Adolpho Lutz: entomologia, tabanídeos
Trabalhos de Lutz sobre Tabanidae
Os tabanídeos (mutucas) são bem conhecidos pelas pessoas pelo desconforto causado por sua dolorosa picada e pela insistência com que picam. Sua presença impõe respeito e temor, pois são os dípteros hematófagos de maior tamanho, com cabeça e corpo robustos e alguns com probóscida muito desenvolvida. Atacam não só o homem, mas também os animais domésticos, constituindo seu maior tormento durante a estação de calor; incluem também entre suas vítimas outros mamíferos (roedores e primatas, especialmente), répteis (jacarés, cobras e tartarugas) e algumas aves.
Sua importância radica não apenas nas moléstias que ocasionam; por vezes, em pessoas sensíveis, provocam fortes reações alérgicas devidas à saliva que injetam ao picar. Além de sugar sangue, inoculam uma substância anticoagulante, provocadora de hemorragia, fator que estimula a atração de outros dípteros produtores de miíases, podendo originar um foco infeccioso. O assédio a que submetem suas vítimas é provocado por sua insistência em picar quando são repentinamente expulsos do lugar onde se estão alimentando. Esse comportamento, ademais de tornar muito nervosas suas presas, pode produzir contaminação mecânica, uma das formas comuns de transmissão de agentes patogênicos. A intranqüilidade dos animais produz perdas econômicas, já que afeta as tarefas rurais com eles realizadas; não podendo alimentar-se adequadamente, os animais perdem peso, produzem menos leite etc.
Do ponto de vista veterinário, os tabanídeos têm importância por estarem implicados na transmissão de vírus, bactérias e outros parasitas. Têm a capacidade de transmitir o vírus da anemia infecciosa dos cavalos, de rickettsioses como a tularemia (Francesiella tularensis), a borrelíase (Borrelia burgdorfi), o carbúnculo ou antraz (Bacillus anthracis), a anaplasmose ou tristeza dos bovinos (Anaplasma marginale), o mal de cadeiras (Tripanosoma equinum), a durina (Tripanosoma equiperdum), a nagana (ou doença do sono) e a surra (Tripanosoma evansi) e, no homem, em certos países, a loaíse (Loa loa).
As fêmeas não utilizam apenas sangue como alimento: algumas também ingerem néctar; prova disso é a presença de pólen na cabeça delas.
Os tabanídeos são comuns nos mais variados ambientes, desde as áreas quentes equatoriais até o extremo sul do nosso continente, em altitudes que oscilam de cerca de 5 mil metros até o nível do mar, desde zonas muito úmidas e chuvosas até semi-desérticas. Essa capacidade de adaptação produziu uma grande diversidade. Quanto à periodicidade, as fêmeas picam durante o dia, apesar de algumas o fazerem ao entardecer, em horários variáveis segundo as espécies. Os machos não são hema-tófagos, alimentando-se de sucos vegetais. Podem ser solitários, porém mais freqüentemente formam enxames, tratando de fecundar as fêmeas. Estas depositam os ovos quase sempre agrupados por uma substância gelatinosa, formando massas, em lugares próximos à água ou úmidos. As larvas ocupam diferentes ambientes. Mais comumente vivem em águas continentais, desde cursos torrentosos a lentos, em charcos, ocos de árvores e no interior de bromélias, no barro de margens de rios e lagoas, sob objetos como pedras, troncos, cortiça ou plantas aquáticas. As larvas podem igualmente encontrar-se enterradas na areia do mar, na zona intercotidal, chegando a viver em lugares tão insólitos como formigueiros e cupinzeiros.
Elas são longas, sem cabeça bem diferenciada e com o corpo provido de pseudópodes, empregados em sua locomoção. São predadoras, alimentando-se de pequenos invertebrados ou insetos, que matam inoculando por meio do aparelho bucal uma substância tóxica, considerada uma das mais mortíferas para os invertebrados. A picada de suas fortes mandíbulas é dolorosa; as larvas geralmente atacam pessoas descalças dentro d'água, como trabalhadores que cultivam arroz em áreas inundadas.
O período larval varia bastante, conforme a espécie, e sofre, ademais, a influência da temperatura e do alimento disponível. Pode ser muito extenso, chegando a três anos em larvas de Scaptia lata mantidas em laboratório. Para empupar, situam-se em algum lugar próximo à superfície onde, depois de poucos dias (5-15), emerge a forma alada.
