Adolpho Lutz: entomologia, tabanídeos
Capítulo 1909
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Tabanídeos do Brasil e de alguns
países vizinhos *
Parte geral
O estudo dos dípteros hematófagos ganhou novo impulso com o reconhecimento de seu significado para a patologia humana e veterinária. Esse estudo voltou-se, em primeiro lugar, para os culicídeos, cujo papel como transmissores de doenças foi o primeiro a ser reconhecido, sendo também certamente o mais importante. Em número de espécies, no entanto, são significativamente superados pelos braquíceros hematófagos, entre os quais os tabanídeos representam, de longe, o maior contingente. Como transmissores de infecção, eles só assumem grande significado, segundo o que se conhece e se presume até o momento, em algumas epizootias provocadas por tripanossomas. Entre estas é digna de menção uma epidemia eqüina sul-americana (mal de cadeiras, peste de cadeiras), cuja transmissão, embora muito provavelmente feita por tabanídeos, ainda não foi completamente comprovada nem estudada exatamente. Esse motivo já seria suficiente para se retomar o estudo dos tabanídeos sul-americanos; acrescente-se ainda o incômodo em parte bastante significativo causado a homens e animais domésticos por esses hematófagos, e que constitui, por si só, decididamente, uma ocorrência desagradável, durante a qual causa diretamente um momento nocivo, além de fazer, provavelmente, a transmissão de outras enfermidades. Mas, mesmo puramente do ponto de vista das ciências naturais, esses parasitas temporários, distribuídos sobre toda a terra com um número colossal de espécies, oferecem um objeto de estudo extremamente atraente. A América tropical é marcada não apenas por um grande número de espécies, mas também pela ocorrência de gêneros e espécies peculiares. Ainda que muitos tabanídeos justamente do Brasil já tenham sido descritos, se nos ocuparmos mais pormenorizadamente com esse grupo veremos o quanto é difícil identificar com segurança as espécies coletadas. Mesmo a obtenção de literatura está associada a grandes dificuldades, já que se trata, em grande parte, de obras antigas e esgotadas (por esta razão tive que fazer copiar uma parte da literatura). As próprias descrições são muitas vezes insuficientes, em função do grande número de espécies semelhantes; faltam também chaves para uma rápida identificação, e os gêneros não são satisfatórios, nem no referente ao seu número nem à sua definição. Mas, principalmente, faltam ilustrações, que no caso são praticamente imprescindíveis.
Os próprios tipos originais encontram-se muito dispersos e, em parte, por serem antigos, estão danificados ou perdidos, enquanto outros exemplares de museus freqüentemente nem se encontram marcados como tal, ou estão de forma errônea. Acrescente-se a isto que a maioria dos autores nunca viu um exemplar vivo e baseou suas descrições, na maioria das vezes, em um único exemplar, muitas vezes imperfeito, o que, pela grande variação individual, é bastante melindroso. Também as modificações causadas por influências externas nem sempre foram suficientemente levadas em conta. Percebe-se quase sempre a falta de informações mais pormenorizadas sobre a localidade, período de ocorrência e distribuição, muito importantes para as identificações. Mesmo onde mais se coletou, ainda há espécies não descritas, e pode-se esperar um número muito maior delas em regiões ainda não pesquisadas. Os machos, de difícil obtenção, são em grande parte desconhecidos e assim presumivelmente permanecerão por muito tempo ainda, de modo que a sistemática pode tomá-los muito pouco em consideração; mas isto não tem grande importância, já que eles geralmente só divergem em alguns caracteres conhecidos e facilmente perceptíveis. Nem os estágios imaturos são utilizados em sistemática, pois são dificilmente obteníveis e ainda hoje praticamente desconhecidos.
Mais importante é o descaso em relação ao padrão de colorido dos olhos, já que ele não apenas tem grande valor para a diferenciação de espécies semelhantes, amiúde variáveis, mas também pode ser útil para a delimitação de gêneros inteiros e mesmo de subfamílias. Em geral, esse padrão não pode mais ser divisado em exemplares conservados secos, mas pode ser restabelecido de forma suficientemente clara através de umidificação do exemplar, se não for muito velho. Ele se mantém melhor na conservação em líquidos e, especialmente com o uso de solução de formol, fica claramente visível. Durante a coleta alguns exemplares devem ser, portanto, conservados em meio líquido, ou deve-se fazer um pequeno esboço dos olhos, que deverá também ser espetado no alfinete.
Se o estudo desse grupo deve ser facilitado, torna-se imprescindível encurtar o longo caminho que eu tive de percorrer na comparação e definição de cerca de 160 espécies. Por isso tenho a intenção de trabalhar com elas de tal maneira que o peso principal seja dado a uma estampa colorida exata das espécies disponíveis. A estampa não deve ser feita a partir de tipos determinados, mas sim a partir do uso de todos os exemplares disponíveis, sendo composta de acordo com a conjunção do que houver de mais típico e bem conservado. Levando-se em consideração determinados momentos, que logo serão citados, será possível na maioria das vezes, à primeira vista, reconhecer a espécie ou distingui-la de alguma outra semelhante.
No que se refere às variações, deve-se lembrar que existem exemplares não descorados, bem como claros e escuros. Nestes últimos, o vermelho, por exemplo, pode passar a marrom-avermelhado, o amarelado a avermelhado, o marrom a preto e o esbranquiçado a amarelado. Em animais mortos algumas cores empalidecem, como por exemplo o verde, e em seu lugar pode surgir um tom amarelado. Intestinos repletos de sangue podem levar o abdome a inchar e a escurecer. – A coloração escura da asa ou de parte dela muda de intensidade e muitas vezes torna-se clara no interior das células (fenestradas), e os complicados desenhos são amiúde sujeitos a pequenas variações, o que também vale para a pilosidade do corpo. Esta última é bastante caduca, e após sua desnudação aparecem (não raro) desenhos e colorações novas, que muitas vezes já podem ser reconhecidos por trás dos pêlos molhados com álcool. As conspícuas manchas claras dos pêlos são muitas vezes variáveis e podem ser inexistentes até mesmo em exemplares não desgastados. O sombreado da base das asas e das nervuras transversais pode variar em intensidade e extensão, e, em espécies mais largamente distribuídas, tais alterações parecem ocorrer regionalmente.
