento ao lado de um rio - contei-lhe eu. - Mas foi uma falsa profecia. A água acalma-me o coração e os pensamentos, e é verdade que eu me sinto em casa ao pé da água, mas encontrei a minha alegria em montes secos, onde a fonte está distante e o pó é espesso.

Benia apertou-me a mão, e vimos o Egito a passar, verde-esmeralda, enquanto o sol fazia a água brilhar em incontáveis pontos de luz.

De manhã, e ao pôr do Sol, quando a barca atracava para passar a noite, Menashe e Efraim saltavam para a água. Os criados ficavam de vigia aos crocodilos e às cobras, mas o meu marido não conseguia resistir ao convite dos rapazes para que se juntasse a eles. Tirava a saia e saltava para a água, com um rugido a que respondiam infantis gritos agudos. Eu ria-me, ao ver o meu marido mergulhar abaixo da superfície e disparar outra vez para cima, como uma garça, como um rapaz. Quando contei ao Benia um sonho em que eu era um peixe, ele sorriu e prometeu-me que faria com que isso acontecesse.

Por isso, uma noite, sob a lua cheia, Benia levou o dedo aos lábios e levou-me até à margem. Em silêncio, fez gestos para que eu me deitasse nos braços dele, onde me agarrou sem esforço, como se eu fosse tão leve como um bebê e ele fosse tão forte quanto dez homens juntos. Com as mãos, persuadiu-me e sossegou-me, até eu deitar a cabeça para trás e abrir as mãos, e me deitar como se estivesse numa cama. Quando relaxei,o meu marido libertou-me, e eu só sentia as pontas dos dedos dele nas minhas costas, enquanto o rio me abraçava e o luar tornava a água prateada.

Todas as noites me fui tornando mais arrojada. Aprendi a flutuar sem o apoio das mãos do meu marido e, depois, a mexer-me de costas, voltada para a Lua minguante. Ele mostrou-me como ficar à superfície, como nadar como um cão, dando pontapés e amassando a água para manter a querida vida. Eu ri-me, e engoli água. Era a primeira vez que me divertia como uma criança, desde que o meu filho era bebê. Por alturas do fim da viagem para Norte, eu conseguia esconder a cabeça debaixo de água, e até conseguia nadar lado a lado com o Benia. Sussurrando na nossa pequena cama, depois, contei-lhe a primeira vez em que tinha visto alguém nadar, no rio, no caminho para fora de Haran.- Eles eram egípcios - contei eu, recordando as suas vozes. - Pergunto-me se estariam a comparar a água daquele rio com a deste, tal como eu estou a fazer esta noite.

Voltamo-nos um para o outro e fizemos amor tão silenciosamente como os peixes, e dormimos como crianças embaladas no peito do grande rio -fonte e realização.

Em Tanis, deixamos o rio e iniciamos a viagem até aos montes, onde os filhos de Jacob viviam. No Egito, os agricultores e mesmo os fabricantes de curtumes eram mais estimados do que os pastores, cujo trabalho era considerado a mais baixa e hedionda das ocupações. O objetivo oficial da viagem de Zafenat Paneh-ah era fazer um censo dos rebanhos e selecionar os melhores animais para a mesa do rei. Na realidade, a tarefa estava abaixo da posição dele, era o tipo de coisa habitualmente atribuida a um escriba que estivesse a meio da hierarquia. Mesmo assim, servia de desculpa ao meu irmão para visitar os parentes que ele não via havia dez anos, desde que lhes concedera refúgio da fome em Canaã. Viajar na caravana de Zafenat Paneh-ah não tinha nada a ver com as viagens da minha juventude. O meu irmão era carregado numa liteira pelos carregadores militares e os filhos dele iam montados em burros, logo atrás. Benia e eu, que andamos a pé, estávamos cercados de criados, que nos ofereciam cerveja fresca ou fruta mal levantássemos uma mão para protegermos os olhos. À noite descansávamos em grossas camas, debaixo de tendas de um branco puro.

