A Vida que Ninguém Vê
O olhar insubordinado
Sobre a melhor profissão do mundo
O olhar insubordinado
Sem pre gostei das histórias pequenas. Das que se repetem , das que pertencem à gente com um . Das desim portantes. O oposto, portanto, do j ornalism o clássico. Usando o clichê da reportagem , eu sem pre m e interessei m ais pelo cachorro que m orde o hom em do que pelo hom em que m orde o cachorro – em bora ache que essa seria um a história e tanto. O que esse olhar desvela é que o ordinário da vida é o extraordinário. E o que a rotina faz com a gente é encobrir essa verdade, fazendo com que o m ilagre do que cada vida é se torne banal. Esse é o encanto de A vida que ninguém vê: contar os dram as anônim os com o os épicos que são, com o se cada Zé fosse um Ulisses, não por favor ou exercício de escrita, m as porque cada Zé é um Ulisses. E cada pequena vida um a Odisseia.
A proposta da coluna de crônicas-reportagens, construída no cam inho, m ais por intuição que por plano, era estim ular um olhar que rom pesse com o vício e o autom atism o de se enxergar apenas a im agem dada, o que era do senso com um , o que fazia com que se acreditasse que a m inha, a sua vida fossem bestas. A hipótese era a de que o nosso olhar fosse sendo cegado, confundido por um a espécie de catarata, causada por cam adas de rotinas, decepções e aniquilam entos, que nos im pedisse de ver. Vem os o que todos veem e vem os o que nos program aram para ver. Era, com toda a pretensão que a vida m erece, um a proposta de insurgência. Porque nada é m ais transform ador do que nos perceberm os extraordinários – e não ordinários com o toda a m iopia do m undo nos leva a crer.
Essa elaboração é posterior. Eu só consigo ver A vida que ninguém vê porque vi o que havia de especial na coluna pelos olhos dos leitores. Com ecei tateando, escrevendo sobre o que eu gostava, do j eito que eu gostava, com o olhar que era m eu. Sem saber m uito bem o que estava fazendo nem onde queria chegar. Foram os leitores que enxergaram a coluna e apontaram para onde eu estava olhando. Toda sem ana desem barcavam e-m ails e cartas contando sobre vidas próprias, vidas de outros, desacontecim entos, não-fatos, antinotícias, anonim atos. Tudo absolutam ente extraordinário.
Toda sem ana m e alcançavam relatos que acabavam assim : “Descobri que a m inha vida é especial. Mudou tudo.” Bastava o reconhecim ento do outro, vindo de um lugar legitim ado com o um a página no j ornal de sábado, para que m úsculos oculares atrofiados pela falta de uso voltassem a se exercitar para enxergar a própria vida de outros ângulos possíveis. Quem consegue olhar para a própria vida com generosidade torna-se capaz de alcançar a vida do outro. Olhar é um exercício cotidiano de resistência. Foi isso que os leitores disseram que eu disse a eles – e eu soube que era isso porque eles m e contaram . Ao ver a m inha escrita pelos olhos deles tam bém eu m e descobri extraordinariam ente ordinária.
Anos atrás, em 1993, eu refiz a m archa da Coluna Prestes, 70 anos depois. Nela, entrevistei o povo do cam inho – os brasileiros que viviam nos povoados e nas cidades por onde o exército rebelde passou nos anos 20, o povo que os revolucionários queriam salvar das garras do governo Arthur Bernardes e o povo que não sabia que queriam salvá-lo. O m ergulho de 44 dias pelo Brasil profundo – e invisível – m e atingiu com a força das revelações que m udam a vida. Com ecei a com preender o país. E a am ar seu povo não com o coração, m as com o fígado. Isso m e transform ou não em outra, m as em m ais furiosam ente eu m esm a.
Em 1999, ao trilhar as ruas de Porto Alegre, pelas quais tantas vezes eu tinha andado, o desafio era pisar sobre as m esm as pedras, m as olhar de outro lugar. Não é um truque banal, é um a alteração de foco que se faz em apenas um segundo e um a inclinação de alguns centím etros do pescoço, m as que resulta avassaladora. Um exem plo. O m endigo da Rua da Praia, estatelado no chão, barriga sobre a laj e, havia 30 anos. Não sei quantas vezes passei por ele com pena e culpa. A vida que ninguém vê m e im pôs – e não foi fácil – curvar o pescoço, m e agachar e colocar m eus olhos no m esm o plano dos olhos dele. Dessa posição de igualdade, pude enxergá-lo. Bastou olhar para baixo para que Sapo pudesse m e contar com o era olhar para cim a.