Numa mesma espécie ou até num mesmo gênero, a venação alar é, em geral, constante, mas exceções também ocorrem. Em algumas espécies a primeira célula posterior é ora fechada, ora aberta; o apêndice retrógrado pode estar ora presente, ora ausente, e não raro podem-se observar ambas as possibilidades até mesmo em um mesmo exemplar. No entanto, tal comportamento é bastante restrito a uma determinada espécie e gênero e não chega a extremos; assim, raramente se encontrará uma célula, que normalmente já é fechada antes da margem, muito mais aberta, e também não se sentirá nunca totalmente a falta de um apêndice de nervura, que normalmente é longo.
Sobre a distribuição de determinadas espécies seria importante observar que apenas algumas bastante freqüentes se encontram em regiões inteiras. Normalmente a fauna dos estados do Norte, do Centro e do Sul é bastante variada, e mesmo entre a costa e o interior há muitas diferenças. Em distâncias alternadas, determinadas espécies se separam de outras, muitas vezes pertencentes ao mesmo gênero. Espécies semelhantes até podem encontrar-se em uma mesma região restrita, mas mesmo neste caso o período de ocorrência e a distribuição vertical mostram, não raro, claras diferenças. Exemplares coletados em regiões remotas, ou suas descrições, devem ser sempre conferidos com exatidão, antes de serem relacionados a uma determinada espécie.
A fauna transandina de tabanídeos, com que não me ocupei mais de perto, é completamente diversa da cisandina, e é duvidoso que elas possuam sequer uma única espécie em comum.
Sobre o período de ocorrência, é importante observar que, nos estados da costa sul e central, quase todas as espécies voam apenas durante os seis meses de verão. No inverno são encontradas, em número menor, algumas espécies comuns com período de ocorrência muito longo; além disso, algumas poucas espécies têm seu período de ocorrência no inverno, e somente nas partes mais quentes da região.
A maioria dos tabanídeos voa durante o dia, mas Tabanus mexicanus L. e T. unicolor Wied., pelo contrário, aparecem à noite. Muitas pangoninas compartilham essa preferência pelas horas de crepúsculo, pois quando em áreas abertas voam e picam nesse horário, ao passo que, no entanto, à sombra das florestas, também atacam durante o dia.
Todas as espécies observadas nesta região sugam sangue e atacam cavalos, gado bovino e suíno; algumas também atacam cães ou homens, quando surge a ocasião. Pormenores a este respeito deverão ser dados junto de cada espécie.
Bibliografia
Para a bibliografia sobre os tabanídeos desta região, remeto às seguintes obras:
A. Fontes principais para espécies descritas e denominadas:
1. Wiedemann, Aussereuropäische zweiflüglige Insecten,
Hamm 1828. Contém também as espécies de Fabricius (in:
Syst. Antliator.).
2. Macquart, Diptères exotiques nouveaux ou peu connus, Paris
1834-1835. Originalmente em: Mém. Soc. Sc. Arts Lille, 1838,
1840-1847, 1849, 1855.
3. Walker, List of specimens of Dipterous Insects in the
collection of the British Museum. 4 partes com 3 suplementos,
Londres 1848-1855.
4. _____, Insecta Saundersiana. Diptera, Londres 1850-1856.
5. Rondani, in: Baudi e Truqui, Studi entomologici, 1848, I,
p.109.
6. Bigot, in: Mém. Soc. Zool. France, v.5.
7. Schiner, Diptera, in: Reise der Österreichische Fregatte
Novara, Zool. Theil, Wien 1868.
8. Williston, Exotic Tabanidae, in: Kansas Univ. Quart., v.3, n.3,
1905.
9. Ricardo, Miss G., in: Ann. Mag. nat. Hist., v.5, jan., fev., 1900;
v.7, set. 1900; out. 1901; v.8, jun. 1902; v.9, nov. 1904; v.14,
ago. 1905.
B. Os seguintes autores dão apenas descrições isoladas ou recapituladas da literatura aqui citada:
10. Guérin, Voyage de la Coquille, Zool.; v.2, n.2, p.288
(Pangonia nigripennis e thoracica, Brasil).
11. Perty, Maximilian, Delectus animalium articulatorum quae in
itinere per Brasiliam annis 1817-1820 collegerunt Dr. Spix et Dr.
Martius, Monachi 1830-1834 (Pangonia castanea Hab. in
montibus Minarum = xanthopogon Macq.; Hadrus chalybeus =
T. tibialis FABR.
12. Walker, Diptera, in: Descriptions of the Insects collected by
Captain King in the survey of the Straits of Magellan (Pangonia
cornuta = Tab. planiventris Wied).
13. Rondani, in: Nuovi Ann. Sc. Nat., n.3, v.2 (Tabanus
brasiliensis = T. rufipennis Macq.).
14. v. Roeder, Dipteren, ges. in den Jahren 1868-1877 etc. von
Alphons Stübel, 1892.
15. Wiedemann, Diptera exotica, Killiae 1824.
C. Indicações sobre a classificação dos Tabanídeos estrangeiros encontram-se, além disso, nas seguintes obras:
16. Loew, Dipterenfauna Süd-Afrikas, Berlin 1860.
17. Rondani, Dipterarum species et genera aliqua exotica etc.,
in: Archivio Canestrini, v.3, Fasc. 1, Maggio 1864. Também
isoladamente: Diptera exotica, Modena 1863.
18. Bigot, Diptères noveaux ou peu connus, 1874-1883.
19. v. Osten-sacken, Prodrome of a monograph of the
Tabanidae of the United States, in: Mem. Boston Soc. Nat. Hist.,
1875-1878.
D. Um resumo das espécies conhecidas com as indicações bibliográficas encontra-se em:
20. KErtész, Catalogus Tabanidarum orbis terrarum universi,
Budapest 1900.
Além disso, indicações sobre a distribuição, o período de
ocorrência, a variabilidade e outras relações biológicas das
pangoninas e crisopinas nacionais encontram-se em:
21. Lutz. Beiträge zur Kenntniss der brasilianischen Tabaniden,
in: Revista da Soc. sc. São Paulo, n.1 e 3-4
Classificação dos Tabanídeos
Os tabanídeos podem ser divididos em dois grupos, baseados na ocorrência ou não de esporão duplo nas tíbias do último par de pernas. Esses, entretanto, não formam subfamílias, mas sim englobam várias delas, de natureza bastante heterogênea. Sugiro para esses grupos os nomes “Opisthacanthae” e “Opisthanoplae”. De acordo com a composição do último artículo antenal, o primeiro divide-se em Pangoninae, com oito segmentos, e em Silvinae e Chrysopinae, que possuem apenas cinco artículos. As Silvinae são – excluindo-se as espécies erroneamente associadas a elas – menos numerosas e não se encontram representadas na região.