O luxo não era a única diferença. Esta viagem foi muito silenciosa, quase calada. José sentava-se sozinho, com o sobrolho franzido, os nós dos dedos brancos nos braços da liteira. Eu também estava inquieta, mas não havia maneira de falar com o Benia sem sermos ouvidos. Só os filhos de José andavam despreocupados. Menashe e Efraim chamaram Huppim e Muppim aos burros e inventaram histórias acerca deles. Atiravam uma bola para trás e para a frente, entre eles, e riam-se, e queixavam-se de ter os traseiros negros, de tanto cavalgar. Se não fosse por eles, ter-me-ia esquecido de como é que se sorria. Passados quatro dias, chegamos ao acampamento onde viviam os filhos de Jacob. Fiquei chocada com o tamanho do acampamento. Tinha imaginado um ajuntamento como o de Siquém, com uma dúzia de tendas e metade desse número de fogueiras para cozinhar. Mas havia uma aldeia inteira: vintenas de mulheres de cabeça coberta precipitavam-se para trás e para a frente, carregando jarros de água e lenha. Gritos de bebês levantavam-se do murmúrio da minha língua materna a ser falada, gritada, e cantavam em sotaques que me eram tão familiares como desconhecidos. Mas o que me levou às lágrimas foram os cheiros: cebolas a fritar em azeite, o pó almiscarado dos rebanhos a misturar-se com o perfume do pão a cozer. Só a mão do Benia me impediu de vacilar.

Uma delegação dos líderes da tribo destacou-se para receber o vizir, o parente deles. José enfrentou-os com os filhos a seu lado, flanqueado pelos belos guardas. Atrás dele vinham criados, carregadores e escravas e, a uma certa distância, para um dos lados, um carpinteiro e a mulher dele. A cara de José estava quase branca de ansiedade, mas ele mostrou os dentes num grande sorriso falso.

Os filhos de Jacob estavam perante nós, mas eu não reconheci nenhum daqueles velhos. O mais velho, com a cara cheia de profundos sulcos e escondida por sujos cabelos brancos, falou lentamente, pouco à vontade, na língua do Egito. Entregou saudações formais a Zafenat Paneh-ah, o protetor e salvador deles, aquele que os tinha trazido em paz para aquela terra e lhes dera de comer.

Foi só quando ele mudou para a fala do seu nascimento, que eu reconheci o orador.

- Em nome do nosso pai, Jacob, dou-te as boas-vindas, irmão, às nossas humildes tendas - disse Judá, que tinha sido tão bonito na juventude. - O papá está perto do fim - disse ele. - Nem sempre está em si, e agita-se na cama, chamando por Raquel e Lea. Acorda de um sonho e amaldiçoa um filho, mas, noutra hora, abençoa o mesmo homem com profusos elogios e promessas. Mas ele tem esperado por ti, José. Por ti, e pelos teus filhos.

Enquanto Judá falava, eu comecei a reconhecer alguns dos homens que estavam atrás dele. Lá estava Dan, com o cabelo preto e parecido com musgo da mãe dele, com a pele ainda sem rugas e os olhos calmos, como os de Bilhah. Já não era difícil distinguir Naftali de Issacar, pois Tali era coxo e Issacar curvado. Zebulon ainda se parecia com Judá, embora aparentasse menos o desgaste da vida. Vários dos homens mais novos, que eu pensava que seriam meus sobrinhos, faziam lembrar Jacob tal como ele era na juventude. Mas eu não conseguia adivinhar de quem é que eles eram filhos, nem qual deles era Benjamim.

José ouviu Judá sem, sequer uma vez, cruzar o olhar com o do irmão, cujos olhos estavam fixos nele. Mesmo quando Judá acabou de falar, José não respondeu, nem levantou a cabeça.

Por fim, Judá falou outra vez.

- Estes devem ser os teus rapazes. Que nomes é que lhes deste?- Menashe é o mais velho, e este é Efraim - respondeu José, pondo as mãos nas cabeças deles à vez. Ao ouvirem os nomes deles, os rapazes olharam para o pai, com as caras a brilharem de curiosidade acerca do que estava a ser dito naquela língua que soava estranha e que eles nunca tinham ouvido da boca do pai deles. - Eles mal compreendem porque é que estamos aqui - disse José. - Eu próprio também não sei. A raiva passou rapidamente pela cara de Judá, mas rapidamente mudou para derrota.

