Adolpho Lutz: entomologia, tabanídeos
Beiträge zur Kentniss der eiheimischen Tabanidenfauna
Contribuição para o conhecimento da
fauna indígena de tabânidas *
No Instituto de Manguinhos existe uma coleção de tabânidas que pela sua maior parte consiste de espécies apanhadas em Xerém por um de nós e pelo Dr. Ruy Ladislao. Contém, assim, principalmente formas dos arrabaldes do Rio de Janeiro, das quais a seguir se dará uma lista. Quase todas essas espécies foram já encontradas em outros lugares onde as condições são semelhantes.
Como mais raros pode-se mencionar a Diatomineura exeuns Walker e o Tabanus aphanopterus Wied., dos quais conhecemos a primeira de Petrópolis e o segundo dos arrabaldes de São Paulo. O aparecimento do Tabanus importunus Wied. no território do Rio de Janeiro tem interesse especial porque essa espécie, comum ao Norte (Norte de Goiás, Maranhão e Pará), parece encontrar aqui os limites meridionais do seu território; o mesmo se pode presumir do Tabanus marginatus Macq. (macroceratus Bigot), forma quase esquecida, que se não encontra nos museus europeus. Foram apanhados três exemplares em Xerém nos meses de fevereiro, março e abril. (Recentemente obtivemos três fêmeas dessa espécie de Ubatuba e de Sabaúna, no estado de São Paulo, e de Itaguaí, no estado do Rio de Janeiro.)
Na coleção acham-se também umas mutucas colhidas em Barbacena (Minas Gerais) pelo Dr. Belisário Penna, entre as quais há duas espécies novas de Erephopsis (Pangoninae) que descrevemos com os nomes de auricincta e nubiapex.
Há pouco tempo a coleção recebeu uma contribuição importante constituída por cerca de duzentos tabânidas, colecionados pelos Drs. Fernando Soledade Maurício de Abreu no estado de Minas, entre Teófilo Ottoni e as margens do Rio Doce. É essa zona coberta de mata virgem contínua e a sua altura acima do nível do mar varia de 160 a 300 metros; em relação à fauna de dípteros pode ser considerada terreno ainda completamente inexplorado.
Podia-se prever o aparecimento de espécies novas porque a zona é situada bastante para o norte do Rio de Janeiro, cuja fauna, assim como a do Amazonas, é das mais conhecidas. Desta última havia que esperar já algumas espécies; entretanto, podia-se contar com outras, anteriormente descritas do Brasil sem mais indicação e que depois não foram mais encontradas, e principalmente com umas espécies inteiramente novas, visto que entre as poucas mutucas procedentes do mesmo estado já achamos várias novidades. Essa esperança se realizou; encontramos de espécies novas uma Erephopsis, uma Esenbeckia e algumas espécies de Tabanus maiores e menores, e finalmente mutucas que já tínhamos do Pará e de outros lugares, mas que não haviam sido descritas ainda. Mais adiante daremos um catálogo das espécies.
Finalmente o Instituto também recebeu algumas mutucas do estado de Mato Grosso trazidas pelo farmacêutico Cesar Diogo Filho.
Ao lado de algumas Lepidoselaga lepidota Wied. e de dois exemplares de espécie vizinha ao Tabanus comitans Wied. foi encontrado um Diachlorus que não combina com nenhuma das espécies descritas como Diachlorus, mas sim com o Chrysops bipunctatus Wied.
Damos aqui a lista dos tabânidas colecionados no estado do Espírito Santo. Os exemplares com poucas exceções eram bastante, alguns até muito bem conservados; eram todos fêmeas.
Lista das espécies de tabânidas colecionados no estado do Espírito Santo
1. Lepidoselaga lepidot Wied. 34 2. Tabanus miles Wied. 32 3. Tabanus macroceratus Bigot 21 4. Esenbeckia neglecta n. sp. 15
5. Tabanus modestus Wied. 11
6. Diachlorus bivittatus Fabr. 11
7. Tabanus taeniotes Wied. 08
8. Dichelacera alcicornis Wied. 06
9. Tabanus fuscus Wied. 06
10. Dichelacera januarii Wied. 05
11. Tabanus quadripunctatus Fabr. 05 12. Tabanus vestitus Wied. 05
13. Tabanus nigristrigma n. sp 05
14. Tabanus leucaspis Wied. 04
15.Tabanus guttipennis Wied. 03
16.Tabanus subniger n. sp. 03
17.Erephopsis soledadei n. sp. 03
18.Tabanus unicolor Wied. 02
19.Tabanus scriptipennis n. sp. 02
20.Erephopsis sorbens Wied. 02
21.Chrysops laetus Wied. 02
22.Acanthocera longicornis Fabr. 02 23.Tabanus triangulum Wied. 02
24.Esenbeckia bahiana Bigot. 01
25.Erephopsis tabanipennis Macq. 01 26.Tabanus imitator n. sp. 01
27.Tabanus aurora Macq. 01
28.Tabanus sorbillans Wied. 01
29.Tabanus mexicanus L. 01
30.Tabanus fuscipennis Wied. 01
31.Tabanus cinereus Wied. 01
32.Tabanus anonymus n. sp. 01
33.Chrysops costatus Fabr. 01
34.Tabanus molestus Wied. 01
35.Tabanus limpidapex Wied. 01
Total 201 Lepidoselaga lepidota Wied. É espécie comum nas partes mais quentes do Brasil, mormente nos estados situados para o norte do trópico. O mesmo se pode dizer do Tabanus modestus, T. triangulum e Chrysops laetus, achando-se o T. leucaspis na mesma zona, porém mais raramente; um de nós encontrou todas essas espécies no Estado de São Paulo, como no do Pará. O T.unicolor tem a mesma distribuição e parece tornar-se mais freqüente em direção ao Norte, mas como ele prefere o crepúsculo (e isto acontece também com o T. mexicanus), é só possível apanhá-lo em certa horas. T. mexicanus, T. quadripuntactus e C. costatus têm distribuição ainda mais vasta e são espécies comuns.
