A Vida que Ninguém Vê

Eliane Brum · Capítulo 20 de 30

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A Vida que Ninguém Vê

Sinal fechado para Camila

 

– Tio lindo, tia linda do m eu coração. Eu pergunto a você se não tem um trocadinho ou um a fichinha pra essa pobre garotinha...

Quase com certeza você ouviu esse hino em algum cruzam ento de Porto Alegre. Debaixo de um sinal verm elho, o som entrando pelo vidro fechado, am eaçador com o um Alien. O som entrando pela j anela que você cerrou para se defender do ataque à sua consciência. Você rezando para que o sinal m ude de cor, fique verde, não de esperança, m as verde de fuga. Sinal livre para escapar do rosto da m enina grudado na j anela. Suj ando seu patrim ônio. Obrigando-o a tom ar conhecim ento da m iséria dela. Você, que paga seus im postos em dia, colabora com a cam panha do agasalho, que até é um cara bacana. Subitam ente transform ado em réu no tribunal do sinal fechado por um rosto ranhento de criança.

Você, quase com certeza, ouviu esse hino. Pois saiba. A m enina que o com pôs m orreu no dom ingo. Nunca m ais ela assom brará a sua j anela. A m enina se cham ava Cam ila. Cam ila Velasquez Xavier. Tinha dez anos. Mas os dez anos dela equivalem a cem dos seus. Cam ila viveu m uito, até. No bairro onde ela nasceu, o Bom Jesus, 17 com o ela m orreram antes de com pletar um ano em 1997. Cam ila nasceu na Fátim a, um a vila da Grande Bom Jesus. Vila, m odo de dizer. Becos e m ais becos de barracos am ontoados sobre o cim ento. Lá, o controle da população é feito ao natural. Só em j aneiro, j á tom baram quatro. Assassinatos citados em notinhas de canto de página.

Cam ila nasceu na Fátim a, num barraco de um a peça. Quando chovia, havia tanta água fora quanto dentro. Em dez anos a fam ília progrediu. Conseguiu um barraco de duas peças. Cam ila dorm ia com os quatro irm ãos num sofá esburacado ou no chão de tábuas podres porque não havia lugar para todos. Pai e m ãe desem pregados, o pai um hom em triste, de olhos inj etados, que descia o braço sobre a m ãe sem pre que bebia além da conta.

Aos seis anos Cam ila foi enviada aos sinais para ganhar a vida da fam ília. Logo descobriu que a concorrência era enorm e. Que as j anelas dos carros eram a versão m oderna das m uralhas m edievais. Cam ila com eçou a em belezar sua tragédia. Inventou versinhos que venciam fossos e arriavam pontes levadiças, arrancando um sorriso perplexo dos m otoristas. Eu não posso ficar sem você, m eu trocadinho. Essa tia, esse tio queridinho vai m e dar um trocadinho. Cam ila conquistou a sua diferença nos cruzam entos da cidade. Seus hinos se espalharam pelas sinaleiras e, m esm o depois de sua m orte, seguem ecoando pela boca de outras Cam ilas.

Aos seis anos, flagrada na rua, Cam ila entrou pela prim eira vez no prédio sem cor da Febem . Entraria ainda outras duas vezes. Na sexta-feira, 15 de j aneiro, ela e outras cinco m eninas j ogaram suas trouxinhas pela j anela do prédio. Um ursinho Puff de segunda m ão e algum as cam isetas com punham o espólio coletivo. Quando a porta se abriu para brincarem na pracinha – um a ficção de arm ações de ferro que há m uito perdeu os balanços e as gangorras, um a ficção com o a infância de todas elas – iniciaram sua j ornada rum o à liberdade. Que passou na form a de um ônibus lotado para o centro de Porto Alegre.

No dia seguinte, a direção da casa inform ou ao plantão do Conselho Tutelar. Que anotou. Estava cum prido o trâm ite burocrático. Por todo o final de sem ana, Cam ila e suas cúm plices de desam paro vagaram pelas pontes da cidade sem que ninguém as buscasse. Crianças sob a tutela do Estado vagando ao léu sem que ninguém chorasse a sua falta. Fazia calor no dom ingo, todo m undo lem bra. Um calor tão pesado que quase se podia tocá-lo.

Às 14h, de calcinha e cam iseta, Cam ila e duas das fugitivas m ergulharam no Guaíba na altura do parque Marinha do Brasil. Cam ila não sabia nadar. Debatendo-se com o fez durante toda a vida, Cam ila, a senhora dos cruzam entos, subm ergiu.

Às 8h de segunda-feira, a notícia da fuga e da m orte de Cam ila despertou a fam ília. Vai ter que esperar porque ainda não abrim os a m enina, inform ou o funcionário do Departam ento Médico Legal à m ãe quando ela foi recolher o corpo da filha. Cam ila foi enterrada na m anhã de terça-feira, no caixão branco dos inocentes. A Febem pagou o enterro, pagou até um a capela funerária com ar-condicionado. Que lugar m ais lindo, repetiam os fam iliares, assom brados com o espaço tão grande e tão verde da m orte. Acom panhada por um séquito de parentes de rostos derrotados, Cam ila foi enterrada no Jardim da Paz. No cortej o, um único terno. Puído e m anchado, envergado por um hom em em quem o sofrim ento abriu sulcos no rosto. Um hom em tentando agarrar a dignidade que escapava com o o cós da calça m aior do que ele. No cortej o, nenhum a flor para Cam ila.

Talvez você lem bre de Cam ila. Talvez não. Sua m arca registrada, além da cantoria dos cruzam entos, eram os dedos indicador e m édio eternam ente na boca. Sua im agem desvalida não voltará a assom brar as j anelas sob os sinais. Cam ila m orreu. Mas os versinhos de Cam ila cruzaram o ar e sem earam as esquinas. Não se iluda. Você não vai escapar. Há um exército de Cam ilas pela cidade. Haverá sem pre um a delas tentando arrom bar o vidro do carro com a urgência de sua fom e. Cam ila m orreu. Você, e eu tam bém , som os cúm plices de sua m orte. Nós todos a assassinam os. A questão é saber quantas Cam ilas precisarão m orrer antes de baixarm os o vidro de nossa inconsciência. Você sabe? E agora, tio lindo, tia linda, o que você vai fazer?

 

[23 de janeiro de 1999]