Adolpho Lutz: entomologia, tabanídeos

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 4 de 35

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Adolpho Lutz: entomologia, tabanídeos

Prefácios/Prefaces

 

A coleção de tabanídeos de Adolpho

Lutz

 

Filho de suíços, Adolpho Lutz nasceu no Rio de Janeiro a 18 de dezembro de 1855. Seu pai, Gustav Lutz, foi o primeiro membro de uma longa linhagem de “burgueses de Berna” a emigrar de sua terra natal. Quando Adolpho Lutz tinha pouco mais de dois anos, a família foi viver em Berna por um tempo, e quando regressou ao Brasil, deixou os três filhos mais velhos para que estudassem na Suíça. Somente como homem adulto Lutz regressaria à terra natal.

Desde menino, tinha certeza de sua vocação: o estudo da história natural. Mas como pretendia viver no Brasil, decidiu, quando adolescente, estudar medicina, a profissão liberal que lhe parecia mais próxima da biologia, e com a qual poderia assegurar lá os meios de vida. O tempo mostrou que foi sábia aquela decisão, pois foi precisamente a conjunção de medicina e biologia que lhe permitiu dar contribuição pioneira ao desenvolvimento da medicina tropical e da zoologia médica no Brasil.

A vida e obra de Lutz pode ser dividida em três fases principais: o médico clínico (1881-1892), o diretor do Instituto Bacteriológico de São Paulo (1893-1908) e o integrante do Instituto Oswaldo Cruz (1909-1938), sendo ele sempre um pesquisador incansável, até sua morte (outubro de 1940).

Produziu sua obra científica em circunstâncias difíceis. Quando clinicava, carecia tanto de tempo como de facilidades laboratoriais para a pesquisa. Depois, quando estabelecia novos padrões de saúde pública e revolucionava os métodos para se lidar com as doenças endêmicas e epidêmicas, precisava não só de tempo mas sobretudo de paz; mesmo no período subseqüente, em Manguinhos (Instituto Oswaldo Cruz), nunca contou com auxílio adequado para lidar com suas rotinas. Apesar disso, Lutz foi um trabalhador dos mais obstinados. Como médico da roça, dedicou a maior parte do tempo que lhe sobrava ao estudo de doenças interessantes, como a lepra, e de parasitos do homem e de seus animais domésticos. Já observava os hábitos de mosquitos antes e durante a grande epidemia de febre amarela ocorrida em Campinas (1889). Em São Paulo, começou a investigar sistematicamente os dípteros sugadores de sangue, a começar pelos mosquitos, a princípio em colaboração com Theobald, depois sozinho. Nesse período, descobriu a malária das florestas (1898, publicação em 1903), e viu os primeiros casos conhecidos de febre amarela silvestre. De 1903 a 1907, publicou artigos sobre Culicidæ e também sobre dípteros hematófagos transmissores de doenças.

Entretanto, como era um pioneiro inquieto, sempre em busca de novos campos, migrou para as mutucas. Seus primeiros artigos sobre Tabanidæ foram publicados quando se achava em São Paulo, as notas preliminares na Revista da Sociedade Scientifica de São Paulo (1905-1906) e no Centralblatt für Bakterologie, Parasitenkunde und Infektionskrankheiten (1907); a primeira grande síntese sobre os tabanídeos brasileiros no Zoologische Jahrbücher. Depois que se estabeleceu no Rio, a maior parte de seus trabalhos veio a lume nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, periódico do qual foi um dos principais colaboradores, por muitos anos. Nos primeiros anos de existência do Instituto, o prestígio de Oswaldo Cruz e a prosperidade da instituição tornaram possível a publicação em língua estrangeira, tanto quanto em português, e a ilustração dos artigos taxonômicos de Lutz com pranchas coloridas. Durante e após a Primeira Guerra Mundial, o Instituto perdeu seus melhores ilustradores e, por períodos consideráveis, não pôde ser mantida a política de veiculação dos trabalhos em dois idiomas. Estas circunstâncias levaram Lutz a adiar a publicação de artigos concernentes a Tabanidæ, especialmente sobre o gênero Tabaninæ, não contemplado em artigos anteriores. Gradualmente, passou a se interessar por outros grupos, retornando apenas esporadicamente às mutucas, não obstante tivesse, provavelmente, a intenção de estudar toda a família, ao menos no tocante ao Brasil, e de expor seu sistema taxonômico.