- Não há maneira de desfazer os erros do passado - disse ele. - Mesmo assim, é bondade tua dar ao velho uma morte em paz. Ele viveu em tormento, desde o momento em que te dissemos morto, e nunca recuperou, mesmo depois de ter sabido que ainda estavas vivo. Vem. Vamos ver se o nosso pai está acordado. Ou queres comer e beber antes?- Não - respondeu José. - É melhor ir fazer isso. Com os filhos pela mão, José seguiu Judá para a tenda em que Jacob estava a morrer. Eu fiquei parada, com o resto dos criados e do séquito de Zafenat Paneh-ah, vendo-os desaparecer na aldeia poeirenta. Eu estava agarrada à terra, a tremer, furiosa com o fato de nenhum deles me ter reconhecido. Mas também estava aliviada. O Benia levou-me suavemente para o local em que os criados estavam a levantar tendas para passar a noite, e esperamos lá.

Mal houve tempo para enumerar os meus sentimentos, antes de José reaparecer, com Menashe e Efraim, que tinham olhos fixos no chão, de medo. O meu irmão passou por mim, e entrou na tenda dele sem uma palavra.

O Benia não conseguiu persuadir-me a comer, naquela noite, e, muito embora eu me tivesse deitado ao lado dele, não fechei os olhos. Olhei fixamente para a escuridão e deixei o passado como que quebrar em ondas sobre mim.

Recordei a bondade de Ruben e a beleza de Judá. Recordei a voz de Dan a cantar e o modo como Gad e Aser imitavam o nosso avô até eu cair de riso. Recordei-me de como Issa e Tali choravam, quando Levi e Simeão os atormentavam e lhes diziam que eles podiam ser trocados, aos olhos da mãe. Recordei o modo como Judá me tinha feito cócegas até eu fazer xixi, em tempos, mas nunca tinha dito nada a ninguém. Recordei o fato de Ruben costumar andar comigo aos ombros, de onde eu conseguia tocar as nuvens.

Por fim, não consegui mais estar deitada quieta e saí para a noite, onde José estava à minha espera, andando de um lado para o outro, ao lado da minha tenda. Afastamo-nos lentamente do acampamento, pois não havia lua, e a escuridão cobria tudo. Depois de termos posto alguma distância entre nós e o acampamento, José atirou-se para o chão, e contou-me o que se tinha passado.

- A princípio, ele não me reconheceu - disse o meu irmão. - O papá choramingava como uma criança cansada, a gritar:

“José. Onde é que está o José?” Eu disse: “Aqui estou.” Mas, mesmo assim, ele perguntava: “Onde é que está o meu filho José? Porque é que ele não vem?” Eu pus a boca ao pé do ouvido dele, e disse: “O José está aqui, com os filhos dele, tal como pediste.” Depois de muitas destas trocas de palavras, subitamente percebeu e agarrou-me a cara, as mãos, a roupa. A chorar, repetiu o meu nome uma e outra vez e implorou o meu perdão, o meu e o da minha mãe. Amaldiçoou a memória de Levi e Simeão, e de Ruben, também. Depois gritou, por não ter perdoado ao seu primogênito. Pronunciou o nome de cada um dos meus irmãos, abençoando-os e amaldiçoando-os, transformando-os em animais, suspirando por causa das diabruras de infância deles, chamando as mães deles, para lhes limparem o rabo. É horrível envelhecer daquela maneira- disse José, com pena e com nojo na voz. - Rezo para que morra antes que venha o dia em que eu não saiba se os meus filhos são crianças ou avós. Jacob pareceu adormecer, mas, um momento depois, gritou outra vez: “Onde é que está o José?”, como se ainda não me tivesse beijado. “Aqui estou eu”, respondi. “Deixa-me abençoar os rapazes”, disse Jacob. “Deixa-me vê-los agora,” Os meus filhos estavam a tremer, ao meu lado. A tenda tresandava à doença dele, e a gritaria dele tinha-os assustado, mas eu disse-lhes que o avô desejava abençoá-los e empurrei-os na direção dele, um de cada lado. Pôs a mão direita na cabeça do Efraim, e a mão esquerda na do Menashe. Abençoou-os em nome de Abraão e de Isaac, depois sentou-se, e rugiu: “Lembrem-se de mim!” Eles encolheram-se, e esconderam-se atrás de mim. Eu disse a Jacob quais eram os nomes dos netos dele, mas não me ouviu. Olhou fixamente, sem vista, para o teto da tenda, e falou com Raquel, pedindo-lhe desculpas por ter abandonado os ossos dela ao lado de uma estrada. Chorou pela amada dele e implorou-lhe que o deixasse morrer em paz. Não se deu conta de nada, quando eu me vim embora com os meus filhos.