Escolhi esses dois m om entos – um em que precisei viaj ar 25 m il quilôm etros e outro em que bastou m over o pescoço alguns centím etros – para m ostrar que o olhar é o m esm o, é o que se recusa a enxergar apenas o que está program ado, o que está na superfície. No prim eiro caso, o que estava diante de m im para aplacar m inha vontade de ver era a coluna m ítica e o cavaleiro da esperança. No segundo, o m endigo que, quando reduzido apenas à m iséria por um a retina viciada, em que a culpa é apenas a indiferença j ustificada, deixa de ser um igual. Em am bos os casos, ao rom per com essa prim eira cam ada enganadora, o que se encontra é não o herói, m as o hom em – não o m endigo, m as o hom em . Um m ilhão de vezes m ais interessante e libertador.
Aqui faço um parênteses para o que se poderia cham ar de a arte de olhar – ou um a cam panha pela volta dos sapatos suj os. E o faço porque tenho a pretensão de que este livro sej a lido nas faculdades de Jornalism o. Já é um clássico: Ricardo Kotscho, repórter que faz o posfácio deste livro, abism ava-se com os colegas m ais j ovens que não desgrudavam da cadeira nem da redação e conheciam os entrevistados apenas pela voz no telefone. Cunhou o term o “reportagem externa”. O correspondente, no j ornalism o, a “chuva m olhada” ou “entrar pra dentro”. Ao m esm o tem po piada e denúncia de um a situação que arrancava os repórteres do único lugar em que deveriam estar – na rua.
Hum berto Werneck, outro grande j ornalista, conta essa história no posfácio do Fama e Anonimato – do papa do new journalism, o am ericano Gay Talese. “A um colega, intrigado ao vê-lo abancado, quase todo dia, num a cadeira de engraxate na Alam eda Santos, Ricardo Kotscho explicou:
– É que eu preciso! Repórter que vai pra rua suj a os sapatos.”
É isso. Se o telefone e a internet são invenções geniais, não há tecnologia capaz de tornar obsoleto o encontro entre um repórter e seu personagem . Se isso acontece, é por distorção. Esse olhar que olha para ver, que se recusa a ser enganado pela banalidade e que desconfia do óbvio é o prim eiro instrum ento de trabalho do repórter. Só pode ser exercido sem a m ediação de m áquinas.
Não pretendo fazer aqui um a análise sobre as razões dessa m udança que faz com que m uitos repórteres só vej am a vida – e os fatos, as pessoas – pela tela do com putador. Só diria ainda que aqueles que se dobram à nova regra não-escrita são tão facilm ente substituíveis – porque descartáveis – quanto os com ponentes eletrônicos das m áquinas que elegeram para interm ediar seu olhar sobre o m undo. E os prim eiros a ser deletados num a das cíclicas crises das em presas de com unicação – porque deletaram antes a sua singularidade.
Essa é um a época de incontinência verbal. Não sei se as pessoas falavam tanto assim antes. Sem pre m e surpreendo com a capacidade que m uitos têm de preencher todo o tem po e o espaço com palavras, m uitas vezes sem dizer nada. Sem pre penso: o que aconteceria se por um m om ento elas silenciassem ? Qual é a am eaça contida no silêncio? Ou qual é o som que não suportam os ouvir para precisar cobri-lo com o ruído ininterrupto de nossa voz? Vivem os com m uito som e pouca fúria.
O j ornalism o, em parte, tem sido vítim a e cúm plice dessa verborragia, dessa excessiva valorização da palavra dita. O j ornalista é reduzido a um com pilador de m onólogos, a um aplicador de aspas em série. Especialm ente se só pode contar com palavras transm itidas por telefone ou por e-m ail. Fulano disse, sicrano afirm ou. A vida é bem m elhor do que isso. O dito é, m uitas vezes, tão im portante quanto o não-dito, o que o entrevistado deixa de dizer, o que om ite. É preciso calar para ser capaz de escutar o silêncio. Olhar significa sentir o cheiro, tocar as diferentes texturas, perceber os gestos, as hesitações, os detalhes, apreender as outras expressões do que som os. Metade (talvez m enos) de um a reportagem é o dito, a outra m etade o percebido. Olhar é um ato de silêncio.
