A Vida que Ninguém Vê
O doce velhinho dos comerciais
Você j á o viu. O doce velhinho dos com erciais. Cabelos de neve, barba de m erengue e olhos azuis faiscantes. Um sorriso que parece refletir a paz que a hum anidade sonha para o terceiro m ilênio. Desfiles, anúncios, com erciais de alim entos, de bancos, de com panhias telefônicas. Toda vez que as produtoras precisam de um vovô am oroso, de um senhor idoso que alcançou a plenitude da vida com o rosto da saúde e da bonança, é a ele que procuram . O doce velhinho dos com erciais. Com um neto no colo, num a cadeira de balanço, de braço dado com um a avó ou sim plesm ente m irando o horizonte na certeza do futuro. Esse é o doce velhinho dos com erciais. Seu nom e, David Dubin.
Você j á o viu. Estava esquálido, as costelas esticavam a pele cinzenta. Foi torturado, arrastado pelo chão. Estava nu. Foi cuspido, chutado, riram na sua cara. Arrancaram tudo dele. Enterraram vivos aqueles a quem am ou. Conheceu o pior do hom em . Conheceu o im pronunciável do hom em . Você j á o viu. Em film es, em docum entários, em fotografias de j ornais e de revistas. O que você não sabia é que seu nom e tam bém é David Dubin.
Esse é o m istério. Que David Dubin sej a ao m esm o tem po aparência e sentença. Que sej a ao m esm o tem po o doce velhinho dos com erciais e um a vítim a destroçada do holocausto. Que sej a o desej o do futuro e o espectro do passado. Que sej a um passado que não viveu no m undo da im agem e um pretérito que não consegue esquecer no m undo real. Esse é o paradoxo de David Dubin. E o paradoxo de David Dubin é, com seu avesso de m orte, a possibilidade da vida. Porque a vida só é possível quando cada um consegue, apesar de seu holocausto pessoal, ser tam bém o doce velhinho dos com erciais.
É isso. Ou um tiro na cabeça.
Foi um tiro na cabeça que David Dubin tentou naquele ano de 1944. Depois de vencer torturas e hum ilhações sem nom e, ele chegou à cidade polonesa de Pinsk, que acabara de ser libertada. A cidade onde havia passado toda a sua vida. O prim eiro a encontrar foi seu m elhor am igo, seu vizinho de porta:
– David, com o é que ainda não te m ataram ?
Foi assim que David descobriu que a guerra não acabaria. Estava no coração dos hom ens. Batendo de casa em casa, era um sobrevivente estropiado e quase louco de dor, perguntando pelos seus. Não achou nem casa. Nem fam ília. De frases esparsas e tem erosas reconstruiu o assassinato daqueles que am ava. Dos seis m ilhões de j udeus sacrificados pela intolerância, 40 pertenciam à fam ília de David, 40 tom baram em Pinsk. Entre eles, a m ãe, a m ulher Taibel e a filha Blum a (Florzinha, em português), de m enos de um ano de idade.
David descobriu que foram abertas quatro valas em Pinsk, um a em cada canto da cidade. E que todos os j udeus foram fuzilados. Todos os 30 m il j udeus de Pinsk. E que m uitos não m orriam e j á eram atirados nas valas. E sobre eles eram atirados outros. E m orriam asfixiados. E m uitos foram enterrados vivos. Prim eiro pela m assa hum ana, depois pela terra j ogada por cim a. Contaram a David que a terra trem ia pelo desespero dos que ainda respiravam . E que por dias a fio o sangue brotava do chão. E, por m ais que lim passem , a terra seguia parindo sangue porque estava ferida de m orte. E porque o sangue era m uito.
Ali, pisando sobre sua vida assassinada, David descobriu que sua fam ília não havia sido m orta pelos nazistas. Eles haviam sido apenas m andantes. Sua fam ília foi m orta pelos m elhores am igos, pelos vizinhos de porta. Pelos ucranianos e lituanos que dividiam seu bairro m iserável. Os seus foram m ortos por aqueles com quem conviveram por um a vida, com quem haviam trocado as boas e as m ás notícias, padecido da m esm a fom e. Foi então que David pegou seu revólver e m irou-o na própria cabeça. Outro sobrevivente segurou o braço:
– David, tu lutaste, conseguiste sobreviver. Não sej as agora um covarde.
