A Tenda Vermelha
Capítulo 7
Por vezes éramos chamadas para ajudar uma mãe em trabalho de parto que vivia à vista da cidade. Essas viagens eram a minha especial delícia. As muralhas de Siquém causavam-me mais admiração do que as montanhas enevoadas que inspiravam sacrifícios a Jacob e a Zilpa. As mentes que tinham concebido tão grandioso projeto faziam-me sentir sábia, e a força dos músculos que tinham construído a fortaleza faziam-me sentir forte. Fosse qual fosse o momento em que visse as muralhas, não conseguia afastar o olhar.
Desejava ir lá dentro, ver a praça do templo e as ruas estreitas e as casas cheias de gente. Eu sabia algumas coisas acerca da forma do lugar através de José, que tinha ido a Siquém com os nossos irmãos. José dizia que o palácio onde Hamor, o rei, vivia em esplendor com a sua esposa egípcia e quinze concubinas continha mais quartos do que o número de irmãos que eu tinha. José dizia que Hamor tinha mais criados do que as ovelhas que nós tínhamos. Não que um pastor poeirento como o meu irmão pudesse ter esperança de dar uma olhadela para dentro de uma casa nobre como aquela. Mesmo assim, eu gostava das inacreditáveis histórias dele. Até mentiras sobre o lugar me excitavam, e eu imaginava que conseguia cheirar o perfume dos Cortesãos na túnica do meu irmão, quando ele voltava do mercado. A minha mãe decidiu que queria ver o lugar por si própria.
Lea tinha a certeza de conseguir fazer melhor negócio com a nossa lã do que Ruben, que era demasiado generoso para lhe serem confiadas tais transações. Quase lhe beijei as mãos, quando ela me disse que a acompanharia para a ajudar. Ruben estabeleceu-nos num bom lugar logo à saída do portão, mas ficou a alguma distância de nós, quando a nossa mãe começou a chamar cada desconhecido que passava e a regatear como um mercador de camelos com todos os que se aproximavam. Eu pouco podia fazer senão olhar, o que fiz com felicidade. Aquele dia no portão oriental foi uma maravilha. Vi os meus primeiros malabaristas. Comi a minha primeira romã. Vi caras negras e caras castanhas, cabras com pêlo inacreditavelmente encaracolado, mulheres cobertas com vestes pretas e escravas que não usavam nada. Era como estar na estrada outra vez, mas sem os pés doridos. Vi um anão a coxear ao lado de um burro tão branco como a neve, e observei um alto sacerdote vestido com um cafetã a comprar azeitonas. E, depois, vi Tabea. Ou, pelo menos, pensei que a tinha visto. Uma rapariga da altura dela e da cor dela veio até à nossa banca. Envergava as vestes brancas do templo, tinha a cabeça rapada e ambas as orelhas furadas. Eu levantei-me e chamei por ela, mas ela deu uma volta nos calcanhares e afastou-se apressadamente. Sem pensar, e antes que a minha mãe me pudesse impedir, corri atrás dela, como se fosse uma criança e não uma jovem mulher. “Tabea”, gritei eu, “Prima!”, mas ela não me ouviu, ou se ouviu não parou, e as vestes brancas desapareceram por um vão de porta. Ruben apanhou-me.
- O que é que estavas a fazer? - perguntou ele.- Pensei que era a Tabea - disse, quase em lágrimas. - Mas estava errada.- Tabea? - perguntou ele.
- Uma prima da parte de Esaú. Não a conheces - disse eu. - Lamento ter-te feito vir atrás de mim. A mãe está zangada? Ele riu-se com a tolice da minha pergunta e eu ri também. Ela estava furiosa, e eu tive que me sentar virada para a muralha durante o resto da tarde. Mas, por essa altura, o meu coração tinha saído de mim, e eu satisfazia-me só de ouvir os sons do mercado, alimentando memórias da minha amiga perdida.
Depois do nosso regresso dessa viagem, chegou uma mensageira da cidade. Ela usava um vestido de linho e belíssimas sandálias e só queria falar com Raquel.
- Uma das mulheres da casa do rei está prestes a dar à luz - disse ela à minha tia. -A rainha de Hamor chama as parteiras da casa de Jacob para a ajudarem.
Lea não ficou satisfeita, quando eu comecei a preparar o meu estojo para a jornada. Foi ter com Raquel e perguntou-lhe:- Por que não levas a Inna contigo à rainha? Por que é que insistes em levar a Dina para longe de mim, precisamente quando há azeitonas para colher?
A minha tia encolheu os ombros.
- Sabes que a Inna já não consegue calcorrear o caminho até à cidade. Se quiseres que eu leve uma escrava, eu levo. Mas a rainha espera duas pessoas e não se mostrará disposta a comprar os teus lanifícios se eu entrar no palácio sem assistência habilitada.
Lea arregalou os olhos face às palavras sutis da sua irmã e eu baixei os olhos para o chão, para que a minha mãe não visse o quanto eu desejava ir. Sustive a respiração enquanto a minha mãe decidia. “Pah”, disse ela, levantando as mãos e indo-se embora. Pus as mãos com força em cima da boca para não me regozijar abertamente e Raquel fez-me um sorrisinho igual ao de uma criança que acaba de enganar os mais velhos. Acabamos os nossos preparativos e vestimo-nos com vestidos de festival, mas Raquel parou-me, antes de sairmos, e entrançou-me o cabelo em suaves cordas. “Ao estilo egípcio” murmurou ela. Bilhah e Zilpa despediram-se de nós com acenos de mão, mas Lea não se fazia ver em lado nenhum, enquanto nós nos dirigimos para a cidade com a mensageira.
Ao passar os portões da cidade, naquela primeira vez, fiquei amargamente decepcionada. As ruas eram menores e mais poeirentas do que eu imaginava. O cheiro era uma horrível mistura de fruta podre e dejetos humanos. Andávamos demasiado depressa para poder olhar para dentro dos escuros casebres, mas eu consegui ouvir e perceber pelo cheiro que as cabras viviam com os seus proprietários, e, por fim, percebi o desdém do meu pai por morar na cidade. Uma vez atravessado o poial do palácio, entramos num mundo diferente. As paredes eram suficientemente grossas para bloquear os sons e os cheiros da rua, e o pátio em que estávamos era espaçoso e bem iluminado.
Uma escrava nua aproximou-se e fez um gesto para que a seguíssemos por uma das portas para os aposentos das mulheres e, depois, para dentro do quarto em que aquela que iria ser mãe estava a arfar no chão. Tinha aproximadamente a minha idade e aparentava estar ainda no início do trabalho de parto. Raquel tocou na barriga dela, examinou-lhe o ventre e rolou os olhos para mim. Tínhamos sido chamadas para o mais simples dos partos. Não que qualquer uma de nós se importasse, a viagem ao palácio era aventura pela qual estávamos gratas.
Pouco tempo depois de termos conhecido a mãe, a rainha de Hamor entrou no quarto, curiosa de ver as parteiras criadas nos montes. A rainha, que se chamava Ranefer, usava um finíssimo vestido de linho coberto por uma túnica de contas azuis - a roupa mais elegante que eu jamais vira. Mesmo assim, a minha tia não foi ofuscada pela senhora. Velha como Raquel era, marcada pelo sol e pelo trabalho, agachada no chão com a mão entre as pernas de uma mulher em trabalho de parto, mesmo assim, a minha tia irradiava a sua luz dourada. O cabelo dela ainda era lustroso e os olhos negros faiscavam. As mulheres olharam-se uma à outra com aprovação e acenaram o seu cumprimento com a cabeça.
