A Vida que Ninguém Vê
Dona Maria tem olhos brilhantes
Você j á reparou nos olhos das pessoas na rua? Muitas têm pupilas opacas e, j unto com os om bros voltados para dentro, arqueados com o se carregassem um a canga de boi, esculpem a im agem de um a infelicidade crônica, venenosa e que m ata devagar. Têm olhos de seca, olhos assassinados. Porque os olhos são os prim eiros a m orrer. E as ruas estão cheias de m oribundos. Quando aparece alguém de olhos brilhantes, dá vontade de parar, pedir licença e intim ar: o que você está escondendo atrás dessas pestanas?
Dona Maria tem olhos brilhantes. Maria Alícia Freitas, 55 anos, dez filhos, onze netos e um bisneto, tem olhos brilhantes. Sabe por quê? Porque dona Maria tem um sonho. Descobriu que tinha aos nove anos e conseguiu realizá-lo aos 55. Sim , porque sonhos não se encontram nas prateleiras, não basta atirar o cartão de crédito no balcão e sair com um debaixo do braço. Sonhos são touros xucros. Tem de pegar à unha. É isso ou ficar pelos cantos exercitando a autocom iseração, chapinhando na apatia.
Dona Maria tem olhos brilhantes porque corre atrás do seu. E desde então, deu para ficar com os olhos em facho por aí, alum iando o cam inho.
Ela nasceu num lugar cham ado Paraíso, m as povoado de agruras. Dona Maria, que ainda nem era dona, era pobre. De bens, não de espírito. Os pais logo se apartaram e ela passou de m ão em m ão com o um gato. Se criou assim , carpindo na roça, apanhando feito bicho. Única criança num grotão desgarrado do m undo. Só conheceu outras m eninas quando a fam ília se bandeou para um rincão m ais habitado. Descobriu que iam a um a tal de escola. E que lá era cheio de letras. Letras distantes com o a lua, porque a m ãe garantiu que Maria era burra dem ais para alcançá-las. Aos nove anos, com o peito estourando, Maria j urou: m eus filhos vão estudar.
Maria cresceu e virou dona. Pariu nove rebentos em sequência. E quando os dois prim eiros ficaram no ponto, avisou ao m arido Gom ercindo: eles vão estudar. Gom ercindo não quis saber do assunto, desde quando filhos de analfabetos precisavam de vogais e consoantes. Dona Maria cerrou os dentes e diz que apanhava, m as os filhos seguiriam para o colégio tão certo quanto o sol nascia. Era 12 de m arço de 1964, ela lem bra m uito bem . O barrigão de nove m eses estalava de dores quando cam inhou arrastando Edir e Marlene pelos seis quilôm etros de chão que os separavam da escola da Vila Rosa. Matriculou os dois filhos de m anhã, com prou pata de rês para arrancar o m ocotó, j untou lenha no m ato, lavou roupa no rio Jacuí e ao anoitecer se deitou para parir Juraci.
Trabalhando dobrado para com pensar a falta dos filhos na lida, voando com os bofetões do m arido, cum priu seu j uram ento. João Edir, Paulo César, Juraci, Larri e Toninho, o filho de criação, ela form ou na quarta série. Ieda Marlene, Marli Ledi, Marisa Laureci e Marleci Rosane foram até a quinta. Gom ercindo Júnior cursa o ensino m édio. Tudo à luz de vela, que da outra não havia. Há 15 anos m orreu o m arido. Há dez, dona Maria encontrou o am or debaixo de um chapéu de barbicacho. Todos acharam que o destino havia se cum prido. Porque não conheciam bem dona Maria. Um belo dia, pouco m ais de um ano atrás, ela cravou o olho no am ado e sentenciou: Eu vou pra perto da capital procurar as letras. Se tu quiser vir com igo, tu vem porque eu te am o. Se não quiser, eu vou sozinha. Meu sonho é m aior que tudo.
