A Vida que Ninguém Vê

Eliane Brum · Capítulo 17 de 30

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A Vida que Ninguém Vê

O gaúcho do cavalo de pau

 

Dizem que ele é louco. É possível. Da últim a à prim eira cocheira da Expointer, dizem que ele é louco. Os patrões e tam bém os peões dizem que ele é louco. Até as vacas prem iadas e tam bém as chibungas dizem que ele é louco. Será? Talvez sej a ele quem ria. Talvez sej a um a grande ironia. Ou talvez ainda ele sej a um Dom Quixote de bom bacha e cavalo de pau em busca de coxilhas de vento de um tem po que, com o ele, sej a tam bém um a quim era. Talvez.

Desde a prim eira vez em que am anheceu nos portões da Expointer, em 1991, dizem que ele é louco. Am anheceu estropiado e fam into. Tinha 15 anos. Vinha de Uruguaiana. Um pouco a pé, um pouco esprem ido no m eio dos bichos de algum a cacunda de cam inhão. Levou três dias para chegar. Chegou.

Am anheceu nos portões da Expointer com um cabo de vassoura. Apresentou-o com o seu cavalo. Pediu atestado sanitário para que o anim al botasse os cascos na feira. Dem onstrou todos os m ovim entos do Freio de Ouro, o grande prêm io da raça crioula, evolucionando com seu cavalo de pau. E assim inaugurou sua participação na grande festa do Rio Grande.

Seu nom e, Vanderlei Ferreira. Filho de pobre, j am ais foi à escola. Mas frequenta a Faculdade de Zootecnia. Todo ano lhe raspam a cabeça com o se fosse bixo. Assiste as aulas, às vezes faz até prova. Se fosse levar a vida a sério, descobriria que é analfabeto. Com o decidiu que a distância entre a realidade e a liberdade é um cabo de vassoura, vai se form ar doutor.

Vive em Uruguaiana com o folclore. Dorm e escondido num posto de gasolina, às vezes na casa de um tio. Já teve um a Kom bi por m orada. Mas, sej a qual for o pouso, decidiu que estará sem pre em sua vasta estância de fronteira, espiando o rebanho pela j anela. Tudo isso consegue enxergar, sentir, tocar, enrolado em um cobertor velho no canto de lugar nenhum . E quando acorda, pega um celular de brinquedo, se planta na porta do Banco do Brasil e ordena ao capataz: “Pode em barcar os bois”.

Desde que descobriu a Expointer, nunca falhou um a. Chega com fedor de bicho, os piolhos pastando pela cabeça. Os veterinários lhe dão um banho, desinfetam o couro e acaba até presenteado com um par de botas. Chapéu, bom bacha e churrasco vai ganhando de outros padrinhos espraiados pela exposição. Veste um j aleco branco de veterinário e sai com um a planilha debaixo do braço. Dorm e num a cocheira do galpão do isolam ento, entre éguas e touros doentes. Gasta o dia cavalgando pelas ruas e avenidas da feira. Ou deixa o cavalo relinchando na porta de algum expositor e vai declam ar nos ouvidos de um a prenda: “Os patos perdem as penas, os peixes perdem as escam as, e eu perco tem po am ando quem não m e am a...”.

Quando corcoveia sobre o lom bo de pau do seu cavalo, o povo ri, se diverte. O dito louco tam bém ri m uito, por dentro e por fora. Não se sabe quem ri m ais, se a plateia, se o suposto doido. Nem se sabe de quem será a derradeira gargalhada.

Dizem que ele é louco. O etim ólogo Joan Corom inas definiu o gaúcho com o de origem incerta, guacho órfão, pobre, indigente... Vagabundo, segundo o estudioso José de Saldanha. Hom em que não sabe andar a pé, conform e Dom Félix de Azara, fundador de São Gabriel. Vaqueano dos cam inhos de aventura, tropeiro de sonhos e perigos, dono de si. Andarengo de horizontes largos, com panheiro da liberdade, na prosa de Sim ões Lopes Neto.

Se tudo isso é o gaúcho, não há ninguém naquela Expointer m ais autêntico do que o cham ado louco de Uruguaiana. É possível que ele tenha levado o m ito m ais a sério do que qualquer outro hom em do Rio Grande. É possível que tenha se desgarrado no que Borges cham ou de vertigem horizontal da planície. É possível que tenha restado a gaúchos com o ele apenas um cavalo de pau. É possível que tudo que tenha sobrado da utopia sej a um cabo de vassoura.

É possível até que sej a tão louco que tenha inventado um gaúcho.

VANDERLEI, VOCÊ É LOUCO?

– Por que você veio à Expointer?

– Ouvi na faculdade, em Uruguaiana, que os alunos estavam liberados para ir à Expointer. Era 1991. Me atraquei a pé.

- Foi difícil?

– Foi a pior coisa da minha vida. Ninguém queria me trazer. Passei fome. Levei três dias para chegar. Mas amanheci aqui.

– E o que achou?

– Foi o m elhor dia da m inha vida. Me apavorei com o m undão de coisa. Nunca m ais queria que acabasse.

– E o seu cavalo?

– Meu cavalo é uma vassoura. Q ueria que fosse o BT Faceiro do Junco (vencedor do Freio de Ouro de 1995), mas é um cabo de vassoura.

– Se você sabe que é um cabo de vassoura, o que pensa quando está m ontado nele?

– Sonho que eu tô num cavalo de verdade. Levando uma prenda na garupa. Laçando, paleteando...

– Com o é o seu cavalo?

– É um tordilho. Branco.

– E o que você faz com o cavalo?

– Desfilo, faço as provas. Uma vez, em Uruguaiana, me deram nota em tudo. Fiz tudo que se faz no Freio de Ouro. Também já desfilei na avenida. Me aplaudiram de pé.

– Com o é a prenda?

– Eu queria uma que não fosse exigente. Q ue quando eu quisesse sair, me liberasse.

– Às vezes você dorm e nos carros, no posto de gasolina. O que você fica pensando?

– Penso que estou numa estância com a minha prenda.

– Você nunca trabalhou com o peão?

– Comecei a trabalhar, mas queriam que eu levantasse às 4h pra fazer coisa que podia fazer às 6h. Não deu certo.

– Não é boa a vida de peão?

– É muito difícil. O cara sofre, se machuca e ainda por cima ganha pouco. Não quero ser peão. Q uero ser veterinário.

– Você vai à faculdade?

– Assisto às aulas, aprendo de tudo um pouco. Mas não sei ler nem escrever. Só números.

– Quando você chegou à Expointer dessa últim a vez?

– Cheguei na sexta passada. Vim de caminhão, com touros de raça. Sobrava um lugarzinho.

– E quando a Expointer acaba?

– Me dá uma tristeza no coração.

– Com o é essa tristeza?

– É uma tristeza funda.

– Com o você vai em bora?

– Vou triste, deitado, pensativo. Volto com os bichos.

– Você só anda a cavalo na Expointer?

– Nunca andei a pé.

– Você j á m ontou num cavalo de verdade?

– Uma vez.

– E o que achou?

– É bem melhor do que um cabo de vassoura.

– Você sabe que isso é um a fantasia, que o cavalo é um cabo de vassoura. E m esm o assim galopa por aí num cavalo de pau. Por quê?

– Sem invenção a vida fica sem graça. Fica tudo muito difícil.

– Tem gente que acha que você é louco...

– A verdade é que quem acha que eu sou louco não raciocina.

[4 de setembro de 1999]