Adolpho Lutz: entomologia, tabanídeos
Dipterologische Notizen. Zur Kenntnis der ersten Zustaende brasilianischer Tabaniden
Notas dipterológicas. Contribuição
para o conhecimento dos primeiros
estados de tabanídeos brasileiros *
I. Sobre ovos e larvas atribuídos a tabanídeos
Nos meus estudos sobre tabanídeos, encetados há muitos anos, prestei também atenção aos primeiros estados destes, sem obter muitos resultados. Uma vez, achei no meio de material conservado de Simuliidae uma larva típica e provavelmente adulta de uma mutuca, a qual, se fosse aquática, só poderia ter vivido em água corrente. Outra vez, encontrei no meio de algas, na margem de uma pequena lagoa de água doce, outra larva bastante grande, porém morta e mal conservada.
A procura de ovos na margem de águas estagnadas sempre ficou sem resultado, mas encontrei-os muitas vezes na margem de rios e regatos, porém somente em lugares onde havia correnteza forte. Formavam manchas negras na face superior de folhas, situadas um pouco acima da água e pertencendo principalmente ao Hedychium coronarium ou a gramíneas, mostrando uma camada simples e contínua de ovos. Eram menores do que os ovos de Chrysops que tinha recebido do museu de Washington, mas de aspecto bastante semelhante. Encontrei-os freqüentemente durante os meus estudos sobre borrachudos e, às vezes, em grande número, mas nunca consegui cultivá-los além do primeiro estado larval. Posto que, provavelmente, se tratasse de várias espécies, não deixariam de ser vizinhas, sendo os caracteres observados aproximadamente iguais.
Tentativas de obter larvas mais desenvolvidas, dragando os lugares onde os ovos foram encontrados, não deram resultado, provavelmente porque elas não vivem no próprio fundo, mas na terra úmida, um pouco distante deste. Também nunca consegui observar as fêmeas que fizeram a postura. As larvas novas também diferiam muito das já conhecidas, de modo a não se poder identificá-las pela forma. Não obstante a incerteza na sua determinação, me parece conveniente não demorar mais a descrição, visto que as minhas observações talvez possam ser completadas por outros pesquisadores.
As larvas apenas nascidas parecem um pouco mais longas que o ovo; têm 0,6 a 0,75mm de comprimento por 0,06 de largura, podendo se alongar ou encurtar-se consideravelmente. O último segmento, mais fino do que os outros, é subcilíndrico e bifurcado; as duas partes laterais podem ser afastadas ou completamente aproximadas. O penúltimo e os outros segmentos são mais largos do que o último e a sua largura também excede o próprio comprimento, correspondendo a sua forma a um ovóide largamente truncado nas extremidades. O penúltimo tem de cada lado um pé falso, tão longo como a largura do segmento; não pode ser recolhido. Seguem em direção cefálica mais segmentos, cada um munido, dos dois lados, de um pé falso retrátil. Todos esses pés têm na extremidade uma coroa de cerdas, lembrando espinhos, que nos seis pares anteriores podem ser perfeitamente encolhidos, formando então uma mancha escura. Adiante destes há mais dois segmentos, bastante bem limitados, mas sem pés e situados por trás de mais dois ou três segmentos mal definidos. Na extremidade cefálica, um tanto atenuada, se vêem os ganchos maxilares, pretos, que estendem as suas apófises até no interior do primeiro segmento, bem definido.
O corpo bem transparente mostra no seu interior, além do canal intestinal, dois tubos traqueais finos e tortuosos, de cor escura, principiando perto da cabeça e terminando no penúltimo segmento; não há vestígios de aberturas estigmáticas.
Os ovos têm 0,45mm de comprimento por 0,1 de largura; a forma é subcilíndrica, sendo as extremidades subcônicas. A extremidade cefálica, que é mais afilada, mostra uma abertura (micropila?), fechada por um pequeno opérculo, que não basta para dar saída à larva; esta se opera por uma fissura longitudinal que divide a extremidade cefálica em duas partes aproximadamente iguais. A incubação parece durar quatro dias.
As larvas novas têm grande agilidade e são organizadas para mover-se igualmente bem no seco e na água.
Na extremidade cefálica se vêem cerdas laterais e apêndices que parecem representar palpos e antenas, mas nenhum vestígio de ocelos. Os tubos traqueais são pouco ramificados, tendo em cada segmento um ramo exterior e outro interior. Não se percebem estigmas laterais e tampouco há evidência de um orifício de respiração no último segmento.
Não obstante a grande agilidade das larvas na água, esta não parece ser o seu verdadeiro elemento, principalmente quando estiver parada, porque nela todas morrem dentro de poucas horas, mesmo quando se conseguiu alimentá-las. O grande desenvolvimento do último par de pés falsos indica uma locomoção em meio sólido e a falta de ocelos uma vida no escuro. De outro lado a postura dos ovos perto da água corrente indica uma adaptação, pelo menos temporária, a esta. Havendo no mesmo lugar sempre ovos ou larvas de borrachudos, podia-se supor que estas sirvam para a sua alimentação; todavia, nos meus estudos extensos sobre simuliídeos não achei formas de evolução de mutucas e apenas apareceu uma larva adulta, em material colhido em Espírito Santo pelo Sr. Zirkán.
Nas descrições de larvas de Goniops chrysocoma e Tabanus striatus não achei menção do grande desenvolvimento dos últimos pés que, em certas posições das nossas larvas, lembram a figura de um Y. Tampouco existe nas larvas adultas que tive ocasião de estudar. Isto podia levar a desconfiar que não se trata realmente de larvas de mutucas; todavia, as semelhanças são mais importantes que as diferenças; além disso, não conheço outros dípteros aos quais se pudessem atribuir essas larvas.