Muitas das espécies e dos espécimes foram coletados pelo próprio de Lutz. A ele coube, também, boa parte dos encargos de preservação, e isso não apenas nos primórdios de seu trabalho. À época de Lutz, o Instituto Bacteriológico de São Paulo viveu crônica carência de pessoal, dispondo somente de um a quatro médicos para cuidar de todos os problemas de saúde pública no território do Estado (247.222 km 2), e de apenas um preparador – às vezes, nenhum – para cuidar das coleções. No Instituto Oswaldo Cruz, Lutz teve um “auxiliar de laboratório”, e essa foi toda a sua equipe. As duas pessoas que exerceram sucessivamente a função eram ambas excepcionalmente boas, mas tinham limitações no tocante à escolaridade, ao treinamento técnico etc. O auxílio esporádico em matéria de secretaria que Lutz recebeu durante sua vida profissional não perfaz sequer um décimo de seus sessenta anos de pesquisa. Nos primeiros tempos, era muito difícil obter a literatura de que necessitava. Tudo precisava ser trazido do exterior, com grandes delongas e dificuldades. Só pôde examinar tipos e coleções mais antigas durante suas curtas e infreqüentes viagens à Europa e à América do Norte.

Lutz tirava o melhor proveito possível dessas circunstâncias, e desenvolvia métodos simples que lhe permitiam dar continuidade ao trabalho. Seus espécimes eram mantidos em armários, não em pequenas caixas, mas agrupados sob os nomes genéricos e específicos corretos. As localidades podiam ser indicadas sucintamente, mas de maneira a permitir que o espécime fosse colocado na posição correta. Longas séries pertencentes ao mesmo grupo podiam receber um rótulo coletivo que as delimitava. Espécimes que não se encaixavam perfeitamente em nenhum destes grupos, mas que pareciam ter com eles estreita relação de parentesco eram colocados na periferia das espécies mais afins. Novas formas recebiam nome provisório e eram preparadas para serem descritas, então ou mais tarde, dependendo da esperança que tinha Lutz de obter ou não mais espécimes. Por vezes, eram inscritos dois nomes, em geral com o mesmo significado e derivados do principal caráter utilizado para diagnóstico. Raras vezes isso pode ter ocasionado alguma confusão mais tarde, caso o nome descartado não houvesse sido removido de todos os espécimes por falta de tempo ou por esquecimento. Os espécimes não determinados que Lutz deixava nos lados das formas afins também podem ter suscitado algumas dúvidas quando a coleção foi removida após sua morte. Naturalmente, é possível que alguns nomes tenham sido atribuídos erradamente por ele, pois este tipo de erro é inevitável, uma vez que nos primeiros tempos a exigüidade de formas conhecidas acarretava descrições muito genéricas que, mais tarde, passavam a ser aplicáveis a muitas espécies diferentes. Algumas descrições podem ter escapado ao pioneiro que trabalhava longe dos principais centros de pesquisa, a despeito de seus dotes poliglotas.

Eram curtas e sucintas as descrições de novas formas feitas por Lutz. Punham em relevo os principais caracteres diagnósticos, e deixavam de mencionar os que não eram importantes ou aqueles partilhados com outras formas. Este foi um critério que Lutz aplicou de maneira consistente. Quando chamavam sua atenção para rituais descritivos de nossos dias, costumava comentar que o importante era indicar o essencial, os caracteres diferenciais, acrescentando: “A bon entendeur, salut”. Ai de mim!

Lutz tinha grande interesse pela preservação de sua coleção, e chegou a desenvolver uma técnica que descreveu (1924, 1929-30) em “Sammeln, Präparieren, Untersuchen und Bestimmen der hygienisch wichtigen Insekten”, em Rudolf Kraus e Paul Uhlenhuth, Handbuch der Mikrobiologischen Technik, (v.3, p.2135-82; 24 figs., Berlim e Viena; reeditado por Kolle, Kraus & Uhlenhuth, em Handbuch der pathogenen Mikroorganismen, 3.ed., v.10, p.551-90). Lutz desejava que a coleção ou, pelo menos, os tipos permanecessem no Instituto Oswaldo Cruz. Sempre que podia fincava um rótulo vermelho junto aos tipos, e rótulos azuis junto aos co-tipos, ainda que, sob a pressão do excesso de trabalho e de seus variados interesses, negligenciasse por vezes esta rotina. Durante o tempo em que viveu, a coleção foi cuidadosamente conservada.