Ranefer subiu o seu vestido acima dos joelhos e agachou-se do outro lado de Ashnan, pois era esse o nome da jovem mãe que soprava e gemia, mais de medo do que de dor. As outras duas mulheres começaram a falar de óleos que poderiam ajudar a sair a cabeça do bebê e eu fiquei impressionada com o quanto a mulher nobre sabia acerca de partos e com a facilidade que Raquel tinha em conversar com uma rainha.
Ashnan, viemos a sabê-lo, era a filha da ama da rainha. A mulher que estava nos tijolos fora companheira de brincadeiras de infância do próprio filho da rainha e irmã de leite deste - exatamente como José e eu. A ama tinha morrido quando as crianças ainda eram bebês e Ranefer tinha sido terna para com a rapariga desde então e era-o ainda mais, agora que ela estava grávida de Hamor. Ashnan era a mais nova concubina dele.
Soubemos de tudo isto por Ranefer, que ficou atrás de Ashnan desde o meio-dia até quase ao pôr do Sol. A mãe era forte, todos os sinais eram bons, mas o parto foi lento, com fortes dores seguidas de longas pausas. Quando Ashnan adormeceu ao fim da tarde, exausta por causa do seu trabalho de parto, Ranefer levou Raquel para a sua própria câmara, para que esta se refrescasse, e eu fui deixada a tomar conta da mãe. Eu própria estava quase a dormir, quando ouvi uma voz de homem na antecâmara. Devia ter enviado palavra pela escrava, mas não pensei nisso. Estava aborrecida e com o corpo rígido de permanecer sentada durante tantas horas, portanto levantei-me e fui eu mesma. O nome dele era Shalem. Ele era um filho primogênito, O mais bonito e o mais sagaz dos filhos do rei, bem amado pelo povo de Siquém. Era dourado e belo como um pôr de Sol.
Baixei os olhos para o chão para não olhar fixamente para ele como se ele fosse uma cabra com duas cabeças ou qualquer outra coisa que desafiasse a ordem das coisas. E, no entanto, ele desafiava a Natureza. Era perfeito.
Por evitar olhar para cima, para a cara dele, reparei que tinha as unhas limpas e as mãos suaves. Os braços dele não estavam negros do sol, como os dos meus irmãos, mas também não tinham um ar doente. Só usava uma saia, e trazia o peito nu, sem pêlos, bem musculado.
Ele também estava a olhar para mim e eu tremi por causa das nódoas no meu avental. Até a minha túnica do festival parecia andrajosa e desinteressante, quando comparada com o brilhante tecido caseiro da simples peça de roupa que ele usava em casa. O meu cabelo estava despenteado e descoberto. Os meus pés estavam sujos. Comecei a ouvir o som de uma respiração, sem saber se era minha ou dele. Por fim, não me consegui conter e levantei os meus olhos para os dele. Era mais alto do que eu pela largura de uma mão. O cabelo dele era preto e brilhante, os dentes direitos e brancos. Os olhos eram dourados ou verdes ou castanhos. Na verdade, não olhei para lá o suficiente para discernir a cor deles, porque nunca tinha sido recebida com um tal olhar. A boca sorria educadamente, mas os olhos procuravam a resposta para uma pergunta que eu não conseguia perceber na totalidade. Os meus ouvidos zumbiam. Queria correr, e, no entanto, não queria acabar com aquela estranha agonia de confusão e necessidade que caíra sobre mim. Não disse nada.
Também ele estava atrapalhado. Tossiu para o punho, deu um olhar de relance para a porta onde Ashnan estava deitada, e olhou fixamente para mim. Por fim, gaguejou uma pergunta acerca da sua irmã de leite. Devo ter dito alguma coisa, embora não tenha memória das minhas palavras. Tudo aquilo de que me lembro é a dor que senti no momento em que nos conhecemos naquele pequeno e despido vestíbulo. Surpreende-me pensar em tudo o que aconteceu no espaço de uma ou duas respirações silenciosas. Ralhei comigo o tempo todo, pensando: És Infantil! Tonta! A mãe vai-se rir, quando eu lhe contar. Mas eu sabia que não iria contar isto à minha mãe. E esse pensamento fez-me corar. O motivo não foi o calor do meu sentimento por este Shalem, cujo nome eu ainda não sabia, cuja presença me tornava muda e fraca. O que fez com que as minhas faces adquirissem cor foi perceber que não iria falar do preenchimento e do fogo no meu coração a Lea. Ele viu-me a adquirir cor e o seu sorriso abriu-se mais. O meu pouco à-vontade desapareceu e eu retribui o sorriso. E foi como se o preço da noiva tivesse sido pago e o dote combinado. Era como se estivéssemos sozinhos na tenda nupcial. A pergunta tinha sido respondida. Aquilo parece-me cômico, agora, e se uma filha minha me confessasse tais coisas, eu rir-me-ia alto ou ralhar-lhe-ia. Mas, naquele dia, eu era uma rapariga pronta para um homem.
Enquanto sorríamos um para o outro, lembrei-me dos sons que vinham da tenda de Judá e percebi as minhas próprias noites febris. Shalem, que era alguns anos mais velho do que eu, reconheceu o seu próprio anseio e, no entanto, sentiu mais do que o simples estremecer do desejo, ou, pelo menos, foi isso que ele disse, depois de termos redimido a nossa promessa e de nos deitarmos nos braços um do outro. Disse que se tinha sentido assoberbado e tímido, na antecâmara dos aposentos das mulheres. Disse que tinha sido encantado, que tinha emudecido e que tinha ficado excitado. Tal como eu.
Acho que não dissemos mais nenhuma palavra, antes de Raquel e a rainha terem entrado no quarto e me terem puxado de volta para a câmara do parto. Não tive tempo para pensar em Shalem, então, pois as águas de Ashnan rebentaram e ela deu à luz um rapaz grande e saudável que mal lhe rasgou a carne.
- Vais estar curada dentro de uma semana - disse Raquel à rapariga, que soluçava de alívio por aquilo ter acabado.
Dormimos no palácio, naquela noite, embora eu quase não tenha fechado os olhos de excitação. Ir-me embora na manhã seguinte foi como morrer. Pensei que poderia nunca mais o ver. Pensei que talvez tivesse sido um erro da minha parte - a fantasia de uma rude rapariga do campo na presença de um príncipe. Mas o meu coração rebelou-se face a essa idéia e eu torci o pescoço a olhar para trás, quando partimos, pensando que ele talvez me viesse reclamar. Mas Shalem não apareceu e eu mordi os lábios para não chorar, à medida que subíamos os montes em direção às tendas do meu pai.
Ninguém percebeu! Pensei que elas iam todas vê-lo em mim. Pensei que Raquel iria adivinhar o meu segredo e que me extraísse a história enquanto caminhávamos para casa. Mas a minha tia só queria falar de Ranefer, que tinha elogiado as suas capacidades e lhe tinha dado um colar de contas de ônix.
Quando voltamos ao acampamento, a minha mãe abraçou-me sem sentir o novo calor do meu corpo e mandou-me para o olival, onde a colheita estava a decorrer afanosamente. Zilpa estava lá, a supervisionar a prensagem, e quase não respondeu à minha saudação. Até a Bilhah do coração perspicaz, preocupada com uma fornada de vasos de azeite que tinha rachado, não viu nada.