Nas pangoninas um número bastante considerável de gêneros foi distinguido, dos quais alguns, entretanto, não nos interessam, por não estarem representados na região. Os gêneros de Walker possuem nomes inexpressivos e são mal definidos; além disso, os tipos citados não mostram entre si parentesco mais próximo. Por isso, eles nunca foram usados na prática, tendo sido apenas o nome Scione mantido por Rondani, enquanto Schiner substituiu-o por Diclisa. Também esse gênero não foi comprovado na região, mas se aproxima bastante de suas fronteiras. Ele é bastante diferente por causa das acentuadas peculiaridades da venação alar.
Melhor que a classificação de Walker, ainda que não totalmente satisfatória, é a de Rondani, da qual farei uso, seguindo o exemplo de Ricardo. A classificação de Bigot, que, por sinal, mal trouxe progresso e é de data posterior, torna-se, em função disto, sem efeito. O gênero Mycteromyia pode ser mantido, mas apenas para a espécie chilena, que, segundo Philippi, tem olhos glabros, enquanto nas quatro espécies do Brasil descritas por Bigot os olhos são nitidamente hirsutos.
Bem fundado é o gênero Dicrania, de Macquart, ainda que só contenha uma única espécie.
Das pangoninas e dos gêneros próximos distingue-se, de muitas maneiras, um grupo de tabanídeos cujos inúmeros representantes foram designados ora como Pangonia (Macquart, Schiner, Ricardo), ora como Silvius (Wiedemann). Estabeleci para eles o gênero Dyspangonia, sem saber que Rondani (ainda que com definição insuficiente) definira formas aqui pertencentes com o nome de Esenbeckia, que eu, por uma questão de prioridade, manterei para todas as formas, já que ainda não possuo material suficiente para efetuar uma divisão em vários gêneros.
O gênero Pangonia é subdividido por Rondani em quatro gêneros, a
saber: 1 Pangonia e Erephopsis , com a primeira célula posterior fechada, e Diatomineura e Corizoneura, com ela aberta. Além disso, em Pangonia e Corizoneura os olhos não são claramente pilosos (“nudi vel subnudi”). Como todas as pangoninas da região têm olhos pilosos, estas não nos interessam.
A julgar pelos exemplos apresentados e pelo sentido do nome, só podem ser associadas a Erephopsis formas com tubérculo facial e probóscida alongados. Mesmo assim, o número de espécies é tão grande, que será necessário delimitá-lo. Fiz isto ao estabelecer quatro gêneros para as formas da região que apresentam características evidentes. Ainda restam espécies demais, mas tive que abrir mão de outras divisões, já que as diferenças úteis para alguns casos não foram suficientes para uma execução completa.
À Diatomineura, pelo contrário, pertencem somente as formas com tubérculo facial curto (ou mesmo ausente) e probóscida curta, razão pela qual, para uma forma com probóscida longa e primeira célula posterior aberta, foi criado o gênero Neopangonia.
A seguinte chave serve para uma rápida identificação:
Chave para a identificação dos gêneros de Pangoninae (s.
str.) existentes na região
1. Olhos glabros; segundo segmento palpal em forma de bainha
de sabre. 9
Olhos pilosos; segmento palpal mais largo próximo à base,
transformando-se em uma ponta mais curta ou mais longa. 2
2. Terceiro segmento antenal com processos laterais.
Dicrania Macquart
Terceiro segmento antenal sem processos laterais 3
3. Face cônica, bastante proeminente; lábio enrolado na parte
central, alon-gando-se através de estiramento ativo ou passivo,
mas sempre mais longo que o abdome 4
Tubérculo facial e probóscida curtos. Primeira célula posterior
largamente aberta Diatomineura Rondani
4. Coxas e fêmures espessamente cobertos por pêlos escuros,
em evidente contraste com as tíbias e tarsos, de coloração
clara. 8
Nenhum contraste evidente entre segmentos superiores e
inferiores das pernas 5
5. Primeira célula posterior fechada na margem ou antes dela,
apenas excepcionalmente bastante peciolada 6
Primeira célula posterior largamente aberta Neopangonia n.g.
6. Olhos com brilho metálico, marcadamente azuis ou verde-
azulados. Nervura transversal no ápice da primeira célula basal
marcada por uma mancha negra. Ionopis n. g.
7. Olhos não marcadamente azuis ou verde-azulados. Célula
basal escura ou largamente marginada de escuro
Phaeoneura n. g.
Olhos e células basais como de costume Erephopsis
Rondani
8. Aspecto geral nitidamente de um zangão, mesonoto com
pêlos longos e densos. Abdome fortemente abobadado em
ambas as direções, preto reluzente ou marrom-avermelhado
escuro, glabro, apenas próximo ao ápice com pubescência de
coloração conspícua. Bombylopsis n. g.
Mesonoto preto-fosco, densa e longamente piloso apenas nas
margens. Olhos marcadamente azuis ou verde-azulados, com
brilho metálico. Nervura transversal no fim da primeira célula
basal muito larga e com borda escura Epipsila n. g.
9. Probóscida curta, face não pronunciada. Primeira célula
posterior fechada. Apêndice da furca constante Esenbeckia
Rondani
Descrição das Pangoninae s. str.
Passo agora às descrições de cada gênero e espécie. Para tanto farei uso das seguintes abreviações:
A significa a estreita faixa costeira;
a cadeia de montanhas que vai em declive até as
B
proximidades da costa;
Co interior das cidades costeiras em questão;
significa a capital do estado de mesmo nome. Quando local
Cap. de procedência, os estados aparecem sem parênteses, ao passo que um local mais específico no estado está entre
parênteses;
R com o número seguinte, remete para o número da referência biblio- gráfica.
