A Vida que Ninguém Vê
Posfácio
Humanos anônimos
Essa gente estranha, os repórteres, que vive de escrever sobre a vida dos outros, tem m uita dificuldade para falar da própria. Com o sem pre tive curiosidade em conhecer quem são as pessoas por trás das m atérias que leio nos j ornais e nas revistas, quando m e convidaram para escrever este texto sobre o novo livro da Eliane Brum , não perdi a chance: solicitei logo um a entrevista com a autora.
Assim , em bora tenha trabalhado com ela por um ano e pouco na m esm a redação, vizinhos de m esa na revista Época, não tinha a m enor ideia de quem era fora do trabalho aquela figura aparentem ente frágil, dona de um texto original e vigoroso, um a incansável caçadora de histórias que se especializou em contar a vida de hum anos anônim os.
Vam os com eçar do com eço, propus-lhe, ao nos encontrarm os na barulhenta varanda de um café paulistano bem no m eio da happy hour, o que deixou Eliane m ais envergonhada do que de costum e, sorrindo m eio de lado, pois o alarido a obrigava a falar alto sobre a sua própria vida – ou sej a, A vida que ninguém vê. É sem pre m eio esquisito um repórter entrevistar o outro e, no caso dela, m ais ainda, j á que Eliane parece se esconder da própria som bra, o avesso dos j ornalistas autorreferentes destes tem pos de egos inflados na im prensa nativa.
Com o se estivesse falando de outra pessoa, vai buscar suas origens em Ij uí, no noroeste gaúcho, conhecida com o a “capital das etnias”. Lá aportaram os Brum (na época ainda eram Brun com “n”) que vieram da região de Udine, na Itália, no final do século 19, depois que um irm ão do bisavô Antônio m orreu estrangulado porque as ovelhas que pastoreava invadiram o terreno de um vizinho.
Os avós dos dois lados eram colonos, o paterno plantava erva-m ate e o m aterno, um pouco de tudo. Argem iro, o pai, é o caçula de um a fam ília de oito irm ãos vivos e quatro m ortos. Órfão de pai e m ãe ainda adolescente, foi o prim eiro a seguir nos estudos até se form ar na faculdade. Para poder estudar, fazia lim peza no colégio; autor de livros sobre História Econôm ica do Brasil e professor há 57 anos, é um dos fundadores da Universidade de Ij uí (Unij uí). Vany r, a m ãe, form ada em Pedagogia e Letras, é professora aposentada e continua fazendo os m elhores doces da região.
“Foi m ágico”, resum e Eliane, com os olhos brilhando, ao falar de quando aprendeu a ler, e logo descobriu os livros. Com sete anos, passava o dia todo em seu quarto, trancada, lendo. Não saía nem para com er. Chegava a ler cinco livros por dia. Aos dez, j á tinha lido toda a Biblioteca das Moças, a obra com pleta de Monteiro Lobato e até a coleção inteira de José de Alencar, algo que só se costum ava fazer naquele tem po, por obrigação, na escola.
De tanto ler, com eçou a escrever, a princípio apenas poesias. Argem iro gostou tanto do que viu que resolveu editá-las em livro e assim Eliane fez sua precoce estreia na literatura com Gotas da Infância. Antes, havia escrito Autobiografia de uma barata, um “rom ancezinho”, ainda inédito. “Ainda bem !...”, desdenha da obra, que escreveu para expiar a culpa por ter assassinado um filhote de barata.
Com 15 anos, engravidou de Maíra, sua única filha – tudo na vida dela haveria de com eçar bem cedo. Chegou a com prar enxoval e tudo, m as não quis se casar nem m orar com o pai da m enina. Mãe solteira num a cidade conservadora, Eliane sorri ao lem brar que, de um a hora para outra, passou “de vítim a a puta”.
Um belo dia, enquanto seus pais faziam a sesta, deixou um bilhete e a filha com eles, e foi-se em bora para Porto Alegre m orar na casa de parentes, sem ter a m enor ideia do que pretendia fazer da vida. “Eu fugi de casa porque não queria casar e ficar em Ij uí. Sem pre sonhei em conhecer o m undo. Foi o ato irresponsável m ais lúcido da m inha vida.” Quando se form ou em Jornalism o, quatro anos depois, ela resgatou a Maíra e, desde então, as duas têm vivido um a longa série de aventuras.