A falta de atenção delas foi uma revelação, para mim. Antes da minha viagem a Siquém, imaginava que as minhas mães eram capazes de ver os meus pensamentos e olhar diretamente para o meu coração. Mas agora descobria que estava separada, opaca, e que tinha sido arrastada para uma órbita de que elas não tinham conhecimento. Deliciei-me com a descoberta da minha solidão e protegi-a, mantendo-me ocupada no extremo do pomar, chegando a dormir com as esposas dos meus irmãos na espécie de tenda que tinha sido montada perto da orla da colheita. Senti-me feliz por estar sozinha, pensando só no meu amado, enumerando as qualidades dele, imaginando-lhe as virtudes. Olhava fixamente para as minhas mãos, interrogava-me sobre como seria tocar os ombros dele, os belos braços dele. Nos meus sonhos, vi a luz do Sol a brilhar na água, e acordei a sorrir. Passados três dias de ébria felicidade, as minhas esperanças começaram a azedar. Viria ele buscar-me? Seriam estas mãos calejadas demasiado ásperas para agradar a um príncipe? Roí as unhas e esqueci-me de comer. À noite, ficava deitada no meu cobertor, sem dormir, dando voltas e mais voltas ao nosso encontro, na minha cabeça. Não conseguia pensar em nada senão nele, e, no entanto, comecei a duvidar das minhas memórias. Talvez o sorriso dele tivesse sido de condescendência, em vez de reconhecimento. Talvez eu fosse uma tola.
Mas justamente quando comecei a temer trair-me às minhas mães num dilúvio de lágrimas, fui salva. O rei, em pessoa, mandou-me chamar. Hamor não era capaz de negar coisa alguma à sua jovem consorte, e quando Ashnan perguntou se a jovem e amável filha de Jacob poderia ser trazida para a distrair durante o período de reclusão, foi enviado um mensageiro. O homem do rei até trouxe uma escrava para tomar o meu lugar na colheita. A minha mãe achou o gesto atencioso e generoso.- Deixa-a ir - disse ela ao meu pai. Jacob não colocou objeções e enviou Levi para me acompanhar à porta dos aposentos das mulheres, no palácio de Hamor.
Ao acenar às minhas mães, reparei que Bilhah e Raquel me observavam. A minha pressa ou o meu prazer em responder ao pedido do rei tinham-nas alertado para alguma coisa, mas por essa altura já era demasiado tarde para perguntar. Elas responderam ao meu aceno enquanto descia para o vale, mas eu sentia as perguntas delas nas minhas costas. Um falcão descreveu círculos no alto sobre nós durante toda a descida para o vale. Levi disse que era um bom sinal, mas o mensageiro cuspiu no chão de cada vez que a sombra do pássaro se cruzou no nosso caminho. O meu irmão deixou-me na entrada para o palácio de Hamor, dizendo-me em voz alta e pomposa, para benefício do mensageiro, “que me comportasse como convém a uma das filhas de Jacob”. Uma vez que eu era a única filha sobrevivente de Jacob, sorri. Tinham-me dito que me comportasse como eu própria, e eu tinha todas as intenções de o fazer. Durante as três semanas seguintes conheci as filhas de Siquém. As esposas de todos os homens importantes vieram visitar Ashnan e o seu rapazinho, que não teria publicamente nome até atingir os três meses, de acordo com os costumes do Egito.
- Para que os demônios não saibam como encontrá-lo - murmurou Ashnan, temendo a presença do mal mesmo dentro da segurança dos confortáveis quartos dela.
Ashnan era uma rapariga um bocado tonta, com bons dentes e grandes seios, que voltaram à sua forma e beleza rapidamente, depois de o bebê ter sido entregue a uma ama. Nunca tinha ouvido falar de uma mulher saudável que tivesse entregue o seu filho ao peito de outra mulher, no meu mundo, uma mãe de leite só era usada quando a mãe estava morta ou a morrer. Mas que sabia eu das vidas das mulheres da realeza? De fato, quase tudo quanto via me espantava.
Não tinha grande vontade de ser a criada de Ashnan, pois era assim que ela me tratava. Trazia-lhe comida e dava-lha na boca. Ela queria massagens, por conseguinte aprendi essa arte com uma mulher velha da casa. Também queria tintas e falava ininterruptamente, enquanto me ensinava a aplicar kohl à volta dos meus próprios olhos e um pó verde nas pálpebras.
- Não só te faz parecer linda - disse Ashnan - como afasta os mosquitos. Ashnan também me ensinou o aborrecimento, que era uma terrível calamidade que acometia as mulheres nos palácios. Houve uma tarde em que verdadeiramente verti lágrimas, por causa da monotonia de ter que ficar sentada e quieta, enquanto Ashnan dormia. A única coisa que me ocupava o espírito era saber se Shalem estava a par da minha presença debaixo do teto de seu pai. Comecei a duvidar de que ele se lembrasse da assistente despenteada da parteira da sua irmã de leite. Tinha caído numa armadilha sem respostas, pois as paredes entre o mundo das mulheres e o mundo dos homens eram grossas e, no mundo do palácio, não havia nenhum trabalho que permitisse cruzar caminhos. Passados muitos dias, Ranefer veio ver como estava Ashnan e eu tentei arranjar coragem para falar com ela acerca do filho. Mas o mais que consegui foi gaguejar na presença dela e corar.- Tens saudades da tua mãe, criança? - perguntou ela amavelmente. Eu abanei a cabeça, mas tinha um ar tão infeliz, que a rainha pegou na minha mão e disse: Precisas de uma distração, penso eu. Uma rapariga como tu, que vive debaixo do sol, deve-se sentir como um pássaro numa gaiola, dentro destas paredes.
Eu sorri a Ranefer e ela apertou-me os dedos.
- Vais sair para o mercado, com a minha criada - disse ela. - Ajuda-a a escolher as melhores romãs e vê se consegues caçar uns bons figos para o meu filho. Shalem gosta de figos.
Na manhã seguinte saí do palácio para o bulício da cidade, onde olhei fixamente para tudo, para satisfação do meu coração. A criada, a meu lado, não parecia nada apressada, deixava-me vaguear para onde eu quisesse. Parei em quase todas as barracas e cobertores, maravilhada com a quantidade e a variedade de lâmpadas, frutos, produtos de tecelagem, queijos, tintas, ferramentas, gado, cestos, jóias, flautas, ervas, tudo.
Mas não se conseguia encontrar figos, naquele dia. Procuramo-los até eu quase estar tonta por causa do calor e da sede, mas a idéia de voltar ao palácio sem satisfazer o pedido da rainha, sem levar fruta ao meu amado, parecia-me detestável. Por fim, quando já tínhamos procurado em todos os cantos, não havia mais nada a fazer senão voltar para trás.
No momento em que decidimos voltar para o palácio, espiei a mais velha cara que jamais vira - uma vendedora de ervas cuja pele preta estava muito marcada, como um wadi seco. Fiquei parada ao pé do cobertor dela e ouvi-a falar de um qualquer linimento “bom para as dores de costas”. Mas quando me inclinei para tocar numa raiz que nunca tinha visto, ela agarrou-me no pulso e olhou fixamente para a minha cara.
- Ah, a menina quer qualquer coisa para o seu amado! Algo de mágico, que traga o seu jovem para a cama, para se ver livre da sua cansativa virgindade.
Eu puxei o meu braço para longe, horrorizada com o fato de a maga ter visto tão fundo no meu coração. Provavelmente, era só um discurso que ela fazia a cada rapariga que se aproximasse, mas a criada de Ranefer viu a minha confusão e riu. Eu fiquei mortificada e afastei-me rapidamente da velha.
