Adolpho Lutz: entomologia, tabanídeos
Capítulo 1915
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Tabânidas do Brasil e de alguns
Estados vizinhos *
Segunda memória
O presente estudo faz continuação a um outro publicado nestas Memórias em 1913 (Tomo V, Fasc. II) que tratava das Diachlorinae e Lepidoselaginae. Apareceu depois um artigo “Sobre a sistemática dos tabanídeos, subfamília Tabaninae” que pedimos consultar também. Damos em seguida uma nota adicional à memória sobre as Diachlorinae e continuaremos o estudo dos tabanídeos, seguindo a orientação indicada no segundo artigo.
Nota adicional ao gênero Diachlorus
Recebemos alguns exemplares de Diachlorus distinctus, colecionados pelo Dr. L. Travassos em Japuíba, perto de Angra dos Reis (estado do Rio de Janeiro). Mostravam algumas aberrações, sendo que, muitas vezes, o dorso do primeiro anel é escuro apenas na parte média (que corresponde às faixas laterais unidas anteriormente) e amarelo ou avermelhado nas partes laterais. O mesmo achei constantemente em seis exemplares que colecionei em São Bento, no interior do estado de Santa Catarina. Nestes, porém, o fêmur e a metade apical do par médio, em vez de amarelos, são distintamente pardos. Todos esses exemplares também são menores e as asas são mais amarelas na base e na costa. Podem ser considerados como variedade local e denominados D. distinctus, var. catarinensis.
O exame de numerosos exemplares, colecionados pelo Dr. Pedroso no Noroeste de São Paulo, confirmou observações anteriores; sobre a existência de formas, intermediárias entre os Diachlorus bimaculatus e flavitaenia, mas aproximando-se mais do último. No dorso do abdome, as partes laterais, de regra escuras nesta espécie, aparecem mais claras, deixando reconhecer manchas mais escuras (semelhantes às que aparecem no bimaculatus) sobre fundo claro. Posto que nessa região apareçam as duas formas típicas, determináveis à primeira vista, não considero essas formas como híbridas, supondo antes tratar-se de duas espécies que não acabaram de se separar completamente; conheço fatos análogos em outros gêneros.
1. Tabaninae Schistocerae
Tratarei em primeiro lugar das Tabaninae Schistocerae, começando com o gê-nero Acanthocera, estabelecido por Macquart. Como espécie típica deve ser considerada a longicornis, completamente diferente de todas as espécies do velho mundo. Esta foi colocada por Fabricius entre os Tabanus e por Wiedemann, embora com algumas dúvidas, entre as Haematopota. O grande número de espécies afins, que existe na América do Sul, prova claramente que se trata de um gênero indígena bem caracterizado.
A respeito deste gênero Schiner (L. 5) fez algumas considerações cuja tradução dou em seguida:
O gênero Acanthocera, estabelecido por Macquart nas Suites à
Buffon, não foi por ele delimitado bastante bem, para poder
distingui-lo seguramente de Dichelacera. Diz que o dente
antenal se acha na base do primeiro e segundo artículo, o que
é completamente falso, porque se acha (como em todas os
tabanídeos, onde existe) na base do terceiro artículo. Que não
se trata apenas de um erro de impressão resulta do fato que
Macquart, na sua chave de família (Diptères exotiques 1,90),
coloca o gênero Acanthocera entre os que são destituídos de
processo lateral no terceiro artículo antenal. Macquart não
conhecia espécie alguma de Acanthocera quando estabeleceu
o gênero, que por esta razão não podia definir corretamente.
Aproveitou apenas os dados de Wiedemann e a observação
deste, que a Haematopota longicornis não se adaptava bem ao
gênero Haematopota, para estabelecer, um pouco
precipitadamente, um novo grupo genérico. Isto resulta também
claramente de ter descrito uma espécie de Dichelacera, dando-
lhe casualmente o nome de Dichelacera longicornis (F. W.). O
caráter mais essencial, para distinguir os gêneros Dichelacera e
Acanthocera, é a estrutura das antenas. Estas em Acanthocera
são muito compridas e porretas, sendo o primeiro artículo
quase tão longo quanto o terceiro, e este dividido em anéis
aproximadamente iguais. Em Dichelacera o primeiro artículo
antenal, de fato, também é um tanto alongado, o que ao lado da
forma delgada do corpo é o único caráter seguro para separá-la
de Tabanus, mas sempre é consideravelmente mais curto do
que o terceiro que pela forma e a anulação parece ao dos
Tabanus com dente basal comprido. O gênero Acanthocera
pertence à divisão das Tabanidas, sendo mais afim de
Dichelacera que de Haematopota.
O caráter principal parece ter escapado a Schiner, a saber a semelhança com himenópteros indígenas, que influiu de tal modo sobre o aspecto, que resultou uma transformação, gradual, mas atingindo um alto grau, tanto nas antenas, como no abdome. Em cinco espécies, em conseqüência disso desapareceu do processo antenal. O estreitamento característico do abdome varia bastante e em duas chegou ao ponto de lembrar as vespas. Também a forma da fronte sofreu modificações.