Em j aneiro de 2006, fiz um a experiência radical do olhar. Toco Lenzi, um dos grandes aventureiros do Brasil, m e convidou para escrever um livro sobre a prim eira parte de um a travessia. Ele vai trilhar o Saara, iniciando na Mauritânia e term inando na Tunísia – o vasto deserto entre o Atlântico e o Mediterrâneo. Sozinho, a pé, puxando um riquixá, um a espécie de carrinho de papeleiro, carregado com barraca, alim entos e água. Em j aneiro, fez os 600 quilôm etros iniciais, na Mauritânia. Fiquei com ele os prim eiros 20 dias. E tom ei a decisão de m e despir de tudo o que m e dá um a sensação (em geral ilusória) de controle. Fiz o antij ornalism o. Não li nada a respeito da Mauritânia nem do deserto, nem sobre a sobrevivência no deserto. Não planej ei nada. Minha única preparação foi cam inhar algum as vezes por sem ana no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, para não em patar o proj eto com câim bras e contusões. Com o não falo um a palavra de árabe e entendo m al o francês, eu só podia contar com o olhar para interpretar um a realidade inteiram ente virgem para m im . Eu só podia contar com os m eus cinco sentidos para explorar um m undo de estranhezas. Um a experiência de entrega quase total a um a África que, apesar de nossas raízes tão próxim as, fica tão longe. Voltei viva e, exceto por um a desidratação rápida, m uito bem – com largos desertos dentro de m im que talvez nunca sej am preenchidos.
Olhar dá m edo porque é risco. Se estiverm os realm ente decididos a enxergar não sabem os o que vam os ver. Quando saio da redação, tenho um a ideia de para onde devo olhar e o que pretendo buscar, m as é um a ideia aberta, suficiente apenas para partir. Tenho pena dos repórteres das teses prontas, que saem não com blocos, m as com planilhas para preencher aspas predeterm inadas. Donos apenas da ilusão de que a vida pode ser dom esticada, classificada e encaixotada em parágrafos seguros. Tudo o que som os de m elhor é resultado do espanto. Com o prescindir da possibilidade de se espantar? O m elhor de ir para a rua espiar o m undo é que não sabem os o que vam os encontrar. Essa é a graça m aior de ser repórter. (Essa é a graça m aior de ser gente.)
Num a m anhã de abril de 1993, bem cedo, o chefe de reportagem da Zero Hora, onde eu trabalhava na época, m e m andou cobrir um a coletiva de im prensa na prefeitura de Porto Alegre. A pauta era tão fascinante que nem lem bro do que se tratava. O carro m e deixou em algum ponto do centro e eu precisava andar um ou dois quarteirões para chegar à prefeitura. No cam inho, eu vi um a rodinha. Eu estava atrasada, m as nunca resisti a um a rodinha. Perguntando e em purrando um e outro cheguei lá na frente. Diante dos m eus olhos espantadíssim os em ergiu de um bueiro um m enino, em seguida outro. Esqueci com pletam ente da coletiva que nunca virou notícia. Os garotos haviam dorm ido dem ais e, ao subir à superfície bem depois de o sol nascer, surpreenderam a população ao revelar a natureza de sua m oradia. Os m eninos vivendo em esgotos ganharam a capa do j ornal do dia seguinte e viraram m atéria internacional. Se eu fosse um a burocrata da notícia – e não um a repórter –, eu teria ignorado a rodinha porque estava atrasada e teria voltado para a redação com um a nota de pé de página sobre algo com o o últim o proj eto da Secretaria de Obras do m unicípio. Se eu tivesse preferido recuperar a coletiva por telefone então...
Não lem bro de nenhum a reportagem que não tivesse m e dado m edo. Sinto m edo até hoj e. Medo de não dar certo, m edo de não ver nada, m edo de não conseguir, m edo. Tenho insônia e, quando durm o, pesadelos. Antes, durante, depois. Antes de eu refazer a m archa da Coluna Prestes, que era m inha estreia na grande reportagem , tive tanto m edo que cheguei a adoecer. Com o nada do que acontece com igo pode ser pouco, faço o tipo dram ático, achei que estava com os dias contados. Nada. Puro pavor. Mas fui, um pânico em form a de repórter, m as andando. E prefiro nem im aginar o que não seria a m inha vida se tivesse desistido.