Adolescente, Eliane sonhava em ser astrônom a – “queria ver as estrelas”. Desistiu logo ao saber que para isso tinha que “saber m uita m atem ática”. O pai queria que ela estudasse Letras, m as ela inscreveu-se no vestibular para Biologia. Com o acontece com m uita gente que não consegue descobrir qual é, afinal, sua vocação, acabou cursando Jornalism o j unto com História.
Até então, seu único contato com a futura carreira tinha sido com o leitora preguiçosa do Correio do Povo, tradicional j ornal gaúcho que seu pai assinava. E não gostava do que lia. Achava j ornal, em geral, “m uito chato”. Preferia os livros. Mesm o j á na faculdade, pensava que não servia para ser j ornalista. “Gosto de olhar, m as não gosto de falar. Gosto de ser invisível.”
Seu gosto pela profissão surgiu apenas no últim o sem estre da Faculdade de Jornalism o da PUC, quando conheceu o professor Marques Leonam . “Eu só sou j ornalista por causa dele. São os acasos que m udam tudo na tua vida, detalhes que acontecem e poderiam não acontecer.”
Com Leonam , Eliane aprendeu m ais do que técnicas de redação. Descobriu a paixão pelo ofício de contar histórias – e logo a prim eira que escreveu durante o estágio que fez com ele lhe deu o prim eiro dos m uitos prêm ios que colecionaria ao longo da carreira.
“Esperando na fila da existência” foi o título do seu trabalho escolar sobre as filas que um cidadão enfrenta desde que nasce até m orrer. Um a am iga de Eliane inscreveu o texto num concurso universitário das faculdades de Jornalism o da região Sul. O prêm io era um estágio na Zero Hora, onde ela entrou em 1988. Só sairia de lá em 2000 para trabalhar na revista Época, a convite de Augusto Nunes, que tinha sido seu diretor no j ornal gaúcho.
Escalada para cobrir a inauguração do prim eiro McDonald´s de Porto Alegre, na praça da Alfândega, j á em sua estreia no j ornal Eliane encontrou o filão que a diferenciaria dos outros repórteres. Em vez de fazer o registro burocrático habitual, ela puxou conversa com os aposentados que frequentam a praça. Acabou escrevendo um texto sobre o estranham ento entre a recém -chegada m odernidade fast-food e os personagens de um tem po passado.
Eliane procurava fugir da vala com um da pauta, cavando suas próprias histórias em quebradas escondidas da m ídia onde descobriria personagens e assuntos que não estão nas agendas das redações – do solitário enterro de pobre à toca do colecionador das sobras da cidade, do carregador de m alas no aeroporto que nunca voou ao cantor cego que inferniza a vizinhança anunciando a m ega-sena acum ulada.
O seu j eito de escrever reportagens em form a de crônica, e vice-versa, que lhe renderam os textos deste livro e o Prêm io Esso regional de 1999, vem desde a época de estagiária, quando a escalaram para sair com um velho e m alvado repórter de polícia disposto a torturar aquela foca tím ida. Depois de passar o dia vendo cadáveres, que era obrigada a tocar pelo colega sádico, à noite ela não aguentou m ais, e desm aiou ao ver um a m ulher entrando no pronto-socorro carregando o filho todo ensanguentado.
Repórter de geral e de polícia, com o quase todos nós som os no início da carreira, a rotina só seria quebrada no dia em que resolveu escrever um texto carregado de ironia sobre os bastidores do Il Gattopardo, o restaurante m ais chique da cidade na época, frequentado pelos am igos dos donos do j ornal. Esses eram conhecidos até dem ais...
“Deu a m aior confusão, m as pelo m enos perceberam que eu existia”, recorda com j eito de m enina que aprontou um a estripulia, m as que acabou se dando bem . Passou a receber m issões especiais de Augusto Nunes, o diretor de redação da Zero Hora que sem pre deu a m aior força ao trabalho dos repórteres, especialm ente os que têm iniciativa, fogem dos lugares-com uns e escrevem com a alm a, o que é cada vez m ais raro.
O diretor e a repórter sabiam que aquela era um a em preitada de alto risco: refazer a m archa da histórica Coluna Prestes, saindo de Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, para percorrer 25 m il quilôm etros até San Matias, na Bolívia. Aos 26 anos, Eliane era apaixonada pelo tem a, m as não tinha ideia de com o fazer a m atéria, apenas um obj etivo definido: ouvir a história do povo que vivia no cam inho da m archa e recolher as lem branças dos m ais velhos.