O gênero Acanthocera, sem dúvida bem justificado, não aumentou em espécies depois dos tempos de Macquart, Walker e Schiner; tenho porém de ajuntar várias espécies novas e, por isso, parece acertado reunir os caracteres que são comuns às espécies por mim observadas:
Tabanídeos quase glabros, de tamanho médio ou pequeno e
relativamente estreitos, de aspecto geral bastante original,
lembrando mais ou menos as vespas e mostrando matizes
pretos ou pardos com pêlos dourados, dispostos no escudo em
estrias e no abdome em cintas. A face inferior, no meio, calosa
(glabra, convexa e luzidia), escavada em forma de goteira dos
lados; a calosidade frontal grande e larga, mas de forma
bastante variável, a fronte (nas fêmeas) assaz larga; não há
ocelos; olhos com três listras verdes, duas paralelas e
diagonais e uma seguindo a margem posterior. Antenas sempre
bastante compridas, mas variando na sua forma, com o
primeiro segmento mais ou menos alongado, estreito na base, o
terceiro comprido, pontudo ou claviforme, porém nunca curvado
para cima; o galho lateral pode faltar ou existir, mais ou menos
desenvolvido, mas sempre de forma bastante reta. Asas nunca
hialinas e raras vezes sem desenho, geralmente com faixas
escuras, formando, quando bem desenvolvidas, um triângulo
com os lados, mais ou menos paralelos às margens das asas;
muitas vezes são reduzidas a uma ou a duas. Tórax quase
glabro; o escudo, muitas vezes, com as duas estrias
longitudinais e duas faixas transversais muito curtas, nascendo
na raiz das asas; e cobertas com pêlos amarelos, como
também os há geralmente no escutelo. Abdome subcilíndrico,
arredondado no ápice, com achatamento dorsoventral e com
estreitamento, mais ou menos forte, na extremidade do
segundo anel; quando muito forte, o aspecto geral lembra muito
a aparência das vespas. O desenho consiste em faixas
transversais cor de ouro ou latão. Pernas de duas cores, mas
sem tipo especial, apenas as tíbias anteriores um tanto
curvadas. Os machos são geralmente desconhecidos. As
fêmeas são observadas durante o dia, quando atacam, de
preferência nas pernas, os cavalos de cujo sangue são ávidas;
confun-dem-se então com himenópteros que costumam, em
dias quentes, lamber o suor desses animais. Raras vezes
atacam também pessoas. Que podem também visitar flores fica
demonstrado pela tromba de uma fêmea de A. longicornis, mas
o fato parece excepcional, sendo completamente desconhecido
dos colecionadores de himenópteros. O gênero é
exclusivamente americano e representado especialmente nas
zonas mais quentes da América do Sul. Desse gênero conheço
cinco espécies descritas e seis novas. Entre elas há algumas
que divergem bastante do tipo mais comum; todavia as
afinidades prevalecem e não permitem dúvidas sobre a sua
posição. Com exceção do Tabanus sylveirii (que coloco entre as
Haplocerae, em novo gênero correspondente), não conheço
mutucas americanas que se possam confundir com espécies de
Acanthocera. Se os antigos autores as colocaram no gênero
Haematopota, não representado na América, foi apenas por
não achar outra colocação.
Passo agora à descrição das espécies:
No seu catálogo Kertész menciona as espécies seguintes: Acanthocera longicornis Fabr., exstincta Wied. e trigonifera Schin.; falta a coarctata Wied., que constitui uma boa espécie. A. marginalis Walk., outra espécie boa, é considerada erroneamente como sinônima de exstincta Wied.; cita também A. triangulares
Wied. como sinônima de longicornis de Fabr., o que já foi indicado pelo próprio Wiedemann.
Temos assim cinco espécies já conhecidas: A. longicornis F. , exstincta e coarctata Wied., marginalis Walker e trigonifera Schiner. Acrescem mais seis espécies novas, a saber: tenuicornis, nigricorpus, anacantha, intermedia, quinquecincta e cristalis.
As espécies podem ser facilmente reconhecidas pelas estampas ou determinadas pela chave seguinte:
Começo com a descrição das espécies já conhecidas, mencionando em primeiro lugar:
1. Acanthocera longicornis(FABR.)
(Sin. Tabanus longicornis – FABR. Ent. Syst. IV,371,38; Syst. Anti. 103, 45. Haemat. triangularis – WIED. Zool. Magaz. III. 44.6)
Tradução da descrição original de Wiedemann: (L. 8, 1, 123):
Delgada, preta, com linhas cor de latão; asas com a costa, uma
mancha semilunar e uma estria parda. Comprimento 6 linhas ♀.
Do Brasil.
Fabr. Ent. Syst. IV. 317.38 (Texto latim): Tabanus longicornis:
oculis maculatis, alis dimidiato fuscis: macula alba, antennis
longiribus.
Reliquis minor, antennae elongatae, cylindricae longitudine
thoracis, in medio unidentalae fuscae, basi pallescentes. Oculi
basi fusci, apice pallidiores arcu maculaque fuscis. Thorax
fuscus lineis dorsalibus flavis, quae tamen basin haud altingunt.
Scutellum flavescens. Abdomen cylindricum fuscum segmento
primo et secundo basi striga flava. Alae ad marginem
crassiorem fuscae macula magna, media triangulari, alba.
Raiz das antenas pardo-amarelada, artículo terminal preto, na
base com espinho comprido e curvado, face inferior branco-
amarelada, com calo preto triangular, cuja ponta é virada para
as antenas, e de cada lado com dois pontos pretos luzidios.