E então David Dubin escolheu a vida. E chegou aos 86 anos de idade com o coração de um sobrevivente do holocausto e a aparência de um doce velhinho de com erciais.
– Não sou eu que falo. É o m eu coração. Falo com lágrim as. Falo porque não esquecer é a m inha vingança. E o que será escrito é a m inha arm a. Não aceitei indenização. Não vão com prar a alm a da m inha fam ília.
David Dubin conta sua história na sala do seu apartam ento, em Porto Alegre, cercado por retratos do passado e do presente. Honesto, ele avisa que não contará toda a história. Porque nunca a contará com pleta. Porque há coisas que não devem ser ditas. E há tragédias que m orrerão com ele. Porque David aprendeu há m uito tem po que lem brar é viver de novo. E quando ele com eça a contar, logo precisa parar, porque os olhos em baçam , o corpo trem e e o coração am eaça se abrir m ais um a vez.
Outras vezes, a história é interrom pida porque a m oça da agência de m odelos liga requisitando-o. Em seguida, é a vez da funcionária da produtora. Depois de contar sua traj etória de m orte, David Dubin fez um com ercial para um a rede de farm ácias. Era de novo o doce velhinho dos com erciais.
* * *
A guerra de David Dubin tem bem m ais de dois m il anos. E ele nasceu em m uito m á hora. Aos cinco anos, o pai foi fuzilado na Prim eira Guerra. No intervalo entre um a e outra, David cresceu apanhando nas ruas por ser j udeu, sem conseguir em prego por ser j udeu, sem direito ao futuro por ser j udeu. Sem conseguir casar com a m ulher que am ava porque era pobre dem ais. Sem sapatos, com endo um pepino ou um pão duro por refeição. Criado pelo avô, com a m ãe e os três irm ãos, num casebre da cidade polonesa de Pinsk.
Quando chegou a hora de cum prir o serviço m ilitar, atiraram David na cavalariça. Porque não conhecia cavalos. Era o castigo por ser j udeu. Aprendeu a dom á-los à força de um a vontade de ferro, nascida do riso, das ofensas. Quando dom ou o prim eiro, deixaram de cham á-lo “j udeu” para cham á-lo Dubin. Foi assim , agarrado às crinas do bicho, que David soube que era um sobrevivente antes m esm o de com eçar a guerra declarada.
Quando estourou o com bate, David lutou com as cores da Polônia. Foi feito prisioneiro com sua tropa. Divididos em filas: j udeus de um lado, cristãos do outro. David decidiu salvar-se. Entrou na fila dos cristãos. Foi salvo pelos olhos azuis, os m esm os que hoj e encantam nos com erciais de televisão. Depois, ele soube, a sua tropa de hebreus tinha sido castrada e fuzilada.
David Dubin batizou a si m esm o de Ian Krinstalski. Foi esse o nom e que carregou durante a guerra. A cada noite os arrancavam do galpão e os contavam . O décim o era fuzilado. David fugiu m ais de um a vez. Voltou para Pinsk, ocupada então pelos russos, ao final de 1939. E se casou com o seu am or porque era um m undo sem tem po. E fizeram um a filha no m eio da m orte. Logo, em 1941, os alem ães ocuparam a cidade. David foi obrigado a fugir m ais um a vez.
Fez trabalhos forçados na Sibéria, cam inhou sobre os corpos dos m ortos, se alim entou de ratos. Alcançou a sua Pinsk e descobriu que tudo o que ele era estava m orto.
Quando guardou o revólver e escolheu a vida, David partiu para a Rússia. Lá conheceu Olga, um a j udia cuj o m arido fora m orto na guerra, e seus três filhos. Resolveu que ele, que j am ais havia pronunciado a palavra pai, seria o pai daqueles m eninos. Porque órfãos, afinal, eram todos eles. Assim form aram a sua fam ília de rebentados, colando a sobra de um na carência do outro. Assim voltaram à Polônia e constataram que a guerra continuava ferm entando nas entranhas dos hom ens. O escárnio não havia cessado, as portas seguiam cerrando na sua cara e m uitos achavam que seis m ilhões assassinados ainda era pouco.
