A Vida que Ninguém Vê

Eliane Brum · Capítulo 5 de 30

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A Vida que Ninguém Vê

Adail quer voar

 

Ele se cham a Adail José da Silva. E vive no portal do céu. Onde o Rio Grande decola para o m undo. E o m undo aterrissa no Rio Grande. Desem barcou ali, defronte ao Aeroporto Salgado Filho, 36 anos atrás. E a diferença se deu logo no início, nesse pouso atabalhoado. Porque chegou num ônibus de m olas cansadas, em erso da serra gaúcha, onde tinha as m ãos m anchadas pelo sangue dos pinheirais. Chegou apavorado porque o único avião que vira na vida estava espatifado nas encostas de Canela, pássaro decaído que durante sem anas hipnotizou um a legião de colonos que só voavam com os dois pés no chão. Chegou com a m ala verm elha, de couro, m eia dúzia de tarecos dentro, grudada no corpo. Estaqueou na porta do aeroporto, naquele tem po m etade do que é hoj e, m as j á enorm e para ele. E se recusou a entrar.

Os colegas o em purraram . E Adail entrou aos tropeços. Com a sua m ala desaj eitada, sem um bilhete de viagem . Iniciou ali, naquele alvorecer de outubro de 1963, um a j ornada sem sair do chão que dura até hoj e. E tornou-se o que seria para o resto de sua vida. Adail tornou-se “o negão” das bagagens. Descobriu assim a relatividade das distâncias. Porque ele, tão perto, esteve sem pre tão longe. A m enos de um a centena de passos das asas do avião, j am ais conseguiu alcançá-las.

Restou a Adail am ar os perfis alados de seu destino à distância. Ele, que desde o prim eiro dia j am ais encontrou explicação para o voo de tal estardalhaço. Tanto ferro, tanta gente, tanta m ala. Com o é possível, virgem nossa? Enchendo a barriga dos pássaros de aço, Adail viu o m undo passar por ele num vaivém assustador. E desej ou ser a bagagem que em panturra o avião. Viu todos os presidentes, de Jango a FHC. Viu Pelé, viu Roberto Carlos, envelheceu com Tônia Carrero, carregando a m ala daquela que para ele ainda hoj e é a m ulher m ais bela do Brasil.

Adail viu o m undo e o m undo nem sem pre viu Adail. Mudou o m undo e m udou Adail. Mas nem o m undo nem Adail m udaram o suficiente para encolher a distância entre o carregador e o avião. Porque, aos 62 anos, Adail segue sendo o que o doutor grita lá da porta do desem barque: “Ô, negão”. E o m undo segue sendo do doutor. Mas Adail, ah Adail, Adail não desistiu de voar.

* * *

– O senhor não queria entrar no aeroporto. Por quê?

– Achava que não era serviço de homem. Passei mais de ano me escondendo no aeroporto. Aí me acostumei e virei vagabundo.

– Vale a pena viver perto dos aviões?

– Fiz casa que não é boa mas é minha, criei três filhos... Tudo na base da aviação. Pra mim, a aviação caiu do céu!

– O que é chato nessa vida?

– Me chateia quando aquele povo exibido que vai pros Estados Unidos desembarca falando mal do Brasil. Aí é lacaio, né. Porque eu não conheço outros lugares, mas sei que não tem país melhor que o Brasil. Não conheço, mas ouço tudo o que falam no aeroporto. Os Estados Unidos podem ser cheio das democracia, mas vai ver como tratam os negão lá, vai ver.

– E com o os fregueses o cham am ?

– Os doutor me chamam assim, ó: “Ô, Negão!” Eu acho até que é carinhoso.

– O senhor cham a eles de doutor?

– Pra mim todo mundo é doutor. Pisou no aeroporto é doutor. É ó, doutor, como vai, doutor, é pra já, doutor...

– É esse o segredo do serviço?

– Tem que ter humildade. Não adianta ser arrogante. Porque se eu fosse um cara importante não ia tá carregando a mala dos outros, né? Sou pé de chinelo. Então, tenho que me botar no meu lugar.

– Qual o lugar m ais longe que foi na vida?

– Criciúma (em Santa Catarina). O vizinho me levou pra comprar roupa. Cheguei ali na divisa e disse: “Bah, saí fora do Brasil!”

– O que acha m ais bonito no avião?

– A decolagem. Sempre que eu posso subo lá em cima e dô uma espiada. Até hoje não achei explicação. Parece que não vai sair do chão, aí levanta e fica parecendo um passarinho. Um urubu.

– O senhor quer voar?

– É o meu sonho. Mas perdi a esperança. Pobre não voa.

– Queria voar para onde?

– Pra Aparecida, pagar uma promessa. Faz 15 anos que prometi que ia até lá se Nossa Senhora curasse a minha perna. Q uase nem caminhava mais. Ela curou. Eu tentei ir com a minha senhora, Maria Cedir, mas nem de ônibus dá o dinheiro.

– O que o senhor prom eteu para a santa?

– Tenho que botar uma meia minha lá no altar.

– E com o o senhor acha que é voar?

– Deve ser uma alegria. Eu vejo aquele mundaréu de gente tudo alegre. Só pode ser bom esse tal de avião!

– Com o o senhor im agina?

– Nem sei como é que a gente tem que se portar dentro de um monstro daqueles. Sabe me dizer se eles encaminham a gente até o lugar?

– Me conta com o é o seu sonho...

– Eu queria ir num DC-10, o maiorzão de todos. E na poderosa, a Varig. Eu ia mandar lavar um terno velho que eu tenho e ia sentar na primeira classe. Com tudo que tenho direito. Lá onde não tem fila, só finório. E fazer como os doutor. Chegar e dizer (empina o queixo, emposta a voz e imita): “Primeira classe”.

– E depois?

– Ia sentar que nem um tubarão. E fumar um bom de um charuto. Depois ia apontar pra aeromoça. Aquele uisquezinho importado ali. Aí já tava realizado. Não faltava mais nada na minha vida.

– E o que ia com er?

– Comer? Tem que comer? Acho que não ia comer. Tô acostumado com o feijão e arroz lá de casa. Mas, se desse para pedir qualquer coisa, aí eu ia pedir um camarãozinho.

– O senhor gosta de cam arão?

– Eu nunca comi. Q ueria saber como é.

– E quando voltasse?

– Ia chegar lá na minha terra e dizer pros parentes: “Andei de avião”.

– E com que m ala iria viaj ar?

– Sabe que não tenho mala? Pra andar de avião eu ia comprar uma daquelas com rodinhas. Acho muito bacanas.

– E quem ia carregar para o senhor?

– Ah, o Alemão. Ele é muito arrogante. Eu ia dar dez pilas e mandar ele carregar a mala do negão.

– E com o será o dia em que o senhor voar?

– O dia em que o pessoal do aeroporto vai dizer: “Lá vem o doutor Adail”! E, pelo menos nesse dia, o doutor sou eu.

[12 de junho de 1999]