Palpos pardo-enegrecidos; fronte amarelada, imediatamente
por trás das antenas com calo preto quase quadrado, contendo
de cada lado um tubérculo arredondado, acima desta e da
estria que dele nasce um segundo calo, alongado, estendendo-
se até ao occipício, sendo dividido no meio por uma pequena
faixa branco-amarelada, interrompida. Escudo preto luzidio,
com duas linhas longitudinais, cor de latão; por diante e um
pouco acima da base das asas uma mancha de pêlos, cor de
latão, que emite uma estria da mesma cor obliquamente para
trás, abaixo da base da asa; escutelo com pêlos cor de latão.
Abdome preto, brilhante mas pouco carregado, as primeiras
três incisões amarelas, tanto no dorso como no ventre; na
margem lateral do primeiro segmento uma manchinha
transversal. Asas hialinas. Margem anterior pardo-amarelada e,
contínua com esta, uma grande mancha semilunar oblíqua, cuja
concavidade é virada para o ápice; da base corre uma estria
oblíqua, parda, porém amarela na base, até a extremidade
interior da mancha semilunar, com a qual conflui na última
nervura, de modo que as partes da asa incluem um triângulo
hialino. Pernas pardas, base das tíbias brancas, primeiro tarso
pardo amarelado. Na minha coleção.
Trata-se de uma espécie aberrante, tendo tantas afinidades com vários gêneros que se poderia ficar na dúvida, onde deve ser colocada. A forma e a estrutura da cabeça aproximam-se mais de Chrysops, mas faltam os ocelos. As antenas diferem de todas as espécies de Tabanus porque o terceiro artículo é fusiforme, achatado com 5 segmentos. Antenas do comprimento do tórax, o primeiro segmento cilíndrico ocupando 1/3 do comprimento total, o segundo pela metade mais curta quase ciatiforme. Nervuras das asas como em Haematopota.
Como já ficou dito nas observações de Schiner, acima reproduzidas, Macquart também descreveu esta espécie, mas não debaixo do nome Acanthocera, por ele criado. A sua descrição de Dichelacera longicornis é acompanhada de uma figura, que não deixa dúvidas sobre a identidade, dispensando-se assim a reprodução da descrição. Macquart salientou as diferenças consideráveis que apresenta com as outras espécies de Dichelacera.
A espécie é citada também por Schiner e por Miss Ricardo, que menciona dois exemplares procedentes do Brasil e guardados no British Museum.
Deixo de entrar na descrição da espécie, referindo o leitor à estampa que vai junto.
A. longicornis não é rara no litoral do Rio de Janeiro, acompanhando a costa até Santa Catarina. Em Minas e Espírito Santo, foi encontrada também, mesmo bastante distante da costa, em lugares mais elevados, como São Paulo do Muriaé (Dr. Braune leg.) e Mar de Espanha (Zikán leg.). Aparece pelo menos de outubro até janeiro. O macho não é conhecido.
2. Achantocera exstincta (WIED.) (Syn. Haematopota exstincta WIED.)
Tradução da descrição original (L. 8, v.1, 214):
Preta: escudo com linhas douradas, abdome com cintas da
mesma cor, asas pardacentas nas costas. – 4 1/2 linhas ♀. –
De Montevidéu ao Brasil. Afim da última espécie, porém menos
delgada; terceiro artículo antenal um tanto mais curto, apenas
com espinho muito diminuto na base. Nas asas apenas a base
ínfima, uma tarja larga na costa e a margem da nervura
penúltima pardacentas. Pelo resto tudo tal qual a última
espécie, sendo todavia todas as incisuras amarelas. – Na
minha coleção e no museu de Berlim.
A estampa é tirada de um exemplar proveniente do Rio da Prata; não sei se atualmente existe em território brasileiro. A espécie parece bastante rara.
3. Acanthocera coarctata (WIED.) (Syn. Haematopota coarctata WIED.)
Tradução da descrição original (L S,1p.578):
Preta, com abdome estreitado na base e mostrando uma cinta
castanha com margens brancas e asas pardacentas nas
costas. – 5 1/2 linhas ♀. – Do Brasil.
Pertence à categoria que contém a Haem. longicornis e
exstincta e me inclino quase a pensar que seja o outro sexo de
exstincta, porque também o ápice do abdome se distingue dos
dois exemplares de exstincta e de três exemplares de
longicornis na minha coleção, por diminuir rapidamente em
largura, quando os cinco, todos, têm a extremidade do abdome
quase sem estreitamento e tampouco uma parte mais estreita
na base.
Antenas compridas, como em longicornis, mas o dente na base
do terceiro artículo mais curto e por isso mais parecido com o
da exstincta: a cor do artículo basal pardacenta, o seguinte
mais enegrecido, o terceiro preto. Face inferior muito luzidia,
palpos pardacentos pretos com pouco brilho, fronte pardacenta
preta. O escudo, muito pelado, pardacento preto, com os cantos
mais ou menos pardo-avermelhados: que houve linhas ou
estrias é claro, e dos pelinhos amarelos, que persistem na
margem do escutelo, pode-se concluir que foram de cor
amarela. O primeiro anel do abdome é um tanto brilhante e de
cor pardacenta, com estreita tarja branca na margem posterior
e, adiante desta, em largura pouco maior, preta escura;
segundo segmento da mesma cor, apenas com a diferença que
aqui a faixa branca estreita também passa a face ventral,
formando uma espécie de cinta; os cinco segmentos seguintes
pardacentos pretos, sem desenho algum, com pêlos muito finos
e curtos, esbranquiçados ou amarelados, que só aparecem com
uma certa incidência da luz. Abdome total um tanto claviforme.