David Dubin decidiu escapar. Para algum lugar do m undo onde o dedo do racism o não apontasse para ele. Nem para os seus. Porque perder um a fam ília era m uito, perder duas era im possível. Para conseguir passar a fronteira guardada, prim eiro despachou as crianças em um trem carregado de órfãos para a Áustria. Dias depois, David j ogou Olga pela j anela de outro trem , porque dinheiro não tinham , e dependurou-se no vagão. Resgataram as crianças m inutos antes que partissem para a adoção em terras distantes. E seguiram sua saga.
Anos depois alcançariam o Brasil. Quando desem barcaram no Rio de Janeiro, um j udeu desconhecido os esperava no porto. Ofereceu um m aço de cigarros. David Dubin chorou. Era a prim eira vez em sua vida que fum ava um cigarro inteiro. Não falava um a palavra em português, não tinha um tostão. De seu, só um passado que não poderia esquecer e um a fam ília de sobreviventes.
Foi com isso, e com a coragem , que David Dubin iniciou a vida depois da m orte. Montou um a fabriqueta de vestidos e com eçou o seu com ércio em Porto Alegre, onde um irm ão o esperava. Há quase 15 anos, o coração de Olga desistiu de bater. David seguiu sua existência. Canta em coral, faz m ágicas, até pouco tem po dançava. Preside um grupo de terceira idade com o nom e de Viva a Vida. A cada aniversário reúne os cinco filhos, os oito netos, os quatro bisnetos e dezenas de am igos e parentes. Pede a Deus m ais um ano de vida e convida a todos para a próxim a festa. Porque um dia, num ponto rem oto do passado, no outro lado do m undo, David Dubin decidiu que sua vingança era não m orrer.
– Na vida, é preciso que isso sej a com preendido, a gente acostum a com o gosto doce e tam bém com o am argo.
David Dubin, o doce velhinho dos com erciais, tem o gosto am argo da m orte na boca. Um dos m ais velhos sobreviventes do holocausto, ele contou sua história à equipe de Steven Spielberg, que veio a Porto Alegre para ouvi-lo. Lem brar é viver de novo, ele j á havia dito. Tem pos depois da entrevista, o coração não suportou e foi resgatado com três pontes de safena. Enquanto era levado ao hospital, cantava velhas m úsicas do avô em iídiche.
– Os nazistas m e surraram tanto que eu j á não sentia m ais dor. Pedia que m e m atassem porque tinha parado de sentir.
Tem pos atrás, um m édico aproxim ou-se com um a inj eção. David saltou sobre ele. Só o soltou quanto a seringa desapareceu de suas m ãos. Dias atrás, deu um a palestra a estudantes. Quando olhou para a plateia, ela havia se transform ado em um exército de nazistas. David com eçou a trem er.
David Dubin não pode esquecer. Nem contar tudo. Sua vida resum e a tragédia da hum anidade:
– Minha fam ília foi m orta pelos vizinhos de porta.
Um a frase que poderia ser dita agora por um palestino. É esse o dram a que David Dubin não cansa de repetir. Mesm o que repita m ilhares de vezes, surpreende-se a cada um a. A m ão que assassinou sua vida era a do vizinho de porta. A m ão que assassinou sua fam ília j á havia apertado a sua. A m ão do assassino era um a m ão igual a sua. Esse é o horror. Essa é a parte para a qual não existe esquecim ento.
David Dubin é o seu nom e. Enquanto aparece nas telas de TV com seu sorriso doce, há um outro igual a ele que desperta à noite vendo sem pre o m esm o film e de horror. Um e outro são o m esm o. David Dubin está vivo porque am bos são verdadeiros.
Esquecer não é possível, viver sim . David Dubin, o doce velhinho dos com erciais, ainda guarda o revólver que um dia apontou para a própria cabeça.
[10 de julho de 1999]