A Vida que Ninguém Vê
O dia seguinte
O DIA SEG UINTE
Depois da filha, Antonio sepultou a mulher
No entardecer de 22 de j unho, um hom em cham ado Antonio Antunes, 37 anos, sepultou a filha num a cova rasa do Cam po Santo, no Cem itério da Santa Casa, em Porto Alegre. Ao final do enterro, Antonio, descascador de eucalipto no m unicípio de Butiá, pronunciou um a frase que calou os poucos que o acom panhavam no Cam po Santo:
– Esse é o cam inho do pobre.
Antonio sabia o que estava dizendo. Mas não tinha ideia de o quanto a frase se revelaria ao m esm o tem po sentença e profecia. Cinco dias depois de sepultar o bebê, sua m ulher, Lizete, m orreu num leito de hospital.
Cláudio Ribeiro, diretor do Hospital Fêm ina, o prim eiro estabelecim ento de saúde onde ela foi atendida, na capital gaúcha, explica que Lizete m orreu de um acidente vascular cerebral (AVC), resultado do grande volum e de sangue perdido. A criança sucum biu por asfixia antes do parto. Mas o que m atou Lizete e sua filha foi provavelm ente um a crim inosa conhecida: a saúde pública. Muito além do AVC, Lizete foi assassinada aos 26 anos – e sua filha antes m esm o de nascer – pela pobreza.
Acom panhe o calvário de Lizete.
Na sexta-feira, 18, ela tinha dois dos quatro filhos internados com pneum onia em hospitais de cidades diferentes. Luiz Oscar, de cinco anos, lutava contra a doença na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Santo Antônio, em Porto Alegre. Fernanda, de seis, ocupava um leito do Hospital de Butiá. Luiz Oscar e Fernanda sofrem de paralisia cerebral e j am ais cam inharam . A conselheira tutelar Maria Helena Villodre Rodrigues, de Butiá, diz que as duas crianças tiveram paralisia cerebral em decorrência de problem as nos partos, realizados em hospitais da região carvoeira.
Era a quinta gestação de Lizete. A conselheira conta que não sabia sobre a gravidez. Antonio afirm a que a m ulher estava no oitavo m ês. No encam inham ento da paciente, recebido pelo Fêm ina, o m édico de Butiá inform ava que Lizete tinha três m eses de gestação. O diretor do Fêm ina acredita, pelo peso do bebê, que Lizete estaria no sexto m ês.
Enquanto cuidava de Luiz Oscar, Lizete foi cham ada às pressas pela conselheira para atender Fernanda, que havia piorado. Com o o Hospital de Butiá exige acom panhante perm anente, Lizete ficou ao lado da filha. Por volta da m eia-noite daquela sexta-feira, sentiu-se m al, foi ao banheiro e descobriu que estava com hem orragia. Às 2h de sábado, chegou em casa sangrando m uito. Acabava de cam inhar os dois quilôm etros que separam o hospital da casinha alugada na Vila Julieta. Disse a Antonio que pediu socorro no hospital, m as que não a aj udaram . Em lugar de assistência, contou que recebeu apenas um a outra calça e um a cam iseta para botar entre as pernas. Deitou-se e disse ao m arido que fosse ao hospital porque a m enina não podia ficar sozinha.
Ao am anhecer, Antonio voltou para casa. Lizete só gem ia. Apavorado, pediu a um vizinho que lhe desse um a carona até o hospital porque a m ulher não conseguia cam inhar. No hospital, Antonio conta que o m édico olhou e disse:
– Isso não é com igo. Tem de ir a Porto Alegre.
Com o a am bulância dem orava, Antonio am eaçou:
– Vocês vão deixar ela m orrer só porque eu sou m oreno? Se dem orarem m ais um pouco, eu vou cham ar a polícia.