Enquanto José falava, senti um velho peso voltar ao meu coração, e reconheci o peso que tinha carregado durante os meus anos na casa de Nakht-ra. O fardo não era feito de tristeza, tal como eu tinha pensado. Era raiva, o que se levantava de mim e encontrava a sua voz perdida.- E de mim? - disse eu. - Ele falou de mim? Arrependeu-se do que me fez? Falou do assassínio de Siquém? Chorou pelo sangue inocente de Shalem e de Hamor? Arrependeu-se da matança da própria honra dele? Fez-se silêncio, no chão, onde José estava deitado.- Ele não disse nada sobre ti. Dina está esquecida na casa de Jacob. As palavras dele deviam ter-me enterrado, mas não o fizeram. Deixei José no chão e cambaleei de volta para o acampamento, sozinha. Subitamente, estava exausta, e cada passo era um esforço, mas os meus olhos estavam secos.

Depois de José ter chegado, Jacob deixou de comer e de beber. A morte dele chegaria dentro de horas, no máximo dentro de dias. Por isso, esperamos.

Passei o tempo sentada à porta da minha tenda, a fiar linho, estudando os filhos de Lea, Raquel, Zilpa e Bilhah. Vi os sorrisos e os gestos das minhas mães e ouvi o riso delas. Algumas das ligações eram tão claras como o dia. Reconheci uma cópia exata de Bilhah, naquela que tinha de ser a filha de Dan, uma outra menina usava o cabelo da minha tia Raquel. O nariz afilado de Lea evidenciava-se por todo o lado.

No segundo dia da vigília de morte de Jacob, aproximou-se de mim uma rapariga, com um cesto de pão fresco nas mãos. Apresentou-se na língua do Egito como Gera, filha de Benjamim e da esposa egípcia dele, Neset. Gera tinha curiosidade em descobrir como é que uma mulher com o meu estatuto se sentava e fiava, enquanto as outras que assistiam Zafenat Paneh-ah cozinhavam e iam buscar coisas e limpavam o dia inteiro.- Eu disse às minhas irmãs que tu deves ser a ama dos filhos do vizir meu tio - disse ela. - É assim? Adivinhei bem? Eu sorri, e disse:

- Adivinhaste bem - e pedi-lhe que se sentasse e que me falasse das irmãs e irmãos dela. Gera aceitou o meu convite com um sorriso satisfeito e começou a estender a teia e a trama da família dela.- As minhas irmãs ainda são crianças - disse a rapariga, apesar de ela própria ainda estar a alguns anos da idade adulta. - Temos gêmeas, Meuza e Naamah, que são demasiado jovens para sequer fiarem. O meu pai, Benjamim, também teve filhos em Canaã, de uma outra esposa que morreu. Os meus irmãos chamam-se Bela, Becher, Ehi e Ard, e são rapazes razoavelmente bons, embora não os conheça melhor do que aos filhos dos meus tios, que são tão numerosos quanto os nossos rebanhos, e tão barulhentos quanto estes - disse ela, e piscou-me o olho, como se fôssemos velhas amigas.

- Tens muitos tios? - disse eu.

- Onze - disse Gera. - Mas os três mais velhos estão mortos.- Ah - assenti eu, despedindo-me de Ruben, no meu coração. A minha sobrinha acomodou-se ao meu lado, retirando um fuso do avental e começando a trabalhar, enquanto desenrolava o rolo da história da nossa família.

O mais velho era Ruben, filho de Lea, a primeira mulher do meu avô. No caso dele, o escândalo é que Ruben foi encontrado deitado com Bilhah, a mais jovem das esposas de Jacob. Jacob nunca perdoou o seu primogênito, mesmo depois de Bilhah ter morrido, muito embora Ruben lhe tivesse dado netos e mais riqueza do que o resto dos irmãos juntos. Dizem que o meu tio chorou pelo perdão de Jacob, quando morreu, mas o pai dele não o foi ver. Simeão e Levi, também nascidos de Lea, foram assassinados em Tanis, quando eu era bebê. Disso, ninguém sabe a história toda, mas, entre as mulheres, diz-se que eles tentaram levar a melhor a um mercador numa pequena questão qualquer. Para vítima deles, escolheram o mais impiedoso assassino do Egito, que os matou, por causa da ganância deles.

Gera olhou para cima, e viu Judá a entrar na tenda de Jacob.- O tio Judá, filho de Lea, tem sido o líder do clã desde há muitos anos. Ele é um homem justo e carrega bem os fardos da família, embora alguns dos meus primos pensem que ele se tornou demasiado cauteloso, na velhice.

