A Vida que Ninguém Vê

Eliane Brum · Capítulo 13 de 30

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A Vida que Ninguém Vê

O chorador

 

Na beirada do Rio Grande, Quaraí não sabe. Mas é um a cidade abençoada. Não por suas lendas nem por seu passado de glórias. Não pelo Cerro do Jarau nem por sua fronteira cortada a sangue. Nem m esm o porque as portas e as j anelas não carecem de trancas porque coisa algum a as violará além de som bras e fantasm as renitentes. Quaraí não é abençoada pelo que considera im portante. Quaraí é abençoada por causa do Tierri.

Fronteiriço feito touro chucro, ele tem a cara talhada em m adeira, larga e grossa com o um tronco de um bu. Gaúcho com o os prim eiros, os autênticos, com uns olhos de noite, os cabelos com o pelo de bicho e o corpo m aciço, feito para a lida de quem não conhece colchão. Cada m úsculo nascido com ele, sem conhecer academ ia ou anabolizante. Tierri, um m estiço com o só o pam pa é capaz de parir, sim ples com o eram as coisas e as gentes feitas entre o céu e a terra, com o no princípio. Antes que o vento com eçasse a em purrar a roda da am bição e tam bém a da fortuna. E o m undo virasse de pernas para o ar.

Tierri é o chorador da cidade. Chora os m ortos de Quaraí. Todos eles. Os ricos, os pobres, os rem ediados. Os que sucum bem de paixão, os que tom bam de doença, os que caem de cansaço. E tam bém os que arriam por desistência. Até m esm o os que m orrem porque esqueceram de viver. Tierri chora os m ortos não porque alguém tenha pedido nem porque algum parente tenha pago. Não por contrato, m as por gosto. Tierri o faz porque não chorar os m ortos é ofender os vivos. Porque chorar a m orte é sua m issão na vida.

Não há em toda Quaraí quem saiba precisar quando tudo com eçou. Filho de um changueiro m orto de paixão, com o se diz de quem sucum be dos m ales do coração, e de um a daquelas m ulherzinhas pequenas que se vê por aquelas bandas. Pequenas e m orenas que criam um balaio de filhos lavando na sanga, cozinhando na pedra, esfolando as m ãos, os j oelhos e a vontade, m as j am ais desistindo porque não conhecem tal luxo. Filho do seu Caetano e da dona Negrinha, Tierri foi batizado Salatiel Vargas, nom e de m acho com o se im põe na fronteira. E desde novo notou-se nele um a cabeça boa para as coisas do coração, desapegada das praticidades da vida.

Tierri é um passarinho cantador, que corta o pam pa sibilando seu nom e de um j eito com prido e sentido, com o se passasse a vida cham ando quem não o ouve. Salatiel tinha um irm ão assim , que cortava a cidade assobiando, zunindo nos ouvidos do povo o seu apito espichado e um tanto agoniado. Por causa desta m ania esse irm ão foi cham ado Tierri até m orrer com a cabeça despedaçada em um a cancha de futebol. Salatiel herdou então o nom e do m orto e virou Tierri. E Tierri será até o dia de sua m orte.

Não há cristão, evangélico ou ateu que saiba dizer por aqueles lados com o foi que se passou. Num daqueles dias agourentos do pam pa, quando o ar se anuncia com o desgraça e até as vacas se constrangem de m ugir, Tierri apareceu no velório. Trazia um lenço grande, encardido com o se tivesse sido lavado no barro, e, m al avistou o defunto, j á com eçou a chorar. Não o choro com edido da boa educação, com lágrim as pingando à unidade, com o se o olho tivesse sido torcido. Nem o pranto do crocodilo, com um a vista no caixão e a outra na herança. Mas o choro copioso, em vagalhão, despej ado de dentro do peito com o se toda a sua vida fosse não m ais do que um preâm bulo para aquele m om ento.