Não vi Shalem aproximar-se, mas ele estava diante de mim, com a luz do Sol da tarde a encher o céu à volta da cabeça dele como uma coroa brilhante. Olhei para a cara dele e fiquei de boca aberta.- Estais bem, minha senhora? - perguntou ele, com a voz doce e aflautada de que eu me lembrava. Eu estava muda. Olhou para mim com a mesma fome que eu sentia e pôs-me a mão quente no cotovelo, para cavalheirescamente me acompanhar de volta ao palácio, com a mulher da rainha a seguir-nos, com um grande sorriso. A sua senhora estava certa, havia uma luz entre o príncipe e a neta de Mamre.
Ao contrário de mim, o filho de Ranefer não lograra esconder da sua mãe o que lhe ia no coração. Ranefer tinha desprezado as mulheres da cidade desde a sua chegada a Siquém, enquanto jovem noiva.- Estúpidas e vazias marcou-as ela a todas. Fiam mal,vestem-se como homens, e não sabem nada de ervas. Vão dar-te crianças estúpidas -dissera Ranefer ao filho. Arranjaremos melhor para ti. Ranefer ficara impressionada com o porte da parteira que vinha dos montes e também tinha gostado do ar da rapariga que carregava o saco dela. Tinha aprovado a minha altura e a força dos meus braços, a minha cor e o porte da minha cabeça. O fato de alguém tão jovem como eu já estar a caminho de ser parteira dizia-lhe que eu não era nenhuma tonta. Quando Raquel se foi refrescar com a rainha durante o trabalho de parto de Ashnan, Ranefer obteve informações sobre mim de forma discreta, que Raquel não suspeitou dos propósitos dela, enquanto era questionada acerca da minha idade, do estatuto da minha mãe, das minhas capacidades na lareira e no tear.
Quando Ranefer e Raquel me surpreenderam a mim e Shalem na antecâmara, aquela percebeu de imediato que a semente da sua idéia já tinha dado rebentos por si própria. E fez o que pôde para alimentar o seu crescimento.
Ranefer disse a Ashnan para me mandar chamar a casa de meu pai e disse ao filho que me fosse procurar ao mercado, naquela manhã.- Tenho medo que a rapariguinha dos montes se perca - disse ela a Shalem. - Sabes que a minha criada é suficientemente tonta para a deixar perder-se de vista. Mas talvez não te lembres de como é aquela que se chama Dina? - perguntou ela ao filho. - Era aquela rapariga de olhos escuros, com o cabelo encaracolado e as boas mãos, que veio com a parteira. Falaste com ela na antecâmara, quando Ashnan estava em trabalho de parto.
Shalem concordou em satisfazer o pedido da sua mãe tão rapidamente, que Ranefer teve problemas em conseguir abafar uma gargalhada. Quando o príncipe e eu voltamos ao palácio, encontramos o pátio deserto, de acordo com as instruções de Ranefer. A criada desapareceu. Ficamos ali em silêncio por apenas um momento, e, depois, Shalem puxou-me para a sombra de um canto e pôs as mãos dele nos meus ombros e cobriu a minha boca com a boca dele e pressionou o corpo dele contra o meu. E eu, que nunca tinha sido tocada ou beijada por qualquer homem, não tive medo. Ele não teve pressa, nem empurrou, e eu pus as minhas mãos nas costas dele e encostei-me com força ao seu peito e derreti-me nas mãos e na boca dele.
Quando os seus lábios encontraram o meu pescoço, eu gemi, e Shalem parou. Olhou para a minha cara, para descobrir o que eu queria dizer, e, vendo apenas sim, pegou na minha mão e conduziu-me por um corredor que não me era familiar para um quarto com o chão polido e uma cama que se apoiava em pernas esculpidas em forma de garras de falcão. Deitamo-nos sobre lã negra de cheiro doce e encontramo-nos um ao outro.
Não gritei, quando ele me tomou, porque, muito embora fosse jovem, o meu amante não teve pressa. Depois, quando Shalem se deitou, finalmente quieto, e descobriu que as minhas faces estavam molhadas, disse:
- Oh, pequena esposa. Não me deixes magoar-te outra vez.
Mas eu disse-lhe que as minhas lágrimas não tinham nada de dor nelas. Eram as primeiras lágrimas de felicidade da minha vida. Prova-as - disse eu ao meu amado, e ele achou que elas eram doces. Chorou, também. Ficamos agarrados um ao outro até que o desejo de Shalem foi renovado, e eu não sustive a respiração quando ele entrou em mim, e, por isso, comecei a sentir o que estava a acontecer ao meu corpo e a perceber os prazeres do amor.
Ninguém nos incomodou. A noite caiu, deixaram-nos comida à porta -fruta maravilhosa e vinho dourado, pão fresco e azeitonas, e bolos que pingavam mel. Comemos cada bocadinho como cães famintos. Depois de comermos, ele lavou-me, numa grande banheira de água quente que apareceu tão misteriosamente quanto a comida. Contou-me coisas sobre o Egito e sobre o grande rio, onde ele iria me levar para apanhar sol e nadar.
- Eu não sei nadar - disse eu a Shalem.
- Bom - respondeu ele. - Então posso ser eu a ensinar-te. Entranhou as mãos no meu cabelo até este ficar todo emaranhado em nós, e ter demorado longos momentos a libertá-lo.- Adoro estes grilhões - disse ele, vendo que não conseguia libertar-se, e ficou grande, e a nossa união foi requintadamente lenta. As mãos dele acariciaram-me a cara, e gritamos de prazer juntos. Quando não nos estivéssemos a beijar ou a unir-nos ou a dormir, Shalem e eu trocávamos histórias. Eu contei-lhe coisas sobre o meu pai e as minhas mães e descrevi os meus irmãos, um por um. Ficou deliciado com os nomes deles, e aprendeu cada um, pela ordem por que tinham nascido, e soube qual é que vinha do ventre de que mãe. Não tenho a certeza de que o meu próprio pai conseguisse fazer a lista deles tão bem. Falou-me do seu tutor, um aleijado com voz maravilhosa, que o ensinara a cantar e a ler. Shalem falou-me da devoção da mãe, e dos cinco meios-irmãos dele, que não tinham aprendido, nenhum deles, as artes do Egito. Contou-me a viagem dele à sacerdotisa, que o iniciara na arte do amor, em nome do Céu.
- Nunca vi a cara dela - disse ele. - Os ritos têm lugar na mais interior das câmaras, onde não há luz. Foi como um sonho fechado dentro de um sonho. - Contou-me das três vezes em que tinha dormido com uma escrava, que dera gargalhadinhas no abraço dele e que lhe pedira pagamento, depois.
Mas, no final do nosso segundo dia juntos, os nossos abraços já eram mais do que as experiências dele com outras mulheres.- Esqueci-as a todas - disse ele.
- Então eu perdôo-as todas - disse eu.
Fizemos amor uma e outra vez. Dormíamos e acordávamos com as mãos um no outro. Beijamo-nos por todo o lado e eu aprendi o sabor dos dedos dos pés do meu amante, o cheiro do sexo dele antes e depois de nos unirmos, a umidade do pescoço dele.
Estivemos juntos como noiva e noivo durante três dias, antes de eu me começar a perguntar porque é que não tinha sido levada para lavar os pés de Ashnan ou para massagear as costas dela. Também Shalem tinha esquecido as suas obrigatórias refeições noturnas com o pai. Mas Ranefer tomou cuidado para que nós não soubéssemos nada do mundo e para que o mundo nos desse paz. Mandou-nos comidas de eleição a todas as horas do dia e da noite, deu instruções aos criados para que enchessem a banheira de Shalem com água limpa e perfumada sempre que nós dormíamos.