Até Anita Leocádia, a filha de Luiz Carlos Prestes com Olga Benário, tentou desencoraj á-la da ideia de refazer a m archa. “Ela m e falou que eu só iria encontrar no cam inho uns velhinhos gagás, que não lem bravam m ais de nada, e se propôs a m e dar um a entrevista exclusiva sobre a Coluna Prestes.” Eliane não tem vergonha de contar que chegou a ficar com m edo diante do tam anho do desafio, até ficou doente, m as foi adiante.
Ao final de 44 dias de viagem , voltou para a redação trazendo na bagagem um a história bem diferente daquela que aprendeu nos livros de escola. Trouxe depoim entos de vidas arrasadas, m iséria, violência, desesperança. “A Coluna foi um m ito. Por onde ela andou, a m aioria das pessoas viveu pior depois da sua passagem .”
A série de reportagens só seria publicada em caderno especial do j ornal um ano depois de escrita e renderia m uitas críticas à autora, além de um a m enção honrosa do Prêm io Vladim ir Herzog e um novo livro (Coluna Prestes – O Avesso da Lenda).
Recordações doces e am argas se m isturam neste café do fim de tarde em que a autora do livro que você acabou de ler ficou do outro lado do balcão da vida, falando um pouco da história dela em vez de só fazer perguntas aos outros. “Eu quase fui trucidada, m as, em 1999, quando foram abertos os arquivos da Fundação Getúlio Vargas, com as correspondências dos com andantes da Coluna, ficou provado que um a história batia com a outra.”
Quando perguntados sobre qual nossa m elhor reportagem , costum am os dizer que é a próxim a. Nunca estam os satisfeitos com o que j á escrevem os. No caso de Eliane Brum , para contar sua m elhor história, ela nem precisaria ter saído de casa. Bastava ouvir as lem branças da fam ília que o pai Argem iro, aos 76 anos, guarda com precisão, e j untar com as que ela própria recolheu da sua traj etória de vida, digam os assim , pouco convencional.
Ao m e enviar “breve m ensagem ” para com plem entar ou corrigir inform ações que m e deu durante nossa conversa, a m oça que não gosta de falar de si m esm a se desculpa por não saber escrever pouco, e quase acaba escrevendo outro livro sobre A vida que ninguém vê, a dela. Para quem duvida do que escrevi acim a, não resisto a transcrever pelo m enos um trecho:
A família da minha avó materna (Vitalina Bonetti Jacomini) é um caso à parte. Minha avó sempre teve um lado transgressor escondido por camadas de santidade e melancolia. Quando dormia lá em casa ou eu na dela, ela me contava todas as histórias de Pedro Malazarte. Repetidas vezes. Eu sabia de cor e ria sempre. Quando eu adolesci, a gente fumava e bebia escondido na cozinha nas festas familiares. Ela vinha de uma família misteriosa, em que os mortos sempre voltavam e se instalavam nas casas dos parentes. Minha tia-avó Emy, uma carioca despachada, passava o tempo inteiro xingando meu tio-avô Graúna:
– Graúna, eu sempre te disse que não queria te ver depois de morto! Sai já daqui!
E dava umas chineladas no meu fantasmagórico tio-avô.
Parte da família gastou um pedaço da vida em busca de um tal tesouro dos Bonetti. Diz a lenda que um antepassado aventureiro, numa de suas andanças pelo mundo, se tornou amante de uma princesa africana. Quando uma revolução eclodiu, roubou o tesouro real e fugiu com ele. A fortuna estaria num banco em Londres e tenho um tio que já foi para a Europa três vezes tentar desenrolar essa história. Claro que não conseguiu. Minha avó morreu quando eu recém iniciava no jornalismo, o que sempre me deixou triste, porque ela ia adorar me encontrar na Zero Hora, que assinava e lia todo dia... Volta e meia nós conversamos... Quando estou triste ela sempre aparece para me contar umas histórias do Pedro Malazarte...
De tanto ouvir essas histórias desde pequena, Eliane aprendeu a contá-las. Ao ler o que ela escreve hoj e, ninguém m ais poderá dizer que j á não se produzem bons repórteres com o antigam ente. Vale a pena esperar pelos próxim os capítulos.
Ricardo Kotscho
Julho de 2006