Gera continuou, ensinando-me a história dos meus irmãos e das esposas deles, apontando para os filhos deles, recitando os nomes de sobrinhas e sobrinhos, carne da minha carne, com os quais eu nunca poderia trocar uma palavra.

Ruben tinha três filhos com uma esposa chamada Zillah. A segunda mulher dele, Attar, deu-lhe duas meninas, Bina e Efrat.

Simeão tinha cinco filhos da hedionda Ialutu, que Gera lembrava como uma horrível rabugenta com mau hálito. Tinha outro filho de uma mulher siquemita, mas esse tinha entrado num wadi inundado, e afogara-se.

- A minha mãe diz que ele se suicidou - disse Gera num sussurro. -Aquele homem ali chama-se Merari - disse ela. - O milagre, nele, é que ele é um bom rapaz, apesar de ter nascido de Levi e Inbu. Os irmãos dele são tão maus como o pai deles era.

Um homem de boca aberta arrastou-se até ao pé de Gera, que lhe deu um bocado de pão e o mandou embora.

- Aquele era Shela - explicou ela -, filho de Judá com Shua. Ele tem a cabeça fraca, mas é um doce. O meu tio teve uma segunda esposa chamada Tamar, que lhe deu Peretz e Zerach, e a minha melhor amiga, Dafna. Ela é a beldade da minha família, nesta geração. Aquela ali, é Hesia - disse ela, acenando com a cabeça a uma mulher quase da minha idade. - Esposa de Issacar, filho de Lea. Hesia é a mãe de três filhos, e de Tola, que tomou a vida de parteira. Se Dafna é a herdeira da beleza de Raquel, Tola tem as mãos de ouro dela.

- Quem é Raquel? - perguntei eu, esperando ouvir dizer mais coisas sobre a minha tia.

- É a mãe do teu senhor - disse ela, surpreendida com a minha ignorância. - Embora suponha que não há razão para saberes o nome dela. Raquel era a segunda esposa, a amada de Jacob, a beldade. Ela morreu a dar à luz Benjamim, meu pai.

Eu assenti com a cabeça, e dei-lhe uma palmadinha na mão, vendo nela a forma dos dedos de Raquel.

- Continua, querida - disse eu. - Conta-me mais coisas. Gosto do som dos nomes da tua família.

- Dan foi o único filho de Bilhah - disse Gera. - Ela era a terceira esposa de Jacob, criada de Raquel, e aquela que se deitou com Ruben. Dan tem três filhas de Timna, chamadas Edna, Tirza e Berit. Todas elas são mulheres de bom coração, são elas que cuidam de Jacob. Zilpa era a quarta esposa, criada de Lea, e teve gêmeos. O primeiro foi Gad, que amava a esposa dele, Serah Imnah, com um grande amor. Mas ela morreu, a dar à luz a sua quarta criança, a primeira filha, Serah, que tem o dom do canto - disse Gera. - Gad, o gêmeo de Aser, casou-se com Oreet - prosseguiu ela. - A criança mais velha deles era uma filha, Areli, que deu à luz uma filha, na semana passada, cujo nome é Nina. O Naftali de Lea foi pai de seis crianças de Yedida, cujas filhas são Elisheva e Vaniah. E, é claro, conheces os filhos de José melhor do que ninguém - disse Gera. - Ele não tem filhas? - perguntou ela.- Ainda não - respondi eu.

Gera avistou duas jovens raparigas e, apontando para mim, fez um sinal de assentimento com a cabeça de forma enfática.- Aquelas são duas das filhas de Zebulon, filho de Lea. A mãe delas, Ahavah, produziu seis raparigas, que constituem a sua própria pequena tribo. Eu gosto, quando elas me incluem no círculo delas. É um grupo alegre. Liora, Mahalat, Giah, Yara, Noadya e Yael - disse ela, contando os nomes delas pelos dedos. - Têm a melhor coscuvilhice. Foram elas que me contaram a história do filho da mulher siquemita, que se suicidou. Ele enlouqueceu - disse ela, baixando a voz -, quando soube das terríveis circunstâncias do seu nascimento.- O que é que lhe poderia ter causado tal desespero? - perguntei eu.- É uma história feia - respondeu timidamente, inclinando-se na minha direção para aguçar o meu interesse.