Todas as espécies de larvas encefálicas podem ser excluídas a limine e não consta que em outras a existência de pés tão desenvolvidos tenha sido observada. Em todo caso, o desenvolvimento ulterior e a biologia dessas larvas representam um problema interessante.
II. Sobre larvas adultas e ninfas de duas espécies
de Tabaninae
Depois de muitas tentativas, feitas sem resultado, consegui encontrar perto de Manguinhos um lugar onde pesquisas atenciosas permitiam descobrir algumas larvas de mutucas, posto que, tanto antes como depois não nos fosse possível encontrar ovos. Creio poder afirmar, pelo menos, que eles não eram postos em cima de folhas, saindo da água, como isto se dá com outras espécies.
Consegui obter os adultos que forneceram duas espécies comuns do grupo de T. trilineatus Latr., a saber o Neotabanus ochrophilus mihi e o N. triangulum (WIED.). Dei o nome de Neotabanus para as espécies desse grupo. O mesmo nome foi usado mais tarde por Ricardo para uma espécie que não pertence a este grupo. Os Neotabanus estão bastante aliados ao T. striatus, F. estudado
cuidadosamente por Mitzmain. 1 nas Filipinas.
Correspondendo à semelhança dos adultos, as larvas e pupas por mim achadas também se parecem muito com as do T. striatus.
As larvas foram encontradas na terra lamacenta, bastante arenosa, por baixo e ao lado de um pequeno rego com água constante, embora pouco abundante, sendo a corrente pouco forte. Não eram abundantes, sendo preciso lavar numa peneira uma boa quantidade de terra a areia para se obter um só exemplar. Não se conseguiu vê-las na terra não lavada, porque procuram esconder-se e podem encolher-se extraordinariamente. No mesmo lugar encontraram-se larvas e pupas de uma espécie de Sargus e de algumas moscas e criou-se a Musca domestica de uma das pupas. De moluscos existia uma Physa e um Planorbis. Em alguns lugares havia Tubificinae em maior quantidade e verifiquei experimentalmente que esses Chaetopodae se prestam muito para alimentar as larvas das mutucas. Minhocas, que também podem ser usadas, quase faltavam no mesmo lugar.
As larvas adultas alcançam, estendidas, um comprimento de 30mm, as pupas, porém pouco mais que a metade. Morfologicamente aproximam-se das espécies já conhecidas e principalmente do Tabanus striatus. O integumento é hialino e transparente; a coloração geral é creme, aparecendo distintamente o conteúdo intestinal com cor vermelha ou enegrecida, raras vezes esverdeada e as traquéias com brilho de seda. A consistência das larvas é bastante forte. Elas mostram con-trações enérgicas. Os ganchos maxilares mediocremente desenvolvidos reconhe-cem-se facilmente pela cor escura; mostram na face inferior incisões pouco fundas em forma de dente de serra.
A digestão parece vagarosa. Estando o intestino cheio passam-se 4-5 dias até aparecer vazio. Antes da metamorfose as larvas contraem-se muito e ficam quase imóveis, ao passo que as larvas que morreram naturalmente costumam aparecer completamente estendidas.
A cultura pode facilmente ser feita em terra ou areia úmidas, mas a observação torna-se difícil. Por isso, coloco-as com musgo úmido em tubos de vidro guardados nos intervalos da observação em lugar escuro.
Freqüentemente vêm elas parar perto da parede transparente, mostrando-se geralmente lerdas. Primitivamente usava o sphagnum, mas outras espécies de musgo também se prestam.
A formação da pupa, que, geralmente, se deu durante a noite, nunca foi direta-mente observada. A pele mudada geralmente se encontrava perto mas completamente destacada; a parte anterior era dilacerada e o resto aparentemente virado formava uma massa irregular, assim mesmo foi possível com paciência obter preparações satisfatórias.
O período pupal em vários casos durou dez dias. Já no segundo ou terceiro dia os olhos de facetas eram esboçados em pigmento amarelo que depois se tornava cor de tijolo e finalmente chocolate. Três dias antes da ecdise as fitas verdes dos olhos e as estrias do abdome eram distintamente percebidas. A pele pupal é transparente, a princípio esbranquiçada, virando para o ocráceo e mais tarde um tanto ferruginoso: só num exemplar morto apareceu escuro, posto que fossem expostas à luz durante bastante tempo. A forma é parecida à de Tabanus striatus.
A ecdise já tem sido descrita. Nos nossos casos foi sempre rápida, não havendo diferenças em relação às descrições. Apenas num caso as asas permaneceram encarquilhadas, nas demais sempre se desenvolveram perfeitamente sem muita demora.
Foram obtidas cerca de vinte larvas, das quais uma parte morreu nos primeiros dias; dez transformaram-se em pupas das quais uma secou com a imagem já formada. Saíram duas fêmeas que consideramos variedade de N. triangulum Wied. e dois machos e cinco fêmeas de uma espécie muito comum e espalhada, mas não conseguimos identificar com certeza. A cor do abdome nesta espécie é mais ocrácea do que nas outras, que também têm três estrias claras no dorso do abdome, por isto escolhi o nome de ochrophilus. Antigamente identifiquei-a com T. trivittatus F. , mas tanto a identificação como a prioridade do nome parecem completamente incertas.
Não consegui achar diferenças nos primeiros estados das duas espécies, que são muito vizinhas.
Manguinhos, fevereiro de 1914.
* Trabalho concluído em Manguinhos, em fevereiro de 1914, e publicado em português e alemão (“Dipterologische Notizen. Zur Kenntnis der ersten Zustaende brasilianischer Tabaniden”) nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, t.6, fasc. 1, p.43-9. [N.E.]
1 Phil. Journ. of Science, v.VIII, S. B. n.3. [N.A.]