Eu não tinha preocupações em relação ao futuro. Shalem disse que o amor que fazíamos selava o nosso casamento. Espicaçou-me com o preço de noiva que levaria ao meu pai: baldes de moedas de ouro, camelos carregados de lápis-lazúli e linho, uma caravana de escravos, um rebanho de ovelhas tão boas, que a lã delas nunca precisaria de ser lavada.
- Mereces o resgate de uma rainha - murmurou ele, enquanto vagueávamos nos nossos sonhos partilhados. - Vou construir-te um túmulo de inultrapassável beleza - disse Shalem. - O mundo nunca esquecerá o nome de Dina, que considerou o meu coração digno. Gostaria de ter sido tão audaz quanto ele com as minhas palavras. Não que eu fosse tímida. Shalem sabia do prazer que eu tinha nele, da minha gratidão por ele, da minha luxúria por ele. Eu dei-lhe tudo. Abandonei-me a ele e nele. Só que não conseguia encontrar uma voz para o dilúvio da minha felicidade.
Enquanto estava deitada no primeiro abraço de Shalem, Levi estava a sair tempestuosamente do palácio de Hamor, furioso por não lhe ter sido concedida a audiência com o rei que ele considerava ser-lhe devida. O meu irmão tinha sido enviado para ver quando é que eu seria mandada para casa, e, se lhe tivesse sido dada uma boa refeição e uma cama para passar a noite, a minha vida talvez pudesse ter tido uma história diferente.
Mais tarde, imaginei o que é que poderia ter acontecido se tivessem sido Ruben ou Judá a vir-me buscar. Hamor não estava ansioso por se encontrar com aquele filho de Jacob em particular, aquele que discutia e que o tinha acusado de vigarizar a família dele. Porque é que o rei teria de passar por outra ronda de acusações vindas do choramingão filho de um pastor?
Se tivesse sido Ruben, Hamor tê-lo-ia acolhido para jantar e para passar a noite. De fato, se tivesse sido qualquer um dos outros mesmo José -, teria tido um bom acolhimento. Hamor aprovava Jacob quase tanto quanto a rainha gostava das esposas de Jacob. O rei sabia que o meu pai cuidava dos seus rebanhos com tal habilidade, que rapidamente se tinha tornado o mais rico dos pastores do vale. A lã de Jacob era a mais suave, as esposas eram habilidosas e os filhos dele eram leais. Não causava rixas entre os vizinhos. Tinha enriquecido o vale, e Hamor estava desejoso de manter boas relações com ele. Casamentos entre as suas duas casas eram muito desejáveis, portanto Hamor ficou satisfeito, quando Ranefer lhe murmurou que o seu filho tinha preferido a filha de Jacob. De fato, assim que o rei soube que Shalem estava deitado comigo, começou a fazer as contas a um bom preço de noiva. Quando Hamor soube, através dos criados, que o jovem par se estava a dar bem, se adorava e estava ocupado a produzir o neto dele, as notícias excitaram-no tanto, que chamou Ashnan para a cama dele uma boa semana antes do fim previsto para a reclusão dela. Quando Ranefer os descobriu, quase não ralhou ao marido e à rapariga, tão grande era a sua alegria pela união do filho.
No quarto dia da nossa felicidade, Shalem levantou-se do nosso banho, vestiu-se e disse-me que ia falar com o pai.
- É tempo de Hamor combinar o preço da noiva. - Ele estava tão bonito, vestido com a túnica e as sandálias, que os meus olhos se encheram outra vez de lágrimas. - Nada de choro, nem mesmo de felicidade - disse ele, e levantou-me, ainda molhada da água, e beijou-me o nariz e a boca e pôs-me na cama e disse. - Espera por mim, amada. Não te vistas. Fica só aqui deitada, para que eu possa pensar em ti assim. Eu não me demoro.
Cobri a cara dele de beijos e disse-lhe que voltasse depressa. Estava eu a dormir, quando ele deslizou para o meu lado, a cheirar ao mundo que ficava para além da nossa cama, pela primeira vez em vários dias. Hamor partiu cedo, na manhã seguinte, para o acampamento de Jacob, com um carro carregado atrás dele. Não levou uma tenda nem criados para uma estada de uma noite. Não estava à espera de ficar ou de regatear. Como havia ele de imaginar que se levantassem quaisquer objeções às boas notícias e à generosidade do presente que levava?
As notícias acerca de Shalem e da filha de Jacob eram conhecidas em toda a cidade, mas ainda não tinham chegado às tendas de Jacob. Quando este soube que eu tinha sido tomada como esposa pelo príncipe da cidade, não disse nada nem deu resposta à oferta de Hamor. Ficou em pé como uma pedra, olhando fixamente para o homem de quem os seus filhos Levi e Simeão tinham falado com tanto veneno, um homem com tantos anos quanto ele, ao que parecia, mas ricamente vestido, suave no falar, e gordo. O rei acenou para uma carroça carregada de bens e seguida de ovelhas e cabras. Declarou-os parentes, que em breve partilhariam um neto.
Jacob cobriu os olhos e tapou a boca, para que Hamor não lhe pudesse ver o desconforto ou a surpresa. Assentiu com a cabeça enquanto Hamor elogiava a beleza da filha. Jacob não tinha pensado num casamento para a filha dele, embora a sua esposa tivesse começado a falar disso. Ela tinha idade, com certeza. Mas Jacob não se sentia bem com esta união, embora não conseguisse dizer porquê, e sentiu o pescoço a ficar tenso face às expectativas de Hamor de que ele fizesse o que lhe era dito. Procurou na sua cabeça uma maneira de adiar a decisão, uma maneira de voltar à mó de cima.
- Vou discutir isto com os meus filhos - disse ele ao rei, com mais força do que aquela que tencionava empregar.
Hamor ficou desagradado.
- A tua filha não é nenhuma virgem, Jacob - disse o rei para o pressionar.- E, no entanto, aqui está um preço de noiva digno de uma princesa virgem do Egito, mais do que o que o meu próprio pai deu pela minha esposa. Não que a tua filha não seja digna disto e de muito mais. Diz o que queres e será teu, pois o meu filho ama a rapariga. E ouvi dizer que ela também está disposta - e, aqui, Hamor fez um sorriso um pouco grande de mais para o gosto de Jacob. Ele não gostava de ouvir falar da sua filha tão rudemente, apesar de não conseguir recordar a imagem da cara de Dina. Tudo o que ele conseguia lembrar claramente era uma visão de cabelo desgrenhado e selvagem, quando ela perseguia José. Uma memória já muito antiga.
- Esperarei pelos meus filhos - disse Jacob, e virou as costas ao rei, como se o senhor de Siquém não fosse mais do que um pastor, e deixou às suas esposas o trabalho de acolher o rei com bebida e comida. Mas Hamor não viu razão para ficar e dirigiu-se de volta ao seu palácio, arrastando os seus presentes atrás de si.
Jacob chamou Lea e falou-lhe nas mais duras palavras que alguma vez tinha usado para com uma esposa.
- A tua filha já não é donzela - disse ele. - Foste insolente em esconder isto de mim. Já te excedeste antes, mas nunca para me envergonhar. E agora isto.
A minha mãe ficou tão surpreendida quanto o seu marido, e pressionou Jacob para que lhe desse noticias da filha.
- O príncipe de Siquém reclamou-a. O pai dele vem pagar todo o preço de noiva de uma virgem. E, assim, presumo que ela o fosse, até ter ido para dentro das muralhas daquele monte de excremento daquela cidade.- Jacob tornou-se amargo. - Ela é de Siquém agora, suponho eu, e não tem qualquer utilidade para mim.