Pangoninae
As pangoninas brasileiras em sentido estrito e exclusivamente do gênero Esenbeckia são tabanídeos grandes e médios, de estrutura forte, um tanto maciça e compacta, cujo comprimento total, inclusive o tubérculo facial, mal chega à metade da envergadura. A coloração do corpo é quase sempre preta ou amarela ou vermelho-ferrugínea, com um acréscimo maior ou menor de marrom. Nas espécies mais claras, a parede quitinosa do mesonoto apresenta amiúde quatro faixas longitudinais escuras, e também no dorso abdominal encontram-se manchas e desenhos escuros desbotados e pouco regulares. Fora isto, a coloração e o desenho característicos de cada espécie derivam quase exclusivamente da cobertura pilosa. Esta última se encontra como uma barba, muitas vezes de coloração conspícua, na região da gena e daí, seguindo em direção ao tórax e algumas vezes cobrindo o mesonoto, destaca-se por seu comprimento e cor (o que se poderia chamar de juba); mas esta apresenta mais freqüentemente pêlos longos apenas nas laterais e mostra então não raro uma faixa clara sobre as bases das asas e na margem do escutelo. Também as pleuras e a face ventral do tórax são por vezes cobertas por pêlos longos. O dorso abdominal, ao contrário, nunca é coberto por pêlos longos e raramente de forma densa, mas mostra amiúde, na linha mediana, na margem posterior dos segmentos, manchas pilosas conspícuas, ou, próximo à margem posterior, uma pubescência colorida que também passa para as margens laterais. Em muitas espécies, pelo contrário, encontra-se no ângulo lateral da margem posterior uma crista de cerdas duras e de coloração variada, que às vezes também atinge parte da face superior. Boas características são dadas, e belos efeitos são muitas vezes alcançados, através das particularidades da vestidura pilosa: em alguns casos ela contribui para a imitação de himenópteros vulnerantes.
O abdome é bastante largo, freqüentemente um pouco achatado dorsalmente, mas ainda assim espesso e relativamente curto. Mais raramente apresenta-se, na parte de cima, fortemente abaulado em ambas as direções e com forma oval. O processo cônico da face corresponde ao comprimento da probóscida e é bastante conspícuo em algumas espécies grandes. Nestas, a probóscida assume uma posição quase horizontal, ao passo que se aproxima da vertical quando o processo facial é apenas curto. Os segmentos palpais podem ser qualificados de lanceolados; em casos isolados são curtos, quase triangulares, em outros longamente pontiagudos. As margens oculares, superiormente, são sempre, ou quase sempre, paralelas, de modo que o vértice (considerado como parte da fronte por autores mais antigos) não é muito dilatado na frente, como em muitas pangônias de todo o mundo. Falta uma calo nítido, mas os ocelos sempre existem. Os olhos são sempre pilosos e sem qualquer desenho, e apresentam coloração verde, marrom ou preta, no último caso amiúde com brilho esverdeado ou avermelhado; somente em Ionopis e Epipsila são marcadamente coloridos.
As asas são ora claras ora mais ou menos escurecidas, e neste caso, às vezes fenestradas; verdadeiros desenhos coloridos são sempre inexistentes, no máximo algumas áreas são coloridas diferencialmente e algumas nervuras alargadas e marginadas por cor. Também as pernas são em geral monocromáticas e, apenas nas extremidades dos tarsos, um pouco escurecidas.
Como todo o corpo se mostra encurvado, com convexidade dorsal, obtêm-se valores menores quando se mede apenas a distância dos pontos mais afastados do que, como eu faço, quando se adiciona o eixo longitudinal da cabeça e do tubérculo facial ao do tórax e do abdome, o que corresponderia a uma linha reta imaginária na metade do eixo do corpo.
Dicrania Macq.
Macquart (I. 27) assim descreve esse gênero, que propôs nas Suites à Buffon:
Les Pangonia furcata et cervus Wied., pour lesquelles nous
avons formé ce genre sont remarquables par la fourche que
présentent les antennes; cette dernière espèce l'est surtout par
la dent dont est munie chacune des huit divisions du dernier
article. Elle difère encore des autres par la forme de la première
cellule postérieure des ailes, fermée bien loin du bord intérieur.
Como P. furcata Wied é uma tabanina, assim como P. cornuta Walker, o gênero engloba, por hora, apenas as seguintes espécies:
1. D. cervus Wied. (R.1, 3) (Fig. 1)
Descrição de Wiedemann:
Rubido-fusca; antennis pedibusque ferrugineis, illis dentatis,
proboscide thorace longiore. Rötlich-braun; Fühler und Beine 3. P. fulvithorax Wied. (R.1, 3, 8) (Fig. 3)
rostgelb; jene gezahnt; Rüssel länger als der Rüchenschild. 5 L.
Aus Pará in Brasilien.
Die einzige mir bekannte Art, welche nicht allein den den
Viehbremsen (Tabanus) gewöhnlichen gekrümmten
zahnförmigen Fortsatz an der Wurzel des dritten Fühlergliedes,
sondern sogar an der innern Seite dieses Gliedes selbst
deutliche Zähnchen hat. Der Zahnfortsatz ist lang und stark, mit
langen Härchen besetzt; Farbe der Fühler sehr brennend
rostgelb. Taster lang, an der Wurzel rostgelblich, gegen die
Spitze braun. Untergesicht sehr glatt, rötlich-braun; Stirne
bräunlich-schwarz. Rückenschild kolkotharbraun mit schwärzlich
gemischt; Brustseiten bräunlich, rostgelb behaart. Hinterleib
kolkotharbraun, mit schwärzlich gemischt; Bauch gelb-bräunlich.
Flügel ebenso; der innere Ast der Gabelader nimmt die
nächsthintere Ader weit entfernt vom innern Flügelrande auf.
Schwinger lehmgelb, mit reingelbem Knopfe. Beine rostgelb. Im
Berliner Museum.2
Walker descreveu um exemplar desta espécie como variedade, além disso, segundo Ricardo, também sua Pangonia comprehensa faz parte dela, o que não se presumiria nem em função da descrição, nem em função do desenho.
Comprimento segundo Wied 5 linhas, segundo Walker 5 ½ linhas, comprehensa 6 linhas.
Coletei uma fêmea em Manaus em junho ou julho
Procedência: Pará [isto é, Belém], Santarém, Manaus na região do rio Amazonas.
Erephopsis Rondani.
(Definição e transcrição mais minuciosas já dadas acima.)
Grupo I.
Espécies grandes (Compr.: 20 mm e mais), de cor básica
castanha, pardo-avermelhada ou preta.