- Essas são, muitas vezes, as melhores histórias - respondi eu.- Muito bem - disse Gera, pousando o fuso, e olhando-me diretamente nos olhos. - De acordo com a história da Titi Ahava, Lea teve uma filha que sobreviveu. Ela deve ter sido uma grande beldade, pois foi tomada em casamento por um nobre siquemita, um príncipe, na realidade. O filho do rei Hamor! O rei levou a Jacob um belo preço de noiva com as próprias mãos, mas isso não era suficiente, para Simeão e Levi. Diziam que a irmã deles tinha sido raptada e violada e que a honra da família tinha sido aviltada. Fizeram tanto barulho, que o rei, curvando-se perante a grande paixão do filho pela filha de Lea, duplicou o preço de noiva. Ainda assim, os meus tios não ficaram satisfeitos. Diziam que aquilo era uma conspiração dos cananitas para tomarem o que era de Jacob e tornarem o que era dele propriedade de Hamor. Portanto, Levi e Simeão tentaram desfazer o casamento, ao exigirem que os siquemitas entregassem os seus prepúcios e se tornassem jacobitas. Agora, vem a parte da história que me faz pensar que isto não é mais do que um conto que as raparigas contam umas às outras. O príncipe submeteu-se à faca! Ele e o pai dele e todos os homens da cidade! As minhas primas dizem que isto é impossível, porque os homens não são capazes de um tal amor. Na história, o príncipe concordou. Ele, e os homens da cidade, foram circuncidados. - Gera baixou a voz, dando-lhe um tom sombrio, para o triste final. - Duas noites depois do corte, enquanto os homens da cidade gemiam de dor, Levi e Simeão infiltraram-se na cidade e mataram o príncipe, o rei, e todos os homens que encontraram dentro das muralhas. Levaram o gado, e as mulheres da cidade também, que é a razão pela qual Simeão veio a ter uma esposa siquemita. Quando o filho dele soube da vilania do pai, afogou-se.

Os meus olhos tinham estado fixos no meu fuso, enquanto ela contava a história.

- E o que é que foi feito da irmã? - perguntei eu. - Aquela que foi amada pelo príncipe?

- Isso, é um mistério - disse Gera. - Eu, acho que ela morreu de dor. A Serah inventou uma canção acerca de ela ter sido levada pela Rainha do Céu e ter sido transformada numa estrela cadente.- O nome dela é recordado? - perguntei eu suavemente.- Dina - disse ela. - Gosto do som do nome dela, tu não? Um dia, se tiver uma filha, vou chamar-lhe Dina.

Gera não disse mais nada acerca da filha de Lea, e continuou a palrar acerca de lutas familiares e de amores entre os primos dela. Continuou a falar até ao fim da tarde, antes de se lembrar de me fazer perguntas acerca de mim e, por essa altura, eu podia retirar-me, pois estava na hora da refeição da noite.

Jacob morreu naquela noite. Ouvi uma mulher a soluçar e perguntei-me quem é que, de entre as noras dele, chorava pelo velhote. Benia abraçou-me, mas eu não senti nem dor nem raiva.

Gera tinha-me dado paz. A história de Dina era demasiado terrível para ser esquecida. Enquanto a memória de Jacob vivesse, o meu nome seria lembrado. O passado tinha-me feito o pior possível e eu não tinha nada a temer do futuro. Deixei a casa de Jacob mais reconfortada do que José. De manhã, Judá preparou-se para levar o corpo de Jacob para se deitar com os pais dele, em Canaã. José ficou a observar, quando eles levantaram Os ossos para a liteira coberta de ouro que era dele, que ele lhes deu para a viagem fúnebre.

Antes de Judá se ter ido embora para enterrar o pai, ele e José abraçaram-se pela última vez. Virei as costas àquela visão, mas, antes de chegar à minha tenda, senti uma mão no ombro e virei a cara para Judá, cuja expressão era um mapa de incerteza e de vergonha. Estendeu-me um punho fechado.

- Era da nossa mãe - disse ele, falando a custo. - Quando ela morreu, mandou-me chamar e disse-me que desse isto à filha dela. Eu pensei que estivesse louca - disse Judá. - Mas previu o nosso encontro. A nossa mãe nunca te esqueceu, e, embora Jacob o tivesse proibido, ela falou de ti todos os dias, até morrer. Toma isto, da nossa mãe, Lea. E que possas conhecer paz - disse ele, empurrando-me qualquer coisa para a mão, antes de se afastar, com a cabeça baixa.