Asas amareladas, largamente castanhas na costa. Halteres
pardos com capítulo amarelo. Fêmures pretos: os de diante
mais ou menos pardos; tíbias pretas: pés amarelados, ambos
com pelinhos brancos, muito curtos, de modo que vistos em
certa direção parecem completamente brancos, especialmente
os pés; joelhos castanho-amarelos e o extremo ápice dos pés
castanho; os quadris de frente alongados. – Na coleção de
Westermann.
A descrição de Wiedemann e a estampa bastam para fazer reconhecer a espécie que, durante o verão, não é muito rara nas montanhas do Rio de Janeiro e de São Paulo até uma altura de 1.200 metros, ao menos. A semelhança dessa espécie com certas vespas é muito acusada.
4. Acanthocera marginalis WALKER (L.6, V, p.268)
Tradução da descrição original:
Fêmea. Pícea. Cabeça na frente com calo triangular e outro,
maior e quase redondo, abaixo das antenas. Antenas do
comprimento do tórax, testáceas na base; terceiro artículo com
chifre bastante comprido; os segmentos distais de comprimento
quase igual e mais curtos do que o terceiro. Tórax com duas
estrias dorsais paralelas, estreitas, de amarelo dourado e de
cada lado com mancha da mesma cor. Escutelo amarelo
dourado. Primeiro, segundo e terceiro segmentos abdominais
com margem posterior de amarelo dourado. Pernas píceas;
tíbias e tarsos brancos em direção à base; as do meio
totalmente brancas. Asas hialinas, pardas na margem anterior,
e com estria parda entre as nervuras subanal e anal em direção
ao ápice; primeiro galho da nervura cubital simples, formando
perto da base um ângulo bem acusado, um tanto obtuso;
nervura subanal e anal unindo-se perto da margem.
Comprimento do corpo 4 linhas; das asas, 8 linhas. a. Pará. Da
coleção do Sr. Bates.
Sobre a mesma espécie escreve Miss G. Ricardo (L 3, Ser. 7, v.14, p.363):
Acanthocera marginalis, ♂♀, Walker.
Uma fêmea (tipo) de Pará, Brasil (Col. Bates), 51, 147; um
macho do Rio Amazonas Brasil (Bates Col.), 66, 53; uma fêmea
da mesma localidade (Saunders Col.), 73, 34; uma fêmea, Ega,
Rio Amazonas (Bates Col.), 66, 53.
Espécie castanha, com estrias no tórax e cintas no abdome de
amarelo dourado, as asas quase claras e sem faixa escura
atravessando o meio da asa. Face castanha, abaixo das
antenas castanha brilhante, dos lados preta com tomento
esbranquiçado, a fronte castanha, o calo frontal acima das
antenas triangular com a ponta virada para o vértice, duas
estrias cinzentas, partindo dos lados do triângulo encontra-se
no ápice. Antenas mais longas do que o tórax; os dois primeiros
artículos amarelos com pubescência preta, o primeiro comprido,
o segundo apenas da metade do comprimento daquele,
cilíndrico, o terceiro quase três vezes mais longo do que o
primeiro, com a base ruiva e depois castanha, de grossura
igual, com exceção da base ínfima onde começa o dente,
sendo um tanto mais grossa, e do ápice, que se torna mais fino;
o dente comprido alcança o segundo anel, sendo os últimos
quatro anéis todos de comprimento igual e, no conjunto, mais
longos do que o primeiro. Tórax castanho preto, duas estrias
amarelas e uma mancha amarela lateral, formada de
pubescência amarela; o peito da mesma cor com uma estria
amarela, continuada da mancha, com tomento e pêlos
cinzentos; escutelo amarelo. Abdome castanho avermelhado,
nos outros exemplares enegrecido, com cintas amarelas
pubescentes na margem posterior dos dois primeiros
segmentos e uma cinta pubescente branca no terceiro; a cinta
branca falta em dois exemplares, sendo amarela no terceiro; a
pubescência no dorso preta, alguns pêlos brancos nos
segmentos anteriores, o lado ventral com duas cintas brancas.
Pernas castanhas, a base das tíbias anteriores e posteriores, as
do meio inteiras e o primeiro artículo tarsal de todas brancos,
em alguns exemplares as tíbias do meio são inteiramente
castanhas ou apenas brancas na base. Asas com a margem
anterior até o ápice, a base ínfima e o ápice da célula anal
pardos.
Comprimento 10mm.
A espécie parece muito espalhada no território do Amazonas, mas antes escassa. Entre o meu material abundante, procedente dessa zona, só existe desta espécie uma fêmea pouco bonita que apanhei em um cavalo em Peixe-boi, entre Belém e Bragança, sendo representada na estampa. Em todo o território não se conhece outra espécie de Acanthocera.
É singular que Miss Ricardo mencione o macho sem descrição de qualquer Acanthocera desse sexo. Verifiquei que apresenta apenas as diferenças habituais, principalmente a confluência dos olhos.
