A Vida que Ninguém Vê

Eliane Brum · Capítulo 15 de 30

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A Vida que Ninguém Vê

Frida

 

Frida olha para os vereadores da Câm ara de Porto Alegre. E não acredita no que vê. Nem no que ouve. Contrai o olho doente, caído, e aperta as bochechas com as m ãos. Grita, com forte sotaque alem ão:

– Não aguento m ais. Mas que coisa horrível! Só fazem proj etos que não prestam .

E am eaça bandear-se para a Câm ara de Novo Ham burgo, no Vale dos Sinos, por onde tam bém j á andou. Cansada, diz ela, de tanta besteira.

Frida é assim . Aos 68 anos, diz o que m uitos apenas pensam . Sua prim eira aparição na Câm ara de Porto Alegre data dos anos 60. Quando a Câm ara ainda funcionava no centro. Desde lá, Frida tornou-se a cidadã m ais assídua do Legislativo da capital gaúcha.

De certo m odo, não se concebe a Câm ara sem Frida. Nem Frida sem a Câm ara. Mas quem é Frida? Bem , sem pre que alguém não se encaixa no m undo da m aioria, é logo cham ado de m aluco. É o que acontece com Frida. É o que dizem dela quando grita lá do plenário:

– Esses vereadores só dizem bobagem ! E sabe quanto ganham ? Quase R$ 5 m il! Eu vou em bora!

Nessa hora, todo m undo acorda e ri. Porque um a sessão da Câm ara, com exceção dos proj etos polêm icos, é um sono só. Tem sem pre alguém discursando para ninguém , um a turm a conversando de frente para a tribuna – “viste o Grêm io ontem ?” – e outra conversando de costas para a tribuna. Prestando atenção, só a Frida. Com as duas m ãos alicerçando as bochechas. Apavorada. Aí, dizem que é a Frida que não bate bem das ideias.

Frida tornou-se Frida na Câm ara de Vereadores. Antes, cham ava-se Nilsa Ly dia Hartm ann. Filha de agricultores do m unicípio de Harm onia. Costureira de m ão cheia, um dedo m ágico tam bém para plantas e flores. Mãe de seis filhos. Casada com um m arceneiro e depois separada. Perseguida por um diagnóstico m édico: esquizofrenia. Poderia ter sido confinada em um m anicôm io. Ou ficar esperando a vida acabar em um a clínica. Preferiu inventar a Frida. E, de algum m odo, a fam ília com preendeu. Num m undo que se especializou em esm agar, elim inar e encarcerar a diferença, o m elhor para Nilsa era ser Frida. E a deixaram à vontade.

Se o que Frida com preendeu é coisa de doido, m uita gente anda batendo pino. Frida entendeu que o Legislativo é a sua casa. Interpretou o conceito de cidadania de um a form a tão radical que m ais de um a vez foram avistadas suas calcinhas recém -lavadas estendidas sobre as folhagens do j ardim . Com o às vezes dorm e na rua, ela faz um a rápida toalete no banheiro dos m otoristas. É tam bém pelos corredores da Câm ara que rem enda roupas e tricota sapatinhos de lã.

Frida cum pre expediente. Ela gostaria de ser vereadora. Resignou-se em ser j ornalista. Considera-se repórter da assessoria de im prensa da Câm ara. Anda com um punhado de canetas num a m ão e um m aço de papéis usados na outra. Quase não perde sessão. Se falta algum dia, no outro j á pede atestado. Houve tem po em que batia ponto. Senta-se no plenário e escreve sem parar. Conta o que acontece, faz com entários e críticas. Vai espalhando as laudas pelas cadeiras e degraus do plenário. Às vezes, abandona a isenção j ornalística e prepara um proj eto de lei para doar m alotes de dinheiro aos am igos. Ninguém im agina onde Frida viu algo parecido.

