A Vida que Ninguém Vê

Eliane Brum · Capítulo 19 de 30

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A Vida que Ninguém Vê

A voz

 

Clodair não enxerga um palm o adiante do nariz. Nem o próprio nariz. Nada. Em com pensação, que voz! Grave com o um dó de peito. Potente com o um a tuba. E de longo, longuíssim o alcance. Voz de Cauby Peixoto!

– Conceiçãoooooooooo! Eu m e lem bro m uito beem ...

Essa aí.

Pois então. Essa voz de Cauby tornou-se o flagelo da esquina da Ladeira com a Rua da Praia, em Porto Alegre. Im agina o Cauby, das 7h45 até as 10h. De terça a sábado:

– É houuuuuuuuj e a m ega-sena acum ulada. R$ 40 m ilhões! É houuuuuuj e!

Ininterruptam ente. Seiscentas e setenta e oito vezes.

É. Não tem sido exatam ente um sucesso de público e crítica.

Tem sido um a guerra. Cega, é verdade, m as j am ais surda ou m uda. E está num m om ento periclitante. Clodair Cauby se posta perpendicularm ente ao curso supletivo e pré-vestibular Monteiro Lobato. E eleva seu canhão de cordas aos céus. No segundo andar, o diretor da escola, Bruno Eizerik, fala por telefone com a agência de publicidade de São Paulo.

– O que está acontecendo aí em Porto Alegre? Que m anifestação é essa? – pergunta o paulista incauto.

– É aquele cego!!! – m urm ura Bruno. – Aquele cego!!!

No sexto andar, Pinheiro Eizerik, o fundador do curso, tenta com bater o petardo que sobe – e sobe – com um concerto de Tchaikovski transm itido pela Rádio da Universidade. Só tenta. O radinho Phillips trem e, m as o resultado é, no m áxim o, um a fusion entre Tchaikovski e Clodair Cauby. Tchaikovski e “o úúúllllllltim o bilhete prem iado a um real”.

– Fracassei – diz ele.

Um Napoleão diante de Waterloo. A m ágoa aflorando no ditongo decrescente. No oitavo, Evelise Bernardes, estudante do pré-vestibular, ignora os m istérios das orações sindéticas adversativas. Está à beira de com eter um ato im pensado, resvalar para a insanidade, para a m aldade explícita. Evelise quer torturar o cego! E transform ar-se na inim iga núm ero um das associações de defesa dos direitos hum anos, das m inorias desfavorecidas. Ela escreve no caderno com o o personagem de Jack Nicholson em O iluminado. Em transe:

“Das 6h40 às 10h45, ele gritou sem parar:

– Quina m ilionária!

– É pra hoj e!

– R$ 25 m il!

– É pra hoj e a quina m ilionária!

– É pra hoj e a quina acum ulada!

– É pra hoj e 25 m il!”

Evelise m atriculou-se no curso em agosto e transform ou-se na com andante em chefe da brigada anticego do curso. Tudo porque, novata, resolveu descer até a rua para perguntar se Clodair Cauby não poderia fazer o obséquio de gritar em volum e m ais baixo. Clodair Cauby não gostou da interrupção abrupta de sua expressão artística. E brandiu – apenas brandiu – um a bengala que é um a velha conhecida no centro da cidade. Parece um a bengala, funciona com o bengala, tem a m aior pinta de bengala. Mas é um a arm a. De m etal. Clodair Cauby, no afã de defender seu modus vivendi, foi tam bém um pouco im publicável, é verdade.

Evelise chegou à conclusão de que pior, m uiiiiito pior do que ser reprovada no vestibular para Direito, era ter de repetir o cursinho com Clodair Cauby.

Proprietária recente de olheiras fundas, Evelise escreveu um abaixo-assinado com ovente ao 9º Batalhão da Polícia Militar. Nele, relata a “neurose coletiva” que acom ete os alunos cada vez que Clodair Cauby solta o dom que Deus lhe deu para com pensar o que lhe tirou.

– Ele nos subm ete a tortura psicológica! Nos agride com palavrões! Dá bengaladas! – desabafou Evelise.

Sério, m uito sério.

Tão sério que alguns estudantes j á cogitaram reeditar um clássico de Hitchcock. Pensaram em polvilhar Clodair Cauby com com ida para pom bos e deixá-lo entregue aos bicos ávidos dos pássaros. Pensaram em m ais. Pensaram em ... bem , m elhor não.

De sua parte, quando abordado sobre o tem a, Clodair José Pinheiro Maidana, Clodair Cauby, revira os olhos em sinal de superioridade. Sua voz se eleva acim a dessas questões terrenas. Uns nove andares acim a, pelo m enos. É um hom em do Alegrete. Quarenta e dois anos. Fã não de Cauby Peixoto, m as de Renato e seus Blue Caps. Pai de um casal de filhos. Morador do Leopoldina. Zagueiro (obviam ente) do seu tim e de futebol de guizo. Ganha uns R$ 25 por cada dia de três horas de trabalho, terça a sábado.

– Só saio daqui se m e pagarem R$ 130 por m ês. Ou se m e derem um em prego de telefonista no curso.

Ponto final. A uns passos de Clodair Cauby, sua m ulher, Eva, que conheceu nos dancerês do Instituto Santa Luzia para Cegos, tem um a voz de m etais. Triângulo, por exem plo. Faz o backing vocal.

– Não posso dar contra no m eu m arido – explica, toda aguda.

Em casa, ela j ura que ele não grita. Muito.

A voz virou caso de polícia, registrado na 17ª Delegacia de Polícia da capital. Já peregrinou pela Justiça. Em 5 de m aio, Clodair Cauby prom eteu, durante audiência no 3º Juizado Especial Crim inal, que gritaria “em tom m ais baixo”.

Clodair Cauby não consegue. Gosta de fazer seu trabalho bem feito. Extravasar seu eu m ais profundo. Entoar a sorte para o povo de um a ponta a outra da Rua da Praia. Na rua, aliás, é popular. Todo m undo conhece – ele, a voz e a bengala.

– Ah!!!!! Não m e diz que é o cego que grita? Eu fora!

Um com panheiro de m etiê com voz de João Gilberto – dá para passar horas encantadoras ouvindo ele cantar a m ega-sena em ritm o de bossa-nova – acha que ele poderia controlar o vozeirão, m as prefere não trom bar de frente com o colega. Nem de lado. Nem de j eito nenhum . Se até o palhaço que volta e m eia saracoteia por lá andou levando um as bengaladas e m eio que desengraçou!

Ninguém sabe com o vai acabar a história. Em bora o povo da rua estej a apostando em Clodair Cauby por 10 x 0.

Por ora, ela está acabando assim .

Às 10h, pontualm ente, Clodair Cauby e a patroa se encontram em um ponto invisível no m eio dos dez passos que os separam , se dão o braço e saem com suas respectivas bengalas rua afora.

No alto do prédio, 450 alunos suspiram de felicidade com a cabeça para fora da j anela. Por pouco não fazem ola.

Em baixo, Clodair com enta com a patroa, espraiando seu vozeirão de Cauby :

– Sabe, Eva, tu não im aginas a dor de cabeça que m e dá gritar desse j eito!

 

[27 de novembro de 1999]