O interesse principal cabe às espécies que até hoje só conhecemos dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro e dos lugares mais vizinhos, como o T. taeniotes, Dichelacera alcornis, D. januarii, T. guttipennis, Erephopsis tabanipennis, T. aurora, T. fuscipennis, Erephopsis sorbens de um lado e aqueles do outro lado que só eram conhecidos do Norte, como o T. vestitus Wied., o T. cinereus e Esenbeckia bahiana, descritos de exemplares colhidos na Bahia. O Diachlorus bivittatus até hoje só se conhecia dos arrabaldes do Rio, ao passo que o T. fuscipennis e T. limpidapex se encontram tanto aqui como nas serras de São Paulo.
Restam ainda algumas espécies que parecem ter o principal centro de distribuição no estado de Minas, entre elas algumas novas. Conhecemos o T. miles de Petrópolis e do estado de Goiás; o T. macroceratus até há pouco só se conhecia do Xerém, onde todavia é raro. O grande número de exemplares (21) existentes na coleção mostra que é freqüente naquela zona. Há também outra espécie semelhante, porém nova, o T. nigristigma. Outras espécies novas são Esenbeckia neglecta, que lembra a Esenbeckia fasciata, uma Erephopsis (soledadei), que se parece com a nigricans n. sp. do estado do Espírito Santo; finalmente algumas espécies menores, em parte vizinhas ao T. taeniotes.
Lista dos tabânidas colecionados no Xerém de fevereiro de
1907 até fevereiro de 1908 1
1. Erephopsis sorbens Wied.
2. Erephopsis winthemi Wied.
3. Erephopsis leucopogon Wied.
4. Bombylopsis (n. gen.) nitens Bigot
5. Diatomineura tabanipennis Macq.
6. Diatomineura exeuns Wied.
7. Esenbeckia fuscipennis Wied. (Typus et var.)
8. Chrysops costatus Fabr.
9. Chrysops leucospilus Wied.
10. Chrysops laetus Wied.
11. Diachlorus bivittatus Fabr.
12. Lepidoselaga lepidota Wied.
13. Dichelacera alciornis Wied.
14. Dichelacera januarii Wied.
15. Dichelacera fava Wied.
16. Dichelacera immaculata Macq.
17. Dichelacera fuscipennis Macq.
18. Tabanus macrodonta Macq.
19. Tabanus aurora Macq.
20. Tabanus impressus Wied.
21. Tabanus cinerarius Wied.
22. Tabanus triangulum Wied.
23. Tabanus modestus Wied.
24. Tabanus trivittatus Fabr.
25. Tabanus trilineatus Latr.
26. Tabanus obsoletus Wied.
27. Tabanus planiventris Wied.
28. Tabanus litigiosus Wied.
29. Tabanus quadripunctatus Fabr.
30. Tabanus maculipennis Macq.
31. Tabanus punctipennis Macq.
32. Tabanus mexicanus L.
33. Tabanus leucaspis Wied.
34. Tabanus marginatus Macq.
35. Tabanus aphanopterus Wied.
36. Tabanus fuscus Wied.
Acrescentamos mais três espécies achadas mais tarde entre o material colhido em Xerém:
37. Diachlorus distinctus Lutz.
38. Stibasoma thiotaenia Wied.
39. Tabanus scythropus Wied.
* Trabalho de Adolpho Lutz e Arthur Neiva publicado na edição inaugural das Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, t.1, n.1, p.28-32, abril de 1909. Veiculado aí também em alemão, com o título “Beiträge zur Kentniss der eiheimischen Tabanidenfauna”. No texto ora reeditado, os nomes genéricos e específicos não foram postos em itálico como nos demais, em obediência ao Código de Nomenclatura Zoológica, já que este tipo de realce foi utilizado pelos autores para singularizar os novos gêneros e espécies descritos por Adolpho Lutz. [N.E.]
1 As novas denominações de gêneros e espécies não escritas em itálico já foram anteriormente estabelecidas por um de nós (Lutz). [N.A.]