Às 12h33, a am bulância de Butiá descarregou Antonio e Lizete no pátio do Hospital Fêm ina, onde foi constatado o descolam ento prem aturo de placenta. Ela j á estava anêm ica devido à prolongada hem orragia. O bebê ainda estava vivo. Às 13h15 foi feita a cesariana. O coração da m enina de 960 gram as j á havia parado de bater, vencido pela asfixia.
O estado de Lizete era gravíssim o. Devido à dem ora no atendim ento, ela estava com o que se cham a de coagulopatia de consum o – todos os elem entos que atuam na coagulação m igram para o local da hem orragia, deixando a descoberto os outros órgãos do corpo, inclusive o cérebro. No dia seguinte, dom ingo, 20, ela foi transferida ao Hospital Conceição porque precisava de um a UTI. No dia 23, foi levada ao Cristo Redentor, especializado em neurocirurgia. Um a tom ografia revelou edem a cerebral intenso e hipertensão endocraniana. No dia 25, entrou em com a. Morreu às 9h20m in do últim o dom ingo, na UTI do Cristo Redentor.
O descolam ento prem aturo de placenta é um problem a grave na gestação, m as faz parte da rotina das m aternidades.
– Quanto m ais cedo se faz a cesariana, m aiores são as chances da m ãe e da criança. Se a intervenção é im ediata, as chances de sucesso são de 100%. No caso da Lizete, fizem os o que podíam os, m as ela chegou aqui tarde dem ais – afirm a o diretor do Fêm ina.
Bebês prem aturos tam bém fazem parte do cotidiano das m aternidades. No Fêm ina, se consegue salvar bebês com m ais de 600 gram as. O bebê de Antonio e Lizete pesava 960 gram as. Morreu por asfixia porque a cesariana foi feita tarde dem ais.
Claudio Netto Sam paio, adm inistrador do Hospital de Butiá, instituição sustentada por um a fundação m unicipal, disse ontem que desconhecia o caso. O chefe do plantão do hospital, José Antônio Sarávia, ouviu os funcionários envolvidos na tarde de ontem , depois de procurado por Zero Hora:
– Pelo que m e contaram , Lizete disse às funcionárias que estava m enstruada e por isso vestiu um a roupa do hospital. Foi em bora e, quando o m arido chegou para cuidar da m enina, disse que ela tinha abortado, o que causou estranheza nas enferm eiras. No dia seguinte, o m édico diagnosticou aborto incom pleto e a enviou a Porto Alegre para fazer a curetagem , j á que não tem os com o fazer. É isso o que eu posso dizer no m om ento.
O Hospital de Butiá, conform e Sarávia, tem todo o equipam ento para realizar cesarianas, m as não as faz por falta de verbas. O plantão m édico de urgência está entrando no terceiro m ês sem pagam ento. A situação foi definida por Sarávia com o “calam itosa”.
Um dia depois de sepultar a m ulher, sete dias após o enterro da filha, Antonio balbuciou outra frase solitária. Dessa vez um desej o:
– Eu espero nunca m ais precisar pedir socorro em hospital.
EPÍLOG O
Lizete foi enterrada em Butiá na m anhã de segunda-feira. Na terça, Antonio preparava um arroz com linguiça para os dois filhos sadios no casebre alugado e agora vazio. No arm ário m eio capenga, duas contas de luz atrasadas e um aviso de corte. Puxando um carrinho de plástico, Bruno, de três anos, pedia pela m ãe. Fernando, de oito, aj udava o pai em silêncio. No Hospital de Butiá, Fernanda tinha alta, m as não se sabia para onde levá-la. A conselheira tutelar tentava evitar que fosse enviada para a unidade especial da Febem . Em Porto Alegre, no Hospital Santo Antônio, Luiz Oscar respirava com a aj uda de um tubo de oxigênio. Na próxim a segunda-feira, Antonio voltará a descascar eucaliptos para viver. Antes de perder a consciência, Lizete agarrou a sua m ão e fez com que prom etesse que m anteria os filhos unidos.
[1º de julho de 1999]