O am ado ficou. Dona Maria pegou em prestado o cam inhão da olaria, botou suas tralhas por cim a, os 800 reais das econom ias, um rancho para escapar da fom e e se foi para Viam ão, a um passo da capital. Partiu sem se despedir, que era para não afrouxar. Matriculou-se a prim eira vez. Durou um a sem ana e faltou professor. Inscreveu-se um a segunda. A professora desistiu. Dona Maria se desesperou: professora, eu larguei a m inha casa, a m inha terra, o am or da m inha vida para estudar. Não m e deixa. Eu preciso aprender a ler.
E, para sua surpresa, chorou. Matriculou-se m ais um a vez. E de novo o alfabeto fugiu com a professora. Até que o neto apareceu com um bilhete da prefeitura perguntando se alguém ali tinha curiosidade com o ABC. Dona Maria se largou no rum o da escola. Dessa vez, a professora, Neiva Rosa, não a deixou. De segunda a quinta-feira, depois de trabalhar com o dom éstica e babá, dona Maria pega a trilha da escola ao anoitecer. Encara 45 m inutos de cam inhada lom ba acim a, porque dinheiro para o ônibus não tem . Vai para dentro do seu sonho. Vai com os olhos alum iando o cam inho.
LENDO O MUNDO
– Diga aí, dona Maria, o que a senhora está escondendo por trás dessas pestanas?
– É o seguinte. Eu me sentia a última das pessoas. Sei costurar, fazer roupa de homem, de mulher e de criança. Sei bordar, fazer crochê e tricô. Mas o que adianta isso sem saber ler? É como estar com sede e tomar refrigerante. Eu preciso de água.
– E o que é não saber ler?
– Não saber ler é o mesmo que ser cego. É não saber o que tem do outro lado da parede.
– Qual foi a prim eira palavra que leu?
– Igreja. Vi o “i”, aí comecei a pensar. E fui juntando. E deu “igreja”. Nossa, me deu uma coisa. Foi quase como o primeiro filho. Porque o que eu mais quero é ir na igreja, pegar a folhinha e ler.
– Qual foi a palavra m ais difícil?
– Previdência. É muito dobrada.
– Me conta um a palavra esquisita.
– Esquisita, esquisita, não sei. Mas vou contar uma. Meus filhos me deram uma geladeira. A primeira da minha vida. Nove vezes de 88 reais. Eu tava esperando e comecei a ler a palavra. Ia até um pedaço, parava, voltava de novo. Era umas quantas letras. Aí eu li “crediário”. Cutuquei meu genro: “Darmir, Darmir, aquilo lá não é crediário?” Meu genro, que é um homem peludo, se arrepiou todo.
– E isso m udou a sua vida?
– Sabe flutuar? Q uando pego meu caderno e leio, parece que tô flutuando. O mundo fica mais bonito, o céu fica mais azul e o verde, mais verde.
– O que dá dentro da senhora quando lê?
– Cada palavra que eu consigo ler é um horizonte que tá se abrindo na minha cabeça. E eu vou correr atrás dele. Ah, eu vou mesmo.
– E até onde a senhora vai com isso?
– Não sei onde as letras vão me levar. Tô bem desconfiada que isso não para mais.
– Depois de ler a folhinha da igrej a, o que a senhora quer ler?
– Eu quero ler em quem eu vou votar. Até agora fui pelos outros. Agora, quero ler, analisar e votar.
– E afinal, o que é ler?
– É assim. Eu achava que letra era letra. Era como uma toalha de mesa. Não tinha vida. Esses dias tava no colégio, olhei e descobri que as letras têm vida. Eu leio e elas conversam comigo, me dizem o que eu preciso. Contam coisa que eu nem imaginava. Tipo “M” de Maria, né? É só um “M”, mas quando junta tudo, a Maria fala comigo. A Maria fica viva.
[22 de maio de 1999]