Lea ficou furiosa.
- Vai procurar a tua esposa, a minha irmã - disse ela. - Foi Raquel que a levou lá. Raquel é aquela que tem olhos para a cidade, não eu, esposo. Pergunta à tua esposa. - E as palavras da minha mãe tresandavam a bílis. Pergunto-me se ela sequer pensou em mim, na altura. Se ela sofreu por saber se eu teria consentido ou se teria gritado, se o coração dela se abriu para descobrir se eu chorava ou se me regozijava. As palavras dela falavam apenas da perda de uma filha, ida para a cidade, onde residiria com mulheres estrangeiras, aprenderia os costumes delas, e esqueceria a mãe.
A seguir o meu pai mandou chamar Raquel.
- Esposo! - gritou Raquel, sorrindo enquanto se aproximava dele. - Ouvi dizer que há notícias felizes.
Mas Jacob não sorriu.
- Eu não gosto da cidade nem do rei - disse ele. - Mas gosto ainda menos de uma filha em quem não se pode confiar e de uma esposa mentirosa.- Não digas nada de que te possas vir a arrepender - respondeu Raquel. -A minha irmã vira-te contra mim e contra a tua única filha, que é amada pela tua mãe em Mamre. Este é um bom casamento. O rei diz que eles gostam um do outro, não diz? Esqueceste o teu próprio fogo, esposo? Envelheceste tanto que já não te lembras daquele anseio? A cara de Jacob não deixava trair nada. Ele olhou para Raquel durante muito tempo e ela correspondeu ao olhar fixo dele.- Dá-lhes a tua bênção, esposo - disse Raquel. - Fica com as carroças carregadas de prata e de linho e dá a Hamor o acolhimento que é devido a um rei. És tu o senhor, aqui. Não há necessidade de esperar. Mas Jacob ficou tenso, face à insistência de Raquel.- Quando os meus filhos voltarem das viagens deles, tomarei uma decisão.
Hamor não se lembrava de alguma vez ter sido tão maltratado. Mesmo assim, tinha uma disposição favorável em relação a Jacob.- Um bom aliado, penso eu - disse ele a Shalem, no dia seguinte. - Mas um inimigo a evitar. É um homem orgulhoso - disse Hamor. - Não gosta de perder o controle sobre o destino da sua família. É estranho que ele ainda não saiba como as crianças deixam de servir o seu pai, uma vez crescidas. Mesmo as filhas.
Mas Shalem pressionou o pai para que este voltasse assim que possível.- Eu amo a rapariga - disse ele.
Hamor sorriu.
- Não temas. A rapariga é tua. Nenhum pai a quereria de volta, tal como ela está agora. Volta para a tua esposa e deixa-me a mim preocupar-me do pai.
Mais uma semana passou e o meu esposo e eu começamos a amar-nos de formas mais sutis, com carícias e ternura. Os meus pés não tocavam no chão. Doía-me a cara de sorrir.
E, então, recebi um presente de casamento especial: Bilhah veio ver-me. A minha tia apareceu no portão do palácio a perguntar por Dina, a esposa de Shalem. Primeiro foi levada a Ranefer, que a encheu de perguntas acerca da hesitação de Jacob face à oferta do marido dela. A rainha fez perguntas sobre Lea e Raquel, também, e disse a Bilhah que não deixasse o palácio sem presentes para a família da sua nora. E, depois, foi a própria Ranefer que levou a minha tia até mim. O meu abraço levantou a minha pequena tia do chão, e eu cobri a cara escura dela com uma dúzia de beijos.
- Estás radiante - disse ela, quando deu um passo atrás, segurando as minhas mãos nas dela. - Estás feliz - concluiu ela, a sorrir. - É maravilhoso que tenhas encontrado tal felicidade. Vou dizer à Lea e ela vai ficar conciliada.
- A minha mãe está zangada? - perguntei, espantada.- Lea julga que Raquel te vendeu às mãos do mal. Ela é como o teu pai, na desconfiança em relação à cidade, e não está satisfeita com o fato de fazeres a tua cama entre muros. Sobretudo, acho que ela tem saudades tuas. Mas eu vou falar-lhe da luz nos teus olhos, do sorriso nos teus lábios e do teu porte adulto, agora que és uma esposa. Ele é bom para ti, sim? - perguntou Bilhah, dando-me a oportunidade de elogiar o meu Shalem.
Eu, a rebentar para contar a alguém os pormenores da minha felicidade, despejei tudo ao ouvido sedento de Bilhah. Ela bateu palmas, ao ouvir-me falar como uma noiva.
- Oh, amar e ser amado assim - suspirou ela.
Bilhah comeu comigo e deu uma olhadela a Shalem. Concordou que ele era muito bonito mas recusou-se a conhecê-lo.- Não posso falar com ele antes de o meu marido o fazer - objetou ela. -Mas já vi o suficiente para levar de volta um bom relatório acerca da nossa filha.
De manhã, abraçou-me e foi-se embora com Ruben, que a tinha trazido. Levou a palavra da minha felicidade para as tendas do meu pai, mas a voz dela foi abafada pelos gritos dos meus irmãos, que me chamaram meretriz. E Jacob não fez nada para calar as bocas sujas deles.
Simeão e Levi tinham voltado para o meu pai, ao fim de vários dias, derrotados num propósito secreto. Eles tinham estado em Ashkelon, à procura de comércio não só para as cabras e ovelhas, a lã e o azeite da família, mas também para falarem com mercadores de escravos, cujo negócio poderia trazer uma riqueza muito superior a qualquer colheita da ceifa ganha com esforço. Simeão e Levi queriam riqueza e o poder que esta lhes traria, mas não tinham esperança de os herdar de Jacob: era claro que seria Ruben a obter o direito de nascença do pai, e que a bênção iria para José, portanto, eles estavam determinados a esculpir a sua própria glória conforme pudessem.
Mas Levi e Simeão descobriram que os mercadores de escravos apenas queriam crianças. O negócio estava mau. Mercadores a mais tinham enfraquecido o mercado, e, então, só tinham a certeza de obter um bom preço por crianças saudáveis. Os meus irmãos não conseguiram obter nada de nada no mercado pelas duas criadas velhas que tinham dos dotes das suas esposas. Voltaram à casa contrariados e amargos. Quando souberam que Hamor tinha oferecido ao meu pai um preço de noiva de rei por mim, levantaram as suas vozes contra o casamento, sentindo que as suas posições seriam diminuídas por tal aliança. A casa de Jacob seria engolida pelas dinastias de Siquém, e conquanto Ruben pudesse aspirar a tornar-se um príncipe, eles e os seus filhos permaneceriam pastores, primos pobres, zés-ninguéns.- Seremos mais baixos do que Esaú - murmuraram eles um ao outro, e aos irmãos sobre os quais ainda tinham ascendente: Zebulon, Issacar e Naftali, do ventre de Lea, e Gad e Aser, de Zilpa. Quando Jacob chamou todos os filhos para a sua tenda, para ponderar a oferta de Hamor, Simeão levantou o punho e gritou:- Vingança! A minha irmã foi atacada por um cão egípcio! Ruben falou a favor de Shalem.
- A nossa irmã não gritou - disse ele -, nem o príncipe a põe de lado. Judá concordou.
- O montante do preço da noiva é um elogio à nossa irmã, ao nosso pai e a toda a casa de Jacob. Nós próprios nos tornaremos príncipes. Seríamos tolos se não ficássemos com os presentes que os deuses nos dão. Que espécie de idiota é aquele que confunde uma bênção com uma condenação?