5. Acanthocera trigonifera SCHINER (L. 5, p.95)
Tradução da descrição original:
Magnífica espécie nova. Castanho-preta; escudo com duas
estrias longitudinais, amarelas estreitas e afastadas, e uma
mancha da mesma cor adiante da base de cada asa; pleuras
com manchas amarelas; escutelo pardo-ferruginoso. Abdome
pardo-mate, o primeiro e o segundo anel, cada um com
triângulo preto aveludado, tarjado de amarelo dourado, cuja
base larga abraça toda a largura do anel, enquanto o ápice, no
primeiro anel, alcança a margem anterior, ficando muito aquém
no segundo anel; ventre com duas cintas branco-amareladas, a
primeira ocupando a margem anterior e posterior dos anéis, a
segunda mais estreita na margem posterior do segundo anel.
Cabeça preta, a face inferior regularmente abaulada, muito
brilhante nas margens oculares e, dos lados, com brilho
esbranquiçado; fronte branco-cinzenta, com calo preto
brilhante, continuado até o vértice por linha elevada; antenas
amarelas na base, depois castanhas, o primeiro artículo quase
quatro vezes mais longo do que o segundo; o terceiro assaz
mais comprido do que o primeiro, em cima com prolongamento
basal muito pontudo, alcançando o meio do artículo; palpos do
comprimento da tromba, estreitos e um tanto curvos,
ferruginoso-pardacentos; a tromba de comprimento médio.
Pernas pardo-amareladas, tíbias anteriores apenas na base
extrema, as médias em toda a extensão, as posteriores na
metade basal, brancas. Asas pardo-enegrecidas com mancha
triangular hialina no meio, ocupando precisamente as células
basais e com margem hialina muito estreita, mais estreitada
ainda na região da célula anal. Halteres pardo-enegrecidos. 5'.
Três fêmeas da América do Sul.
A espécie é facilmente reconhecida. A estampa mostra um exemplar proveniente da Venezuela, que parece a pátria de quase todas as espécies que Schiner designou como “Da América meridional”.
6. Acanthocera tenuicornis n. sp.
Comprimento 13-14mm. Cor geral parda até preta. Asas, na maior parte, pardacentas.
Probóscide preta; palpos compridos e estreitos, de cor castanha escura, mate; antenas com artículos basais e o dente do último de cor pardo-amarelada, resto de cor castanha; o dente do último artículo é fino, quase reto e não atinge o ápice do segmento basal; os outros quatro segmentos são pouco grossos e diminuem gradualmente; todo o artículo muito curto. A face é formada por uma calosidade brilhante, de cor castanha avermelhada, aos lados da qual há uma depressão bastante profunda; o resto é castanho, mais mate e escuro, com um pouco de pó amarelo nas margens dos olhos e entre as antenas e o calo frontal; este é quadrangular, mais largo do que alto, castanho avermelhado, prolongando-se numa ponta em forma de crista. A fronte, bastante larga entre os olhos, estreita-se um pouco em direção do occipício e mostra pó amarelo sobre fundo preto. Olhos pretos com as três faixas verdes, típicas do gênero. Occipício coberto de pó cinzento, tornando-se amarelo nas margens oculares; barba cor de ouro.
Tórax castanho, em cima com duas estrias longitudinais, submedianas, apagando-se na metade posterior; há nele pêlos dourados escassos e outros, mais abundantes, adiante e embaixo da raiz das asas e na parte anterior da face inferior.
Abdome castanho-avermelhado, enegrecido nos últimos segmentos, estreitando-se no ápice do segundo anel; os três primeiros segmentos com distintas faixas apicais de pêlos curtos, dourados; mais por trás existem também pêlos dourados, curtos, mas bastante afastados entre si, tornando-se todavia um pouco mais abundantes nas margens posteriores dos segmentos; embaixo a margem posterior do segundo e terceiro segmentos e a margem lateral do primeiro com faixas branco-amareladas.
Asas hialinas, com a costa e a margem anterior pardo-amarelada; uma faixa em forma de crescente estende-se do ápice até a ponta da célula anal, sendo quase interrompida quando passa na discoidal; a segunda célula basal hialina; a discoidal e a célula apical, em parte, e a margem côncava da faixa em crescente também são hialinas; a célula anal, amarelada na base, torna-se preta onde conflui com a faixa; a célula axilar é ligeiramente enfuscada; o resto da margem posterior é ocupada por uma mancha parda.
Pernas em geral de cor castanha, ora mais amarelada, ora enegrecida; as tíbias anteriores quase completamente brancas, as últimas pelo menos na metade basal. Escâmulas enegrecidas, com margem quase preta. Balancins com pedúnculo e face terminal do capítulo amarelados, o resto castanho.
A espécie foi encontrada, com bastante freqüência, na serra de Cubatão, durante o verão, ficando porém o macho desconhecido. Existe também na serra da Mantiqueira (Pacau) onde foi encontrada em fevereiro.
7. Acanthocera nigrocorpus n. sp.
Comprimento 15mm. – O corpo inteiro preto, apenas com subpubescência esbranquiçada nas tíbias anteriores e na parte basal do terceiro par.
A calosidade facial e a parietal são castanho-avermelhadas, o procalo e a fronte têm um brilho esbranquiçado, como também duas estrias longitudinais submedianas na parte anterior do escudo; os palpos, as margens do escudo e o segundo segmento abdominal têm um pouco de vermelho misturado com o preto, como também as margens posteriores dos segmentos abdominais são mais claras do que o resto, apresentando, principalmente no lado inferior, um brilho branco, produzido por pêlos finos e brancos, ocupando um fundo mais claro do que o resto.
