A Vida que Ninguém Vê

Eliane Brum · Capítulo 7 de 30

Páginas do PDF

A Vida que Ninguém Vê

Um certo Geppe Coppini

Um certo G eppe Coppini

 

Vocês acham que Geppe Coppini é louco?

– Pois eu digo. Geppe Coppini é o m aior vivaldino que Anta Gorda j á criou.

Seu Dem étrio Zuffo abre bem os braços, olha para os rostos estupefatos de seus interlocutores e dá seu parecer. Todos em Anta Gorda têm algo a dizer sobre Geppe Coppini. Todos. Geppe está para o m unicípio do Vale do Taquari com o a unha para a carne, a pétala para o m iolo, a corda para a forca. Sim , ele. Um certo Geppe Coppini.

Vou contar, então, a história desse tal de Geppe. E quando eu term inar m e digam vocês quem é, afinal, Geppe Coppini.

Geppe é o m endigo, dizem . O único m endigo de Anta Gorda. Mas não um m endigo qualquer. Inclusive, pairam dúvidas sobre o fato de Geppe ser ou não ser um m endigo. Mendiga era Riqueta, a bela Riqueta, tão bela que poderia ter sido Miss Anta Gorda. Riqueta que se enam orou de um tal doutor Brandão, o j ovem m édico da cidade, e enlouqueceu de am or. Voltou de um a sessão de feitiços em Porto Alegre doida de atar. E desde então peram bulou pelo m unicípio seguida por um cortej o de cuscos. Num a m adrugada, daquelas m adrugadas que só existem naquele vale, com as estrelas escorregando pelos telhados, o barraco de Riqueta incendiou-se. Os ossos encontrados pertenciam a seus cães. E até hoj e a cidade vive dobrada por esse m istério. Vive com esse ponto de interrogação pendurado, com o diz novam ente seu Zuffo.

Geppe Coppini não. Geppe Coppini é um a incógnita porque nunca pediu nada. Não há ninguém , em toda a Anta Gorda, que possa afirm ar que Geppe tenha pedido algum a coisa. O que seria Geppe então? Dizem que um bam bino com o todos os outros da Linha Terceira Moresco, nascido Josephino Coppini em 11 de novem bro de 1908. Pois até os dez anos, Geppe era apenas um gurizote de calças curtas e pernas finas. Foi quando um a cigana de lábios de cicuta apareceu naquela fatia im portada da Itália. Todas as ciganas são am eaçadoras para os descendentes de italianos, que vislum bram no rodopio de suas saias a depravação da ordem do m undo. Dizem até, madonna mia, que nem calcinhas usam . Pois essa, específica, rogou um a praga para o m enino Geppe, depois que seus pais a expulsaram de suas terras. “Enquanto viver, esse guri nunca m ais terá bem .” Foi o que a m ulher pronunciou com um a força de lei, os olhos de gato faiscando.

E desde então Geppe m udou. Passou a alisar o tronco das árvores com as m ãos por horas a fio. E, ao contrário da tropa de irm ãos, decidiu que não trabalharia. Louco, louco. O m enino está variado, foi o que o povo disse. Foi despachado para sanatórios na capital. Fugia e voltava a pé para o vale, um passo atrás do outro com seus tam ancos de m adeira, um a parada aqui e acolá para acariciar um a árvore conhecida. E a cidade, resignada, foi se acostum ando a Geppe Coppini.

Por quase todo esse século, Geppe peregrinou pelas hortas e pelos pom ares vivendo de verduras, frutas e legum es. Dorm iu no paiol das casas, aconchegado ao ventre das vacas. Pelo m enos fecha a porta, gritou certa feita à dona Rosa Trem ea, que escancarava o seu paiol para tirar o leite da m alhada, sobressaltando os estranhos sonhos de Geppe. Por últim o, carregou seus sustos para o porão da casa de dona Nineta Contini, que o herdou da m ãe, a prim eira a arrum ar um canto da casa para Geppe, o variado.

Por quase todo esse século, Geppe não perdeu um casam ento, um enterro, um a com em oração de santo. Depois que o vídeo desem barcou em Anta Gorda para registrar as festas, Geppe aparece em todas as fitas. Ocupa o prim eiro banco na igrej a e, quando chega a hora, tira do bolso um fiorin. Solene, o deposita na cestinha da oferenda.

Quando passou dos 60 anos, um cidadão conseguiu um a aposentadoria para ele. Geppe tem até carteira de trabalho. Orgulhosam ente em branco. Folha por folha. Essa foi a prim eira vez que algo realm ente assom brou Geppe. O governo. E desde então ele passou a repetir, em vêneto:

– Il goerno lé stupido! Gó m ai laorato in tutta la vita e ancora i m e paga! (Tradução: “O governo é um estúpido! Nunca trabalhei na m inha vida e ainda assim m e paga!”)

Tem pos depois, Geppe avistou um avião no céu. E logo com preendeu. Só podia ser o governo. De olho nele, Geppe. Passou um avião quando aj udava a cortar lenha na Linha Moresco. Em seguida, passou o segundo. Geppe atirou o m achado longe e saiu batido. Antes, avisou:

– Se quiser cortar lenha, corta. Eu m e vou porque se o governo m e descobre trabalhando m e corta o soldo!

Fazer Geppe Coppini de bobo tem sido um desafio para m uitos antagordenses. Mais fácil os galos latirem . Geppe lia o j ornal de cabeça para baixo enquanto tom ava um cálice de vinho no bar – cheio, porque com o ele diz, nhanca il diávolo vuole m ezo. (“Nem o diabo quer só a m etade.”)

Geppe, lendo o j ornal invertido?

– No correto qualquer bobo sabe ler – foi a resposta lacônica.

Geppe j am ais paga a passagem de ônibus para Encantado. Ele sim plesm ente diz:

– Se eu não for, o ônibus vai deixar de ir? Então, não preciso pagar.

Geppe costum a tom ar sol na praça, olhando inconform ado para a estátua da anta, duas toneladas e m eia de banhas de concreto que um prefeito teve a ilum inação de instalar no dito logradouro. Parece um boi, com enta Geppe com os botões de seu casaco de lã.

Geppe, pegando um sol? – arrisca um aventureiro.

– O sol está m uito longe para pegar – responde ele, atônito com tão descabida pergunta.

Assim é Geppe Coppini. Que até hoj e não encontrou sentido num a coisa além do governo: o banho. Água apenas para beber, e só quando falta o vinho. Ou o refrigerante. Ele adora. Vam os tom ar um banho, Geppe?

– Dom ani, dom ani.

De tem pos em tem pos, a cidade entende que é hora de tom ar um a atitude. Então, Algeri Toldo, o dono do hotel e adm inistrador da aposentadoria de Geppe, se prepara para a em preitada. Dizem que vai de m angueira e rodo, e que Geppe sai dessas refregas branquinho, branquinho. Mas Toldo j ura que apenas instala Geppe debaixo do chuveiro e fica de guarda.

Quem é Geppe Coppini? Vocês decidem .

Enquanto isso, aos 90 anos, acom odado no vale cheiroso, entre tom ates e repolhos, Geppe Coppini dá a sua inconfundível risadinha sem dentes. A sua risadinha em capítulos.

– Ah, ah, ah.

 

[27 de fevereiro de 1999]