Mas Levi rasgou a roupa, como se estivesse a chorar a minha morte, e Simeão lançou o aviso:
- Isto é uma armadilha para os filhos de Jacob. Se permitirmos este casamento, a vida luxuosa da cidade consumirá os meus filhos e os filhos dos meus irmãos. Este casamento não agrada ao deus do nosso pai- disse ele, desafiando Jacob a discordar.
As vozes foram alteando, os meus irmãos arregalavam os olhos uns aos outros por sobre as lâmpadas, mas Jacob não dava a conhecer os seus próprios pensamentos.
- O cão não circuncidado viola a minha irmã todos os dias - trovejou Simeão. - Então eu tenho de consentir nesta profanação da nossa única irmã, filha da minha própria mãe?
Com isto, José pôs uma cara céptica e disse, quase num sussurro, a Ruben:
- Se o meu irmão está tão preocupado com a forma do pênis do nosso cunhado, deixai o nosso pai exigir o prepúcio dele como preço de noiva. Na realidade, fazei com que todos os homens de Siquém se tornem iguais a nós. Deixai-os empilhar as suas membranas tão alto quanto a estaca da tenda do meu pai, para que os filhos deles e os nossos mijem da mesma maneira e se excitem da mesma maneira, e para que ninguém seja capaz de nos diferenciar. E, assim, a tribo de Jacob crescerá não apenas nas gerações que virão, mas amanhã mesmo.
Jacob pegou nas palavras de José, que tinham sido ditas apenas para fazer troça dos irmãos que o torturavam desde a infância. Mas Jacob não ouviu acrimônia nas palavras do filho. Ele disse:- Abraão pegou na faca para aqueles da sua casa que não eram da sua aliança. Se os homens de Siquém acordarem em fazer isto, ninguém poderá dizer que a nossa filha foi ferida. Se os homens da cidade fizerem tal sacrifício ao deus dos meus pais, seremos lembrados como feitores de almas, como coletores de homens. Como as estrelas nos céus, tal como foi dito pelo nosso pai Abraão. Como as areias do mar, foi predito pela minha mãe Rebeca. E, agora, farei acontecer. Farei o que José diz, pois ele tem o meu coração. - Jacob falou com tal paixão, que era escusado fazer mais discurso.
A cara de Levi contorceu-se de raiva face à decisão de Jacob, mas Simeão pôs uma mão no braço do irmão e puxou-o para a noite, para longe da luz das lâmpadas e dos ouvidos dos irmãos.
Quando Hamor viajou até à tenda de Jacob pela segunda vez, Shalem acompanhou-o. Determinado a não voltar à cidade sem a bênção do meu pai, levou dois burros carregados de ainda mais presentes. O meu amado estava confiante, quando partiu, mas quando chegou à tenda do meu pai, o grupo do rei foi mais uma vez recebido por braços cruzados e nem sequer uma concha de água lhes ofereceram antes de os homens começarem a discutir as condições.
O meu pai falou primeiro e sem cerimônia:
- Vindes pela minha filha - disse ele. - Concordaremos com o casamento, mas duvido que as nossas condições vos convenham, pois elas são severas.
Hamor respondeu, com a sua estima anterior pelo homem destruída pela insultuosa falta de hospitalidade.
- O meu filho ama a rapariga - disse o rei. - Ele fará qualquer coisa por ela e eu farei o que o meu filho desejar. Diz quais são as tuas condições, Jacob. Siquém cumpri-las-á, para que os teus filhos e os meus filhos tragam novas gerações à terra.
Mas quando Jacob disse qual era o preço da sua filha, Hamor empalideceu.
- Que forma de barbaridade é esta? - perguntou ele. - Quem é que pensas que és, pastor, para exigires o sangue da virilidade do meu filho, e o meu, e o dos meus parentes e súbditos? Estás louco por apanhares demasiado sol, por teres passado demasiados anos no deserto. Queres a rapariga de volta tal como ela está? Deves pensar muito mal desta filha, para brincares desta maneira com o futuro dela. Mas Shalem deu um passo em frente, e pôs a mão no braço do pai.- Eu concordo com as exigências - disse ele na cara de Jacob. - Aqui e agora, se o quiseres. Honrarei o costume da família da minha esposa e ordenarei aos meus escravos e às famílias deles que me sigam. Sei que o meu pai fala por temer por mim e por lealdade para com os seus homens, que iriam sofrer. Mas para mim não há questão, eu ouço e obedeço.
Hamor teria discutido contra a oferta do filho, e Levi e Simeão estavam preparados para lhe cuspir na cara dele. O ar cheirava a raios, as adagas estavam a pontos de ser desembainhadas, se Bilhah não tivesse aparecido, com água e vinho. Seguiram-se mulheres com pão e azeite, e Jacob assentiu com a cabeça para que elas servissem. Comeram alguns bocados em silêncio.
As condições foram acordadas naquela noite. Jacob aceitou quatro burros carregados como preço de noiva. Shalem e Hamor iriam à faca três dias depois, tal como os homens de Siquém, tanto nobres como escravos. Todos os homens saudáveis que se encontrassem dentro das muralhas da cidade na manhã desse dia, também aceitariam a marca de Jacob sobre eles, e Hamor prometeu que cada filho nascido dentro da cidade, daquele tempo em diante, seria circuncidado no oitavo dia, tal como era costume entre os filhos de Abraão. Hamor também afiançou que o deus de Jacob seria adorado no templo dele, e foi tão longe quanto chamar-lhe “Elohim”, o deus dos muitos deuses. O meu pai fez-me um bom dote. Dezoito ovelhas e dezoito cabras, todas as minhas roupas e jóias, o meu fuso e a minha pedra de moer, dez vasos de azeite novo, seis grandes rolos de lã. Jacob concordou em permitir casamentos entre os filhos dele e os de Siquém, daquele tempo em diante.
Hamor pôs a mão dele debaixo da coxa de Jacob, e Jacob também tocou no rei, e o meu noivado foi selado sem um sorriso e sem satisfação. Naquela mesma noite, Shalem esgueirou-se da tenda do meu pai de volta para a nossa cama, com as notícias.
- És uma mulher casada, agora, e não apenas uma rapariga estragada -sussurrou ele, acordando-me antes da primeira luz da manhã. Eu beijei-o, e afastei-o.
- Muito bem, então agora que estou casada e que não me podes pôr de lado, posso dizer-te que a minha cabeça me dói e que não posso receber o meu senhor, neste momento - disse eu, pondo o meu vestido em volta dos ombros e fingindo um grande bocejo enquanto, simultaneamente, fazia deslizar as minhas mãos por entre as pernas do meu marido. -Sabeis, meu senhor, que as mulheres só se submetem às carícias dos seus esposos, não gostam do uso bruto dos seus corpos. Shalem riu e puxou-me para baixo, para a cama, e fizemos amor com grande ternura, naquela manhã. Foi uma reunião, depois daquela que tinha sido a nossa mais longa separação desde o dia em que ele me encontrara no mercado e me levara para a cama dele, que nós tínhamos feito nossa.
Dormimos até tarde, e só depois de termos comido é que ele me contou a exigência do meu pai. Fiquei gelada, o meu estômago deu uma volta. Na minha cabeça, vi o meu amado em agonias de dor, via a faca a cortar demasiado profundamente, a ferida a inflamar, e Shalem a morrer nos meus braços. Desatei a chorar, como uma criancinha. Shalem tornou tudo leve.
- Não é nada - disse ele. - Uma ferida superficial. E ouvi dizer que, depois, o meu prazer em ti será ainda maior do que aquele que tenho agora. Portanto, prepara-te, mulher. Estarei em cima de ti noite e dia. Mas eu não sorri. Tremi com um frio que me entrou nos ossos e não queria sair.