2. E. nigripennis Guérin (R 10, 12, 3) (Fig. 2)
A descrição original de Guérin concorda suficientemente com meus exemplares. A cor básica do corpo é castanho-avermelhada a preta. A barba varia de pardo-amarelada clara a pardo-avermelhada; mesonoto com pêlos pretos, entre os quais algumas linhas escuras; além disso o tórax tem pêlos pardo-avermelhados. No abdome uma camada lateral de pelinhos amarelo-ouro, antes e entre os quais se encontram, no segundo, no terceiro e no quarto segmentos, pelinhos pretos. Asas pardo-avermelhadas opacas, mais escuras e avermelhadas após a costa e a base, raramente fenestradas. Pernas pardo-avermelhadas a pretas; fêmur com cílios pretos. Comprimento do corpo nas fêmeas até 25 mm; macho amiúde um pouco mais claro e bem menor (19 a 22 mm).
Esta espécie grande e inconfundível não é, de modo geral, freqüente; mas às vezes ambos os gêneros perdem o rumo, batendo em vidros de janelas, onde se destacam por seu tamanho. Wiedemann apresenta-a como possível variedade de P. venosa; Macquart (L. 2) descreve um macho como sendo de P. lingens. Walker (L. 3) e descreve-a sob quatro nomes (P. rufohirta, piceohirta, nigrohirta e badia), conforme me convenci a partir do exame dos tipos. Todos os exemplares mencionados possivelmente provêm da região do Rio de Janeiro. Eu os recebi da vizinha, porém elevada, Petrópolis.
Procedência: Rio de Janeiro B, São Paulo B, C (Cap., Pouso Frio, próximo a Pindamonhangaba, Sabaúna etc.), apenas esporadicamente. Numerosos exemplares de Jacutinga, próximo a Bauru.
Período de ocorrência: janeiro a abril.
Comprimento: 10-25 mm.
Sinônimo: P. thoracica Guérin (R.10). Descrição de Wiedemann:
Rückenschild und After goldhaarig; Hinterleib schwarz; Flügel
rauchgrau. – 8 L. ♂ ♀ – aus Brasilien.
Rüssel vier Linien lang; Taster und Untergesicht braun;
Fühlerwurzel schwarz, Endglied ocherbraun. Grundfarbe der
Rückenschildes und Schildchens bräunlich, aber von der
goldgelben Behaarung bedeckt; Brustseiten braun, mir
schwarzer Behaarung. Hinterleib kastanienbräunlich schwarz.
Dritter Abschnitt an jeder Seite und am Hinterrande, die
folgenden nebst den After fast ganz mit goldgelben Haaren
besetzt. Bauch und Beine schwarz. Flügel gleichförmig und satt
rauchgrau 3 .
Todos os exemplares de museus parecem provir do Rio de Janeiro; possuo um exemplar ruim do mesmo lugar, juntamente com dois ou três outros observados em novembro em um subúrbio. Ela não parece muito rara neste habitat, mas não foi encontrada ainda em nenhum outro lugar.
Procedência: Rio de Janeiro A (Cap.).
Tamanho: 8 linhas (Wiedemann), 23 mm (mensuração própria).
Período de ocorrência: novembro.
4.E. venosa Wied (R.1, 3) (Fig. 4)
Descrição de Wiedemann:
Mit braunem Rückenschilde, schwarzem Hinterleibe und fast
wasserklaren, an den Adern braungesäumten Flügeln: – 10 L. ♀
– Aus Brasilien.
Rüssel 4 ½ Linien lang, schwarz; Taster braun; Fühler bräunlich
schwarz; Untergesicht und Stirne braun; vom Scheidel läuft eine
wenig erhöhte Leiste zur Stirne hinab. Rückenschild rußbraun,
schwarz behaart, ohne Glanz; Brustseiten ebenso; Schildchen
bräunlich schwarz, schwarz behaart, Flügelader deutlich sehr
braun gesäumt; Schwinger braun; Beine schwarz. Ändert ab mit
überall braunen Flügeln und gelbhaarigen Seitenrändern der
Hinterleibsspitze. ♂ ♀ – Im Berliner Museum und meiner
Sammlung.4
A última variedade mencionada é talvez E. nigripennis Guérin. O tipo de venosa parece perdido, sendo provavelmente um exemplar fenestrado desta espécie, que normalmente tem as asas com a mesma coloração usual de E. nigripennis. Nos museus encontram-se somente exemplares com asas monocromáticas, de cuja identidade não se pode duvidar, já que na região não há outra espécie monocromática com esse tamanho. O desenho foi feito a partir de um exemplar de 22-23 mm; as pequenas dimensões do exemplar de Wiedemann podem ser explicadas (em parte) por um modo um pouco diverso de medição.
Procedência: Rio de Janeiro A (Cap.).
Período de ocorrência: novembro.
5. E. lingens Wied. (R.1, 2 ,3) (Fig. 5)
Descrição de Wiedemann:
Röthlich. Rückenschild mit weißlichen Linien, an jeder Seite mit
schneeweißen Haaren; Hinterleib mit goldbehaarten
Einschnitten; mit schwärzlich braunen Flügeln und
schneeweißem Barte. 9 ½ Linien Rüssel 5 ½. ♀.
Kopfrötlich braun; Stirne in der Mitte mit zwei schrägen,
hintereinander sich berührenden Eindrücken. Rückenschild
braunroth, mit drei weißlichen Längslinien, dünn-schwärzlich
behaart, an den Seitenrändern schneeweiße Haaren; auch die
Brustseiten vorn und hinten ebenso behaart, zwischen den
Hüften schwarze Haare; Schildchen schwarz behaart.
Grundfarbe des etwas abgeriebenen Hinterleibes wie am
Rückenschilde, die von schwarzen anliegenden Härchen mehr
weniger verdeckt ist; Hinterrand des zweiten und aller folgenden
Abschnitten mit bleich gelben Härchen dicht besetzt, am dritten
scheinen sie in der Mitte zu fehlen, doch könnten sie auch nur
ganz abgerieben sein. Flügel einfarbig schwärzlich braun;
Schwinger braun mit gelblichen Knopfe; Beine tief rötlichbraun.
In meiner Sammlung.5
Esta espécie, de acordo com a descrição inconfundível, parece bastante rara; eu possuo apenas dois exemplares bem ruins de Petrópolis. A face é extremamente pronunciada. A pálida pilosidade amarelo-ouro é mais forte no segundo segmento do que no terceiro e no quarto; nos meus exemplares ela está ausente no centro, onde aparece apenas no sexto.
Período de ocorrência: dezembro e janeiro.
Comprimento, inclusive processo facial, até 21 mm.
