A Vida que Ninguém Vê

Eliane Brum · Capítulo 9 de 30

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A Vida que Ninguém Vê

O cativeiro

 

O Zoológico de Sapucaia do Sul abrigou um dia um m acaco cham ado Alem ão. Em um dom ingo de sol, Alem ão conseguiu abrir o cadeado e escapou. Ele tinha o largo horizonte do m undo à sua espera. Tinha as árvores do bosque ao alcance de seus dedos. Tinha o vento sussurrando prom essas em seus ouvidos. Alem ão tinha tudo isso. Ele passara a vida tentando abrir aquele cadeado. Quando conseguiu, virou as costas. Em vez de m ergulhar na liberdade, desconhecida e sem garantias, Alem ão cam inhou até o restaurante lotado de visitantes. Pegou um a cervej a e ficou bebericando no balcão. Os hum anos fugiram apavorados.

Por que fugiram ?

O m acaco havia virado um hom em .

O perturbador desta história real não é a sem elhança entre o hom em e o m acaco. Tudo isso é tão velho quanto Darwin. O aterrador é que, com o hom em , o m acaco virou as costas para a liberdade. E foi ao bar beber um a.

Um zoológico serve para m uitas coisas, algum as delas edificantes. Mas um zoológico serve, principalm ente, para que o hom em tenha a chance de, diante da j aula do outro, certificar-se de sua liberdade. E da superioridade de sua espécie. Pode então voltar para o apartam ento financiado em 15 anos satisfeito com sua vida. Abrir as grades da porta contente com seu m olho de chaves e se aboletar no sofá em frente à TV. Acorda na segunda-feira feliz para o batente. Feliz por ser hom em . E por ser livre.

Há duas m aneiras de se visitar um zoológico: com ou sem inocência. A prim eira é a m ais fácil. E a única com satisfação garantida. A outra pode ser um a j ornada som bria para dentro do espelho. Sem glamour e tam bém sem volta.

Acom panhe, se quiser.

O babuíno sagrado tem um nom e com um . Beto. À espreita, lá onde os olhos se m isturam com a m ente, há o m ais perigoso tipo de fúria. A da im potência. Beto dá voltas e m ais voltas na j aula, esm urra as grades. Atira com ida e fezes nos visitantes. Espanca a com panheira se ela não faz tudo o que ele quer. Não adm ite que em ita um som sem a sua perm issão. Não deixa que arrede pé sem a sua com placência. Se o faz, Beto cobre-a de tapas. Se a tiram de perto dele, Beto piora. Com eça a arrancar pedaços do próprio corpo. Durante as crises, Beto tom a dez m iligram as de Valium por dia.

Os tigres-de-bengala são reis de fantasia. Têm voz, possuem m úsculos, são m agníficos. Mas nascidos em cativeiro, j á chegaram ao m undo sem essência. São um desej o que nunca se tornará. Adivinham as selvas úm idas da Ásia, m as nem sequer reconhecem as estrelas. Quando o sol escorrega sobre a região m etropolitana, são trancafiados em furnas de pedra, claustrofóbicas. De nada servem as presas a caçadores que com em carne de cavalo abatido em frigorífico. De nada serve a sanha a quem dorm e enrodilhado, exilado não do que foi, m as do que poderia ter sido. E que j am ais será.

Anos atrás, um de seus bisavôs galgou a escada do tratador e espiou para além dos m uros. Foi o m ais longe que um deles chegou. São poderosos, os tigres-de-bengala. Mas quando chega a hora de serem confinados na caverna escura de sua escravidão, viram as costas para a Lua que aponta com o prom essa e m archam para a j aula. Alquebrados, subm issos, com o o m ais vil anim al da floresta.

A ursa-de-óculos é cham ada de Peposa. Com o se brinquedo fosse. O filho se cham a Ray ban, tam bém m uito engraçadinho. Quando nasceu Ray ban, ela fez o que as m ães costum am fazer: ensinou a ele a arte da resignação. Pegou-o pela orelha e carregou-o até as entranhas da furna na hora m arcada. Hoj e, Ray ban vai por sua conta. Mas, todos os dias, Ray ban desafia a m ãe, se esgueira e testa o cadeado. Sem j am ais ter aspirado o perfum e gelado da cordilheira de seus ancestrais, Ray ban não adivinha o que há do outro lado. Mas intui. E por ser criança ainda não desistiu de buscar.

Pinky vive só. Os outros dois elefantes, Nely e Mohan, caíram no fosso e sucum biram . O fosso é a prisão dos elefantes. Mohan viveu seis anos acorrentado porque o cativeiro de sua espécie ainda não estava pronto. Quando o soltaram , durou três m eses. Morreu tentando alcançar a liberdade. Ou apenas um dos cães que peram bulam por lá e são achados aos pedaços. Dos três, Nely sem pre foi a m ais indom ável. Dezenove anos atrás, m atou um visitante. Um m ineiro de Criciúm a que com em orava a aposentadoria. Recém -liberto da solidão trevosa das m inas de carvão, ele m ontou sobre Nely. Ela o derrubou sobre o chão e esm agou sua cabeça. Tão parecidos em sua tragédia, a elefanta e o hom em .

Foram três as vezes em que Nely m ergulhou no fosso. Num a delas, perdeu parte da barriga e um a m am a na queda. Não desistiu. Morreu na terceira, tentando. Com o nunca esquece, a elefanta Pinky assim ilou o exem plo. E convenceu-se de que im placável é a punição para quem ousa dar um passo além do perm itido.

A revelação dessa visita subversiva ao zoológico é que, no cativeiro, os anim ais se hum anizam . O cárcere lhes arranca a vida, o desej o e a busca. E m ais e m ais vão se parecendo com os hom ens que os procuram na certeza de um álibi. Perigosa é a pergunta.

O que aconteceria se você encontrasse a chave do cadeado invisível de sua vida? O que aconteceria se você saltasse sobre o fosso de sua rotina? O que aconteceria se você desse o passo da elefanta?

Bem , talvez sej a m elhor cam inhar até o balcão e beber um a.

 

[11 de setembro de 1999]