Às vezes Frida se irrita, e j á houve caso de invadir a tribuna em punhando um porrete. Num a ocasião, disparou um a bala de açúcar direto na careca de um vereador, m as o petardo acabou acertando a calva de outro. No caso de Frida, dizem que é m aluquice. Mas quem acom panha a história da Câm ara sabe que, m ais de um a vez, os nobres edis j á decidiram um a discórdia em batalhas cam pais com copos de cafezinho.

Frida j á levou até a m ãe para que conhecesse seu local de trabalho. Ciceroneou a velhinha toda orgulhosa pelos corredores do Legislativo. Mais tarde, quando a m ulher faleceu, fez um altar no plenário. Com fotografia, vela e vasinho de flores. Frida fez o luto pela m ãe na casa do povo.

O grande dram a da Frida é que, apesar de ser um a das funcionárias m ais antigas, assíduas e dedicadas, nunca recebe salário. Os dias que antecedem ao pagam ento são sem pre nervosos. Frida se agita. Chega a ficar agressiva. Na data fatídica, revolta-se. Toda vez que um a funcionária ingressa no setor, sente-se preterida. Hostiliza a novata, deixa bilhetes: “Cai fora!”.

Mesm o assim , Frida segue agarrada ao fio da existência. Quando se despede do filho, em Novo Ham burgo, sem pre diz:

– Hoj e acho que votam o m eu dinheiro.

E rum a para Porto Alegre. Tal qual o povo, cheia de convicção na dem ocracia.

 

... E UM CERTO VEREADOR

Ele não gosta. Procurado, quase não quis falar no assunto. Contou um ou outro episódio, em seguida im plorou para não ser citado. Mas o que fazer? É só tocar no nom e da Frida que im ediatam ente alguém lem bra de um a história do Dib. Ou do “Dibas”, com o ela diz. Feita a ressalva, o nobre vereador vai ter de perdoar, m as é im possível contar a história da Frida sem citar seu nom e. Seria o m esm o que contar a história de Dalila sem Sansão. Cleópatra sem Marco Antônio. Julieta sem o seu Rom eu.

Frida teve m ais de um am or platônico entre os parlam entares, m as o sentim ento dedicado a Dib é diferente. Duradouro, vem atravessando as décadas, as sete legislaturas do vereador. Já gerou m ais de um a especulação pelos corredores da Câm ara. Houve um tem po em que Frida chegou a construir um a casa de m adeira no canteiro da rua Ram iro Barcelos, em frente ao apartam ento em que ele m orava. Só para ficar m ais perto do vereador de seus sonhos. Em outra ocasião, conseguiu um a escada, escalou a parede e, quando Dib abriu a porta, Frida estava bem sentada no sofá da sala.

Quando Dib era secretário dos Transportes, Frida um dia invadiu o gabinete e surrupiou um a foto dele de dentro da pasta. No lugar, deixou um a carta de conteúdo irrevelado. Dib cham ou a Polícia Militar. Quando os soldados passaram por Frida, ela inform ou bem depressa:

– A m ulher foi por ali.

Quando Dib foi secretário de Obras e Viação do m unicípio – ô hom em m ais diligente! –, Frida fazia com ida na rua, espalhava as panelinhas e gritava:

– Dibas! Dibas! Com idinha para ti.

Para tristeza da Frida, Dib nunca com pareceu ao banquete. E, num de seus aniversários, com eteu um a indelicadeza. Quando Frida levou-lhe um bolo feito por suas próprias m ãos, despedaçou o m erengue a bengaladas.

Com o passar dos anos – e o repúdio constante dos m ais sinceros anseios de Frida –, a relação foi se azedando. Hoj e, Frida culpa Dib por tudo de ruim que lhe aconteceu na vida. Inclusive o j usto salário do qual nunca viu a cor. Mesm o assim , não consegue ficar longe dele. João Dib segue sendo a estrela de suas reportagens. Volta e m eia, Frida ainda sucum be ao coração e grita do plenário:

– Deixem o Dibas falar!!!

 

[2 de outubro de 1999]