A Vida que Ninguém Vê

Eliane Brum · Capítulo 18 de 30

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A Vida que Ninguém Vê

O exílio

 

Elas vivem um a ao lado da outra. Um a em cada cam a. Duas ilhas que não se tocam . Há algum tem po Vany nem m esm o enxerga Celina. A artrite que lhe devora as articulações não perm ite que m ova o pescoço para a esquerda. Celina vislum bra o perfil de Vany, m as tem o olhar eclipsado pela j anela da rua. Duas m ulheres em um a geriatria. Exiladas.

Duas náufragas que decidiram expor suas alm as na ante-sala do esquecim ento.

Antes de Vany Pontes chegar à geriatria, quatro anos atrás, Celina Costa teve outras três vizinhas de cam a. Um a m orreu e as outras se m udaram .

Então Vany chegou. Desde o prim eiro segundo, com preendeu a vista que teria pelo resto dos dias. A porta entreaberta da sala. Foi isso que aterrorizou Vany. Aquele m undo de velhos. Um sentado ao lado do outro. Mas sem se tocarem , sem conversarem . Exilados do outro, exilados de si m esm os. A TV ligada o dia inteiro, m as sem perceberem . Esperando pelo café, pelo alm oço, pelo j antar. Pelo lanche.

Um dia perguntaram a cada um o nom e dos colegas de sofá. Nenhum sabia. Consum iam os dias um ao lado do outro, m as desconheciam o nom e um do outro.

Foi isso que m assacrou Vany desde o princípio. O futuro à espreita. Estagnado na m esm a cena. A últim a cena da sua vida exatam ente ali, do outro lado da porta.

A doença havia com eçado a penetrar no corpo de Vany quando ela tinha 40 anos. Professora de História, sem pre havia desej ado entender o m undo. Então a dor com eçou. Pelas m ãos. Depois pelas pernas. Penetrando pela espinha. A cada dia lhe com endo as horas, o fôlego. Doença de fazer louco, um dia disseram .

Os pais m orreram . Sobrou Vany. Que com eçou a cair. Com o se os ossos se liquefizessem . E então a geriatria apareceu com o a estrada que não se bifurca.

Da cam a, Vany com eçou a reparar que os velhos não chegavam prostrados. Quando chegavam , ainda havia um elo entre eles e o m undo, entre eles e a vida. Então, as horas m ortas iam lhes solapando a consciência e a vontade. Iam lhes roubando o sentim ento e o sentido. Um dia se exilavam . Prim eiro, m orria a m ente. Depois, o corpo. A dona da geriatria ocultava a m orte, inventava um a desculpa, e o velho sum ia da poltrona. No dia seguinte outro tom ava seu lugar. A espiral do esquecim ento se repetia.

Foram tantas e tantas vezes que Vany assistiu a esse m esm o film e. Rebobinado e rebobinado repetidam ente.

Celina, não. Celina escolheu a j anela da rua com o m undo. Ela sabe quem chega, quem sai, onde o cachorro do vizinho faz cocô, qual é o carro que estaciona em lugar proibido e sem pre, invariavelm ente, se intriga com a m endiga velhinha, cheia de sacolas, que sobe e desce a calçada sem horário definido. Onde será que ela dorm e? Será que ela lava as roupas? Ontem ela usava um a saia bonita.

Apenas um vidro a separá-la do m undo de lá. Do lado, na cam a, ao alcance da m ão, um a caixa de sapatos contém toda a sua vida. Um batom , um cartão de Natal não-enviado porque não coube no envelope, um elástico para arrum ar as calcinhas, um a m edalha de Nossa Senhora. Um radinho de pilhas com o telefone de um pronto-socorro grudado. E as cartas. Celina escreve para o presidente da República, escreve para outros governantes. Para um antigo pretendente, que parou de responder. Será que m orreu?

Cartas iniciadas em um caderno e j am ais rem etidas. Com o a escrita em 24 de j unho, quando fez 73 anos: “Hoj e eu estou com pletando m eus 18 anos...”

