A Vida que Ninguém Vê
O dia em que Adail voou
Lem bram do Adail? O carregador de m alas do Aeroporto Salgado Filho? Voou.
Em 12 de j unho, Adail José da Silva contou em A vida que ninguém vê que passou 36 anos carregando as m alas dos passageiros, m as nunca conseguiu voar. A distância entre ele e o avião era de passos, m as um a vida inteira não havia sido suficiente para vencê-la. Adail queria voar até Aparecida do Norte (SP), onde devia um a prom essa à santa. Quinze anos atrás, Nossa Senhora tinha curado sua perna doente. Em troca, Adail lhe devia um carpim . Mas o tem po passava, a dívida ia pesando, porque não há credor m ais rigoroso que santo, e nada de Adail arranj ar um j eito de acertar o débito. O pessoal da TAM leu a história do hom em que queria voar e decidiu patrocinar o sonho de Adail. Foi assim que o carregador, depois de um a vida inteira sem sair do chão, voou. Na últim a quarta-feira, dia 14 de j ulho, data que, se não ficar na história da aviação, na de Adail com certeza está lá, m arcada com o o dia em que ele chegou ao céu.
Nunca houve um a noite m ais com prida. Adail e a esposa, Maria Cedir, tinham dorm ido tarde. Metade do bairro Fátim a, de Canoas, havia dado um a passadinha na casa deles. Não havia quem não tivesse um a encom enda para a padroeira do Brasil. Depois, cadê os nervos para conseguir dorm ir? De m inuto em m inuto, lá estava Adail ligando o rádio para confirm ar o horário. Quando não era ele, era Cedir que arregalava os olhos no m eio da noite. Às 5h50, finalm ente, Adail adentrou no aeroporto. Pela prim eira vez em 36 anos, estava à paisana.
Tanta era a elegância que os colegas quase não o reconhecem . Chapéu preto, um terno que havia usado no casam ento de um a sobrinha anos atrás e o sapato quase novo. Ele, Cedir – que até aniversário fazia naquele dia – e um a sacola de viagem . Dentro, um par de pij am as, para o caso de terem de passar a noite em algum ponto rem oto do Brasil, as encom endas dos vizinhos – fotografias, fitinhas, velas... – e o m ais im portante: um pacotinho com o carpim cor da pele que Adail guardou por m ais de um a década para pagar a dívida com a santa.
Adail nem falava. Só ria. Em barcou no avião ciceroneado pelo representante da TAM em Porto Alegre, Marco Antonio da Silva, que acom panhou o casal até o final da viagem . Sentou-se no corredor. E assim com o sentou, ficou. Teso, m ãos cruzadas sobre o colo, olhando fixo para a frente. Prim eiro, pensou: “Bah, vai cair essa droga!” Em seguida, tratou de se garantir: “Nossa Senhora, protej a m inha arrancada da terra!” E rezou um a Ave-Maria e um Pai-Nosso ligeirinho. Quando o avião decolou, às 7h, deu um a fechada nos olhos:
– Bah, m e deu um choque aquela coisa saindo do chão. Um frio na barriga, um m al-estar. Dei só um a olhada geral e m e concentrei. Quando vi, tava voando. Que coisa que não tem explicação esse negócio de avião!
Nem café Adail quis tom ar. Não queria que ninguém , nem m esm o Cedir, olhasse para ele. Por dois m otivos: o prim eiro era o tal do frio na barriga. O segundo era um freguês num a poltrona m ais à frente:
– Se m e visse, ele ia gritar de lá: “Ô, negão, o que tá fazendo aqui?”
Lá pelas tantas, Cedir, m uito m ais despachada, apontou lá para baixo:
– Olha lá, Adail, que cidade bonita!
Ao que ele se arriscou a dar um a espiadinha e corrigiu:
– Não é cidade, m ulher, são as nuvens!
Chegou ao Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP) – um a “côsa de louco” – se apresentando aos colegas.
– Prazer, Adail. Trabalho lá no Rio Grande, é a prim eira vez que ando de avião.
Autêntico com o poucos, cada vez m enos, cham ou os diretores da TAM, que o receberam com toda a pom pa, de “gurizada”. Afinal de contas, quando Adail entrou no ram o da aviação, a TAM nem tinha nascido. Para Aparecida do Norte, a 170 quilôm etros da capital paulista, foi em táxi especial. E anunciou para o m otorista:
– Pra m im , isso aqui é a Europa!
Quando a basílica de Nossa Senhora Aparecida despontou, Adail não se conteve. Já tinha chegado m uito m ais longe:
– Tam o em outro m undo!
Cedir se arrepiou toda. Adail, segundo o próprio, ficou “m eio abobado”. Até a santa deve ter chorado com a cena. Adail e a m ulher, paralisados no m eio da catedral, com os braços levantados e os olhos vertendo água. A sacolinha com o carpim num a m ão, terços na outra, m áquina fotográfica pendurada no braço.
– Nem tô acreditando que tô aqui – disse Adail para Cedir.
– Então, pisa no chão, hom em , porque tu tá m esm o – garantiu a esposa.
Finalm ente, depois de 15 anos, Adail encarou Nossa Senhora Aparecida e acertou as contas:
– Lhe agradeço, Nossa Senhora Aparecida, por ter curado o m eu pé. Agora até j á ando. Não tinha podido vir, m as agora consegui. Apareci.
Adail deixou a catedral sem dívidas. E Nossa Senhora Aparecida ganhou um discreto par de carpins usados.
De volta a São Paulo, a sacola lotada de m edalhinhas, terços e im agens para a fam ília, Adail tinha uns olhos de bolita:
– Quanto túnel! Quanto viaduto!
E contou ao m otorista, que não parava de se exibir com as avenidas da pauliceia:
– Lá em Porto Alegre a gente tam bém tem um a avenida. A Ipiranga!
Esperando o voo na sala da TAM, em Congonhas, Cedir cutucou o m arido:
– Viaj am os hoj e o que não viaj am os na nossa vida inteira. Com o é boa a vida de rico, né, Adail?
Muito espantado com a “grã-finagem ”, Adail desabafou:
– Nunca pensei em chegar a São Paulo. Cheguei. Paguei a Aparecida. Conheci dois aeroportos. Tudo num dia só. E tudo no m eio dos burguês!
Voltou a Porto Alegre em um Airbus da TAM estalando de novo. E o principal, na prim eira classe. Só não pôde tom ar nem o cham panha nem o “uisquinho” porque a m édica, consultada antes da viagem , proibiu. Mas cervej inha com castanhas, ah, isso ele não perdeu.
Desta vez, Adail sentou na j anela. Não é m uito m anso com as letras, m as abriu o j ornal e não deu nem as horas para o povo que seguia roxo de invej a para a classe econôm ica. Coisa de doutor, sabe com o é.
Lá pelas tantas, depois de ter visitado a cabine do com andante e a m ais de 30 m il pés de altura, não se aguentou:
– Não é que o negão saiu lá do m eio do m ato e avoou?!
E concluiu, com um sorriso que só ele no m undo tem :
– Cheguei ao topo da parada da glória!
Quando desem barcou em Porto Alegre, às 20h05, Adail até parecia o m esm o hom em . Mas não era. Nunca m ais seria. O voo tinha acabado, o “dia de doutor” tam bém . Mas as asas, essas ninguém tiraria dele.
[16 de julho de 1999]