Asas amareladas, as nervuras subcostal e anal ferrugíneas, as outras de um amarelo mais ou menos enegrecido; uma pequena mancha escura na embocadura do ramo principal da célula forquilhada; escâmulas castanho-escuras com margens quase pretas; balancins castanho-claros.
Pelo resto a espécie segue os caracteres do gênero; há um ligeiro estreitamento entre o segundo e o terceiro anel abdominal.
Descrito de um só exemplar feminino, desenhado em perfeito estado, mas hoje um pouco defeituoso. Acredito que provém de Joinville em Santa Catarina, tendo sido mandado pelo Sr. Schmalz.
8. Acanthocera anacantha LUTZ & NEIVA
Comprimento total cerca de 12mm. Cor geral preta; asas com a margem costal enegrecida.
Antenas de quase 4mm de comprimento, artículo basal fino e bastante comprido, segundo menos da metade do primeiro, porém um pouco mais grosso, terceiro maior e mais grosso do que os dois primeiros juntos, com segmentos, sendo o primeiro mais comprido e os três do meio mais curtos do que o terminal; não há vestígio de dente no último artículo; a cor das antenas é castanha, quase preta no último e quase clara na base do primeiro artículo. Palpos cor de piche escura. Face lisa e brilhante, fronte preto-mate, com calosidade transversal elíptica; olhos escuros com zonas verdes típicas.
Tórax preto-mate; escutelo um pouco lustroso, saliente.
Abdome: O primeiro anel é chanfrado e quase dividido na linha média, formando dos dois lados uma espécie de válvula que cobre a parte ventral, inteiramente preta; o resto do anel tem o bordo posterior e exterior largamente dourado, com uma zona preta premarginal; segundo anel com o bordo posterior com tarja amarela apical e zona preapical preto-escura; abdome preto-mate, mostrando uma constrição no bordo posterior do segundo anel; assim a parte anterior torna-se cônica, sendo a parte posterior apenas subcônica e distintamente achatada no sentido dorsoventral (principalmente na porção apical) e com convexidade superior bastante pronunciada. Base do terceiro anel glabra, preto-escura, o resto do fundo preto-mate com pelinhos amarelos.
Pernas de cor geral preta; os tarsos e os joelhos castanho-claros, as tíbias e as coxas com pubescência prateada e dourada.
Asas transparentes, o bordo anterior distintamente enfuscado, mas com o centro das células mais claro; estigma e pedúnculo da nervura forqueada mais escuros; células basais e anal ligeiramente enfuscadas, tendo a primeira basal os dois terços da mesma cor escura, como o bordo anterior; escâmulas escuras, com bordo claro; balancins com pedúnculo branco-amarelado e capítulo escuro.
Todo o inseto apresenta do modo mais perfeito a semelhança com certos himenópteros, a qual, embora geralmente em grau menor, constitui um caráter de todo esse gênero; assemelha-se bastante com a A. coarctata Wied., da qual se distingue facilmente pela ausência completa do dente antenal.
Descrito de muitos exemplares fêmeos apanhados nas margens do Rio Tietê, desde o salto de Avanhandava até a confluência com o Paraná onde é encontrada também na margem oposta, em território de Mato Grosso. Esta espécie é subcrepuscular e ataca também o homem.
9. Acanthocera intermedia n. sp.
A espécie, figurada na Estampa 1, ocupa um lugar intermediário entre a última e A. coarctata. Escudo, dorso do abdome e extensão da tarja preta da margem anterior correspondem completamente ao que se observa na Acanthocera coarctata, como também a cor do fundo. As antenas não mostram, entretanto, vestígio de dente e combinam completamente com as da Acanthocera anacantha, da qual se aproxima também pelo habitat. Por estes dados a espécie poderá ser reconhecida facilmente.
Duas fêmeas assaz bem conservadas desta espécie foram colecionadas em Goiás pelo Dr. Arthur Neiva. Da Anacantha se distinguem à primeira vista pelas estrias longitudinais douradas do escudo, da coarctata, apenas pela falta do dente antenal. O escutelo é cor de ouro, a menos de ser raspado.
Se quisesse considerar estes exemplares apenas como variedade, só poderiam ser subordinados à espécie coarctata. Mas aqui é preciso notar que essa espécie absolutamente não costuma mostrar variedades no desenvolvimento do dente antenal.
10. Acanthocera quinquecincta n. sp.
Comprimento sem as antenas cerca de 1cm; margem anterior da asa e célula anal pardacentas.
Tromba preta, palpos pardos. Face preta brilhante, calosa, com induto granuloso amarelo nas partes deprimidas.
Antenas porretas, um tanto claviformes; o primeiro artículo bastante comprido, o segundo mais curto, o terminal mais longo do que os dois outros reunidos.
Fronte mais larga adiante, em parte com induto amarelo e com calo transversal elíptico. Os olhos, depois de amolecidos, mostravam o desenho representado na figura.
Tórax pardacento ou preto de piche, o escudo mais preto, com estrias longitudinais indistintas e prescutelo bem aparente. Abdome enegrecido, as bordas posteriores largamente douradas formam nos segmentos 1 e 4-7 cinco cintas; margem posterior dos segmentos 2 e 3 um pouco amareladas, mas sem cintas.