Eu olhei para baixo, para o anel de lápis-lazúli de Raquel, o primeiro presente que Jacob lhe dera. A princípio, pensei em chamar Judá de volta, para lhe perguntar porque é que a minha mãe me tinha mandado o testemunho do amor de Jacob pela irmã dela. Mas, é claro, ele não podia saber porquê.

Foi bom ver o rio outra vez. Depois do calor dos montes, o abraço do Nilo era doce e fresco. E, à noite, nos braços do Benia, contei-lhe tudo o que tinha ouvido de Gera e mostrei-lhe o anel. Fiquei confusa acerca do significado dele e rezei por um sonho que explicasse o mistério, mas foi o Benia que me deu a resposta. Pegando na minha mão contra a luz e olhando para ele com olhos habituados a ver a beleza, disse:

- Talvez a tua mãe quisesse que ele fosse um testemunho de que tinha perdoado a irmã. Talvez seja um sinal de que ela tenha morrido com o coração indiviso, e que desejava o mesmo para ti. As palavras do meu marido atingiram o seu alvo e eu lembrei-me de algo que Zilpa me tinha dito na tenda vermelha, quando eu era criança, e era demasiado jovem para perceber o significado das palavras dela.- Nascemos todos da mesma mãe - disse ela. Uma vida inteira mais tarde, percebi que aquilo era verdade.

Embora, durante a viagem, não tivesse acontecido nada digno de registro e as minhas mãos tivessem estado desocupadas, fiquei exausta com a viagem para casa. Ansiava por voltar à minha própria casa, por ver Shif-ra e o bebê de Kiya, que tinha nascido durante a minha ausência. Estive terrivelmente irrequieta, durante a paragem de três dias em Mênfis, mas guardei a impaciência para mim, por causa do Benia. Ele voltava do mercado todas as noites, transbordante com a beleza que tinha visto. Fez exclamações acerca do toque sedoso da madeira de oliveira, do negro puro do ébano, dos cedros aromáticos. Trouxe pedaços de pinho e ensinou os filhos de José a esculpir. Também me comprou um presente: uma bilha com a forma de uma sorridente Taweret, que me fazia sorrir, de cada vez que olhava para ela.

A barca do vizir arrastava atrás de si uma barcaça carregada de boas madeiras, quando saimos do porto de Mênfis para iniciarmos a última parte da viagem para Tebas. José e eu despedimo-nos na escuridão da última noite. Não havia necessidade de tristeza, na nossa separação, disse ele com leveza.

- Isto é apenas um “até logo”. Se As-naat ficar grávida outra vez, chamar-te-emos.

Mas eu sabia que não voltaríamos a encontrar-nos.- José - disse eu - não está nas nossas mãos. Fica bem - sussurrei eu, tocando a face dele com a mão que usava o anel da mãe dele. - Pensarei em ti.

- Eu também pensarei em ti - respondeu ele suavemente. De manhã, Benia e eu voltamo-nos ansiosamente para oeste. Uma vez chegados a casa, voltamos à ordem dos nossos dias. O filho novo de Kiya era bem-disposto e aprendeu a manifestar a sua felicidade, quando a mãe dele me passava, nas noites em que ia assistir a um parto. Eu, no entanto, raramente a acompanhava para além do pôr do Sol, pois estava a ficar velha.

Os pés doíam-me, de manhã, e as minhas mãos estavam a ficar rígidas, mas, mesmo assim, ainda me considerava feliz, por não estar fraca nem ser aborrecida. Tinha força suficiente para a minha casa e para tomar conta do Benia. Ele continuava forte e seguro, com o olhar sempre límpido, amante, constante como o Sol, do trabalho e de mim. Os meus últimos anos foram bons. Kiya teve mais dois bebês, mais um rapaz e uma rapariga, que se apoderaram da minha casa e do coração do meu marido. Recebíamos, todos os dias, incontáveis beijos de hálito doce.

- Vocês são o elixir da juventude - dizia eu, enquanto lhes fazia cócegas e me ria com eles. - Vocês alimentam estes velhos ossos. Vocês mantêm-me viva.

Mas nem sequer a devoção das criancinhas pode afastar a morte para sempre, e a minha hora chegou. Não sofri durante muito tempo. Acordei durante a noite, sentindo um peso esmagador no meu peito, mas depois do primeiro choque não houve dor.