6.E. flavicrinis n. sp. (Fig. 6)
Probóscida com 10-12 mm, preta, artículo apical palpal estreito, amarelo-amarronzado, com ápice longo e escuro. Face marrom-avermelhada, mas em grande parte coberta espessamente com polinosidade cinza. Antenas: os primeiros segmentos marrom-acinzentados, o último avermelhado. Fronte cinza, vértice mais pardacento. Olhos verde-escuros, a seu redor uma estreita margem amarelo-clara. Barba amarelo-canário, na frente bastante clara, quase branca. Occipício com pilosidade amarelo-opaca. – Tórax castanho-marrom, mesonoto e escutelo com polinosidade cinza-amarelada, rodeados de longos pelinhos amarelos, estes encontrando-se na frente, no esterno e nas pleuras. Dos calos umerais parte uma larga faixa preta em direção à base das asas. Abdome preto brilhante, passando a marrom-avermelhado em ambos os finais do dorso. Nas margens laterais uma crista de cerdas horizontais eretas e pretas, substituídas por cerdas níveas no final do segundo e do quarto segmentos, bem como no início do sexto. Asas cinza-enegrecidas passando a amarelo-avermelhadas em direção à base e à Costa; área costal intensamente amarela ou amarelo-avermelhada. Um curto, porém nítido, apêndice na nervura furcada. Halteres marrons, amarelados no ápice. Pernas geralmente bastante escuras, total ou quase totalmente pretas.
Procedência: São Paulo C (Canaã).
Período de ocorrência: março. Três exemplares.
Comprimento: até 24 mm.
7.E. auripes Ricardo (R. 9) (Fig. 7)
Descrição:
Dark brown. Antennae dark red; first joint grey, clothed with long
black hairs. Palpi red, the edges and tip black, the second joint
very long and tapering. Frontal stripe covered with hoary
pubescence on the posterior half near the antennae; face with
hoary pubescence. Beard white. Thorax covered with black
pubescence and with black hairs on the anterior half of the
lateral margins, then white hairs at the base of wings extending
to the scutellum; breast with white hairs on the sides, and black
hairs in the centre. Abdomen black; tufs of white hairs on the
posterior lateral margin of second, fifth and sixth segment, which
also appear on the underside, becoming a faint band on the
second segment. Legs black; underside of tarsi covered with
orange pubescence, extending to the tibia and the anterior legs.
Wings hyaline, faintly yellow on the fore border, brown at the
base, no appendix. Length 16, proboscis 13 mm. Hab. Pará 6
(Wallace and Bates).
Meu desenho representa uma fêmea do Pará, que concorda com a descrição, mas é notavelmente maior. Comprimento: 20 mm.
8. E. (Mycteromyia) penicillata Bigot (R. 6) (Fig. 8)
Descrição:
M(ycteromyia) penicillata, long. 16 millim. (praeter haustellum).
Haustello nigro, dimidiá parte corporis circiter aequilongo; oculis
villosis; alarum furca venae quartae longitudinalis (Rondani)
breviter appendiculata; antennis rufis, basi et apice nigris; palpis
nigris; facie nigro nitido; fronte cinereo nigro, pruinosa, barba
albida; tergo nigro et, utrinque, nigro piloso, scutello obscure
castaneo, pectore pleurisque longe et dense albido villosis;
abdomine nigri nitido, incisuris parce aureo tomentosis, apice,
utrinque, albido et flavo aureo penicillato; calyptris fuscis,
halteribus rufis, clavâ fuscâ; femoribus fuscis, tarsis apice
fuscis; alis fuscanis.
Pipette noire, dépassant un peu la moitié de la longueur du
corps; les yeux villeux; ailes, bifurcation externe de la quatrième
nervure longitudinale (Rondani) brièvement appendiculée;
antennes obscurément rougeâtre, la base et l'extrémité noire;
palpes noires; face d'un brun noirâtre luisant; front d'un gris
obscur; barbe épaisse e blanche; tergum noir, presque glabre
mais avec des poils noirs sur les côtés; écusson brun noirâtre;
flanc et sternum couverts d'une épaisse villosité blanchâtre;
abdomen d'un noir luisant, un peu de duvet jaune d'or aux bords
des segments, et deux touffes blanches sur les côtés, à
l'extrémité entremêleés de poils d'un jaune doré; cuillerons
bruns, balanciers rougeâtres, massue brune; fémurs noireâtres,
tibias et tarses d'un rougeâtre pâle, les derniers avec l'extrémité
brunâtre; ailes brunes. – Brésil, quatre spécimens.
Parece-me que devo identificar a espécie ilustrada com a descrita acima, embora existam algumas pequenas variações, que podem ser explicadas através de variações locais e do mau estado de conservação dos exemplares de Bigot. Provavelmente estes últimos provêm, assim como as espécies descritas concomitantemente, das cercanias mais amplas do Rio de Janeiro (Teresópolis?), enquanto os meus foram coletados entre Santos e São Paulo. Para completar esta ilustração menciono o seguinte:
Palpos quase pretos ou marrom-avermelhados, face marrom-avermelhada brilhante ou com polinosidade variando de cinza a preta. Antenas pretas com tom quase imperceptível de vermelho. Fronte e vértice com polinosidade preta ou cinza-claro. Olhos verdes, assim como o occipício, com pilosidade esbranquiçada. Barba branca, tornando-se para trás cor de creme. A pilosidade branca sob as asas alcança a linha mediana somente na extremidade anterior do esterno; fora isso, encontram-se no meio do esterno apenas pêlos escuros. Mesonoto ora cinza com linhas claras e nítida pubescência cinza, ora quase preto. Escutelo da mesma forma. Sobre a base das asas e na margem do escutelo alguns tufos de pêlos brancos ou amarelados. Abdome no dorso apenas com um brilho fusco, se não estiver desgastado, apresenta pubescência densa cor de fuligem. Em dois exemplares pelinhos brancos ou amarelados nas laterais da margem posterior do segundo segmento, e no mesmo local, no quinto e no sexto, pequenos tufos de pelinhos brancos, aos quais pode estar misturado um tom amarelo-avermelhado. Isto se pode observar em todos os exemplares; ao contrário, encontram-se na estria média do segundo ao quinto segmento, localizadas na margem posterior, máculas compostas por poucos pelinhos brancos, amiúde apenas vagas, já que os pelinhos são bastante caducos. Apêndice inconstante, já que pode faltar em um ou ambos os lados. Nos meus exemplares as pernas são geralmente pretas como piche; um leve tom de vermelho esboçado pode aparecer, no máximo, nos tarsos.