Pernas de cor parda, ora mais clara, ora mais escura; os pés do meio e os posteriores assaz claros, cor de café com leite.
Asas bastante hialinas, bastante enfuscadas na raiz e numa borda larga da margem anterior, menos na célula anal; a célula axilar mui ligeiramente.
Escâmulas pardas com margens mais claras; halteres pardos.
Desta espécie existem duas fêmeas bastante defeituosas, procedentes do noroeste do estado de São Paulo ou da parte vizinha, do estado de Mato Grosso. A semelhança geral com pequenos himenópteros é muito acentuada, mas varia em grau nas diferentes partes do corpo.
11. Acanthocera cristalis n. sp.
Comprimento, sem as antenas, cerca de 11mm; asas com a base, a margem anterior e a célula anal passando do amarelo ao pardo. Tromba enegrecida, curta; palpos castanhos, artículo basal, na maior parte, preto, terminal com pêlos amarelos, curvado para baixo em forma de foice.
Antenas em forma de clava, com base fina e porção terminal subcônica, obliquamente porretas; artículo basal bastante comprido, segundo com apenas o terço do comprimento, terminal mais comprido que os dois reunidos, sem dente, porém com pequena saliência na base do primeiro segmento. Face preta, luzidia, calosa, com pêlos amarelos muito finos, curtos e espaçados e induto granuloso amarelo entre os calos. Fronte mais larga adiante, com fundo preto, em parte coberta de induto amarelo, o calo em forma de elipse transversal. Olhos com pêlos curtos e desenho aparecendo como se vê na estampa. Occipício enegrecido, tarjado de pelinhos amarelos.
Tórax fuliginoso com pelinhos amarelos espaçados, formando porém alguns feixes dourados nos ombros, por diante e abaixo da raiz das asas. Escudo mais brilhante do que o resto.
Abdome preto de grafite, com ligeiro brilho azulado e muitos pêlos microscópicos e espaçados de cor amarela; estes acumulam-se na margem posterior de alguns segmentos, formando tarjas douradas. No primeiro segmento a tarja é estreita, no segundo larga, mas nos dois acompanhada do lado basal por outra tarja escura; a tarja falta no terceiro, sendo nos segmentos 4-7 pouco larga, mas distinta e de amarelo carregado.
No ventre todos os segmentos com exceção do primeiro têm uma cinta apical dourada, pouco larga. O abdome, achatado, em sentido dorsoventral é horizontal, até o fim do quarto anel, aumentando em largura, mas tornando-se menos grosso; o resto é achatado, curvado para baixo e com a extremidade arredondada.
Pernas castanhas; os fêmures com pêlos curtos e claros, tíbias anteriores ligeiramente curvas, as outras células da margem anterior e a primeira basal de pardo mais ou menos diluído; as nervuras longitudinais parcialmente tarjadas de pardo. Célula anal com tarja amarela na base, tornando-se parda em direção do ápice. Resto da asa cinzento muito diluído, célula discoidal hialina, como também uma parte da anal. Escâmulas pequenas pardas com margem clara. Halteres pardos.
Uma fêmea bem conservada dessa espécie foi apanhada pelo Dr. Pinto Guedes em Santa Catarina. Parece-se muito com as espécies indígenas de Eristalis que imitam himenópteros.
Aditamento
Muito tempo depois de acabar essas descrições, encontrei em uma coleção de mutucas, feita pelo Dr. Pedroso no Noroeste de São Paulo e que já foi mencionada a respeito do gênero Diachlorus, uma fêmea de Acanthocera que lembra outra de Sabauna determinada como coarctata. Em ambas o segundo anel abdominal é translúcido, amarelo-córneo, menos a zona apical muito escura; o primeiro é amarelo acinzentado com margem posterior escura. No exemplar do Noroeste as antenas se parecem com as de anacantha; há, porém, no lugar do dente um tubérculo muito miúdo; no de Sabauna tem um dente, porém muito pequeno. Sendo coarctata espécie das serras costeiras e faltando seguramente no Noroeste, a hipótese de hibridismo pode ser excluída; também seria precipitado fundar nova espécie sobre um ou outro dos exemplares. É mais provável tratar-se nos dois casos de aberrações; também não se pode estranhar a existência de formas intermediárias, considerando o grande número de espécies muito vizinhas.
O gênero Dichelacera foi estabelecido por Macquart, especialmente para as mutucas do grupo T. cervicornis, damicornis e T. nigrum. Posto que a definição do gênero seja defeituosa, a separação está justificada, devendo figurar D. cervicornis como tipo do gênero. Felizmente, esta espécie apresenta bastante bem os caracteres típicos do grupo que consistem no desenho dos olhos e das asas e na forma do artículo terminal das antenas; o alongamento do primeiro artículo, ao qual uns autores ligam tanta importância, me parece bastante insignificante.
Macquart exclui com razão do gênero Dichelacera várias espécies com dente lateral nas antenas, o que mostra habilidade para reconhecer as relações de parentesco. Só mais tarde incluiu a Acanthocera longicornis; era este um erro que acha alguma justificação no fato de se tratar de gêneros afins. Tanto ele, como outros autores posteriores, não souberam classificar as numerosas Schistocerae, por não perceberem nos exemplares secos o critério mais importante (que é o desenho dos olhos) e por isso incluíram-nas, de modo bastante arbitrário, ora em Tabanus, ora em Dichelacera. Assim, das espécies enumeradas no Catálogo de Kertész, só pouco mais de um terço pertence verdadeiramente ao gênero Dichelacera e entre estas há muitos sinônimos.