Medo é necessário, faz sentido. Só não dá para ter m edo de ter m edo, paralisar e deixar as histórias passarem sem encontrar quem as conte. Ficar escondido atrás de um com putador, achando que o fato de escolher em que m undo virtual entrar, quando sair, quais e-m ails responder e quais deletar é ter a vida sob controle configura, talvez, a grande ilusão contem porânea. Por m ais que você escolha não viver, a vida te agarra em algum a esquina. O m elhor é logo se lam buzar nela, enfiar o pé na j aca, enlam ear os sapatos. Se quiser um conselho, vá. Vá com m edo, apesar do m edo. Se atire. Se quiser outro, não há com o viver sem pecado. Então, faça um favor a si m esm o: peque sem pre pelo excesso.
Ser repórter é um dos grandes cam inhos para entrar na vida (principalm ente na alheia) com os dois pés e com estilo. Desde pequena, o que m ais m e fascinava era passar pelas casas e prédios de apartam entos (em Ij uí tinha dois), adivinhar a luz lá dentro e im aginar o que acontecia, que vidas eram aquelas, com o que sonhavam , que dram as tinham , o que as fazia rir. Pronto. Arranj ei um a m aneira de entrar em qualquer casa ilum inada por dentro, m esm o que sej a com um a vela. Ser repórter não tem preço. Em todos os sentidos.
Eu não gosto de heróis. De m itos, só os da Antiguidade. Não gosto porque não acredito, porque acho pobre, porque acho chato. Se de perto ninguém é norm al, de perto ninguém é herói. Essa m ania de m itificar gente, alçar fulano ou beltrano ao Olim po porque supostam ente fez algo sobre-hum ano, em pata a vida. Faz com que os supostam ente pobres m ortais se sintam exatam ente isso: pobres m ortais. Ou losers, na expressão do que a cultura am ericana tem de pior.
Um ser hum ano, qualquer um , é infinitam ente m ais com plexo e fascinante do que o m ais celebrado herói. Mesm o os super, dos quadrinhos e do cinem a, pode reparar: o Hom em -Aranha só consegue duas horas de film e por causa do atrapalhado Peter Parker e até o Super-Hom em , que veio de outro planeta, só tem atenção por conta de suas fraquezas bem terráqueas (ou quantas voltas ao redor da Terra ele precisaria dar até todo m undo roncar?). Inclusive dem ônios com o o Hellboy só são interessantes pelo que têm de hum ano, da ternura ao m au hum or.
Vou ao lim ite dos super-heróis para falar de um a obrigação de repórter. Meu professor de j ornalism o, um baixinho-gigante cham ado Marques Leonam , dizia: “Lei Leonam núm ero um : repórter não tem o direito de ser ingênuo. Lei Leonam núm ero dois: repórter não tem o direito de ser ingênuo...” Acho que ia até o núm ero dez repetindo essa m áxim a leoniana. Eu faria alguns adendos a essa lei fundam ental. Um deles é: desconfie dos heróis, dê um a boa cheirada num m ito. Eles só se aproxim am da verdade quando virados pelo avesso e prom ovidos a hom ens.
Esse, de novo, é o encanto de A vida que ninguém vê. Inverter essa lógica que nos afasta para m ostrar que o Zé é Ulisses – e o Ulisses é Zé. Som os todos m ais iguais do que gostaríam os. E, ao m esm o tem po, cada um é único, um padrão que não se repete no universo, especialíssim o. Nossa singularidade só pode ser reconhecida no universal. Tudo é um j eito de olhar. Você pode olhar para o infinito, com o Carl Sagan, e descobrir que é feito da poeira de estrelas. E pode olhar para o chão e acreditar que é um cocô de cachorro. É o m esm o hom em que tem diante de si o infinito e o chão. Mas é nessa decisão que cada um se define. Com o olhar para você m esm o é um a escolha. Um exercício da liberdade, da autodeterm inação, do livre-arbítrio. Sej a generoso. Arrisque. Ouse.
Olhe.
Eliane Brum
Julho de 2006