Comprimento: 17-19 mm.
Procedência: São Paulo B (Serra de Cubatão).
Período de ocorrência: março. Seis fêmeas.
9. E. xanthopogon Macq. (R. 2, 3) (Fig. 9).
Descrição original:
Ferruginea. Antennis testacceis. Oculis hirsutis. Cellulâ
submarginali secundâ inappendiculatâ; posticâ primâ clausâ.
Long. 81. – Trompe brune, longue de quatre lignes. Palpes
bruns, à pointes allongées. Barbe fauve. Face très saillante,
testacée, ainsi que le front. Ocelles distinctes. Thorax et
abdomen bruns à duvet ferrugineux. Pieds d'un fauve foncé.
Ailes brunâtres.
Cette espéce ne diffère guère du P. tabanipennis, nobis, que par
la première cellule postérieure des ailes fermées et du
leucopogon par la barbe fauve. Du Brésil, au midi de la
capitainerie de Goyaz. Muséum.
A curta descrição é insuficiente, porém não resta dúvida quanto à identificação, como mostra um exemplar de Paris, a que Macquart deu o nome latino fulvibardis, o qual, ao que tudo indica, só mais tarde ele traduziu para o grego; além disso também a procedência está correta. O tamanho, ao contrário, é um quarto menor que a média dos exemplares normais, significativamente maiores que E. leucopogon e tabanipennis. A barba varia um pouco de cor, no entanto praticamente nunca poderá ser definida como puramente amarela, talvez como cor de chamois; normalmente ela apresenta um nítido cinza-marrom-amarelado. O abdome não tem apêndices laterais e é notavelmente glabro, na frente é pardo avermelhado, passando a enegrecido na parte posterior, o último segmento é opaco, de resto é brilhante. A curta pubescência do esterno é mais escura do que a barba, os pêlos da pleura, ao contrário, são parecidos ou um pouco mais claros. O capítulo dos halteres é amarelo pálido. – As nervuras transversais internas podem ser sombreadas e as primeiras células posteriores podem ser abertas.
Considero esta espécie idêntica a P. castanea Perty, no entanto, a curta descrição não permite uma delimitação de outras espécies semelhantes. (procedência: “Montes minarum.”).
Esta espécie é largamente distribuída no interior, mas não ocorre na costa; recebi inúmeros exemplares de diversos locais, mas apenas fêmeas.
Comprimento: 20-22 mm, probóscida 9 mm.
Período de ocorrência: fevereiro a abril.
Procedência: São Paulo C (Ribeirão Preto, Limeira, Canaã, Bauru etc.), Goiás (Amaro Leite, o mesmo também em meses de inverno), Minas (Bicudos).
10. E. (Mycteromyia em Bigot) albipectus Bigot (R. 6) (Fig. 10)
Descrição o riginal:
Long. – 20 millim. (praeter haustellum) etc. Pipette, noire à-peu-
près égale à la longueur du corps, face conique, allongée,
brunâtre, ainsi que le front et les palpes; antennes noirâtres,
premier segment rougeâtre; barbe blanche; tergum d'un brun
noirâtre, avec deux lignes grisâtres peu distinctes, flancs et
poitrine densement couverts de longs poils blanchâtres, une
touffe de poils blanchâtres au dessus de l'insertion des ailes;
écusson d'un rougeâtre obscur; cuillerons brunâtres, balanciers
d'un fauve obscur; abdomen noirâtre, le bord externe des
segments, principalment vers l'extrémité, et les derniers
couverts d'une courte villosité roussâtre, un peu de duvet
jaunâtre au bord postérieur du troisième segment; pieds d'un
brun rougeâtre; ailes d'un brunâtre três pâle, un peu plus foncé
à la base et au bord externe: corps large; tête aussi large que le
thorax; les yeux villeux: ailes, bifurcation externe de la
quatrième nervure longitudinale (Rondani) inappendiculée. –
Brésil. – 2 spécimens.
Meus exemplares estão de um modo geral de acordo com a descrição e devem ser indubitavelmente incluídos na mesma espécie; nos pormenores encontram-se no entanto algumas diferenças:
A coloração básica é, em todo o corpo, vermelho-violeta enegrecida, coberta nas partes encouraçadas por pelinhos claros, quase puramente brancos. O terceiro artículo palpal torna-se bastante escuro em direção ao ápice, o terceiro segmento da antena é, ao contrário, na maioria das vezes, vermelho vivo, e, somente bem no final, preto. O mesonoto é coberto por pubescência cinza, sob a qual transluzem quatro faixas longitudinais, com diferentes graus de nitidez, na disposição usual. Escutelo da mesma cor do tórax. Dorso do abdome bastante escurecido por pelinhos pretos, ventre mais marrom-avermelhado. Pelinhos laterais no segundo segmento brancos, no terceiro inexistentes, no quinto e no sexto segmentos também brancos, porém aparentemente amarelados em função das margens livres transparentes do anel. Pernas quase totalmente vermelho-amareladas mais escuras ou mais claras, apenas os fêmures passando a roxo na parte superior, com pubescência escura. Apêndices de veia curtos ou inconstantes, amiúde inexistentes em um ou ambos os lados. A primeira célula posterior nunca é aberta, normalmente é fechada já antes da margem. O tamanho é bastante variável, mas meus exemplares raramente ultrapassam os 20 mm.
Possuo inúmeras fêmeas de Petrópolis, o período de ocorrência é fevereiro-março.
Grupo II.
Espécies menores, com 15-16 mm de comprimento e de
coloração negra ou enegrecida.
11. E. nigricans n. sp. (Fig. 11)
Comprimento: cerca de 16 mm. Probóscida 6-7 mm, preta. Palpos enegrecidos. Antenas: segmento basal marrom, segmento apical vermelho-ferrugíneo. Face proeminente, coniforme, cor de canela; vértice escuro, quase preto; olhos escuros, um pouco esverdeados, com pilosidade amarelada. Barba branca.
Tórax: dorso desnudado, marrom canela, com quatro faixas transversais escuras, pouco nítidas. Escutelo avermelhado no centro. Pêlos brancos mais longos a partir da base das asas até o escutelo. Dos úmeros à base das asas passa uma estria pilosa negra. Pêlos da face amarelo-acinzentados bem claros, quase brancos.
Abdome: dorso castanho nos dois primeiros segmentos, quase negro na parte posterior, enegrecido na inferior, com as margens posteriores do segmento claras.
