A Vida que Ninguém Vê

Eliane Brum · Capítulo 11 de 30

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A Vida que Ninguém Vê

O conde decaído

 

Ele está lá. Quase ninguém vê, m as está. A m aior lição sobre a relatividade do poder. A fugacidade da fam a. A efem eridade da glória. Ele, o Conde de Porto Alegre. Manoel Marques de Souza. Terceiro varão de um a dinastia de centauros de espada em riste. Parido na guerra, pela guerra. Engatinhando nas poças de sangue dos cam pos de batalha, a pele do rosto feita couro pelos ventos do pam pa. Aos 13 anos despedindo-se da casa da m ãe para se entreverar com os castelhanos. Aristocrata da guerra, virou barão, visconde e por fim um conde, os dois últim os na Guerra do Paraguai. Morreu em bebido em dores e feitos, a m ortalha bordada de galões e m edalhas. E era tão im portante, m as tão im portante, o nom e estendido com o um pelego de brios sobre as coxilhas do Rio Grande, que m ereceu a prim eiríssim a estátua cravada na m ui leal e valorosa Porto Alegre. Título, aliás, que ele conquistou para a capital ao arrancar a cidade dos arcabuzes farrapos.

O ano era 1885. O conde eternizado em m árm ore. A princesa Isabel em distintíssim a pessoa veio instalar o herói na praça que levava o nom e de seu pai, dom Pedro II. E com tal entusiasm o que pode m uito bem ter plantado um a pulga no penteado da condessa viúva: “As nobilíssim as condecorações que lhe ornavam o m ásculo peito, com a ponta de sua fulgurante espada...” E por aí foi o real discurso.

Pois então. Não foram 15 segundos de fam a com o uns e outros e, m esm o assim , onde acabou? Num insignificante triângulo entre a Duque de Caxias e a Riachuelo, batizado com seu pom poso nom e. Sei lá quem é aquele velho, irrita-se o m endigo do lugar. Quem diria. O conde! O conde! Reduzido àquele velho... Ele, que partia para a batalha com o se fosse para um salão de baile. Marchava para o com bate de luvas brancas. Agora com a sobrecasaca de guerra coberta de lim o, a m esm a que a lenda conta ter as abas 47 vezes perfuradas pelas balas inim igas na segunda batalha de Tuiuti. O conde, acostum ado ao cheiro do sangue derram ado pela pátria, condenado agora ao fedor do m ij o. Porque, sim , urinam na estátua do conde. Cheiro tão forte e tão constante que, m esm o que lhe reste ainda algum adm irador, não haveria com o chegar perto. O conde cheirando com o um zorrilho. Que lição para uns e outros, para tantos.

Durou exatos 27 anos a sua glória em m árm ore. Durou até m uito tem po, dadas as circunstâncias. Porque a República proclam ada em 1889 lançou uns à porta da frente e outros ao curral do poder. Nada m uito radical, que eram todos cavalheiros e cavalheiros queriam se m anter. Fundam ental m esm o era que os peões continuassem onde sem pre estiveram , em buchando os canhões de uns e tam bém de outros. O fato é que, se dom Pedro II perdeu o posto na vida, pareceu j usto que tam bém o perdesse na praça de todos os poderes, que desde então virou Marechal Deodoro. E se o im perador perdeu o lugar, o que sobraria então para o conde. Foi quando sua estátua teve de ceder a vaga para a do republicano Júlio de Castilhos. Rum ou para a praça que era a do Portão – m as com o o portão não tinha boca nem correligionários para reclam ar sua sorte, j á tinha sido rebatizada antes com o General Marques e, naquela ocasião, Conde de Porto Alegre.

Não foi em sacrossanta paz que se passou. Afinal, a condessa ainda era viva e os antigos donos do poder não eram gato m orto para serem chutados com tanta sem -cerim ônia. A Federação, j ornal do partido republicano, disfarçou o que pôde para agradar aos inim igos de ocasião, m as não de privilégios. Foi assim que noticiou o traslado da estátua ocorrido na tarde de 12 de outubro de 1912: “Foi um a verdadeira festa cívica a solem nidade com que se realisou o acto official da inauguração da estatua do invicto general, conde de Porto Alegre... O povo affluiu em grande m assa ao local da inauguração, sendo num erosa tam bém a concurrencia de fam ilias. Os gy m nasios traj avam uniform e kaki, de polainas e luvas brancas...” Achy lles Porto Alegre “recitou soneto de sua lavra”, que term inava em trágico estilo: “Basta! Basta! Silencio! Elle era a gloria.” Ahã!

Nem na prim eira página! Publicaram essa pérola da diplom acia na página dois. A prim eira era ocupada por um a digressão deveras curiosa: “O recente proj ecto do divorcio que dorm e sob a classica pedra tum ular despertou um a propaganda adversa, feita por m eio de conferencias, no centro cattolico desta capital”. E discorria sobre um a tese que com provava o aum ento dos “hediondos crim es de infanticidios” em todos os países que ousaram adotar tal heresia. Enveredando logo em seguida para a notícia de que o grande tenor Caruso havia sido coroado com um par de chifres pela “graciosa soprano” Ada Giacchetti, fato nom inado com o “um episodio profano entre artistas de alto cotturno, um desaguisado entre diva e divo”.

Pobre conde decaído, soçobrando entre anúncios de “pilulas orientaes” para aform osear os seios e Uroform ina Giffoni para “gonorrheas”. Num a edição que ainda exibia um acirradíssim o match de Foot Ball entre o Fussball Club Porto Alegre e o Club Recreio Juvenil, onde “sucederam -se de m om ento a m om ento as cargas cerradas ao goal”. Tsc, tsc.

A Federação ainda teve o desplante de registrar que a “estatua ficou collocada num lugar de bastante destaque, fazendo frente para o ponto m ais transitado da praça”. No que foi raivosam ente contestada em crônica de Mário Totta nas páginas do concorrente Correio do Povo: “E correram -te da praça... O que os inim igos da tua pátria nunca puderam fazer, (...) os teus patrícios fizeram -te ainda ontem – desaloj aram -te. Vivo tu, ninguém o faria; m orto correram -te.”

Assim é a vida, com o tam bém a m orte, e é bom que alguns m uitos aprendam com o Conde de Porto Alegre. Porque ainda, ainda não era tudo. Por volta de 1970 viraram o conde. Assim , com o se faz com um velho entrevado. Se m ais um a vez com eteram esse desrespeito, não parece haver registro. O certo é que o olhar altaneiro, longínquo, que costum ava pousar sobre os cam pos de batalha antes de esm agar o inim igo, está hoj e condenado à tediosa visão de um a loj a de artigos de cam a, m esa e banho. Até a espada, que ele trazia cintilante, para que os inim igos nela pudessem m irar-se na hora da m orte, se quebrou em um a dessas andanças. O conde – quanta ironia! – ficou sem espada, sem poder, sem fam a e sem glória. Com o o m ais infeliz, o m ais m iserável de seus soldados.

No fim tudo é pó. Esquecim ento. E o inconfundível cheiro de urina. E se aconteceu com o conde – o conde! – pode acontecer com qualquer um . O Conde de Porto Alegre reduzido a um a vida que ninguém vê num canto da cidade.

[17 de abril de 1999]