Benia segurou-me a cara entre as suas mãos grandes e quentes. Kiya chegou e aconchegou os meus pés entre os longos dedos dela. Choraram e eu não conseguia formar as palavras para os reconfortar. Depois, mudaram perante os meus olhos, e eu não tinha palavras para descrever o que via.

O meu amado transformou-se num farol tão brilhante comoo Sol, e a luz dele aquecia-me plenamente. Kiya brilhava como a Lua e cantava com a voz verde e solene da Rainha da Noite.

Na escuridão que rodeava as luzes brilhantes da minha vida, comecei a discernir as caras das minhas mães, cada uma delas a arder com o seu próprio fogo. Lea, Raquel, Zilpa e Bilhah. Inna, Ra-nefer e Meryt. Até a pobre da Ruti e a arrogante Rebeca estavam alinhadas para me receber. Embora nunca as tivesse visto, também reconheci Ada e Sarai. Forte, corajosa, maravilhada, bondosa, prendada, quebrada, leal, tola, talentosa, fraca, cada uma delas a dar-me as boas-vindas à sua maneira.

- Oh - gritei eu, maravilhada. Benia abraçou-me com ainda mais força e soluçou. Pensou que eu sofria, mas não sentia nada, senão excitação face às lições que a morte me estendia. No momento antes de passar para o outro lado, soube que os sacerdotes e os magos do Egito eram tolos e charlatães, por prometerem prolongar as belezas da vida para além do mundo que nos é dado. A morte não é nenhum inimigo, mas a fundação da gratidão, da comiseração e da arte. De todos os prazeres da vida, só o amor não deve nada à morte.

- Obrigada, amado - disse eu ao Benia, mas ele não me ouviu. -Obrigada, filha - disse eu a Kiya, que tinha encostado o ouvido ao meu peito e que, ao não ouvir nada, começou a carpir. Eu morri, mas não os deixei. Benia ficou sentado ao meu lado e eu permaneci nos seus olhos e no seu coração. Durante semanas e meses e anos, a minha cara viveu no jardim, o meu cheiro ficou agarrado aos lençóis. Durante todo o tempo que ele viveu, eu andei com ele durante o dia e deitei-me com ele à noite.

Quando os olhos dele se fecharam pela última vez, pensei que eu talvez deixasse, finalmente, o mundo. Mas, mesmo então, permaneci. Shif-ra cantava a canção que eu lhe tinha ensinado e Kiya mexia-se com os meus movimentos. José pensou em mim, quando a filha dele nasceu. Gera chamou à bebê dela Dina. Ra-mose casou e falou à mulher da mãe que o tinha mandado para longe, para que ele não morresse, mas vivesse. Os filhos de Ra-mose tiveram filhos até à centésima geração. Alguns deles vivem na terra em que eu nasci, outros, nos lugares frios e ventosos que Werenro descreveu à luz da fogueira das minhas mães. Não há qualquer magia na imortalidade.

No Egito, eu adorava o perfume do lótus. Uma flor floria no lago, à alvorada, enchendo todo o jardim com um almíscar azul tão poderoso que parecia que até os peixes e os patos desfaleceriam. À noite, a flor poderia murchar, mas o perfume perdurava. Mais e mais fraco, mas nunca inteiramente desaparecido. Mesmo muitos dias mais tarde, o lótus permanecia no jardim. Passavam-se meses, e uma abelha aterrava perto do lugar onde o lótus tinha florido, e a essência dele era mais uma vez libertada, momentânea, mas inegável.

O Egito adorava o lótus, porque este nunca morre. Passa-se o mesmo com as pessoas que são amadas. É assim que algo tão insignificante como um nome (duas sílabas, uma aguda, outra doce) pode invocar os inumeráveis sorrisos e lágrimas, suspiros e sonhos de uma vida humana. Se te sentares na margem de um rio, verás apenas uma pequena parte da superfície dele. E, no entanto, a água que está perante os teus olhos é prova de incognoscíveis profundidades. O meu coração enche-se de agradecimentos pela bondade que demonstraste para comigo, ao te sentares na margem deste rio, ao visitares os ecos do meu nome. Bênçãos sobre os teus olhos e sobre os teus filhos. Bênçãos sobre o chão que pisas. Onde quer que vás, eu irei contigo.

 

Fim

Formatação/conversão ePub: Relíquia

Você terminou A Tenda Vermelha

Anita Diamant

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