Era de tal qualidade o choro de Tierri que apavorou a viúva, os filhos e os parentes. E só não assustou o defunto porque este j á estava esquecido das m isérias terrenas, preocupado apenas em desencarnar o m ais breve possível e não prolongar nem um m inuto a m ais sua estadia na terra. Tierri chorava aos soluços, dava para ouvir o galope do peito. Chorava um choro chorado, alquebrado sobre o ataúde, m irando o defunto com o se não quisesse esquecer nenhum detalhe do rosto que a terra em seguida engoliria, com indiferença e tam bém com generosidade. Não contente em chorar, gem er e suspirar em volum e m áxim o, Tierri ainda beij ava o esquife, com uns beij os chupados, babados e estalados. E bradava, a quantos andassem por ali:

– Morreu, m aninha!

Desde então, lá se vão anos e até décadas, Tierri vem chorando todos os m ortos de Quaraí. Não se sabe com o descobre nem com o tão rápido aparece, m as m uitos j á foram os velórios em que Tierri chegou j unto com o m orto, antes dos parentes. Basta a notícia o alcançar para largar tudo de pronto. Sobe no prim eiro ônibus e desem barca na funerária. Chega, vai sacando o lenço do bolso e se põe a fungar com o se não vivesse para outro fim . Deixa patrão em penhado, biscate pela m etade, j ornal por entregar, cam inho pelo m eio. Não há nada m ais forte para Tierri do que o cham ado dos m ortos. E aquele índio graúdo, largo com o um boi de canga, chora tanto, tão bem e tão sentido que recebe os pêsam es com o se parente fosse.

Tanto é o seu em penho em atender aos finados com presteza que, às vezes, Tierri se precipita. Dias atrás avistou a am bulância na porta e j á foi adentrando na casa. O doente não pensava em m orrer, sequer ensaiava uns passinhos no além . Tierri desdobrava o lenço quando foi corrido com o m au agouro. Saiu com um a lágrim a escorrendo do canto do olho, um a que não conseguiu recolher a tem po. Tal é a ânsia de adivinhar o desenlace para prestar com brio as fúnebres hom enagens, que Tierri acabou por se tornar o flagelo dos velhinhos da cidade. Mal adivinha um passeando seus passos vacilantes pelos lados da praça e j á sai correndo atrás. Se atira às costas do pobre e sentencia, de j oelhos e m ãos em prece:

– Este vaaai!

E sem pre que lhe perguntam por que abre as com portas dos olhos para todo e qualquer defunto, sem ver idade, sexo, raça, religião ou posses, Tierri responde do m esm o j eito. Arregala os olhos com o se não entendesse tão descabida questão e despej a seu vozeirão enrolado:

– É m eu am igo.

Tierri chora generosa e dem ocraticam ente. E, se aos m ortais com uns a vida não reserva nenhum a certeza, em Quaraí o povo pode m orrer sossegado.

Por isso é um a cidade abençoada. Por causa não de suas glórias passadas nem de suas lendas contadas nem de seu alardeado sossego. Mas porque é a única onde um cidadão pode viver com a certeza de que será chorado na m orte. Não um choro pingado nem um pranto interesseiro. Mas um choro afogado, do fundo do peito, com o se não houvesse vivido no m undo pessoa m ais am ada, querida e acalentada. É essa a m issão de Tierri, de quem às vezes o povo ri ou j udia. Esse Tierri hum ilde, que m uita gente arrelia, entendeu que não havia nada m ais nobre do que dar im portância na m orte m esm o a quem não a teve na vida. Ele, que conhece na pele e na herança a desigualdade da sina, inventou um j eito de igualar a todos pelo m enos no últim o dia.

Talvez tudo o que Tierri espere é que, quando tam bém ele se for, Quaraí lhe dê na m orte a im portância que não lhe deu na vida. E chore um choro sentido, fungado e babado pela m orte de quem por ela chorou toda a vida.

 

[6 de novembro de 1999]