Asas cinzas, com tons amarelados, tornando-se mais avermelhadas em direção à base e à Costa, nervuras amarelo-couro, especialmente as mais espessas. Primeira célula posterior e célula anal fechadas pouco antes da margem. Halteres marrons com capítulo amarelo-ocre.
Pernas quase monocromáticas, de pardo-amareladas a castanho-escuras.
Possuo apenas uma fêmea do estado do Espírito Santo.
12. E. winthemi Wied. (R. 2, 3) (Fig. 12)
Descrição original:
Thorace brasiliano, abdomine badio albofasciato; alis fuscanis.
– 6 Linien ♀ – aus Brasilien.
Fühler rostgelb, Taster ein wenig satter; Bart gelblich; Stirne
bräunlich; Augen mit greisen Härchen. Rückenschild etwas
gelblich brasilienholzbraun, mit zwei schwach gelblichen Linien;
Brustseiten mit längern ocherbraunen Haaren. Hinterleib hoch
kastanienbraun (in einigen schwärzlich), in gewisser Richtung
von äußerst dünnen Härchen haargreis; zweiter, fünfter und
sechster Einschnitt weiß von Härchen, die am Bauche auch
Binden bilden. Auf dem ersten Abschnitte sind noch Spuren
einer wenig gelblichen Binde, Flügel gleichförmig bräunlich:
innerer Ast der Spitzengabel mit der nächsten Ader am
Innenrande der Flügel verbunden. Schwinger ocherbraun mit
weißem Knopfe. Beine ocherbraun. – In V. Winthemes und
meiner Sammlung.7
A concordância de meus exemplares com a descrição é bastante satisfatória. Seria importante observar que na margem posterior do primeiro segmento abdominal encontram-se pelinhos brancos, embora não haja nem sombra de uma faixa amarelada. Em exemplares frescos o mesonoto é coberto por pubescência marrom-amarelada. A primeira (e a quinta) células posteriores quase sempre já estão fechadas antes da margem. Somente os exemplares de Petrópolis são mais pardacentos, enquanto nos outros o mesonoto é quase ou totalmente preto. A espécie não é rara em alguns locais, mas eu possuo apenas fêmeas.
Procedência: Rio de Janeiro B (Petrópolis), São Paulo B (Sabaúna, Pouso Frio, próximo a Pindamonhangaba).
Período de ocorrência: janeiro, fevereiro.
13. E. besckii Wied (R. 1, 3) (Fig. 13)
Descrição original:
Schwarz, mit an jeder Seite gelbhaarigem Rückenschilde,
Weißen Mittelflecken des Hinterleibes und schwärzlich braunen
Flügeln. – 7-8 Linien. – Aus dem Innern von Brasilien.
Fühlerwurzel schwarz, Endglied roströthlich gelb; Taster
schwarz. Untergesicht ubd Stirne bräunlich schwarz; Bart und
Hinterkopfsbehaarung gelb. Rückenschild und Schilchen
bräunlich schwarz, mit schwarzem Flaume: Seitenränder von
beiden und Brustseiten gelbbehaart. Hinterleib rein schwarz, am
Hinterrande jedes Abschnittes in der Mitte ein weißer
Haarflecken; von fünften Abschnitte an sind die Seitenränder
auch deutlich weiß behaart, auch an den beiden ersten
Abschnitte stehen einige weiße Haare. Bauch schwarz mit
etwas röthlicher Spetze; Hinterränder aller Bauchabschnitte
weiß behaart. Flügelschuppe schwärzlich braun, weiß
gewimpert. Schwinger bräunlich. Beine tief und ziemlich
reinbraun, die hintersten mehr schwarz, alle wenigstens an den
Schenkeln schwarz behaart. 8
Meus exemplares combinam bem entre si e com essa descrição, devendo-se, entretanto, observar o seguinte. A probóscida, quando não esticada, mal mede 1 cm; as manchas médias bastante caducas do dorso do abdome, quando frescas, não são brancas, mas sim amarelas bem claras. Os olhos são negros e os ocelos, não percebidos por Wiedemann, nitidamente existentes.
Possuo também machos, os quais, como mostra a figura, diferenciam-se de forma bastante conspícua das fêmeas. A parte anterior do abdome é amarelochifre transparente, tornando-se, em direção à parte posterior, mais marrom-escura e não puramente negra. Os pêlos, que nas fêmeas são amarelo-canário, aqui são mais amarelo-laranja, assim como aqueles do ápice da face ventral do abdome.
Ocorrência: São Paulo B, C (Cap. Cantareira, Serra da Bocaina, Jacutinga).
Inúmeras fêmeas de 16-18 mm, dois machos de 15-16 mm.
Período de ocorrência: fevereiro, março, abril.
Grupo III.
Espécies médias e pequenas com os primeiros segmentos do abdome amarelo-avermelhados ou marrom-avermelhados.
14. E. ardens Macquart (R. 2, 3) (Fig. 14)
Descrição original:
Tête assez épaisse. Trompe noire, longue de quatre lignes.
Palpes noirs. Face avancée, allongée, conique, d'un testacé
luissant à tache noirâtre au milieu: base à duvet jaunâtre. Front
à duvet brun. Thorax noir à duvet roussâtre, terne; dessous à
poils gris. Abdomen: les quatre premiers segments à fond d'un
brunâtre clair à poils d'un fauve ardent et et tâche dorsale noire,
à poils noirs; troisième et quatrième à poils noirs au bord
extérieur; cinquième, sixième et septième noirs, à bord
postérieur testacé, couvert de poils d'un fauve ardent sur les
côtés et de poils blanches au bord extérieur; ventre brunâtre.
Pieds d'un fauve brunâtre; hanches grises. Ailes brunâtres, plus
foncées à la base et au bord extérieur. Nervures normales.
Long. 8 l. ♀.
De Saint Léopold [Brasil, RS, São Leopoldo].
Quanto à identificação da espécie com meus exemplares, quase não pode restar dúvida. A barba, não mencionada, é branco-amarelada, como também parte dos pêlos das pleuras e da face ventral do tórax. O “fauve ardent” corresponde a um vermelho-ouro com brilho sedoso. A seqüência de manchas no dorso do abdome é um pouco variável. Na diagnose, Macquart diz o seguinte sobre as antenas: Anntenis testaceis apice nigro, o que é verdade para alguns exemplares. No tórax desgastado podem-se reconhecer nitidamente quatro faixas longitudinais escuras na forma usual sobre fundo cinza.