Ranefer tentou sossegar-me, também. Ela não estava desagradada com o acordo que o marido tinha feito.
- No Egito - disse ela -, levam os rapazes para a circuncisão quando as vozes deles mudam. É uma ocasião relativamente alegre, perseguem os rapazes e apanham-nos e, depois, eles são mimados e dão-lhes a comer todas as coisas doces e saborosas que eles pedem. Não te preocupes, eles sobrevivem todos.
- Faremos o meu guarda executar o ato - disse ela. - Nehesi já despachou muito prepúcio. Eu posso tomar conta da dor, e tu ajudar-me-ás, pequena parteira. - Não parava de dizer quão fácil seria, e, depois, disse num sussurro, com um conhecedor olhar de soslaio:- O membro masculino não te parece mais atraente sem o seu capuz? Mas eu não encontrava nada de divertido no teste de Shalem, e não correspondi ao sorriso da minha sogra.
Os três dias passaram. Eu agarrei-me ao meu marido como uma coisa louca, naquelas noites, e as lágrimas corriam-me pela cara abaixo enquanto alcançava prazeres maiores do que os anteriores. O meu marido lambeu a água das minhas faces e fez a sua língua salgada correr todo o comprimento do meu corpo.
- Vou-te chatear com isto, quando o nosso primeiro filho nascer -murmurou ele, enquanto eu estava deitada no peito dele, ainda a tremer de frio.
A hora designada chegou. Shalem deixou-me ao alvorecer. Eu fiquei na cama, a fazer de conta que dormia, a vê-lo lavar-se e vestir-se, mantendo os olhos fechados. Ele baixou-se para me beijar, mas eu não virei a cara para cima, para ir ao encontro dos lábios dele.
Fiquei ali deitada, sozinha, a contar o meu ódio. Odiava o meu pai por pedir um tão terrível preço. Odiava o meu marido e o pai dele, por concordarem em pagá-lo. Odiava a minha sogra, por aplanar o caminho. Odiava-me a mim mesma, acima de tudo, por ser a causa de tudo aquilo. Fiquei deitada na cama, encolhida debaixo dos cobertores, a tremer de raiva e de medo e de inominável pressentimento, até que o trouxeram de volta para mim.
Aquilo foi feito na antecâmara do rei. Shalem foi o primeiro, e, depois, foi o pai dele, Hamor. Nehesi disse que nem rei nem príncipe gritaram. Seguiu-se o pequeno filho de Ashnan, e ele gritou, mas o pequenino não sofreu durante muito tempo, pois tinha um seio cheio para o consolar. Os homens da casa e as poucas pobres almas que não tinham desaparecido para o campo, para fora das muralhas, não tiveram tanta sorte. Sentiram a faca com agudeza, e muitos gritaram como se estivessem a ser assassinados. Os gritos deles perfuraram o ar durante toda a manhã, mas cessaram ao meio-dia.
Fez-se um dia impiedosamente quente. Não havia nenhuma brisa ou nuvem e mesmo dentro das paredes grossas do palácio o ar estava úmido e pesado. Os homens que recuperavam, suando as roupas e ensopavam as camas onde dormiam.
Hamor, que não produzira qualquer som ao ser cortado, desmaiou de dor e, quando acordou, pôs uma faca entre os dentes, para não gritar. O meu Shalem também sofreu, embora não tanto. Ele era mais novo e os ungüentos pareceram aliviá-lo, mas, também para ele, o único remédio completo foi o sono. Dei-lhe a beber uma poção soporífera e, quando acordava, estava com a cabeça pesada e cansado, de boca aberta e confuso. Banhei a cara do meu amado, enquanto ele dormia o seu sono drogado, e lavei-lhe as costas suadas com o mais suave toque que consegui. Fiz o meu melhor para não chorar, para que a minha cara estivesse fresca quando ele acordasse, mas, à medida que o dia foi passando, as lágrimas vieram, apesar dos meus esforços. Ao cair da noite, estava exausta, e dormi ao lado do meu marido embrulhada em cobertores, contra os ventos gelados dos meus medos, ao mesmo tempo que Shalem dormia nu sob o calor.
Durante a noite, acordei uma vez, sentindo Shalem a acariciar-me a face. Quando ele viu os meus olhos a abrir, conseguiu fazer um sorriso dolorido e disse:
- Em breve isto não será nada mais do que um sonho, e os nossos abraços serão mais doces do que nunca. - Os olhos dele voltaram a fechar-se, e eu ouvi-o ressonar pela primeira vez. Enquanto voltava ao sono, pensei em como iria gozá-lo por causa do barulho que ele fazia no sono - como um cão velho ao sol. Até hoje, não sei se Shalem me disse aquelas palavras ou se foi um sonho que eu construí para me reconfortar. O resto, sei que é verdade.
Primeiro, houve o som de uma mulher a gritar. Algo de terrível deve ter acontecido àquela pobre alma, pensei eu, tentando afastar-me do grito penetrante, esganiçado, agudo, demasiado horrível para o mundo real, o barulho de um pesadelo.
O grito louco, aterrorizado, vinha de muito longe, mas a angústia que ele transmitia era tão insistente e perturbadora, que eu não conseguia afastá-lo, e procurei despertar do meu sono pesado e escapar aos gritos. Eles tornaram-se mais e mais assustadores, até que percebi que os meus olhos estavam abertos e que a alma atormentada que eu lamentava não era sonhada e não estava distante. Os gritos eram os meus próprios gritos, o aterrador som estava a sair da minha boca torcida. Estava coberta de sangue. Os meus braços estavam cobertos com o sangue grosso e quente que corria da garganta de Shalem, e que fazia o seu percurso, como um rio, cama abaixo, para o chão. O sangue dele cobria as minhas faces e picava nos meus olhos e salgava os meus lábios. O sangue dele ensopava os cobertores e queimava os meus seios, corria pelas minhas pernas abaixo, cobria os meus dedos dos pés. Eu estava a afogar-me no sangue do meu amante. Estava a gritar suficientemente alto para invocar os mortos e, no entanto, ninguém parecia ouvir. Nenhum guarda irrompeu pela porta. Nenhum criado entrou apressadamente. Parecia que eu era a última pessoa viva no mundo.
Não ouvi passos e não tive qualquer aviso antes que braços fortes me agarrassem, desprendendo-me do meu amado. Levaram-me da cama com sangue a desenhar um rasto atrás de mim, que gritava para o negrume da noite. Foi Simeão que me levantou, e Levi que me tapou a boca, e foram os dois a amarrarem-me de pés e mãos, como a uma cabra sacrificial, carregaram-me nas costas do burro e enviaram-me para a tenda do meu pai, antes que eu pudesse dar o alarme a qualquer pobre alma que ainda estivesse viva na cidade condenada. As facas dos meus irmãos trabalharam até que a alvorada revelou a abominação praticada pelos filhos de Jacob. Assassinaram todos os homens que encontraram vivos.
Mas eu não sabia nada disso. Só sabia que queria morrer. Nada senão a morte poderia pôr fim ao meu terror. Nada senão a morte poderia dar-me paz face à visão de Shalem esfaqueado, sangrante, morto no seu sono estremunhado. Se alguém não tivesse desapertado a mordaça quando vomitei, ter-se-ia cumprido o meu desejo. Durante todo o caminho de volta pelo monte acima, gritei em silêncio. Oh deuses. Oh céu. Oh mãe. Porque é que ainda vivo?