A Vida que Ninguém Vê

Eliane Brum · Capítulo 12 de 30

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A Vida que Ninguém Vê

O menino do alto

 

A tragédia do m enino é ter nascido no lado errado da cidade. No alto do Morro da Polícia, em um barraco encarapitado sobre um a ironia. Suspenso sobre um cartão-postal de Porto Alegre, sobre a visão do Guaíba escavando a capital com o um Michelangelo. O dram a do m enino é que nasceu duas vezes. Nos prim eiros 12 anos descia a cidade vertical aos tram bolhões de criança, resvalando pelos barrancos, rindo das pedras. Espantando a fom e que assom brava a fam ília com aquela inocência que protege a infância. Suspirando por um videogam e que j am ais chegaria no Natal, m as m esm o assim sonhando com o só os m eninos são capazes. Num a das incursões à planície, aconteceu. Nem viu o carro, não viu m ais nada. Despertou cinco m eses depois. Acordou para o horror. Tinha as pernas retorcidas, as m ãos em garras. O m enino renasceu. Com o prisioneiro.

Leandro Siqueira dos Santos nunca havia reparado que nascera num a cidade partida. Perdeu a inocência no instante da descoberta. Quando os doutores disseram que nada m ais poderiam fazer por ele, o pai arranj ou um a porta velha, bichada, e sobre ela deitou o filho. Com a aj uda dos parentes, dos vizinhos, do povo de cim a, carregou-o até o alto de seu destino. Pela prim eira vez o m enino decifrou o precipício de sua vida. Pela prim eira vez sentiu m edo do barranco, das pedras, das cicatrizes escalavradas na terra. O m enino percebeu naquele exato m om ento que havia nascido com todas as pontes dinam itadas. Quando com preendeu, com eçou a envelhecer. Até a voz m udou.

O m enino é desde então um prisioneiro no alto da torre da cidade. Suas pernas eram as únicas asas que tinha para voar sobre o fosso entre dois m undos. Tão perto do céu, estava no inferno. Para os m eninos de pernas assassinadas do alto, de nada serve um a cadeira de rodas. Quem tem os dois pés precisa de outros dois. Nos dias de chuvarada só se cam inha com o bicho. Nos dias de tem pestade o m orro vira um vagalhão. É um oceano escuro que despenca arrastando pedras, plantas, bichos. Carregando gente, subm ergindo tudo em lam a. A cidade do alto é um lugar onde para ir e vir é preciso andar de quatro.

Não foi um a fatalidade que encarcerou o m enino. Foi o lado errado. Quando há quase dois anos m ergulhou no m undo dos sem im ortos, os m édicos garantiram que só um m ilagre o salvaria. Ao m enino que sofreu traum atism o craniano estava reservado o futuro das plantas. Só a fam ília acreditou na ressurreição. A m ãe abandonou o em prego num a firm a de lim peza e postou-se dia e noite ao lado do filho. Tanto brigou, a dor era tanta, que perdeu o bebê que trazia no ventre. Mas com o o m enino não fazia sentido, e quem da cidade do alto ousaria reclam ar da planície, esqueceram -se dele.

Quando se m ergulha no com a, o corpo dorm e. Os m em bros, as articulações desm aiam com o se perdessem a vida. Para que não se cristalizem no lugar errado, é preciso que um fisioterapeuta m ovim ente os pés, as m ãos, dia após dia. Não fizeram com o m enino do alto. Selaram seu destino com a displicência com que a planície trata a cidade de cim a. Não foi o acidente que roubou a liberdade do m enino. Não foi o traum atism o craniano que retorceu seus pés. Foi crim e.

Jam ais passou pela cabeça do pai, da m ãe, gritar a infâm ia infligida ao m enino. Acontece com os do alto. Arrancam sua voz ao nascer. Desculpam -se por existir. Cravam as unhas em silencioso desespero a um a vida que escorre pelos dedos. Foi assim com o m enino. O pai pedreiro arranj ou um cano velho, dobrou em form a de triângulo, am arrou em um a borracha de soro e inventou um j eito de o filho fazer fisioterapia. Grudou o pedaço de um cano de PVC j unto à cam a, cortou um a garrafa de plástico em form a de funil e criou um a m aneira de o filho urinar com dignidade. O m enino tanta força fez, tanto se agarrou ao triângulo de cano, que venceu. Abriu a garra da m ão. Desenhou um guri do m orro j ogando futebol.

Todo o esforço do m enino, porém , não era suficiente para voar sobre o abism o da cidade. Ficou m ais de um ano sem ver o sol. A fam ília conseguiu um a televisão das pequenas e um a poltrona esburacada. A vida do m enino se alternou entre a cam a e o sofá de sua cela sem j anelas. A vida se resum iu à tela da TV. Tudo o que restou de sua vida de m enino foi encarcerado num a caixinha de m adeira ao lado do colchão. Bonecos de super-heróis de desenho anim ado, um a revistinha dos Cavaleiros do Zodíaco, um a carteira com o desenho da Mônica e do Cebolinha. E preciosas figurinhas de m ulher pelada.

Há m enos de um m ês aconteceu o que raram ente acontece. A enferm eira do posto de saúde descobriu o m enino. Horrorizou-se com a indecência com etida, com o tanto que lhe roubaram . Aliou-se a ele. Um a luta invisível é travada agora duas vezes por sem ana. O pai levanta o m enino e o aj eita num a cadeira velha, com um pedaço de pau pregado de cada lado. Faz isso com o esforço de um Hércules subnutrido, m ovido por um am or poderoso. O m enino é grande, não porque bem alim entado, m as porque m esm o com tanta fom e engorda pela ausência de m ovim ento. O pai pega um a cinta velha e am arra o filho. Agarra a parte da frente, um prim o levanta a de trás. E com eçam a descida da cidade vertical.

Quando o pai raquítico carrega o filho de pernas m ortas pela escarpa de sua tragédia, o m orro para e se cala. Alpinistas da m iséria, um passo em falso pode custar a vida. Em baixo, a enferm eira espera. Ou o vizinho. Com o não há am bulância para levá-lo à fisioterapia, um e outro se alternam com seus próprios carros. A cada vez o m enino vai com o coração descom passado, a cada vez que desce sonha que subirá com as próprias pernas.

– Eu fecho os olhos e m e vej o correndo pelo m orro. Penso que vai acontecer, m as não acontece.

É um a luta grande dem ais para um m enino que nasceu no lado errado da cidade. Tudo o que conseguiu é pouco. Ainda são breves as escadarias. Enquanto acreditar no im provável há um a chance. Enquanto suspirar por um videogam e ainda resta nele algo de m enino. Por isso o povo se cala quando ele passa. Porque é só um m enino de pernas assassinadas. E sonha em construir um a ponte entre o m orro onde nasceu e a planície onde precisa chegar. É só um m enino de pernas m ortas. E não desistiu de m udar o m undo.

 

[17 de julho de 1999]