Adolpho Lutz: entomologia, tabanídeos

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 21 de 35

Páginas do PDF

Adolpho Lutz: entomologia, tabanídeos

Sobre a sistemática dos tabanídeos, subfamília Tabaninae. Comunicação preliminar

Sobre a sistemática dos tabanídeos

subfamília Tabaninae*

 

Comunicação preliminar

Em trabalhos anteriores expus que os tabanídeos podem ser divididos em Opisthacanthae e Opistanoplae, conforme a ausência ou presença de esporões apicais nas tíbias do último par. Das subfamílias representadas entre nós, reúnem-se, no primeiro grupo, as Pangoninae e as Chrysopinae; no segundo, distingo três subfamílias. A primeira é formada pelas espécies do gênero Diachlorus e chama-se Diachlorinae; a segunda, Lepidoselaginae, contém os gêneros antigos: Lepidoselaga, Selasoma e dois novos: Stigmatophthalmus e Himanthostylus. A monografia das nossas Diachlorinae e Lepidoselaginae deve aparecer proximamente nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz.

Depois da separação das Diachlorinae e Selasomanae, permanecem as Tabaninae s. str. Nestas entram, além do gênero Tabanus, as seguintes, que devem ser mais exatamente limitadas: Dichelacera e Acanthocera MACQ. e Stibasoma SCHIN. O gênero Therioplectes ZELLER, mais circunscrito por OSTEN-SACKEN, e o gênero Atylotus do último autor não serão contemplados, porque não são representados em nossa fauna. De outro lado, não posso deixar de estabelecer alguns gêneros novos para as numerosas tabaninas sul-americanas, baseando-me em estudos e observações demoradas.

Alguns desses gêneros podiam ser considerados como subgêneros de Tabanus; mas, tratando-se, geralmente, de grupos muito naturais, não vejo nisso vantagem. Onde uma divisão ulterior parecia indicada, mais difícil de estabelecer, deixei permanecer as espécies no gênero Tabanus. A fauna por mim estudada é bastante original, sendo a maior parte dos gêneros limitados ao continente americano, o que me dispensou de considerar minuciosamente a fauna dos outros continentes, com que naturalmente sou menos familiarizado.

Os gêneros Acanthocera e Stibasoma podiam facilmente formar subfamílias, porque diferem muito dos outros. Isto, todavia, deve-se ao mimetismo de himenópteros que predomina em todos os seus aspectos e, em algumas espécies, chegou ao ponto de modificar os caracteres específicos do gênero.

As subdivisões maiores só se podem basear em dois caracteres, a saber: o aspecto dos olhos e o do último artículo das antenas. Em virtude de razões meramente práticas, emprego o segundo caráter para estabelecer duas séries paralelas de gêneros, a saber as (Tabaninae) Schistocerae e Haplocerae; nos primeiros, o último artículo das antenas aparece em forma de forquilha, em razão de um galho lateral. As espécies, que têm apenas um dente lateral curto, entram na segunda divisão. Uma subdivisão ulterior baseia-se no desenho dos olhos, que é da maior importância, não podendo ser desprezado numa classificação natural. Estudando exemplares frescos, a sua importância se impõe, posto que, infelizmente, esse desenho possa apagar-se completamente em exemplares conservados por muito tempo. Outros caracteres, já anteriormente citados, têm apenas um valor secundário.

Pelo aspecto dos olhos estabeleço quatro grupos de Schistocera, a saber:

1. Olhos com duas ou três listras verdes sobre fundo escuro:

gêneros Acanthocera e Dichelacera

2. Olhos apenas na metade inferior de verde claro brilhante:

gênero Gatachlorops

3. Olhos com ambas as metades de verde claro brilhante:

gênero Amphichlorops

4. Olhos unicolores e bastante escuros:

gêneros Dichladocera, Rhabdotylus, Cryptotylus etc.

No primeiro grupo há geralmente sobre o fundo escuro duas listras verdes, correndo do ângulo posterior e exterior do olho para o anterior e inferior, ficando o calo frontal na região que corresponde ao intervalo das duas listras. Estas são geralmente estreitas, podendo todavia alargar-se em algumas espécies, de modo que alcançam a margem do olho: poder-se-ia então falar de uma listra escura sobre fundo verde. No primeiro caso pode-se observar uma terceira listra (acessória), que acompanha a margem posterior do olho (G. Acanthocera), ou, raras vezes, a anterior (espécies de Dichelacera).

As mesmas variações observam-se nas Haplocerae, que têm os olhos listrados; todavia, a fita acessória pode ser de forma variada e até aparecer de um modo inconstante como se dá pelo menos em duas espécies.

As duas primeiras listras, todavia, são absolutamente constantes nas fêmeas, exemplares frescos.

Dou, em seguida, uma chave para a determinação dos gêneros, a qual contém os caracteres principais de cada um:

 

Tabaninae Schistocerae

(Último artículo da antena com galho lateral bem visível).

1. Olhos unicolores, escuros 5

Olhos verde-claros ou com desenhos desta cor; segundo

artículo de palpo em forma de bainha de sabre. 2

2. Olhos sem listras 4

Olhos com listras 3

3. Artículo terminal da antena sem curva, muitas vezes

claviforme.