Schiner parece ter aceitado o gênero Dichelacera no sentido atual, mas não dispunha de bastante material; a grande extensão desse gênero parece ter escapado também a Osten-Sacken. O mesmo se pode dizer de Williston que continuou a obra de Osten-Sacken na Biologia Centrali-Americana, descrevendo uma espécie nova.
Tratando da coleção do British Museum Miss Ricardo fez algumas observações acertadas sobre esse gênero, mas conhecia apenas a menor parte das espécies já descritas; mais tarde, muitas outras, então desconhecidas, resultaram da investigação de novas zonas do Brasil.
Uma determinação exata das espécies desse gênero é muito difícil e, só por meio de estudos extensos, pode ser feita de modo aproximativo. Existe indubitavelmente certa variabilidade, posto que o maior número de espécies possa ser bem delimitado por um estudo exato; assim mesmo se pode, às vezes, estar na dúvida, se dada forma representa nova espécie ou apenas variedade local.
Baseado no meu grande material dou em seguida uma definição do
Gênero Dichelacera
Tabaninas, geralmente bastante estreitas, de comprimento médio ou pequeno. O fundo escuro do olho aparece numa faixa média diagonal, tendo de cada lado uma zona verde, geralmente estreita, porém excepcionalmente alargada de modo a alcançar a margem do olho, quase completamente. Triângulo ocelar distinto. Face muitas vezes calosa. Calo frontal bastante, às vezes muito largo, podendo então a fronte alargar-se na parte anterior. Antenas com artículo terminal curvo e tendo na base um galho lateral, geralmente bastante comprido e curvo, podendo ser excepcionalmente reduzido a um pequeno espinho. Palpos com artículo terminal estreito. Corpo variado por faixas longitudinais e transversais, apresentando muitas vezes no dorso do abdome triângulos em disposições variáveis. Pernas geralmente bicolores, sem particularidades morfológicas. Asas hialinas ou amareladas, com uma ou mais faixas irregulares, às vezes fenestradas ou dissolvidas em manchas menores. Esses desenhos são pardos mais ou menos enegrecidos, os do corpo apresentam tons amarelos e pardos, raras vezes esbranquiçados ou enegrecidos. O gênero contém grande número de espécies, espalhadas pela América Central e Meridional que, não obstante sua grande variabilidade, têm certo tipo característico que não permite dúvidas sobre a sua colocação. A combinação de antenas com galho lateral, olhos com faixas verdes e asas com faixas irregulares e escuras é característica e constante, posto que o último e o primeiro caráter nem sempre sejam bem acusados. Como nas outras Schistocera a primeira célula da margem posterior é aberta, não havendo apêndice, senão excepcionalmente.
As fêmeas de todas as espécies sugam sangue, os machos são encontrados casualmente, principalmente nas janelas. Os primeiros estados não são conhecidos. – Nos machos a metade superior do olho, munida de grande número de facetas, é unicolor, geralmente de cinzento um tanto metálico, e, nesta extensão, como geralmente nas Tabaninae, o desenho da fêmea não aparece.
O desenho das asas é composto de três elementos, podendo faltar em parte. O primeiro é uma faixa costal que não alcança o ápice, o segundo uma faixa preapical oblíqua; há finalmente uma faixa, partindo da célula anal, freqüentemente reduzida em extensão variável. Assim falamos de faixa costal, preapical e anal. A faixa preapical pode ser formada de duas partes com os eixos um tanto deslocados, chamando-se então dividida; quando manda para a margem da asa um prolongamento, sobre o ramo anterior da nervura forqueada ou a margem anterior desta, chamar-se-á “em forma de T”. A parte de cima, geralmente, é um tanto defletida em direção do ápice, podendo alcançá-lo. Se as faixas preapicais ou anais se alargam até a margem, podem ser chamadas marginais.
Das espécies citadas por Wiedemann as seguintes entram indubitavelmente no gênero Dichelacera: cervicornis, alcicornis, damicornis, T. nigrum, varians e januarii. As descrições totalmente insuficientes de Fabricius foram completadas por Wiedemann. Destas espécies alcicornis é característica e de identificação fácil, cervicornis e januarii não são muito distintas, podendo talvez ser consideradas variedades. O habitáculo indicado para damicornis e T. nigrum, ambas caracterizadas por calo facial, é a América do Sul; entre as quatro espécies da minha coleção que têm calo facial, nenhuma corresponde bem a T. nigrum, ficando assim duvidoso se procedem do Brasil. É verdade que Miss Ricardo acredita tê-la reconhecido em dois exemplares procedentes de Santarém e um deles (que tive ensejo de ver) me parecia corresponder bastante à descrição; todavia não me parece impossível tratar-se apenas de espécie vizinha. Quanto a damicornis a descrição combina com um exemplar da Amazônia (Pará) cuja figura acompanha este estudo, concordando com o habitáculo indicado por Miss Ricardo. Pequenas divergências podem resultar do fato de que os originais não tenham provindo da mesma região. Também acredito possuir a varia em exemplares bastante numerosos, procedentes do Ceará.