Aos 65 anos, Vany decidiu lutar contra a cena em oldurada pela porta da sala. A distância dim inuindo dia a dia, o corpo artrítico arrastado para lá com o que atraído por um buraco negro. Aterrorizada, Vany pediu a um a am iga, um a artista plástica cham ada Dilva Lim a, que lhe ensinasse a terapia da arte. Foi quando com eçou. Carregadas pela voz da professora, Vany e Celina trilharam florestas e m ergulharam as pernas m ortas em rios im aginários. Sentiram a textura de folhas e flores. Atravessaram tem pestades e assistiram a um pôr-do-sol. Nesses intervalos entre a dor e a porta da sala as duas escapavam , quase se tocavam . Apenas seus corpos perm aneciam estirados sobre a cam a. A m ente ia longe. Nessas horas, os dedos retorcidos de um a, as m ãos esquecidas de outra desenhavam o m ovim ento perdido. Aprisionavam o m ovim ento im aginado, com o se assim pudessem contê-lo. Conter algo em si m esm as de m ovim ento e de possibilidade.

Prim eiro, Vany cobriu páginas e páginas de peixes que nadavam . Depois, os peixes viraram borboletas que voavam . A evolução encerrou-se com um ser hum ano em posição fetal. Um dia Vany desenhou um grande coração, vários corações em cam adas, em cores diferentes, um dentro do outro. Nesse dia o coração entrou em colapso e ela teve de ser internada às pressas no hospital. Celina desenhou a si m esm a, em cinza e negro, de pé sobre pernas antigas, debaixo de um a tem pestade.

Enquanto a pilha de desenhos da alm a crescia ao redor da cam a, a angústia foi aum entando dentro de Vany. Suas pinturas eram seu legado. Sua tentativa últim a de explicar o inexplicável. Vany tem eu que, quando a dor finalm ente a vencesse, no dia seguinte m esm o, quando outra ocupasse a sua cam a no redem oinho am nésico da geriatria, seu m undo fosse sepultado com ela. Desfeito ao lixo, com o se nunca houvesse existido um a Vany tentando buscar o m undo sem pernas que a carreguem . Nem um a Celina escapando todos os dias pela j anela da rua.

Foi quando Vany inventou a exposição. Sonhou que seus desenhos poderiam viaj ar no lugar de suas pernas. Im aginou vendê-los e reverter a renda em benefício de um a creche de crianças exiladas. Acalentou a utopia de que seus anseios sobrevivessem a ela. Fossem livres.

Com a aj uda da am iga, as pinturas atravessaram o quarto, a soleira da porta, e alcançaram a sala. Cobriram as paredes. Mas era previsível. E aconteceu. Os velhos não perceberam a subversão do m orredouro. Tô bem surda, tô bem cega, desculpa-se Adélia, 79 anos, que ainda cuida da irm ã Josephina, de 87. Augusto desconhece onde está. Pensa que está casado com a dona da casa e que o neto da m ulher é seu filho. E Elza, 78, não consegue vislum brar a possibilidade de virar-se de frente para a parede e enxergar. Elza é incapaz de adivinhar a possibilidade de m udar a posição da cadeira. Eu sento de costas para a parede, não vej o nada, m urm ura, surpreendida que falem com ela.

Vany e Celina perceberam que travavam um a luta desigual contra o exílio. Celina voltou os olhos para a j anela da rua. E Vany continuou sua busca pela chave do m undo. Não desistiram . Sem pernas para correr do destino, Vany e Celina resistem . Seguem seu com bate silencioso contra o naufrágio da vida.

Poucos foram ver a exposição. Não faz m al. Agora, sem pre que Vany e Celina avistam o outro lado da porta, vislum bram m ais do que o exílio. Chegaram lá. Com nadadeiras, cores e asas.

Ninguém percebeu, m as Vany e Celina conseguiram o que poucos conseguem . Mudaram a últim a cena de suas vidas.

 

[25 de setembro de 1999]