Após a morte de Lutz, todas as suas coleções foram muito negligenciadas por vários anos. Às vezes, espécimes ou gavetas eram retirados, examinados e nem sempre recolocados na ordem ou lugar certos. Durante a visita do Dr. Fairchild, numerosos espécimes e até mesmo gavetas inteiras de mutucas de Lutz foram encontrados em outros laboratórios. Recorrera-se também a um duvidoso tratamento contra pestes e fungos de insetos. Finalmente, toda a coleção foi retirada das gavetas originais e guardada em novos armários, em pequenas caixas. Estas circunstâncias podem ter danificado a ordem correta e misturado espécimes duvidosos com formas rigorosamente determinadas. Com certeza, contrariam os métodos de conservação pessoais de Lutz e, provavelmente, conflitam com sua ordenação original de formas.

Quando Lutz se estabeleceu no Rio, deixou parte de suas coleções no Instituto Bacteriológico de São Paulo. Posteriormente, estes materiais foram enviados para o Instituto Butantan, onde sua coleção pioneira de patologia se perdeu. Por muito tempo, a única pista dos tabanídeos de Lutz que permaneceram em São Paulo foi uma lista fornecida a sua filha por um antigo curator de insetos do Butantan.

Alguns anos após a morte de Lutz, convidaram-na a ajudar a organizar as coleções de seu pai, de maneira definitiva. Devido às circunstâncias explicadas acima, ela sentia-se um tanto ansiosa com as conseqüências da alternância de negligência com manipulação dos espécimes. Julgava que devia ser enfatizado o sistema de taxonomia dos tabanídeos adotado por Lutz, em parte baseado nos caracteres do animal vivo, como a cor e as características dos olhos; considerava, ainda, que o grande número

de 1 nomina nuda precisava ser conferido, e a coleção, examinada, para verificar-se se ainda continha formas não descritas. Com estas preocupações em mente, recorreu ao Conselho Nacional de Pesquisas, uma vez que à época do Centenário de Lutz seu diretor científico oferecera qualquer ajuda que viesse a ser necessária para os cuidados póstumos das Coleções e Documentação de Adolpho Lutz. Como seu antigo assistente, o Dr. Oliveira Castro, transferira-se para a Ecologia, decidiu-se consultar o Dr. G. B. Fairchild para saber se tinha interesse em empreender a revisão. Ele aceitou, e por dois meses trabalhou no Instituto Oswaldo Cruz, passando ainda uma quinzena no Butantan, como bolsista do Conselho Nacional de Pesquisas, tendo como hábil colaboradora a senhora Fairchild. Considerável trabalho pôde ser realizado, ainda que o tempo disponível se mostrasse muito curto para uma revisão completa. Os resultados figuram nos relatórios do Dr. Fairchild.

Resta apenas agradecer ao Dr. e à Sra. Fairchild, aos diretores das instituições, Prof. Amilcar Vianna Martins e Dr. Flavio da Fonseca, e, acima de tudo, ao presidente do Conselho Nacional de Pesquisas, Prof. Antonio Moreira Couceiro, suas ilustradas visões quanto à importância de se preservar a Cole-ção Adolpho Lutz de Tabanídeos. Resta ainda manifestar a esperança de que as facilidades maiores para viagens tornem mais fácil de ser exposto e usado 0sistema de Lutz baseado nos caracteres dos espécimes vivos.

Bertha Lutz

Museu Nacional, Rio de Janeiro

 

1 Nomen nudum: nome publicado antes de 1931, mas que não satisfazia as condições dos artigos 12 e 16 do Código de Nomenclatura Zoológica. O primeiro artigo estabelecia que o nome publicado antes desta data devia ser acompanhado de uma descrição, definição ou indicação. O artigo 16 conceituava o que constituía ‘indicação’ (referência bibliográfica a uma descrição previamente publicada; publicação de um novo nome do grupo do gênero ou do grupo da espécie em conexão com uma ilustração, para citar apenas dois exemplos). [N.E.]