Abdome um tanto estrangulado acima do meio, preto ou

castanho luzidio Acanthocera

Artículo terminal curvado para cima; abdome sem

estrangulamento, geralmente amarelo, raras vezes preto

Dichelacera

4. Olhos de cor verde-claro brilhante apenas na metade inferior

Catachlorops

Olhos de cor verde-claro brilhante na sua totalidade

Amphichlorops

5. Calo frontal bem visível 6

Calo frontal nulo ou pouco visível, artículo terminal da antena

com estilo angular, o galho lateral curto e

reto Chryptotylus

6. Pernas sem particularidades, de forma ou de revestimento

piloso 8

Tíbia anterior encurvada e intumescida, posterior com pêlos

densos ou apenas ciliada. Corpo grosso e curto

7

7. Aspecto de Bombus ou Euglossa (hymen.), todas as tíbias

espessadas, as pernas cobertas de pêlos compridos. Asas

muitas vezes pretas Stibasoma

Aspecto diferente, asas nunca pretas, pernas apenas com

cílios, calosidade trabecular Rhabdotylus

8. Artículo terminal do palpo estreito; galho lateral curvo,

comprido e fino; abdome pouco abaulado Dichladocera

Abdome comprido e bastante abaulado, espécies muito

grandes Chelotabanus

 

Tabaninae Haplocerae (Artículo terminal das antenas sem galho lateral; sendo esse artículo claviforme, a espécie entra na Acanthocera, n.1 da chave anterior).

1. Olhos sem listras 5

Olhos com listras verdes sobre fundo escuro 2

2. Calo frontal subquadrangular ou arredondado, apêndice da

terceira nervura nulo, inconstante ou breve. Espécies menores

3

Calo, em forma de sarafo ou de clava. Apêndice constante,

geralmente comprido e curvado Macrocormus

3. Sem calo super-numerário 4

Entre o calo frontal e o tuberocelar um calo super-numerário,

quadrado. Espécies menores, geralmente de corpo estreito

Stenotabanus

4. Escudo com pêlos claros e escuros. A face dorsal do corpo

coberta de pêlos, com manchas claras. As nervuras

transversais na maioria das espécies marcadas de pardo.

Poecilosoma

Escudo com pêlos de uma só cor. Nervuras transversais sem

tarja parda. Primeira célula da margem posterior sempre aberta

Neotabanus

5. A forma e a coloração lembram o gênero

Acanthocera Pseudacanthocera.

Forma e coloração diferentes 6

6. Calo frontal sempre presente 7

Não há calo. Cor verde, olhos vermelhos

Chlorotabanus

7. Escutelo sem cor branca 8

Escutelo branco Leucotabanus

8. Asas na totalidade ou em grande parte pardas ou com faixa

parda além do meio. Abdome largo e chato, translúcido na

base. Espécies de tamanho médio Phaeotabanus

Sem os caracteres especiais citados; asas sem faixas, quando

muito há algumas nervuras tarjadas ou algumas células de cor

um tanto di ferente. Asas hialinas ou enfumaçadas

Tabanus

No uso desta chave deve-se lembrar o seguinte:

As Schizocerae e Haplocerae devem ser consideradas como duas séries de evolução paralelas. Entre os gêneros da primeira há dois que contêm algumas espécies nas quais o processo lateral fica muito reduzido ou mesmo desaparece. O último caso se dá apenas no gênero Acanthocera, sendo então as antenas claviformes, como nos himenópteros, que servirão de modelo de mimicria. Há algumas Dichelacera com processo reduzido a um simples espinho, mas essas espécies têm no resto os caracteres do gênero; asas com faixas escuras, palpos estreitos, olhos com duas listras verdes, calo frontal arredondado etc. Quando o dente antenal é um pouco alongado, mas direito, e os palpos bastante largos, deve-se procurar nas Haplocerae; em casos duvidosos, consultem-se as duas chaves. Estas exceções não devem ser consideradas como depreciando a nossa classificação, resultante de observações extensas e prolongadas reflexões, e correspondendo também às afinidades naturais. Seria difícil substituí-la por outra melhor. Apenas o desenho dos olhos podia ser preferido, como caráter primitivo; mas isso, além de dificultar mais a determinação de exemplares antigos, só alteraria a ordem numérica dos caracteres. A cor nos desenhos dos olhos é sempre verde nos olhos frescos, mas pode alterar-se ou desaparecer completamente em exemplares velhos e conservados a seco, de modo a não reaparecer mais, mesmo na câmara úmida. Lembrando-se destes fatos, a nossa chave permitirá facilmente determinar os gêneros antigos e novos.

* Publicado originalmente em 1.12.1913, em O Brazil-Medico, Revista Semanal de Medicina e Cirurgia, Rio de Janeiro, ano XXVII, n.45, p.486-7. Junto ao título, constava a observação de que se tratava de “Trabalho do Instituto Oswaldo Cruz”. Foi reimpresso aí no mesmo ano (Rio de Janeiro, Manguinhos, 1913, 7p.). O mesmo artigo, com alterações desprezíveis, foi publicado em 1914 nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz (t. 6, n.3, p.163-8), agora em português e alemão, neste caso com o título “Ueber die Systematik der Tabaninae, Subfamilie der Tabaninae”. Apresentamos a versão fac-similar da publicação de 1914 acompanhada da reedição, com grafia atualizada, do texto veiculado em O Brazil-Medico. [N.E.]