O conhecimento dos Tabanidae, do ponto de vista taxonômico, ainda apresenta muitas deficiências. É verdade que o número de espécies classificadas é elevado em relação a outros grupos de dípteros hematófagos, superando a marca de mil na Região Neotropical, mas os dados estão baseados principalmente em fêmeas, e a falta de conhecimento dos outros estados é muito grande. No Cone Sul da América, por exemplo, não obstante seja uma das áreas mais bem estudadas, só se conhecem os machos de 67% das fêmeas descritas. No tocante a larvas e pupas, nossa ignorância é ainda maior, elevando-se a proporção de desconhecimento para 95% das espécies. Devemos a Adolpho Lutz os primeiros estudos de larvas, os quais não foram seguidos por seus sucessores com o ímpeto que aquele pesquisador dedicava a todas as suas atividades científicas. Os adultos conhecidos costumam apresentar variações que por vezes vão além dos aspectos morfológicos, correspondendo a diferentes espécies, ou, por vezes, implicando algumas sinonímias. O conhecimento dos estados larvais, assim como estudos citológicos ou moleculares, ajudariam a esclarecer essa situação taxonômica. Acrescente-se o fato de que existem muitas zonas carentes de coleta, ou das quais só existem amostras em uma única época do ano, ou, ainda, onde as capturas foram realizadas apenas no nível do solo, quando existem espécies que passam a maior parte de seu ciclo em outros lugares; especial menção pode ser feita às espécies que vivem sobre o dossel das árvores de regiões cobertas por florestas.
Os estudos taxonômicos e bionômicos são portanto ainda deficitários, e seria conveniente conhecer não só quais as espécies com que estamos tratando, mas também como vivem, seus lugares de criação e repouso, seus hábitos alimentares, as horas em que picam, os animais que atacam e os agentes patogênicos que transmitem. Seria também importante conhecer como as atividades antropogênicas incidem em seu desenvolvimento ou proliferação. Assim, por exemplo, a mudança de regime hídrico de uma região faz desaparecer ou diminuir algumas espécies, como a Dasybasis argentina no norte da Patagônia, para citar um caso; depois de obras de barragens, essa espécie já não se encontra na região. A destruição de florestas deve influir na diversidade dos tabanídeos, com o desaparecimento de algumas espécies e a possível instalação de outras que antes não habitavam o lugar.
Estudos taxonômicos do ponto de vista filogenético, utilizando métodos modernos, ainda são muito escassos, assim como os de cunho biogeográfico, para indicar a provável evolução dessa fauna, ou estão ainda incompletos, não havendo sido publicados. Estudos populacionais são também praticamente desconhecidos.
Tudo isto nos indica que há muito a fazer. Oxalá venham a existir pesquisadores com a energia que tinha Lutz, e que tratem de desvendar os segredos que esse interessante grupo de insetos encerra.
A história das pesquisas de Adolpho Lutz sobre os Tabanidae neotropicais foi muito bem resumida por sua filha Bertha Luz (1961, p.186-7), no texto – reeditado no presente volume – que ela escreveu como introdução aos artigos do Dr. Fairchild. Este publicou os resultados de sua pesquisa sobre a coleção de Adolpho Lutz em 1961a e 1961b; neste segundo trabalho, ocupou-se com os nomina nuda publicados pelo cientista, aproveitando muitos deles ao descrever as espécies novas que designavam. Posteriormente Fairchild publicou importante revisão dos gêneros e subgêneros de Tabanidae da região neotropical (1969) e o catálogo das espécies (1971), este posteriormente atualizado por Fairchild & Burger (1994). A chave de Fairchild (1969) serviu de base para aquela feita por Coscarón & Papavero (1993), com fartas ilustrações.
Como dissemos, Lutz foi também pioneiro no estudo das larvas de Tabanidae (1914a), um estudo que infelizmente não teve seguidores na neotrópica.
Nos Quadros 1 e 2 damos a lista dos novos táxons propostos por Lutz e seus colaboradores, com os nomes atuais. É importante ressaltar que, apesar das dificuldades por ele encontradas, a grande maioria dos táxons continua válida, mostrando sua competência taxonômica.
Nelson Papavero
Museu de Zoologia/Universidade de São Paulo
São Paulo, SP, Brasil
Sixto Coscarón
Facultad de Ciencias y Museo/Universidad de La Plata
La Plata, Argentina
Quadro 1 – Gêneros e subgêneros de Tabanidae descritos por
Lutz e Lutz & Neiva, e seu nome atual
Quadro 2 – Espécies de Tabanidae descritas por Lutz e por Lutz
e colaboradores, e seu nome atual
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